Quimera
2 Capítulo 1
Notas iniciais
"A casa estava tão silenciosa que até o menor ruído se tornava um barulho grotesco. Desde o tremular das cortinas com o vento até o sangue escorrendo pelo rejunte dos azulejos de cerâmica, tudo podia ser ouvido com a mesma nitidez de um estouro de canhão, pelo menos era essa a sensação que o pequeno garoto tinha, ajoelhado na frente do corpo desfalecido, ensangüentado, seus olhos dilatados o observavam hipnotizados pelo vermelho vivo, este estava em toda parte, em seu rosto, suas roupas, suas mãos, estava no chão, no tapete, nas cortinas, nas paredes, o maldito vermelho estava em tudo! E de repente, a compreensão lhe assolou, o homem a quem pertencia aquele sangue estava ... morto."
A primeira coisa que Ruki viu ao acordar foi o teto branco, acinzentado pela escuridão do quarto, piscou algumas vezes ainda se sentindo sonolento, virando-se para o lado na intenção de continuar a dormir, mas sabia que não conseguiria, ficou agarrado aos lençóis mais um tempo, até juntar coragem para se levantar. A manhã estava fria mesmo sendo primavera, foi nas pontas dos pés ate o banheiro, onde lembrava ter deixado as pantufas, aproveitando para fazer sua higiene matinal. Se arrastou até a cozinha, seu cérebro só começava a funcionar depois de um bom desjejum e fumo, antes disso se sentia morto. Após prepará-lo sentou-se na mesa, ouvindo o som de uma reportagem que passava na TV, não se lembrava de te-la ligado, e não havia.
" Uma mulher de 20 anos foi dada como desaparecida nesta manhã de sexta-feira às 7:45, pelo que os parentes e amigos indicam , a jovem Matsura Yumi saiu para trabalhar no dia anterior e não voltou mais, a policia já começou a investigação ,todavia não há muitas pistas sobre o seu desaparecimento..."
-Trágico...- falou, em um tom claramente desinteressado, tomando um galé de chá, já que odiava café. A fala da repórter foi interrompida por um "clic", seguido de vários outros repetitivos, os programas passavam rapidamente pela tela, a pessoa que mudava os canais não estava interessada em assisti-los.
- Quer se decidir logo Kyo?- falou entre um gole de chá e uma mordida na torrada, com a mesma voz desinteressada de antes.
- Cale a boca e tome logo essa porra de café- seus olhos fitavam a TV com desprezo, não que a odiasse em particular, apenas desprezava tudo que fosse de origem humana.
- Educado como sempre- se levantou, deixando o prato e xícara na pia, que já estava com louça acumulada, rumando ao quarto para se trocar sem esperar uma resposta do outro.
- Não demore donzela- virou o rosto em sua direção a tempo de ver Ruki mostrar o dedo do meio para si antes de entrar no quarto, riu- depois eu que sou o mal educado.
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Vasculhava seu guarda-roupa a procura de algo que coincidisse com o clima lá fora, não demorando muito a se decidir, após se trocar foi fazer o cabelo e então a maquiagem, só então percebendo que estava com uma marca roxa logo abaixo do queixo.
- Kuso, eu disse pra ele não deixar marcas. — reclamou, sem estar realmente chateado por isso, com a maquiagem pronta pegou suas coisas, saindo do apartamento com um cigarro pendurado nos lábios, sua dose de nicotina matinal.
Kyo lhe esperava na frente do prédio onde morava também com um cigarro nos lábios, ficou ao seu lado fumando em silencio já que não podia fumar dentro do taxi, para o moreno ao seu lado isso não era problema, afinal ninguém podia vê-lo nem escutá-lo além de si.
Por quê?
Simples, ele era um demônio. Não aqueles diabinhos vermelhos com garfinhos e rabinhos como nos desenhos animados — mesmo que se assemelhasse muito a um em sua opinião- Kyo estava mais para um punk, com uma cara assustadora cheia de pircings, roupas extravagantes feitas de couro e o cabelo arrepiado, era praticamente da sua altura e aparentava ter mais ou menos 25 anos, porém aquela era sua forma humana, Ruki não queria nem imaginar como era sua forma original.
Jogou o toco do cigarro no chão, apagando com pé assim que avistou um taxi, deu sinal para o carro, mas este não parou passando reto pelos dois, bufou indignado, aquilo sempre acontecia, os taxis sempre o ignoravam. Talvez por seu visual tão extravagante quanto do demônio ao seu lado- cabelos descoloridos; maquiagem; pircings e roupas "estilosas"- mas o que podia fazer se era vocalista justamente de uma banda visual kei?
Outro taxi se aproximou e Ruki tentou fazer sinal, mas foi novamente ignorado, quando o carro estava passando por ambos Kyo obrigou-o a parar, segurando-o pelo parachoque, o carro deu um solavanco e o motorista soltou um alto palavrão de susto tentando acelerar inutilmente, alguma força desconhecida imobilizava o automóvel e tudo que pode fazer foi ceder. Ruki entrou no carro, logo indicando o endereço e se acomodando no banco de passageiros, ouviu o motorista resmungar um pouco antes de voltar a dirigir, agora para o destino indicado. Até que não era tão ruim ter um demônio te seguindo para todos os lados, às vezes.
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— Ohayou — cumprimentou assim que entrou no estúdio, jogando suas coisas em cima do sofá onde Aoi e Uruha afinavam suas guitarras.
- Ohayou- responderam em uníssono.
— E ai, problemas com o taxi de novo? — Aoi perguntou debochado, terminando de afinar seu instrumento.
- Hai, não sei o que taxistas têm contra mim- reclamou enquanto arrumava o microfone no pedestal.
- Não sei por que você não deixa eu te dar uma carona até aqui, sabe que não me importo.
- É, mas eu me importo, você e o Uruha vêm juntos e é um saco ver vocês discutirem e depois se agarrarem logo de manhã. — terminou a frase com um bico, ouvindo uma alta gargalhada de Aoi e um resmungo baixo de Uruha, envergonhado.
- Mas onde esta o *Reiki-san? Pensei que ele viria com você- Kai se pronunciou pela primeira vez desde que havia chegado, o líder da banda parecia bem estressado e não era pra menos, já era a quinta vez consecutiva que o baixista chegava atrasado, isso se chegasse, claro.
- E o que te faz pensar que ele viria comigo?- questionou curioso.
- Bem, vocês são meio próximos, apenas deduzi. — deu de ombros, mexendo no celular a procura do numero do baixista desleixado.
- Sou tão próximo dele quanto desse daqui- apontou para Aoi.
- Ei! Isso magoou, pensei que fossemos amigos Ru-chan.- exclamou o guitarrista com um bico manhoso nos lábios, se fazendo de indignado.
- Ru-chan é a sua avó- respondeu azedo, pegando seu caderno de musica na mochila, iria aproveitar a espera para acabar uma das composições do novo single.
- Não minha vó se chama Keik- foi interrompido por Uruha, que tampou sua boca com a mão.
- Chega né Aoi, já entendemos. — seu tom quase irritado fez o moreno que ia reclamar por ser interrompido se calar, não gostava de ver o namorado bravo, principalmente consigo, apesar de discutirem constantemente por causa de suas personalidades opostas.
- Reiki-san disse que já está vindo, parece que ficou até tarde tocando e perdeu a hora, de novo.- Kai anunciou em um suspiro, assim que terminou a ligação.
- Duvido muito — falou Ruki distraidamente, enquanto escrevia, e todos na sala irredutivelmente tiveram que concordar.
Todos sabiam que o baixista gostava de uma boa farra e vivia pelos bares e boates da vida, isso nunca causou problemas para banda, e tirando a questão do atraso ele fazia seu trabalho direito, além de ser uma boa pessoa, então não tinham muito do que reclamar.
- Bem, enquanto ele não chega vamos ensaiar, Ruki-san sabe tocar um pouco de baixo então pode segurar as coisas até ele chegar. Ikuso!- o líder falou, tentando animar os outros membros, o que funcionou um pouco já que esses se levantaram gritando 'Hai!', e assim iniciou-se mais um dia de trabalho.
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No final das contas, Reiki apareceu no horário de almoço pedindo desculpas pelo atraso descomunal, claro que Kai sendo quem era não deixou barato e deu-lhe um dos sermões mais longos de sua vida, mesmo que não fosse adiantar muita coisa. O resto do ensaio correu normalmente, com algumas briguinhas entre Aoi e Uruha e Ruki fazendo piadas de mau gosto, mas que ninguém ligava.
O vocalista se despediu dos companheiros e saiu pelas ruas assobiando uma das canções do mini-album que iriam lançar em Maio, Cockayne Soup, estava sendo trabalhoso e divertido criá-lo, até agora só duas musicas estavam finalizadas as outras ainda estavam no processo de criação. Haviam entrado para a gravadora PSC ou Peace & Smile Company há pouco tempo, esta era famosa por lançar profissionais de alto nível, por isso tinham que se esforçar muito para não ficarem pra trás.
Parou de andar assim que chegou a uma loja de CDs entrando sem cerimônia, estava à procura do álbum Jubilee dos Sex Pistols, uma das suas bandas européias favorita. Passou os olhos pelo local procurando por alguém que pudesse atendê-lo quando avistou um garoto no mínimo peculiar, sendo 'peculiar' uma forma gentil de chamá-lo. Vestia um casaco grande de couro com rebites nos os ombros o que fazia eles parecerem mais largos do que eram, no dorso uma caveira de neon verde, que assustaria qualquer um que topasse com ele de costas à noite, calças pretas bem largas com vários cintos também de rebite e coturno igualmente preto, seu cabelo era loiro espetado com a parte de baixo preta perto da nuca e algumas mechas, mas o que realmente poderia ser chamado de estranho no seu visual era a faixa, branca com desenhos em cinza incompreensíveis que cobria seu nariz. Ele carregava uma caixa cheia de CDs e estava organizando-os nas prateleiras, se não fosse por isso com certeza nem desconfiaria que ele trabalhasse ali.
- Com licença, vocês por acaso teriam... — começou educado, se assustando quando a caixa de CDs foi ao chão, o garoto o olhava aterrorizado, havia empalidecido completamente e seu corpo tremia tanto que parecia estar em ebulição, Ruki o encarava confuso, não entendia o porquê daquela reação, olhou para trás e para os lados, checando se ele não olhava para outra pessoa ou coisa que o tivesse deixado daquele jeito, mas não havia nada, o garoto fitava diretamente à si sem piscar, completamente em choque, diria até que estava com medo, mas de que?
- Ei, você esta bem?- estendeu a mão para tocar seu rosto, preocupado, ele suava frio e parecia prestes a chorar,assim que encostou em sua pele o garoto despertou, saindo do seu estado catatônico.
- Droga!- assim que percebeu que havia derrubado a caixa se abaixou, catando os CDs que haviam pulado da caixa na queda. Ruki se agachou na intenção de ajudá-lo, mas ao tocar em um dos CDs este foi arrancado de sua mão, o garoto se levantou tão rápido que nem viu quando este acabou de juntar as coisas.
- E-Eu... hu... ah.. go-Gomenasai!- e saiu correndo, entrando por uma porta no fundo da loja, Ruki piscou varias vezes, tentando compreender o que havia acontecido, sem sucesso, ficou parado com cara de bobo, ainda encarando a porta pela qual ele tinha sumido.
- Mas que porra foi essa?- Kyo apareceu ao seu lado, com a mesma expressão confusa que a sua, só que mais séria.
- Eu não sei, não entendi porque ele ficou tão assustado- disse baixo, ponderadamente, por um momento se sentiu intrigado em saber mais sobre ele.
- Talvez tenha ficado com medo pensando que era um gnomo que tinha invadido a loja, eu teria a mesma reação- brincou, vendo automaticamente a face de Ruki se fechar, sua curiosidade sendo substituída pela raiva.
- Vai se fuder Kyo!- urrou, estressado, pronto para sair da loja.
- Me desculpe pelo comportamento do nosso funcionário, ele é novo aqui- uma voz melodiosa vinda de suas costas fez com que parasse, girou nos calcanhares, tendo uma das melhores visões da sua vida.
Um homem alto, de corpo elegante e forte, cabelos curtos e ondulados na cor loiro mel, assim como seus olhos que o encaravam com interesse e malicia. Oh, aquele sim era seu tipo de homem.
- Ah, esta tudo bem, deve ter sido minha culpa de qualquer modo- só não sabia por quê.
- Tenho certeza que não. Irei falar com ele, isso com certeza não ira se repitir- se desculpou galanteador, dando o assunto por encerrado- então, o que deseja? — sorriu, Ruki colocou uma mecha do cabelo atrás da orelha, devolvendo o sorriso com um olhar sedutor.
- Eu queria saber se o álbum Jubilee dos Sex Pistols já chegou- respondeu só então se lembrando do motivo de estar ali.
- Chegou, venha comigo- o homem o guiou pelas prateleiras parando na frente da seção de musica estrangeira, sem procurar muito pegou o CD entregando-o para Ruki com um sorriso maior ainda.- Aqui esta, você tem um bom gosto musical, mas não tão bom quanto parece ser... em outras coisas.- terminou, analisando-o de baixo pra cima o mais descaradamente possível, deixando bem claro ao que se referia. Ruki teve vontade de rir ao ser secado daquele jeito, mas se segurou, para alguém que parecia tão refinado ele era bem cara de pau.
- Etto..- forçou um pouco a vista para ler o que estava em seu crachá, preso na blusa social branca, 'Yuuji Kamijo-Gerente'- Kamijo-san obrigado por me ajudar, deve ser legal trabalhar em uma loja de musica.
- Sim, eu conheço todo tipo de banda nova e estilos diferentes, alguns não tão bons admito, as vezes aparecem materiais aqui que eu fico me perguntando como alguém conseguiu criar aquilo, mas tirando isso é ótimo, posso ficar ouvindo musica o dia todo, além de conhecer pessoas interessantes..- falou a ultima parte olhando diretamente para Ruki, podia imaginar todo o tipo de coisa pervertida que o gerente estava pensando.
- Se continuar me secando desse jeito, vou ficar constrangido- Kamijo riu, sua voz era tão gostosa que deixou o outro sem fôlego, aquele cara era uma delicia!
- Você não parece do tipo que se constrange fácil- foi à vez de Ruki rir, enquanto andavam ate o balcão do caixa.
- Tem razão- esticou a mão para ele que já estava do outro lado do balcão, na intenção de se apresentar- Matsumoto Takanori.
- Prazer- Ruki mordeu o lábio inferior quando este beijou sua mão fitando-o predatoriamente, o ato poderia ser ate brega, mas feito por aquele homem era completamente sexy.- Mas eu sei quem você é.
- Sabe?- ficou surpreso, entregando-lhe o CD para que pudesse registrar a compra.
- Sim, não disse que conhecia todo tipo de banda aqui? O mesmo vale para a sua. — disse simplesmente, sorrindo de lado.
- E o que achou?
- Bem..- parou para digitar alguma coisa no computador- É visual kei, mas diferente das outras bandas que vemos por ai, na verdade o som de vocês é diferente de tudo que eu já ouvi, além de suas letras serem muito bem elaboradas, quando eu as escuto sinto que faço parte delas. Eu gostei.
- Obrigado... — sorriu largamente, adorava quando elogiavam sua musica e Kamijo acabava de conseguir uma noite de sexo consigo por isso, não que fosse alguém fácil, apenas estava interessado nele também- Já pensou em ser critico? Ou até mesmo musico? Você é bom com as palavras.
- Ha!.. Eu já pensei em ser musico, na verdade é o que mais quero, mas nem todos tem essa sorte- disse em um tom um pouco triste, entregando-lhe o CD e indicando o preço da compra.
- Você não devia dizer isso, se quer mesmo ser musico então corra atrás desse sonho, eu pensei que não ia conseguir mas estou aqui, essa é uma das coisas que me move e que me mantém vivo, se não fosse por isso eu estaria morto agora ou louco.- falava serio, enquanto procurava o dinheiro em sua carteira, pagando o CD.
Havia sido sincero com ele, se não fosse pelo desejo de ser musico estaria nas ruas se drogando ou prostituindo, talvez ate preso ou em um manicômio como sua falecida mãe. Kamijo pegou o dinheiro fitando-o abobado, mas logo sorriu, sentindo o coração aquecer encorajado por aquelas palavras.
- Obrigado Takanori-san, vou fazer o que disse.
- Ótimo! Mas então..- pegou a sacola que ele lhe entregara com o CD, voltando a sua expressão maliciosa de antes- Não vai nem me dar o numero do seu celular?
- Claro! — riu, aquele baixinho não perdia nenhuma oportunidade, pegou um cartão em um dos compartimentos do balcão, encostando-o em seus lábios antes de entregá-lo para Ruki, este quando pegou repetiu o ato só que com uma pequena lambida no final.
- Ja ne — se despediu desfilando para fora do local, Kamijo se curvou por cima do balcão, encarando o traseiro de Ruki até ele sair, fazendo um 'Uh' mudo com a boca. Balançou a cabeça com o pensamento nada casto que lhe atingiu e voltou ao trabalho.
O vocalista voltou a andar pelas ruas assobiando agora outra canção, dessa vez uma que ainda não estava pronta, mas que assim que chegasse em casa correria para escrevê-la, teve um surto de inspiração de repente, talvez pelo loiro sensual que havia lhe dado um super mole, porém seu bom humor foi por ralo a baixo assim que Kyo decidiu se pronunciar.
- Não se esqueça do compromisso de hoje a noite.- Ruki bufou, tomando uma postura séria e até um pouco assustadora.
- E como poderia? Você me lembra toda hora, onde está o formulário que te pedi?- inquiriu nervoso, Kyo tinha o talento de deixá-lo irritado. O papel foi entregue à suas mãos sem objeções, passou os olhos conferindo o conteúdo rapidamente, como imaginava...
- Está tudo ai, mas não tem nada de importante que eu já não tenha lhe dito.
- Hum. Esse cara tem uma ficha criminal bem extensa, homicídio, roubo, estupro, prostituição, pedofilia... preparei uma coisa bem especial pra ele.- sorriu amargo, guardando o formulário no bolso da calça.
- Tome cuidado com ele, ele não é qualquer assassinozinho amador que você encontra por ai.
- Eu também não! Que foi ta preocupado comigo?- riu cinicamente, Kyo deu de ombros.
- Não, só não quero que morra antes de concluir o contrato.- Ruki parou, virando de frente para o outro com um sorriso indecifrável.
- Então não deixe que eu morra- deu as costas para o demônio, se afastando e voltando a assobiar.
Kyo sentiu um calafrio, quase pode ver chifres na cabeça do vocalista, as vezes este era mais assustador do que ele mesmo.
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- **Akaku shitataru katana wo futte hitotsu futatsu to "aku" kirikorosu — cantava uma das musicas preferidas que havia composto até agora, maquiando-se como um ator de ***Kabuki, com o rosto pintado de branco e riscas vermelhas que marcavam as bochechas e contornavam os olhos, pintados com um delineador preto, na boca um batom também vermelho que dava aos seus lábios uma aparência feminina e vulgar — Haha no mimai to kubi wo hikisuri koyoi mo hotoke wo niramu...
- Tsukiyo ni mau hanafubuki no nakaoni no men de ware wo kakushi — contrastando com sua maquiagem vestia uma saia de vinil preta, com uma blusa decotada do mesmo material e enchimentos no lugar dos seios, cinta liga, meia arrastão e botas ate o joelho com um salto que nenhuma Drag Queen ousaria se arriscar, colocou uma peruca preta com fios que iam até o seu quadril, olhando-se no espelho ao terminar de se arrumar, sem parar de cantar- Katana wo nuki iza mukaouhaha no kataki mei ni kaete...
Aquele era seu verdadeiro eu agora, não havia mais Ruki, muito menos Matsumoto Takanori, não havia um ser humano ali refletido no espelho, mas sim um monstro frio e sanguinário, cego por um objetivo, por um contrato. Há sete anos Kyo apareceu e lhe fez uma proposta, sua alma pelo seu desejo ou 101 almas em troca da sua e do seu desejo, aceitou a segunda opção sem pensar em como conseguiria aquelas almas, porém não se arrependia, faria tudo pra conseguir o que queria, tudo para que aquele vazio e aquela culpa se dissipassem, não tinha outra alternativa. Poderia ter seguido em frente, como qualquer pessoa normal, mas a tentação de ter aquilo que tanto queria era forte demais para ser recusada.
- Kui wa nai to ayumu michi wa munen no "ku" ga ame ni NURERU — pegou a katana e a mascara ****Hannya que estavam em cima da cama, colocando-a no rosto — Kono mi kusaru made fu wa seowan mikazuki yugamu koyoi mo oni to narite... — estava na hora de cortar algumas gargantas.
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