Quietude
6 Capítulo 06
Alemanha, 1944.
Ao sentir o frio infiltrando-se em seus ossos, Steve finalmente compreendeu o alívio de Bucky cada vez que alguém negava o seu alistamento. Não importava o quanto ele quisesse enganar a si mesmo, não iria sobreviver àquilo se tivesse o mesmo corpo de antes.
Esfregou os braços na tentativa de gerar algum calor, depois soprou entre os dedos. Fazia um dia e meio desde que tinham escapado da base da HYDRA e ainda estavam perto demais do inimigo para que fosse seguro chamar atenção. Não podiam acender tantas fogueiras quanto quisessem, assim, Steve tinha deixado seu lugar junto ao fogo para os que estavam em pior condição que ele.
Seu escudo parecia um travesseiro pobre, mas estava prestes a se aconchegar junto dele quando Bucky se aproximou, recostando-se na mesma árvore em que o Capitão estava apoiado.
— Com frio? — Em resposta, Steve fungou.
O gesto fez Bucky rir.
— Se eu ainda não estivesse seguro que esse é você, agora teria certeza. Devo pegar os remédios para asma?
Steve sorriu.
— Não duvido que tenha uma bombinha com você — disse, porém Bucky balançou a cabeça.
— Não, mas teria trazido uma se soubesse que ia encontrá-lo aqui. — Oh, o Capitão tinha certeza que sim. — Infelizmente só tenho isso aqui para oferecer — ele falou e tirou um cantil de metal de dentro das vestes, estendendo-o.
Ao abri-lo, Steve sentiu cheiro de álcool.
— Como você conseguiu isso? — questionou. Não havia sobrado muitos itens pessoais depois de terem fugido da instalação da HYDRA.
— Flint conseguiu salvar a mochila e estava me devendo por uma aposta num jogo de poker — Bucky respondeu, ao mesmo tempo em que dava de ombros.
Steve tomou uma golada da bebida, sentindo sua garganta queimar. O álcool não faria muito para amortecer seus sentidos, mas a coisa ainda aquecia.
— Obrigado — disse, repassando a garrafa para Bucky.
— Os problemas de saúde realmente acabaram? — ele perguntou, meio desconfiado, bebendo também.
— Completamente.
Bucky o fitou por um instante, para então estender a mão e tocar seu braço, como se quisesse confirmar que Steve era real.
— Isso é tão estranho.
— Eu sei. — Às vezes ainda se surpreendia com a própria altura e vivia quebrando as coisas por não estar ajustado à nova força dos seus músculos. — Melhor ou pior?
— Eu sempre gostei do Steve magrelo. Acho que vou sentir falta das suas costelas — Bucky provocou, cutucando-o sobre a região. — Mas é um alívio saber que você finalmente aprendeu a brigar.
— Aprendi, não é? — falou, sentindo um nó se formar em sua garganta. A adrenalina da fuga tinha passado, e a agonia que ele vinha tentando conter ameaçava escapar pelas bordas. — Eu matei aqueles soldados, Bucky.
— Também salvou esses homens — o outro respondeu, fazendo um gesto em direção aos rapazes que se aninhavam perto do fogo. — É uma guerra, Stevie.
Era uma guerra e Bucky estava nela há mais tempo do que ele. De repente, se deu conta de que ele também já devia ter sua cota de mortes nas costas.
— Como foi quando você atirou em alguém pela primeira vez?
Pelo olhar que Bucky lhe lançou, Steve percebeu que não era um assunto que ele gostaria de discutir, mas, ao fim, não existiam reservas entre ambos.
— Não tão glorioso. Estava chovendo e eu não enxergava nada, não estava exatamente mirando em alguém... — contou, e então tomou fôlego. — Eu ouvi o soldado alemão agonizar por quase cinco minutos até morrer, mas não tive coragem de atirar de novo.
Steve sentiu que poderia vomitar. Quando estava no Brooklyn, indo de um centro de recrutamento a outro, não era exatamente assim que imaginava a guerra. Bucky voltou a beber, tomando um gole mais demorado dessa vez.
Sem pensar muito no que estava fazendo, o Capitão passou os braços pelas costas dele em um meio abraço. Bucky pendeu contra o seu corpo, e Steve percebeu que não ligava se os outros comentassem sobre aquilo.
— Matar aquelas pessoas também não fez eu me sentir heróico.
— Mas você foi — Bucky contestou. — Só é possível ser herói de um lado, Steve.
— Talvez isso não seja bom o bastante. Alguns daqueles homens deveriam ter sido salvos da manipulação da HYDRA, não mortos...
— Eu fui torturado — o outro o cortou. — Não achei que fosse sobreviver para ver você de novo, mas você me salvou, parece bom o suficiente para mim. Deus sabe que eu não queria que estivesse nessa guerra, mas já que está aqui, que seja como um herói.
— Não sei se dou conta, Buckie — disse, estendendo a mão para o escudo e traçando uma das estrelas desenhadas.
Bucky suspirou, para, então, dar um sorriso torto.
— É claro que não. Por isso eu vou estar com você.
Definitivamente, o mundo parecia mais fácil daquela forma.
Quando ele lhe ofereceu a garrafa novamente, Steve reparou nas marcas roxas ao redor do seu pulso, onde as algemas tinham estado. Oh, faria qualquer coisa para que aquilo nunca mais acontecesse, mesmo que isso significasse viver em um equilibrio delicado com a própria consciência.
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