Quietude

7 Capítulo 07


As pás do ventilador de teto davam voltas lentas, fazendo pouco contra o ar abafado. Bucky sentia o calor pinicá-lo e dormir parecia ainda mais difícil do que normalmente. Por sua vez, a respiração de Steve era suave ao seu lado. As luzes da rua entravam pela janela e permitiam que Bucky visse os contornos do outro pelo canto dos olhos, seu peito subindo e descendo em um

Tentou voltar a contar os giros do ventilador, mas, em vez disso, permaneceu muito consciênte da presença de Steve. Estavam dormindo no mesmo colchão mais noites sim do que não. Aquilo tinha ajudado com os pesadelos, no entanto, também trouxera outros problemas.

Em meio à sua insônia, exigia muito esforço não encará-lo. Bucky já tinha decorado quantas tiras de madeira compunham o forro — trinta e duas — e achado sete interpretações diferentes para a mancha na parede quando Steve se remexeu entre os lençois. O Capitão virou-se de lado, e a força de vontade que Bucky vinha mantendo se perdeu. Deu a volta para poder fitá-lo.

Dormindo, era mais fácil encaixar a imagem de Steve com a do garoto magricela de 1940, todo feito de ossos e bravura. As pestanas dele pareciam muito longas, e Steve respirava com a boca ligeiramente aberta. Bucky desceu os olhos, acompanhando o contorno de suas cláviculas e a forma como seu torso afinava no quadril em músculos perfeitamente desenhados. Uma camada de pelos loiros cobria suas pernas.

De repente, o calor tornou-se pior, e seu sangue pulsou na região do baixo ventre. Devagar, Bucky estendeu a mão para ele, tocando o peito do outro. O contato ardeu em sua pele. Ao perceber o que estava fazendo, recolheu a mão depressa, com medo que o Capitão acordasse. Mas já era tarde demais, e sua excitação era impossível de ignorar.

Steve deixou escapar um ligeiro suspiro, ainda adormecido, e o som fez um arrepio correr por sua coluna.

Curvou-se sobre si mesmo, tentando apaziguar aquelas sensações, porém o roçar sobre o lençol não lhe fez nenhum bem. Com o desejo veio a culpa e o medo, antigos e arraigados, e novos ao mesmo tempo.

Lembrava-se de sentir aqueles anseios e do desespero que eles causavam antes da guerra — o medo que alguém descobrisse, o temor de onde aquilo poderia levá-los, o fato de que era errado, proíbido, uma doença, e, acima de tudo, colocava Steve em perigo. E, então, ele tinha passado setenta anos como uma arma, e armas não sentem desejo. Havia sido muito fácil para a HYDRA extirpar qualquer reação daquele tipo. Por algum tempo após sair do controle da entidade achara que nunca mais voltaria a sentir-se excitado, mas dividir a cama com Steve tinha mudado as coisas.

Sabia que o amava e que tinha amado desde sempre, tanto que reencontrá-lo fizera ruir a programação da HYDRA, porém aquilo não parecia ser justo com o outro. O Capitão estava ali, tão, tão perto, mas para ele o fato soava com uma necessidade, tanto quanto dividir um cobertor com outro soldado em meio ao inverno alemão. Era o tipo de amabilidade que esperava de Steve.

Por instinto, levou a mão à entreperna, sentindo um rastro de prazer e agonia percorrer seus nervos. Ao mesmo tempo, a sensação fez com que ele quisesse vomitar. Quando pareceu impossível contornar aquilo, levantou-se, passando por cima de Steve e indo até o banheiro.

Tocou-se sem pensar no que fazia, rápido e sem delicadeza — todo ao contrário de como Steve agiria, porque, oh, imaginava os toques dele lentos e gentis. O sentimento de amargor veio com o prazer, e Bucky sentiu-se tolo o bastante para querer chorar.

A culpa ainda fervilhava em suas entranhas quando voltou para o quarto e encontrou Steve acordado, sentado sobre o colchão, obviamente esperando-o.

— Você está bem? — ele questionou, ainda sonolento. — Outro pesadelo? Devia ter me acordado...

Bucky acenou em negativa, mirando-o. Por um segundo sua agonia converteu-se em raiva, e Bucky considerou dizer a verdade a ele, contar o que sentia e o que estava fazendo no bainheiro e deixar que o Capitão decidisse se tinha nojo daquilo e o que queria para si mesmo, livrar-se daquele peso. Mas, então, seria Steve a levar aquela carga. Com os olhos embaçados de sono, o outro parecia mais inocente do que nunca. Bucky viu seu ímpeto morrer tão rápido quanto surgira. Sua língua secou na boca, e ele se calou.

Guardava aquele segredo há tanto tempo que revelá-lo seria como perder uma parte de si mesmo, e, céus, já perdera coisas demais no caminho.

— Eu só acordei por causa do calor, Stevie. Volte a dormir — disse por fim, sem mentir completamente.