Quietude
5 Capítulo 05
Era quase meia noite quando os gritos começaram. Steve estava sempre esperando por algo assim, mas, depois de quase uma semana de calmaria, tinha abaixado a guarda. Atrapalhou-se com as cobertas por dois segundos antes de conseguir se colocar de pé.
A porta do quarto de Bucky estava fechada, e Steve não teve certeza se o outro a deixara destrancada ou se ele tinha simplesmente arrebentado a fechadura em seu desespero para entrar no aposento. Encontrou Bucky debatendo-se como um louco sobre o colchão, os olhos abertos, porém vidrados. Quando Steve se aproximou, ele gritou ainda mais.
Se o Soldado ainda estivesse com seu braço de metal, Steve provavelmente teria uma boa luta pela frente. Mas, em vez disso, foi fácil se aproximar pela esquerda enquanto Bucky lutava contra o vazio.
— Shhh, Bucky. Estou aqui. Está tudo bem — sussurrou, rodeando-o em um abraço na tentativa de contê-lo. Levou longos instantes até sua voz parecer alcançá-lo. — Estamos em dois mil e dezesseis e você está em casa.
Trouxe-o para si, perto o suficiente para que seus lábios quase roçassem nas têmporas dele. Bucky parou de se debater, mas sua respiração ainda estava rápida demais. Lentamente, Steve levou a mão à cabeça dele, penteando os cabelos negros com os dedos. Céus, quanto tempo passara desejando fazer isso?
— Está tudo bem, Buckie — repetiu, e ele pareceu despertar.
Muito devagar, Bucky relaxou entre seus braços.
— Steve?
— Aqui.
O outro se moveu ligeiramente, afastando-se apenas o suficiente para poder fitá-lo, e, então, sua expressão voltou a endurecer.
— Era um pesadelo, Bucky, só isso. Você está bem — disse, mas ele negou.
— Você não entende!
Com cuidado, Steve acarinhou o braço de Bucky que sobrara, esperando que aquilo o acalmasse.
— Se você quiser, pode me contar qual era o sonho.
— Você não aguentaria saber tudo o que eu fiz.
— Se você pôde suportar eu também posso, Bucky. Você não precisa passar por isso sozinho.
Bucky grunhiu perante sua declaração, parecendo torturado e encolhendo-se sobre si mesmo. Steve deixou que ele tomasse seu tempo. Quando finalmente falou, o Soldado Invernal aparentava ser uma criatura muito frágil.
— Eu matei um menino, uma criança — disse como se desejasse que Steve o odiasse por aquilo, para que ele finalmente tivesse sua penitência. — Eu havia esquecido dele, Steve! Eu não tinha o direito de ter esquecido!
— Você não teve culpa... — começou, mas Bucky sacudiu a cabeça com violência, rechaçando suas palavras.
Supreso, Steve deixou que ele erguesse a mão e tocasse seu rosto.
— Ele era parecido com você. Magro e cabelos loiros, tão parecido com você quando tínhamos oito anos! E era só uma criança, e eu o matei.
Compreendendo, o Capitão o puxou para perto novamente.
— Não era eu, Buckie. Eu estou aqui.
— Você não teria feito isso, não teria matado uma criança, nunca.
— Nós não sabemos disso. Eu não fui pego pela HYDRA; talvez tivesse feito pior no seu lugar.
Era algo que tinha considerado. Sempre fora bom em lutar pelo que acreditava, se a HYDRA tivesse mexido com a sua mente o suficiente para fazê-lo crer nos ideiais dela, oh, duvidava que fosse hesitar mesmo diante de Bucky, como o Soldado hesitara ao lutar contra ele.
— Estou sujo de sangue, Steve.
Steve não soube como responder àquilo, então apenas tomou a mão de Bucky e a enconstou nos lábios, em algo parecido com um beijo. Não sabia muito bem onde aquele gesto se encaixava na amizade que sempre tinham mantido, mas decidiu que não se importava.
— Você precisa voltar a dormir.
A ideia pareceu assustá-lo.
— Acho que eu não quero isso.
— E se colocassemos nossos colchões no chão, como antes da guerra? — ofereceu.
O aceno de concordância de Bucky foi quase imperceptível, mas fez Steve sorrir.
Ao se rearrumarem, colchões e travesseiros no chão, Bucky se encolheu como uma bola sob os cobertores, mantendo-se tão distante dele quanto o espaço permitia, mas não existiram novos gritos.
Ao acordar, o Capitão encontrou o outro dormindo serenamente, o braço esticado em sua direção, apenas as pontas dos dedos tocando seu torso. Steve não se deu ao trabalho de retornar seu colchão para o próprio quarto.
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