Quietude

2 Capítulo 02


Steve tinha insistido em carregar sua bolsa. Bucky protestara, mas não muito, porque seu equilíbrio havia se tornado algo complicado desde que perdera o braço.

O apartamento onde o Capitão morava ficava em um prédio antigo, sem elevador, e Steve teve que fazer uma manobra elaborada com a fechadura para conseguir abrir a porta, que envolveu dar apenas uma meia volta na chave ao final e então empurrar a maçaneta. As dobradiças fizeram um barulho lamuriento ao girar.

— Não é grande coisa. — Steve parecia um pouco constrangido ao dar espaço para que ele entrasse no apartamento, encolhendo os ombros da mesma forma como fazia quando tinha dezesseis anos. No entanto, não era mais tão fácil para ele parecer menor do que era.

Bucky sorriu em resposta, dando uma batidinha em seu ombro direito como quem diz que está tudo bem.

— Tenho ido de um laboratório a outro nos últimos setenta anos, não é como se eu pudesse reclamar.

Em vez de parecer consolado, o Capitão se encolheu um pouco mais, e Bucky fingiu estar concentrado na decoração ao redor simplesmente porque não queria ver a expressão que ele estava fazendo naquele instante.

A sala e a cozinha eram divididas unicamente por um balcão. Bucky deu alguns passos pelo ambiente, porém não precisou de mais do que alguns segundos para perceber o quanto o lugar estava impregnado da presença de Steve.

Havia desenhos feitos por ele nas paredes e alguns esboços largados em um canto. Um saco de areia para treinamento tomava o lugar de uma poltrona ao lado do sofá. O ar cheirava a uma mistura de torta de limão com a colônia dele. De alguma forma, Steve tinha conseguido um equilíbrio entre os anos quarenta e a época atual. Uma máquina de escrever e um notebook dividiam espaço na escrivaninha que ficava no canto, além do conjunto rádio de pilha, televisão tela plana e vitrola. Bucky deslizou os dedos por um vinil da Dinah Shore.

E, então, existiam as fotos. Steve e Natasha tomando um sorvete, ele e Thor disputando uma queda de braço, o Capitão girando uma flecha do Clint entre os dedos. Mesmo a briga com o Stark não tinha sido suficiente para levar a presença dele dos porta-retratos e Tony acenava em um bocado deles.

Steve permaneceu muito quieto, observando-o com apreensão. Ele tinha deixado sua bolsa sobre o sofá. Uma mala pequena, não muito mais do que uma mochila, e todos os seus pertences no mundo estavam ali: meia dúzia de trocas de roupa que T'Challa tinha providenciado e armas — uma faca de combate que estava com ele há tempo suficiente para que o cabo tivesse assumido a forma de seus dedos era o item mais pessoal entre suas posses. O contraste com o mundo que Steve tinha criado para si era quase doloroso.

— Eu não devia estar aqui.

Steve suspirou como se estivesse esperando por aquela declaração.

Juntos até o fim da linha. Você se lembra, não é?

Oh, claro que lembrava. Lentamente, Bucky dedilhou o toco que era o seu braço. O problema era que talvez o fim da linha já tivesse chegado para ele, enquanto Steve prosseguira.

— Eu não sei se posso ser consertado — falou. O Capitão o encarou parecendo achar suas palavras absurdas, mas Bucky continuou antes que ele pudesse dizer qualquer coisa — Quando os jornais noticiaram que eu tinha explodido o prédio da ONU, por um tempo eu acreditei que realmente tinha feito aquilo, Steve. Eu poderia ter feito. Você viu o que aconteceu quando o Zemo disse as palavras. Às vezes eu as escuto na minha mente e tenho medo de chegar ao final da sequência e tudo sair do controle...

Não devia ter deixado que Steve o convencesse a sair de Wakanda. Com que facilidade destruiria tudo o que o outro tinha conseguido?

Não percebera que estava tremendo até Steve o segurar pelos ombros.

— Eu estou aqui, Bucky — o Capitão afirmou, e as mãos dele pareciam muito quentes contra sua pele. — Não há nenhuma condição para isso. Não estou esperando que você seja consertado. Não me importo se as coisas derem errado, eu ainda vou estar aqui se elas sairem um pouco do controle, e nós vamos dar um jeito juntos.

— A questão é que você não precisa — falou, com a sensação de que já tinha ouvido algo muito parecido do outro.

— Você também não precisava intervir nas minhas brigas, mas nunca deixou que eu apanhasse sozinho — disse, gentil e sincero como sempre.

Bucky pensou em lembrá-lo que ele talvez não fosse mais o mesmo daquela época, mas o toque de Steve era a melhor sensação que ele sentira em eras, e o argumento morreu em sua língua. Além do mais, Steve o fitava como quando pesava menos de cinquenta quilos e precisava dele.

— Eu não ia para apanhar junto com você! Eu ia salvar sua pele.

Steve sorriu, percebendo que tinha vencido aquela batalha.

— Verdade — concedeu. — Eu ainda te devo um bocado.

Steve deixou as mãos deslizarem por sua pele, até romper o contato. O vazio que se seguiu pareceu tornar o ar gelado.

— Você está em casa — o Capitão disse.

Bucky mal se lembrava o significado daquilo, mas pelo tom de Steve parecia algo bom.