Quietude
3 Capítulo 03
Brooklyn, 1942.
Um vinil da Billie Holiday soava pelo apartamento através de uma vitrola de segunda mão. Bucky tinha economizado por meses para conseguir comprá-la, e no final Steve inteirara o valor como presente de aniversário. Era quase uma pena ir para a guerra e ter que deixá-la para trás.
— Em três meses, então? — Steve questionou. Os dois estavam sentados no chão do quarto, comendo uvas passas cobertas de chocolate e tomando vinho barato que Steve tinha se dado ao luxo de comprar na volta do trabalho. Ele tinha uma manta passada pelas costas, mas seus dedos ainda estavam um pouco enregelados.
Bucky concordou, tentando não parecer muito ansioso para não magoar o outro.
— Já me deram um uniforme. Os treinamentos vão começar na próxima semana, e depois eu vou ser ordenado e enviado para a Alemanha.
— Você é um bastardo de sorte.
Ele tinha razão. Ouvira dizer sobre regimentos que seriam mandados para o Pacífico, e quem queria ir para lá? Era na Alemanha que estava a possibilidade de ser herói.
— Talvez. Dizem que na Europa é ainda mais gelado do que aqui — falou maldosamente, puxando a ponta da manta de Steve.
— Babaca! — ele revidou a provocação. Havia uma ponta de inveja no tom dele, mas era inveja de quem queria desesperadamente acompanhá-lo, e não de quem desejava passá-lo para trás. — Eu tentei me alistar de novo ontem.
Bucky sentiu uma onda de medo fechar sua garganta.
— E? — Achava que se Steve tivesse conseguido ser aceito ele já saberia, mas mesmo assim...
— Dispensado. Mais uma vez.
Suspirou. Ao servir-se de mais passas sua mão esbarrou na dele, e a pele de Steve estava fria. Podia sentir seus joelhos magros e ossudos, sob roupas que sempre ficavam um pouco grandes demais. As contusões da última briga na qual Steve se metera apenas começavam a desbotar para o amarelo: dois caras grandalhões, Bucky quase não chegara a tempo de evitar um estrago realmente preocupante. Também estava muito consciente dos remédios e das bombinhas para asma em seu criado mudo, guardadas ali apenas no caso de serem necessárias e Steve não estar com os próprios remédios.
Se Steve fosse para a guerra, iria morrer. Bucky mal podia tolerar esse pensamento.
— Você precisa parar de fazer isso, Stevie.
— Não é justo que você possa ir e eu não.
— Eu sei — concordou, embora desse graças por isso.
Os dois ficaram em silêncio por algum tempo, até que Billie Holiday parou de cantar e Bucky teve que se levantar para mudar o lado do disco.
— Eu posso ver o uniforme? — Steve questionou.
Ele o veria usando os trajes militares mais cedo ou mais tarde, de qualquer forma. E, oh, Bucky também se sentia um tanto orgulhoso da coisa. Sorriu para o outro, indo até o armário.
Tirou de lá um saco de pano com as roupas que recebera do exército e o levou para junto de onde Steve estava sentado. Ele fez uma careta diante dos calções de treinamento, mas alisou com cuidado o uniforme oficial.
Vendo-o, Bucky sentiu que deixar sua vitrola para trás não seria a única coisa que doeria terrivelmente.
— Buckie, tem problema se eu experimentar? — ele pediu, soando ansioso e ingênuo. Bucky hesitou. Considerando o quanto Steve queria lutar e as três negativas que recebera até ali, não tinha certeza se aquela era uma boa ideia. — Quer dizer, se você achar que isso pode dar azar, tudo bem.
— Foda-se — decidiu, por fim. Se Steve achava que aquilo faria mais bem do que mal, não seria ele a negar. — Merda, Steve, não há nenhuma maneira que você possa me dar azar.
Steve sorriu de lado, levantando-se e indo até o espelho do outro lado do quarto.
Deixaram as calças do uniforme de lado, pois eram obviamente grandes demais, mas Steve colocou o paleto, e Bucky ajudou a abotoá-lo. Em seguida, ele afundou o quepe sobre os cabelos loiros.
Bucky deu um passo atrás, permitindo que ele ficasse sozinho à frente do espelho. As mangas do uniforme tinham ficado muito longas e sobrava tecido nas laterais e nos ombros. Do ângulo em que estava, Bucky podia entrever as clavículas do outro, a pele dele parecendo ainda mais pálida em contraste com o verde escuro do traje militar. Sua garganta secou.
Steve demorou algum tempo fitando o espelho, para então encarar Bucky através do reflexo. Algo em sua expressão devia tê-lo traído, pois Steve franziu o cenho ao mirá-lo.
— Estou ridículo, não é?
Céus, antes fosse esse o problema.
Tinham crescido juntos e não era incomum verem-se despidos, mas aquilo era diferente. Havia certa sensualidade nas roupas muito grandes e no fato de que ele estava finalmente trajando vestes do exército.
Os anseios que Bucky vinha sentindo há tanto tempo atingiram-no como um soco na boca do estômago. Logo depois, veio o medo. Não se atrevia a cogitar o que Steve acharia daqueles sentimentos, mas a ideia de que ele os aceitasse soava tão assustadora quanto a possibilidade de ele se enojar.
Duas semanas atrás John Adams — que tinha estudado com os dois no colégio e morava na vizinhança desde sempre — havia sido espancado até a morte em uma viela porque alguém tinha visto-o beijando outro rapaz. Os caras com quem Steve brigava normalmente se contentavam com alguns socos e paravam quando tinham demonstrado o quão fortes eram, mas esse tipo de gente não parava quando estava batendo em um maricas. E Steve nunca fugia de uma briga... Entre estar com ele e vê-lo ser aceito no exército, Bucky não conseguia decidir o que parecia mais perigoso.
— Você não está ridículo — falou, permitindo-se passar as mãos pelas costas de Steve com ternura. — Um ajuste na manga e duvido que alguma moça em Nova York resistiria aos seus encantos.
Steve sorriu como quem não acredita, mas aprecia o elogio, e Bucky sentiu suas calças ficarem muito apertadas. Ele, certamente, não estava conseguindo resisitir.
Mais três meses; mais três meses e, então, estaria indo para a Alemanha e Steve ficaria em segurança — a um oceano da guerra e daqueles sentimentos.
— Preciso ir ao banheiro — anunciou quando Steve decidiu que era suficiente e despiu o uniforme, agradecendo por ele ser inocente demais para perceber o que aquilo significava.
Steve nunca iria saber, mas, todo feito de ossos e magreza, Bucky o achava um inimigo muito mais difícil de enfrentar do que os nazistas pareciam ser.
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