Quero Ser Um Cavaleiro
31 Reforma II
E desde então Kiki estava com Sara a quase todos os lugares que podia. Assistia às aulas e acompanhava os treinos no ginásio vazio. E quando tinha uma folga do mestre, cronometrava as subidas pelas escadarias sagradas. A menina se sentia tão feliz desde que chegara ao Santuário que esquecera que estava sob um castigo e sem treinamento supervisionado. Na verdade nem ligava muito pois fazia o que queria. Suas feridas haviam curado e seu físico havia se modificado razoavelmente; estava agora com pernas bem torneadas, braços finos mas fortes e um abdome definido. Entretanto, nada era percebido pelos colegas pois ela escondia essas transformações muito bem. Só que uma nova mudança já estava em andamento e não haveria nada que pudesse fazer quando fosse evidente. A horta finalmente deu frutos, ou melhor, verduras frescas que alegravam as refeições de sua dona e os lanches das crianças. Conseguia se sustentar bem agora com o aumento de salário que tivera e podia se dedicar exclusivamente aos treinos. Num piscar de olhos mais um mês se passou e restavam apenas 30 dias para que o prazo de Dohko expirasse, mas felizmente faltava apenas a pintura do templo. Foi então que os problemas começaram.
1º Dia (Sábado)A aprendiz conseguira uma comprida escada com o Orestes e usara-a para lixar as paredes. Era tão alta que alcançava o teto do templo. Sorrindo, posicionou-a e subiu com uma lata de tinta e pincel nas mãos. No telhado pôs-se a pintar imitando os movimentos que seu mestre lhe ensinara. Estava distraída e só voltou a si ao escutar um barulho de algo caindo pesadamente no chão. Olhou em volta e descobriu que a escada não estava mais posicionada e sim estendida no solo. Ao lado dela Milo sorria:
- Oh, caiu.
- Pode colocar de volta, por favor? — Pediu ela educadamente.
- Hum, deixe-me pensar... — E imitou o gesto da garota fazendo desenhos com o dedo pelo rosto. — Não!
- Você a derrubou! — Acusou.
- Quem, eu? Um Cavaleiro de Ouro? Não, nuuuunca faria isso. — Retorquiu enfatizando a palavra “nunca” e sorrindo maléfico. — E qual o problema, tem medo de altura?
- Eh... Não. Mas não sei escalar.
- Aprenda! Agora, adeuzinho. — E despedindo-se, foi embora, largando a brasileira presa no telhado.
Sara não acreditava no que acontecia. Quem aquele homem pensava que era? Realmente não sabia como descer dali sem tomar um tombo bem feio e a tinta já havia terminado. Sem muita opção, sentou-se e esperou que Kiki voltasse. Uma hora, duas, três... E nada do garoto retornar. A noite já caíra, dali onde estava podia ver todas as casas sagradas iluminadas e as silhuetas de seus ocupantes. Rezava para que algum deles a visse ali sentada e fosse ajudá-la. Esperou ainda mais algum tempo quando viu Francis sair da casa e dirigir-se para Libra.
- Francis! Aqui em cima. Por favor, coloca a escada no lugar! — Implorou.
- Dan... Não posso. Meu mestre me proibiu e ainda me mandou aqui para avisá-lo que Kiki hoje ficará em Áries... — Respondeu ele sem sequer olhar para cima, virando-se e voltando para Escorpião.
“Milo me paga”, pensou a brasileira. Resolveu que o melhor seria dormir por ali mesmo e esperar alguma ajuda no dia seguinte, que para sua sorte era um domingo. “Tomara que apareça alguém...”.
2º dia (Domingo)
Sara acordou com dores pelo corpo devido à cama dura que tivera que usar — o teto da casa de Libra. Olhou para as escadarias e se deu conta que tudo estava deserto.
- Ah não, já devem ter saído... — Murmurou desesperada.
Começou a gritar por ajuda a esmo, na esperança de ser ouvida. Já estava quase sem voz quando dois homens surgiram à frente da casa, carregando caixas às costas.
- Quem está chamando? — Perguntou o de cabelos verdes.
- Não sei Shun, mas parecia vir daqui — Respondeu um loiro.
- Aqui em cima! — Chamou a garota. Eles levantaram as vistas e a encontraram. — Podem me ajudar a descer?
- Não é capaz de fazer isso sozinho? — Bufou o loiro. — Você é um aprendiz de ouro!
- Ei, eu me lembro de vocês. Estavam no dia da escolha dos mestres. — Disse a garota.
- Sim. Não ligue para meu amigo, agora se afaste um pouco da borda. — Dito isso, Shun colocou a caixa da armadura no chão e abriu-a; as correntes então enrolaram-se em seus braços. — Correntes, vão buscar nosso colega! — Imediatamente elas subiram até a garota e a de ponta circular enrolou-se em sua cintura, enquanto a outra seguia a seu lado, como uma cobra à espera do bote. A princípio ela teve medo mas tão logo tentou segurar a ponta afiada esta deixou-se acariciar e enroscou-se suavemente no seu braço. Sara chegou sorrindo ao chão.
- Obrigada! — Agradecendo a ambos.
- De nada. Você é o Daniel, correto? Prazer, sou Shun, cavaleiro de bronze de Andrômeda. Muito prazer. — Cumprimentou-a oferecendo a mão. Ela sorriu e apertou-a de volta, encantada com a pureza estampada nos olhos do rapaz.
- Eu sou Hyoga. — Disse o outro sem se dar o trabalho de sequer acenar. — Agora quer nos dizer que diabos fazia ali em cima?
- Eu estava pintando o telhado.
- Como é? Pintando? E por que um aprendiz faria isso?
- Mestre Dohko assim o ordenou... — Murmurou ela constrangida.
- Pff... Reduziram essas crianças a servos...
- Cisne, não fale assim. — Censurou Andrômeda. — Bom, temos que ir, Saori nos espera Daniel. Até mais. — E dito isso, abriu a caixa para guardar a armadura, quando notou que uma das correntes continuava enroscada no braço da garota. — Venha, hora de voltar. — As fivelas se mexeram como se dissessem “Não”. O rapaz riu, estava divertido.
- Bolas, ande logo, pedaço de ferro, estamos atrasados. — Exclamou o loiro segurando o braço da menina com força. Porém, ao fazer isso, a outra ponta enrolou-se em seus pés e se afastou abruptamente, causando-lhe uma queda de cara no chão.
- Elas não gostaram muito de você. — Riu a morena. O homem olhou-a irritado.
- Essas correntes nunca gostam de ninguém.
- De mim, elas gostaram... — Sorriu, alisando a ponta afiada. A corrente voltou a mexer, como um gato diante de uma carícia.
- Estranho, elas nunca reagiram assim antes... — Observou Shun. — Você realmente deve ser uma pessoa de bom coração, aprendiz de Libra. Mas precisamos realmente ir. — E imediatamente as fivelas obedeceram seu dono e arrumaram-se em trono da armadura.
- Shun, algum dia você vai me ensinar como amestrar essas correntes. — Falou o loiro, que se levantava sacudindo o pó da roupa. — Vamos indo. E quanto a você, aprendiz, trate de aprender a se virar, um cavaleiro deve saber se virar sozinho. — E dito isso, virou-se e seguiu seu caminho como se nada tivesse acontecido.
- Não fique triste. — Disse Shun ao notar a tristeza no rosto da garota. — Ele só queria ajudar. A vida aqui no Santuário pode ser bem difícil, tem que aprender a não depender dos outros. Mas ter amigos sempre é bom e é graças a eles que continuamos seguindo em frente.
Sara sorriu e reparou melhor no rapaz à sua frente. Era pouco mais alto que ela, tinha um físico delgado e um rosto de anjo. Por pouco não o confundiriam com uma garota, como acontecia com ela.
- Obrigado. Sua armadura é linda, sabia? — Comentou, olhando a cor rósea da mesma.
- É sim. Parece feita para uma mulher mas é uma das mais fortes. As correntes me protegem e me ajudam a evitar lutas inúteis. Gosto muito dela. — Sorriu de volta, guardando a peça na caixa. — Nos veremos de novo, Daniel. Quando quiser conversar é só nos procurar no templo da Deusa Athena ou nos campos de treino.
Despediram-se e a brasileira foi tomar café. Cuidou de Shion e de sua horta e ao terminar cogitou se deveria pichar a casa de Milo pra dar-lhe uma lição. Abanou a cabeça para afastar aqueles pensamentos que só trariam mais encrenca e tornou a posicionar a escada, subindo e finalizando a pintura do telhado. “Agora só faltam as paredes e as colunas”, pensou.
Nono dia (Segunda feira)
Sara andava nervosa. Faltavam poucos dias para o final do prazo e chovera todos os dias. Com isso, ela só pudera pintar as faces internas das paredes do templo. E o cheiro era tão forte que ela se viu obrigada a mandar Kiki dormir com Mu durante esse tempo, enquanto ela tinha que pernoitar à porta da casa. Acordava sempre molhada de chuva e não sabia como não ficara doente ainda. Sorriu quando o Sol voltou a brilhar e chamou seu hóspede de volta.
- Kiki, vamos treinar aquela sua levitação de pessoas?
- Oba. Quem vou levantar?
- Eu. Vai me levar até o alto das colunas para que eu possa passar tinta nelas, tá? — Perguntou ela sorrindo.
- Claro. — E começaram; a garota pintou tranqüila as primeiras três colunas e o menino sentia-se feliz, estava conseguindo controlar bem sua telecinese e ainda ajudar a amiga. Matinha-se concentrado para evitar que ela caísse mas algo o fez perder o controle, algo esse que subia pelas suas costas e causava-lhe cócegas. O ruivo começou a contorcer-se para procurar o que o incomodava e acabou achando uma aranha dentro da camisa! Olhou em volta e pôde ver cabelos cor de fogo sumindo pelas pilastras da casa de Escorpião. Tornou a olhar para cima e não encontrou a amiga lá. Desceu um pouco os orbes e deu de cara com a cena: Sara nos braços de Kamus segurando um pincel e uma lata de tinta na cabeça de Shura.
- Mon Dieu! O que significa isso, jovem Daniel? — Perguntou Aquário visivelmente irritado.
- Er... Eu estava... Pintando...
- Pois eu vou pintar essa sua cara de roxo, pebete! — Vociferou Capricórnio, o que fez com que a menina pulasse do colo do cavaleiro — do qual estava gostando bastante de estar, diga-se de passagem — e desatasse a correr escadarias acima. O cavaleiro seguiu em seu encalço, o rosto e os cabelos completamente brancos, arrancando risos dos colegas por onde passavam. Isso só serviu para irritá-lo ainda mais e apertar o passo.
- Está ficando velho cedo, Shura! — Disse Milo.
- Amigo, viu fantasma? — Ria Aioros.
Sara corria com toda a velocidade que seu treinamento lhe permitira e se martirizava por não ter se exercitado mais. Passaram quase voando pela casa de Peixes e já alcançavam o 13º templo quando o homem deu um salto e agarrou-lhe as pernas, fazendo-a cair e soltar o pincel no ar. E, para o cúmulo do azar, ele foi aterrissar no peito do Shion.
- O QUE SIGNIFICA ISSO? — Gritou irritado. A garota olhou-o assustada, prevendo prisão eterna no Cabo Sunion. Shura também parecia com medo mas do nada foi ficando vermelho. Seguindo seu olhar a menina viu dois homens atrás do Mestre que se contorciam de tanto rir. Não ficou surpresa quando Capricórnio explodiu em gargalhadas. — Moleque, você realmente está encrencado... — Disse com voz suave e cortante, fazendo o coração feminino apertar de pavor.
- Foi sem querer, eu juro! — Tentava se desculpar.
- Shion, por favor, não o condene. — Uma voz suave se fez ouvir atrás dele e Saori surgiu vestida de branco, segurando um báculo.
- Mas Athena, olhe o que ele fez! — Mostrando a sujeira da roupa e fazendo com que os homens rissem ainda mais.
- Seiya, Hyoga, parem de rir. — Ordenou a Deusa sorrindo; ela também estava tentando segurar as risadas. — Shura, por favor... — O cavaleiro respirou fundo e parou de rir. — Agora pode continuar, amigo.
- Humpf! — Bufou Áries. — Teve sorte, pirralho, seu castigo não será tão ruim dessa vez mas vai te manter ocupado e longe de encrencas por algum tempo. — Dito isso, retirou o manto negro que usava e atirou-o no rosto da menina. — Lave e deixe-o bem limpo. E durante essa semana vai lavar todas as minhas roupas. Quem sabe assim aprende a usar direito essas mãozinhas inúteis. — Finalizou com um sorriso sádico e cruel.
- As cuecas também? — Perguntou ela, tapando a boca no mesmo instante; tarde demais. Viu os cavaleiros de Bronze e o de Ouro ficarem azuis tentando segurar o riso, Athena virando o rosto rindo baixo e Shion com o rosto vermelho, quase apoplético.
- Aqui, amanhã... Às 18 horas... — Proferiu essas palavras como se as cuspisse, tal sua raiva. E foi embora.
A garota olhou desesperada para a Deusa, pedindo clemência mas ela apenas sorriu triste:
- Me desculpe, não posso interferir diretamente no treinamento dos aprendizes. Apenas interceder e moderar algumas decisões, como a que o Grande Mestre tomou agora. Não se preocupe, ele não lhe machucará, eu juro. Agora pode ir e cuidado para não se meter em uma nova encrenca. E Shura, não se atreva a levantar a mão contra ele. — Terminou, mudando o tom doce para frio e lançando um olhar gelado para o cavaleiro.
- Si, mía Diosa. — Respondeu o espanhol. Satisfeita, Saori tornou a entrar no templo acompanhada pelos dois homens. Assim que os perdeu de vista, o homem se levantou e colocou a morena de pé, puxando-a pelo colarinho da blusa. — Mas ainda me deve uma, niño. Já que bater não posso, vamos para minha casa! — E a arrastou escadas abaixo; Sara segurava fortemente a túnica do Grande Mestre para não perdê-la ou estaria encrencada.
Chegaram ao templo de Capricórnio e entraram. A decoração da sala tinha um gosto muito pessoal, havia móveis antigos e rebuscados como a mesa, o jogo de cadeiras, uma estante repleta de livros e um armário envidraçado cheio de peças de prata, um grande sofá creme mais moderno diante de uma mesinha de centro davam o toque final. A garota suspirou, lembrando das casas de Câncer e Gêmeos, que tinha tido a oportunidade de conhecer mais detalhadamente. Será que só ela vivia naquela pobreza?
- Mestre, que é que o Daniel faz aqui? — Perguntou Basílio surgindo de uma porta. — Por que está tão branco? Viu assombração?
- Não me irrite, moleque! Já me basta esse aqui. — Apontando a garota. — Lembra que nosso servo está doente? Pois eu arranjei um substituto. — Sorriu malévolo.
- Vocês têm servo? — Questionou a garota surpresa.
- Claro, todos os cavaleiros de ouro podem ter um ou mais empregados se quiserem. E, infelizmente, o meu está gripado hoje. Então pode começar!
- Começar o quê? — Sem entender.
- Vai limpar a sala, lavar a roupa que meu aluno porco acumula e não tem coragem de passar um sabão, fazer nosso jantar e preparar meu banho.
- Banho?
- Sim! Usando isso, enquanto faz suas tarefas. — Sumiu por um momento numa das portas e voltou com uma roupa preta e avental branco de empregada. — E ande logo! — Concluiu empurrando-a para o banheiro. Ela só teve tempo de deixar a túnica escondida num canto enquanto adentrava o recinto. Suspirando, olhou ao redor e se deparou com uma banheira grande e aparentemente confortável. Os azulejos brancos davam uma sensação de limpeza reconfortante e a julgar pelos objetos em número unitário, o aprendiz não deveria utilizar o local. Encontrou num pequeno armário sabonete líquido e sais perfumados, além de toalhas. Pegou a mais felpuda e encheu a tina de água, derramando um pouco do sabão e alguns grãos de sal. Em seguida, chamou pelo dono.
- Senhor Shura, está pronto.
- Ótimo! — Disse entrando e retirando a roupa displicente. A menina sentiu-se corar até o último fio de cabelo e fez menção de se retirar; porém uma voz forte a impediu. — Onde pensa que vai?
- O... O senhor não quer privacidade?
- Normalmente sim, mas agora vai me ajudar a tirar essa tinta dos meus cabelos. E por que não vestiu seu uniforme? — Perguntou com um sorriso sádico. Roxa de vergonha, Sara colocou a roupa por cima de própria. — Hum, ficou... Boa. — Elogiou o homem, estranhando ter servido tão perfeitamente. Os cabelos haviam se soltado ao passar a gola pela cabeça e emolduravam o rosto suave. “Ele consegue ser ainda mais delicado que o fresco do Afrodite”, pensou.
- E o que eu faço? — Questionou trêmula.
- Esfregue meus cabelos e costas. E cuidado para não arranhar. — Disse, entrando na água, sentando e se recostando na borda.
A brasileira respirou fundo e começou a friccionar a pele do cavaleiro com uma esponja; logo a água estava branca de tinta.
- Muito bom, pebete. — Falou relaxado. A menina evitava a todo custo olhar diretamente para ele pois podia encontrar algo muito constrangedor. De repente a porta do banheiro se abriu e Basílio entrou, dando de cara com a cena. — Quem te deu autorização para entrar?
- Desculpe. Milo encontra-se na sala e deseja falar-lhe. — Respondeu sem se importar com o tom agressivo de Shura.
- Porcaria de Escorpião intrometido. Pelo menos já acabei aqui. — Disse se levantando e revelando o corpo brilhante de água e sabão. A garota achou que enfartaria com a cena e fechou os olhos com força, enquanto entregava-lhe a toalha. O cavaleiro enrolou-se e saiu pingando para a sala.
- Hum, mestre... O Daniel pode me ajudar no banho também? — Perguntou o aprendiz.
- Claro, ele é nosso servo hoje.
Basílio mirou a garota e um sorriso malicioso surgiu em sua face ao vê-la trajando o uniforme de empregada.
- Venha. Meu banheiro é do outro lado. — Puxando a mão da morena e arrastando-a para fora. — Agora, prepare tudo que eu já volto. — E deixou-a arrumando mais um banho.
Sara estava muito brava, não bastava ter que fingir-se de homem e ver outros nus como ainda tinha que servir de escrava? Olhou para a porta ao ouvir um barulho e deu de cara com Basílio pelado, segurando suas roupas em uma das mãos. A morena trincou os dentes para abafar um grito de espanto. O rapaz notou sua perturbação e esboçou toda sua arrogância num sorriso:
- Gostou? Pode treinar quanto quiser, nunca vai ficar como eu.
- Espero mesmo. — Murmurou baixo.
O aprendiz entrou na água e recostou-se na borda. Novamente a garota esfregou as costas e os cabelos com capricho, fazendo-o relaxar.
- Até que para um serviçal você presta, Daniel. — Já bravo, a menina fez um movimento brusco arranhando a carne delicada do capricorniano. — Ei, cuidado!
- Desculpe... — Retorquiu irônica.
- Bravinho, hein?
- Ainda não te agradeci por ter me ajudado, Basílio... — Sussurrou ela.
- Fala daqueles dias terríveis limpando aquele chão imundo? Nem me lembre. Só o fiz porque aquele inglês maldito ameaçou contar pro Shura umas coisas. Mas não vem ao caso. Agora aqui na frente. — Apontou o torso forte.
- Nem pensar, faça sozinho. — Disse corada.
- Ah, não mesmo. Está aqui para atender meus desejos hoje.
- Não faço!
- Se não for por bem... — E num movimento brusco puxou a libriana para dentro d’água.
- Gasp! Basílio, que idéia foi essa? — Vociferou olhando-o de frente, toda molhada.
- Agora pode continuar seu trabalho. — Entregando-lhe a esponja. Mentalizando todos os palavrões que conhecia, Sara esfregou o peito do rapaz. — Desce, cara. — Ela baixou ainda mais o nível dos impropérios ao limpar a barriga do garoto.
- Não vai querer mais embaixo? — Perguntou sardônica.
- Não, esse eu mesmo faço. — Sorriu arrogante. Ela virou o rosto para não ver o que fazia. — Não me diga que não olha para si próprio quando se banha.
- E-eu... Quer saber, já chega! — Levantando-se e tentando sair da banheira. Uma mão forte a impediu.
- Opa, onde pensa que vai? — E puxou-a de volta, fazendo-a cair de bruços sobre si e prendendo-a com os braços.
- Me larga! — Se debatendo.
- Se você continuar a se esfregar, vamos ter problemas. — A garota lembrou no ato o que acontecera com Adonis e ficou quieta. — Sabe, antes eu achava que nossos colegas eram meio malucos. Mas Damien me contou sua reação no quarto dele e me deixou com dúvidas... — Sussurrou no ouvido dela, fazendo-a estremecer de medo e prazer. — Já disse para não se mover...
- É algum complô? Será que todos vocês resolveram atazanar minha vida? Deixem-me em paz! — Exclamou ela, tentando sair do abraço.
- Aqui não tem nenhuma mulher, vivemos rodeados por homens... Seria muito bom que uma garota bonita estivesse por perto. Poderíamos nos divertir bastante.
- Divertir? Como assim? E eu sou homem, já falei! — Perguntou olhando-o nos olhos. O aprendiz mirou fundo naquelas íris negras e imediatamente entendeu.
- Doncella.
- Hã?
- É virgem, não, florzinha? — Sorriu, acariciando o rosto da menina e fazendo-a corar. — Vou dar um jeito nisso. — E inclinou-se tentando beijá-la mas parou a meio caminho da outra boa com uma dor lancinante entre as pernas. A morena aplicara-lhe um golpe certeiro.
- Dê um jeito nisso agora! — Disse se levantando e olhando-o com nojo. — Enxugue-se sozinho! — Saindo da banheira e cuspindo no rosto do rapaz. — Cretino! — E dirigiu-se para a porta.
- Fique onde está ou vai se arrepender. — Ordenou Basílio com a voz um pouco mais fina que o normal.
- E quem vai me impedir? Você e essa voz de falsete? — Ironizou, virando-se e arregalando os olhos. Ele erguera-se e não tinha a menor vergonha de mostrar suas partes íntimas. Ela quis fechar as pálpebras porém controlou-se e encarou-o.
- Só queria te mostrar um truquezinho que aprendi com meu mestre... — Disse levantando o braço direito e baixando-o de vez. — Excallibur!
Sara sentiu uma pressão súbita no ar e algo cortar-lhe a carne; um filete de sangue escorreu de sua testa, manchando-lhe o rosto. E, para seu horror, a roupa de empregada partiu-se no meio juntamente com sua camisa. Algum milagre havia poupado as faixas dos seios e estes estavam escondidos. O aprendiz olhou-a sorridente.
- Hum, acho que maneirei na força... Essas ataduras horríveis continuam intactas. Vamos tentar de novo.
- Ei! Já não basta ter me ferido? — Apontando o corte. — Deixe minha proteção de treino em paz! — Exclamou protegendo o peito com os braços.
- Tire as mãos daí, florzinha, ou pode perdê-las... — Murmurou suavemente.
- Não se atreveria...
- Quer apostar? — Erguendo o braço novamente.
- AAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHH! — O grito dela foi tão alto e desesperado que assustou o aprendiz e deu tempo para que Shura aparecesse esbaforido no banheiro junto com Milo.
- Mas o que está acontecendo? — Olhou a garota e sua face fechou-se numa carranca. — Basílio, andou testando seu golpe nele?
- Sí. — Respondeu altivo.
- Pois trate de sumir das minhas vistas! Depois conversaremos... — Completou estreitando os olhos ameaçadoramente. O rapaz perdeu o orgulho por um momento e engoliu sem eco, tratando de sair dali o mais rápido possível.
- Credo, Bode, seu aluno sabe fazer um estrago quando quer. — Disse Milo vendo o estado da brasileira. — Está machucado, garoto?
- Não, obrigado pela ajuda... — Murmurou mais tranqüila.
- Irresponsable. — Vociferou o outro. — Ensino-lhe a técnica e ele usa-a contra um colega. — Aproximou-se da morena acompanhado do amigo e tocou-lhe a testa, fazendo-a corar. — E nem sabe fazer direito, feriu-o aqui. — Sorriu reconfortando a aluna. — Não é sério, vai melhorar.
- Hum, ele feriu-lhe aí? — Perguntou Milo, esticando a mão em direção aos braços da garota que continuavam protegendo os seios.
- Não! — Respondeu aflita, afastando-se um pouco.
- Tem certeza? Deixe-me ver... — Avançando um passo.
- Certeza absoluta! — Envolvendo mais o corpo num abraço. O Escorpião sorria, estava gostando daquele jogo e continuá-lo-ia até ganhar se não fosse a intervenção de Capricórnio.
- Milo, pare. Daniel, pode ir, está dispensado. — A menina agradeceu com a cabeça e sumiu o banheiro o mais rápido que podia. — Dio! Que pensa que fazia, hombre? Deve estar sentindo muita falta das suas servas para atacar um garoto.
- Já reparou como ele é delicado? Pequeno? E tão... Desprotegido? — Comentou sorrindo malicioso.
- Acho que os treinos têm afetado seus miolos, Escorpião. — Bufou o amigo. O homem limitou-se a manter o sorriso, imaginando o que haveria por baixo daqueles braços delgados.
Décimo sexto dia (Segunda feira)Sara começara a se preocupar seriamente. Toda a pintura fora prejudicada pelo incidente dos dias anteriores. Shion ficara tão revoltado que a fizera lavar pilhas gigantescas de roupas, deixando pouco tempo para seu treino. Mal se agüentava em pé quando ia ao ginásio de noite e só o fazia porque Kiki ia sempre a acompanhando.
Também descobrira o que fizera seu amiguinho se desconcentrar. Adoh simplesmente estava entediado e resolvera divertir-se às custas dos dois; só não imaginava que dois cavaleiros estariam passando pela casa no momento. Depois de uma discussão feia, ela o fez jurar que não faria de novo sob pena de Kamus saber em detalhes o que ele havia feito. O aprendiz concordou de imediato, o gênio do seu mestre não era muito chegado a brincadeiras de mau gosto.
Deu graças aos Céus quando o domingo chegou e finalmente pôde descansar, recuperando as forças para dar duro no dia seguinte.
Vigésimo primeiro dia (Sexta feira)
Agora sim tudo ia dar certo. As pilastras estavam pintadas, faltava pouco nas paredes. A semana havia sido deveras proveitosa e tranqüila, a não ser por um breve incidente...
A brasileira encontrava-se novamente no ginásio esperando os homens finalizarem seu treinamento. Sozinha, olhava embevecida as lutas entre os pares, do ponto mais alto da arquibancada. Quase caiu de onde estava ao ouvir uma voz ao seu lado:
- Gosta de ver os treinos, jovem Daniel? — Perguntou Afrodite, sorrindo e sentando-se ao seu lado. A brasileira sentiu as faces queimarem de vergonha e acenou afirmativamente com a cabeça. — O que foi, o gato comeu sua língua?
- Na-não! Só estava prestando atenção nas técnicas... — Mentiu deslavadamente, pois não era bem isso que olhava.
- Gostaria que meu aluno demonstrasse seu interesse. — Disse, sorrindo triste.
- Onde está Floriano?
- Ali, lutando contra Saga. — Apontou. — Pediu para ver como era combater alguém que não seu mestre mas eu sei que está é com vergonha de minha pessoa...
- Vergonha do senhor? — Indagou surpresa.
- Olhe para mim. — Foi obedecido e a brasileira sentiu-se nas nuvens, mirando um anjo de íris extremamente azuis e pele de porcelana. — Não é agressivo. Tampouco rude. Realmente não foi feito para a guerra e sim para a arte. Mas quis o destino que eu me tornasse um Cavaleiro, indo contra a maioria das previsões.
- Te julgavam só por parecer uma mulher? — Quis saber a menina, numa curiosidade incontrolável.
- Você é perspicaz, aprendiz. Sim, é exatamente assim. Ainda hoje sei que sou alvo de muitas piadas maldosas e só me respeitam porque conhecem minha força. — Respondeu trincando os dentes e anuviando a expressão carregada rápido. — Floriano parece carregar o mesmo destino que eu e por isso quer evitar a todo o custo estar comigo por perto na presença de outros. — Finalizou com uma sombra de mágoa no semblante.
- Ele ainda faz rosas azuis? — Peixes olhou-a surpreso mas confirmou. — Ele me contou... Era linda a que eu encontrei.
- E cruel... Se vir outra, deixe-a lá. Estamos treinando construí-las menos potentes porém é só ele se desconcentrar ou irritar que vai tudo por água abaixo. Sabe, se todos os aprendizes fossem bondosos como você aqui seria um lugar bem mais tranqüilo. — Falou sorrindo e bagunçando os cabelos da garota, que ria. — Agora tenho que ir, boa noite, Daniel. — E beijou-lhe delicadamente o rosto, partindo sem seguida.
Na arena uma cena se desenrolava, rumo a um fim nada animador. Saga já havia partido e deixado Floriano arrumando suas coisas; este ainda pudera ver a colega e o tutor conversando e o beijo que o homem dera. Uma voz jocosa pronunciou-se por trás dele:
- Hum, parece que o Afrodite conseguiu seduzir outro garotinho...
- Como é? — Perguntou o rapaz irritado e virando-se, encontrando dez cavaleiros de prata às suas costas.
- Hum, ficou com ciúmes? Não se preocupe, seu mestre tem MUITO amor para distribuir por aí... — Ironizou Argos.
- Não vou permitir que falem assim dele! Bem ou mal, ainda é meu mestre! — Retorquiu o aprendiz com os olhos injetados de sangue e espumando de ódio.
- E o que vai fazer?
- Isso! — E pulou sobre o cavaleiro, acertando um soco certeiro no rosto. Esticou a perna direita e atingiu outro homem ao seu lado, fazendo-o voar. Teria continuado a briga se o maior deles não o tivesse prendido com os braços e o erguido no ar, deixando-o impotente.
- Boa, Algethi! — Exclamou Misty. — Agora... Diversão. — Sorriu estralando os dedos, esmurrando o pobre rapaz e sendo imitado pelos colegas.
Sara olhava horrorizada o espetáculo. Quando viu a surra sendo aplicada a Floriano, pulou de onde estava e correu o mais rápido possível para fora, procurando ajuda. Como imaginou, Saga e Afrodite não estavam muito longe e escutaram seu chamado.
- O que foi, garoto? — Perguntou Gêmeos.
- O Floriano... Vão matá-lo! — Respondeu ofegando e apontando o ginásio.
- Essa não... — E Gustav correu esbaforido de volta, sendo acompanhado de perto pelo amigo. Chegou a tempo de ver o aluno ser jogado no chão e receber uma chuva de chutes. — EI! QUE PENSAM QUE ESTÃO FAZENDO?
Os homens pararam e olharam o cavaleiro, com expressões que variavam de medo a pura arrogância.
- Uma moça para proteger outra? — Indagou um ruivo, chamado Capella.
- Não o irrite, ele pode dar um chilique mortal. — Gracejou Misty.
- Desgraçados... Vão se arrepender disso! — Vociferou o cavaleiro, partindo para a briga.
- Merda! — Exclamou Saga, que se viu obrigado a entrar na disputa para tentar acalmar os ânimos.
Num minuto havia doze homens digladiando entre si, alguns sendo arremessados longe e atingindo os aparelhos, quebrando-os. Tomando o maior cuidado para não ser pisoteada Sara engatinhou até onde Floriano estava e o arrastou para longe. Chamou-o diversas vezes sem resposta. O rosto do rapaz era uma máscara de dor e agonia; sangue, cortes, ferimentos espalhavam-se pela pele alva. Sentiu que começaria a chorar e se controlou, não era o momento. Olhou os mestres de ouro e viu que apesar da força estavam em desvantagem numérica considerável e não demoraria para que entregassem os pontos. Acomodou o amigo o mais confortável possível e correu até as escadarias sagradas, gritando a plenos pulmões:
- AJUDEM! POR FAVOR, AJUDEM! BRIGA NO GINÁSIO!
Imediatamente todos os ocupantes das casas surgiram às portas, rumando para o local indicado; sem parar, a garota seguiu até o 13º templo e bateu com força na porta.
- SHION! MESTRE SHION! — Este apareceu em poucos segundos e olhou-a com uma carranca.
- Moleque, que audácia é essa de vir me incomodar?
- É que... Estão brigando... Afrodite e os cavaleiros de prata. — Explicou atabalhoadamente.
- Hum? Está bem, hoje passa. Vamos lá ver. — E acompanhou a aluna. Depararam-se com um campo de batalha ao adentrarem o recinto: cavaleiros de ouro versus cavaleiros de prata. Homens estendidos no chão, aparelhos destruídos, uma parte da arquibancada cedera. Num canto afastado os aprendizes tentavam reanimar Floriano; a morena foi fazer o mesmo. Possesso de ódio, Shion fez valer sua autoridade:
- CHEEEEEEEEEEEEGA! — Todos pararam imediatamente de brigar e olharam-no assustados. — Quem foi que começou isso? Quero nomes! AGORA!
- Foram eles, Shion. — Respondeu Gustav apontando os adversários.
- Está mentindo, não fizemos anda! — Exclamou Argos. Uma Babel de vozes acusatórias se elevou, impedindo que o verdadeiro culpado fosse identificado.
- QUIETOS! — Bradou o ariano. — Há alguém aqui que tenha presenciado o início dessa cena grotesca? — Involuntariamente os olhos de Saga recaíram sobre Sara, que estava com os garotos. O Grande Mestre acompanhou-o e suspirou. — Daniel, venha cá! — Escutando o chamado, a garota dirigiu-se para o homem e encarou-o. — Quem é o culpado?
Calada estava e calada ficou. O mutismo da jovem só serviu para irritar ainda mais Shion, que estreitou os olhos e ameaçou:
- Ou dessa vez você fala e fala a verdade ou volta para o Brasil agora!
- Os cavaleiros de prata provocaram o Floriano! Então chamei os mestres Saga e Afrodite para ajudar ele! — Cuspiu numa resposta desesperada.
- Bom garoto... — Sorriu sardônico. — Misty, recolha seus amigos e vão para seus alojamentos. Amanhã decido o castigo.
- Grande Mestre, vai acreditar nesse fedelho? — Perguntou Capella exasperado.
- Vou. Afinal, ele é um aprendiz de ouro. — Retorquiu arrogante. Os homens bufaram de raiva e Sara murchou de tristeza: lá estava novamente aquele sentimento de orgulho e superioridade emanando entre os Cavaleiros de Ouro frente aos de Prata. — Agora retirem-se! — Ordenou categórico sendo obedecido de pronto.
- Bom trabalho, Dan! — Elogiou Aldebaran afagando-lhe a cabeça.
- Va bene! — Congratulou Angelo, que sorria vendo os adversários afastarem-se derrotados.
- Floriano ainda está ferido... — Murmurou a garota correndo para perto dele. Os homens entreolharam-se e perceberam que ainda era cedo para comemorar. Circundaram os alunos que por sua vez cercavam o colega. Afrodite pediu passagem e ajoelhou-se ao lado do menino.
- Meu pupilo... Acorde. — Disse num sussurro, dando-lhe leves tapas no rosto. Ele porém não se mexeu e respirava com dificuldade. — Está desmaiado.
- Essas feridas parecem graves, Gustav. Temos que levá-lo ao médico. — Sugeriu Aioria.
- Não podemos. — Sentenciou Shion. — Athena ausentou-se por alguns dias e até lá temos que permanecer aqui.
- E não há médico no Santuário? — Perguntou Shan, visivelmente surpreso.
- Sim, mas este também não se encontra contactável no momento. — Respondeu o Mestre.
- ELE VAI MORRER ASSIM! — Gritou Peixes desesperado, vendo o rapaz ter um acesso de tosse e cuspir sangue.
- Amigo, tenha calma! — Pediu Shaka, tocando-lhe o ombro. — Eu sei como ajudá-lo mas vai ter que confiar em mim. Leve-o para casa e me aguarde lá.
O cavaleiro tomou o aluno nos braços e tomou rumo em direção ao templo, sendo seguido por todos. Adentraram a morada de Peixes e Afrodite depositou-o na cama, observando-o bem.
- Está muito pálido...
- Daniel, venha cá. — Chamou Virgem. — Você sabe o que fazer.
Sara olhou os homens à sua volta, os quais esperavam de si uma atitude drástica. Sem opção, ajoelhou-se ao lado do amigo e segurou-lhe a mão. Nada aconteceu.
- Que está fazendo, pebete? Se vai ajudar, ande logo. — Grunhiu Shura. A morena fitou Shaka, aflita.
- Dan, concentre-se. O que quer fazer? O que pode fazer? — Sorriu ele, incentivando-a.
- E-eu... Eu quero... — E sentiu a visão nublar, o peito se aquecer e a vontade de salvá-lo crescer em si. — Não quero que ele morra... — Falou distante, os olhos fora de foco. Os cavaleiros surpreenderam-se quando uma luz rosa envolveu Floriano, fechando a maioria de seus ferimentos. A garota levantou-se e virou o rosto para todos, uma expressão de ausência estampada nele.
- Fantástico... — Murmurou Milo impressionado. — Como consegue isso, Daniel? — Estranhou sua face e chamou de novo. — Daniel?
Ela piscou e pareceu acordar. Deu um sorriso fraco para Gustav e caiu sem sentidos no chão.
Vigésimo oitavo dia (Dois dias para o fim do prazo, sábado)
Sara andava bem mais tranqüila, agora que já tinha terminado a pintura o templo. Também, dera um duro danado para finalizar aquilo antes que o fim de semana chegasse. Prometera a Kiki que o levaria para um passeio por Athenas, junto com Shion. Intrigara-a o fato de nenhum Dourado questionar-lhe sobre seu poder. O incidente com os cavaleiros de prata também não fora mencionado por nenhum outro cavaleiro nem pelos guardas.
- O Grande Mestre deve ter tido um bocado de trabalho para abafar essa história, né Shion? — Disse a garota ao burrico que a espiava pela janela da cozinha, enquanto preparava o jantar. — Só queria saber porque eles têm que se odiar tanto... Homens, sempre brigando! Quer alface? — Dando uma folha ao animal, que a aceitou com prazer e zurrou um agradecimento. — É por isso que gosto tanto de você. Muito mais educado. — Sorriu. — Pena que nosso amiguinho só vai estar conosco amanhã. É o tempo de eu arrumar essa casa feia.
A garota iniciou uma faxina no local e estava tão distraída que não percebeu passos às suas costas. Só se deu conta que não estava sozinha quando uma sombra projetou-se sobre si e sentiu uma dor aguda na nuca fazendo tudo escurecer e perder os sentidos.
Acordou com a cabeça latejando, a visão se acostumando aos poucos com a luz fraca do lugar. Olhou em volta e viu apenas pedras. Tentou levantar-se e cordas arranharam-lhe a pele: estava presa, enrolada como em um casulo e deitada no chão.
- Onde estou...? — Perguntou zonza. Uma voz conhecida com um timbre cruel lhe respondeu:
- Longe do Santuário, criança.
- Argol? — Tentando focalizar a figura à sua frente. — E por que me trouxe aqui? E pra que essas cordas?
- Para que fique quietinho e não vá correndo contar ao Grande Mestre coisas que não deve. — Falou Misty no seu ouvido. A menina pulou e rolou de susto, não sentira sua presença.
- Sabe, o Santuário é um lugar onde segredos não se mantêm por muito tempo e tudo logo vira fofoca. — Comentou Capella surgindo ao lado de Argol. — Um passarinho nos contou que você foi incumbido pelo cavaleiro de Libra de reformar o templo e que se não cumprisse o prazo ele te deserdaria. Estou errado?
- Não. Mas eu cumpri o prazo! Fiz tudo certo. — Retorquiu a morena confiante.
- Sabemos disso! E, cá entre nós, ficou lindo... — Elogiou o Lagarto. — Só que, sabe como é... Acidentes acontecem.
A verdade caiu como bomba na cabeça de Sara. Eles haviam estragado tudo! Todo seu esforço, perdido! Não teve coragem de perguntar até onde eles tinham ido na destruição. Respirou pesadamente, tentando controlar as lágrimas que teimavam em vir.
- E por que me prenderam aqui?
- Ah, daqui a três dias Dohko vai nos visitar e queremos garantir que ele apreciará sua obra de arte. — Sorriu Auriga. — Até lá, esperamos que goze a companhia dos insetos... — E gargalhou, sendo acompanhado pelos demais.
- O que eu fiz...? — Indagou desesperada.
- Moleque! — Bufou Argol, segurando-a pelo colarinho e levantando-o à altura dos olhos. — Por sua causa fomos obrigados a quebrar pedras por uma semana, como meros escravos. E supervisionados pelos seus coleguinhas de ouro que fizeram questão de tornar esse castigo ainda mais desagradável... Agora, vamos ver o que todos vão achar dos recadinhos que deixamos para eles. — Soltou-a no chão e foi embora pelo corredor escuro. — Ah, e boa noite, jovem Daniel... Aprendiz de ouro! — Despediu-se, pronunciando as últimas palavras lentamente.
Assim que se viu sozinha, Sara deixou o choro fluir livre. Tudo acabado... Em questão de horas estaria num navio sujo rumo a sua pátria. Não que não quisesse; pensava muito no Brasil e na sua família porém nunca, em momento algum, considerou a hipótese de retornar sem ter conquistado a armadura sagrada. Será que o fato de mentir sobre ser uma garota era tão grave a ponto dos Deuses estarem castigando-a assim? E com esses pensamentos, entregou-se nos braços de Hypnos e Morfeu.
Vigésimo nono dia (Um dia para o fim do prazo, domingo)Ela acordou sobressaltada, ofegando. “Foi só um sonho”, pensou. Remexeu-se um pouco e descobriu com tristeza que era realidade. Fora seqüestrada e aprisionada numa caverna úmida e escura, longe das vistas de todos. Ficou deitada sem vontade alguma de reagir, esperando o tempo passar; porém uma pequena voz cutucou-lhe a mente: Vai desistir?
- E por que tenho que continuar? — Perguntou em voz alta.
Você sabe...- Não, eu não sei!
Quem vai dar aulas àquelas crianças?- O Santuário contratará outro professor.
Quem vai cuidar da horta que plantou com tanto carinho?- As plantas sabem se virar.
Quem vai alimentar Shion?— Ele é livre, pode ir quando quiser.
Quem vai colocar Kiki para dormir e embalar seu sono?- Ele vai se tornar um cavaleiro, não terá tempo para essas coisas.
Quem vai evitar que seu irmão e sua mãe sejam banidos de Ventura e seu nome jogado na lama?- Athena não terá coragem de fazer isso.
E quem vai cuidar de você?- Hã... — Dessa vez a garota engasgou. Não sabia a resposta para aquela pergunta.
O que foi? Algo a incomoda?- Quem vai cuidar de mim...
Sim, quem protegerá aquela menina com sonhos enormes e o coração que mal cabe no peito? Quem olhará para ela todos os dias de manhã e sorrir, dizendo que um novo dia começa e há muito o que fazer? Quem vai lhe dar ânimo quando deitar no chão cansada dos exercícios? E quem vai estender-lhe a mão quando cair?- Ninguém... — Disse chorando.
É isso que você pensa? É isso que você quer?- Não...
E o que você quer?- Quero ajudá-la... Quero a ver sorrir, chorar, gritar, amar, sofrer... Olhar em seus olhos e ver seu sonho se realizar... Eu... EU QUERO SER UM CAVALEIRO! — Bradou com toda a força dos pulmões. Sentiu então uma energia quente envolver-lhe o corpo e explodir, levando as cordas junto. Apesar de ser diferente do Toque da Vida essa força também a deixou enfraquecida, acabando por fazê-la dormir.
Despertou algumas horas depois com um hálito nada cheiroso em seu rosto. Sentou-se depressa e firmou a visão, dando de cara com seu burrico:
- SHION! — Riu de alegria, abraçando o amigo. — Me achou... Agora pode me tirar daqui?
O animal zurrou concordando e inclinou-se, permitindo que sua dona subisse no lombo; depois saiu carregando-a da caverna. Iam devagar e Sara percebeu que encontravam-se no bosque onde vira o amigo pela primeira vez. Isso significava que não havia sido afastada do Santuário. “Então talvez dê tempo...”, pensou esperançosa. Pela posição do Sol, constatou que já passava do meio dia e que a noite não tardaria a chegar. Alcançaram pouco depois o caminho que dava nas escadarias sagradas quando o burro estancou.
- Querido, pode continuar... — Ele não se moveu. A morena estranhou seu comportamento e olhou para os templos. Quase caiu de suas costas.
TODOS estavam pichados. De onde estavam podia visualizar perfeitamente as cores berrantes e os dizeres nada graciosos manchando as paredes alvas. Apertou um pouco os olhos e viu seu nome assinado embaixo de cada “obra de arte”. Sua casa sem dúvida era a pior, por motivos óbvios. E, apesar da situação desesperadora, a aprendiz não pôde deixar de rir do que havia nas casas de Milo e do Grande Mestre. Na primeira um desenho de um pequeno escorpião com a cara do cavaleiro sendo perseguido por uma galinha; na segunda, o ariano sentado num vaso sanitário com dois chifres enormes na cabeça.
- HAHAHAHA! Nem eu faria melhor... — Ela gargalhava ficando quase sem ar. — Tá, vamos ver. O que eu faria se fosse o Shion e visse a cara dele com chifres? — Perguntou-se olhando em volta. Notou alguns homens espalhados pelas escadas e armados com lanças e espadas. Pareciam à procura de algo ou... De alguém. — Ai, porcaria... Para a vila! Vamos! — Incitando a montaria que partiu a toda velocidade.
Conforme previra, o local estava cheio de guardas. Concentrados no centro de Aglaia, não perceberam a escola, o que fez com que a menina suspirasse de alívio. Tratou de soltar os cabelos e as faixas dos seios, procuravam um rapaz e sendo ela uma mulher e pouco conhecida, tinha mais chances de escapar. Passou pelos seus perseguidores com o coração aos pulos mas o rosto impassível e agradeceu aos Deuses por não terem percebido-a. Ouviu uma pequena conversa entre dois deles:
- Quando o Mestre pegar esse aprendiz, vai mandar chicotear suas costas até que só haja sangue.
- Ele estaria sendo bonzinho aí. Aposto que vai jogá-lo do penhasco.
A brasileira arrastou o amigo até a escolinha e preferiu esconder-se entre as árvores que a circundavam. Minutos depois Milo, Mu e Shaka apareceram lá.
- Aqui ele não está também. — Observou Virgem.
- Sorte dele! Quando eu o pegar... — Disse o Escorpião com um brilho assassino no olhar.
- Milo, quieto! Podem nos ver aqui e verem a escola. — Falou Mu, apreensivo.
- Ué, desde quando gosta desse lugar e dessa “homenagem”? — Perguntou apontando o que estava escrito na parede.
- Não concordo com o que está aí mas prometi manter aqui em segredo. Devo isso a ele depois daquilo. — Devolveu o ariano, zangando-se. — E ainda não acredito que o Daniel tenha feito os desenhos.
- Ah, qual é! Você sabe que está com raiva da gente e do Dohko.
- De nós? Acho que a carapuça não é destinada a nossas pessoas, amigo. — Sorriu o cavaleiro da sexta casa.
- Tá insinuando algo? — Indagou possesso.
- De forma alguma!
- Sem brigas aqui de novo. — Apartou Mu. — Agora vamos, não podemos nos demorar.
Sara esperou eles se afastarem imóvel; ainda pôde ver Shaka parar e dirigir o olhar para onde estava como se quisesse verificar sua presença ali. Deixou o ar sair lentamente dos alvéolos quando partiu. O pôr do Sol chegou e com isso uma escuridão intensa cobriu a vila. Aos poucos era iluminada por pequenos pontos de luz das velas dos moradores. Caminhando o mais silenciosamente que conseguia, a morena arrastava o burrico à procura de uma casinhola. Tão logo a achou, prendeu os cabelos, tornou a amarrar as faixas nos seios, bateu à porta e aguardou. Um homem já idoso atendeu:
- O que quer aqui a esta hora, meu jovem?
- Senhor, preciso de todo o estoque de tinta branca que tiver disponível!
- Mas agora? Está um breu aí fora, como pode querer pintar algo?
- Por favor! É um caso de vida ou morte. Nem tenho dinheiro nesse momento mas juro pela Deusa Athena que virei pagar amanhã! — Pediu desesperada se ajoelhando.
- Calma, meu jovem. — Disse o homem com um olhar bondoso. — Você me parece ser um rapaz responsável e honesto com um grande problema, estou certo? — Ela confirmou com a cabeça. — Então irei ajudá-lo. Não vai querer pincel também?
- Sim, sim! E um rolo de pintura.
- Pois então venha comigo. — Sorriu e levou-a até o armazém, onde ele e garota pegaram todas as latas de tinta que havia. Colocaram uma parte da carga em cestas amarradas a uma cela e as prenderam no lombo de Shion. As que restaram coube à garota carregar.
- Obrigado, muito obrigado senhor! Me salvou a vida.
- Não há de quê. Só não esqueça de vir pagar. — Falou de volta, entrando na casa.
- Vamos, amigo, é com a gente agora! — Disse avançando para a saída de Aglaia em direção ao Santuário. Subiram devagar pelo atalho estreito, parando a todo momento para se certificarem de que não eram perseguidos. Próximo ao templo de Libra, a garota decidiu aguardar e deixar a noite avançar mais um pouco.
Trigésimo dia (Meia noite, sete horas para o fim do prazo, segunda feira)Sem ter o que fazer, ficou olhando as paredes pichadas das casas e se deu conta de que, além de estragarem sua obra, ainda lhe roubaram a escada e sem ela não conseguiria alcançar as partes mais altas.
- Porcaria... Ai Shion, o que eu faço?
O burrico sacudiu a cabeça sem resposta. A garota deixou os pensamentos vagarem em busca de uma idéia até que algo lhe surgiu. Algo tão absurdo quanto fantástico. “Não custa tentar”, pensou. Pediu ao animal que ficasse em silêncio guardando as latas enquanto se dirigia ao 13º templo o mais rápido que podia. Circundou o local com cuidado para não topar com os guardas e descobriu uma janela aberta; sem hesitar, por ela entrou. Observando o cômodo parcamente iluminado, chegou à conclusão que estava numa cozinha e que pelos barulhos da porta devia dar no salão de reuniões do Grande Mestre. Saiu sorrateira do lugar e esgueirou-se pelas paredes escuras, escondendo-se atrás de uma pilastra quando se aproximou da mesa central. Nela, Shion estava reunido com os onze cavaleiros e Kanon. Parecia furioso:
- Quando eu botar minhas mãos naquele frangote, juro que não vai sobrar nada!
- Mestre! Controle-se, por Athena! Não sabemos se foi ele quem fez esses desenhos. — Ponderou Kamus.
- É, essas caricaturas tão... Representativas! — Disse Shura sorrindo, enquanto Máscara da Morte tentava esconder o riso a todo o custo. O ariano os olhou feio.
- Quietos! Não agüento mais. Estou morto, as buscas não deram em nada, aquele fedelho sumiu no ar. Nem vou botar ninguém vigiando as casas pois estão todos cansados. — Suspirou esfregando os olhos. — Alguém tem algo a relatar ou que queira compartilhar conosco antes de darmos a reunião por encerrada?
- Eu tenho. — Pediu Saga. — Shaka, aquilo que Daniel fez com o pupilo de Afrodite era realmente o Toque da Vida?
- Sim, meu amigo. Eu pessoalmente presenciei nossa Deusa utilizar esse poder nas batalhas pelas nossas casas.
- Interessante...
- O que tem de interessante, Saga? — Perguntou Aldebaran.
- Nada não. — Esboçando um sorriso quase imperceptível.
- Só acho estranho como um rapaz foi capaz de utilizar essa técnica. — Observou Shion. — Sempre ouvi dizer que era exclusivo das mulheres.
- É um garoto especial, Grande Mestre. — Sorriu Virgem. — Por isso gostaria que não fosse muito severo com ele.
- Não serei... — Finalizou com um sorriso indecifrável, que fez com que Sara tivesse arrepios na coluna. — Está terminada. Hora de dormir, amigos.
A morena viu todos se retirarem e aproveitou as despedias para alcançar o corredor, andando silenciosamente por ele. Havia diversas portas e por um momento sentiu-se perdida. Resolveu olhar uma por uma e na terceira encontrou o que procurava: um rapaz de cabelos esverdeados ressonando na cama e uma urna. Engatinhou até a caixa e colocou-a nas costas, pulando como um gato pela janela do quarto e sumindo na escuridão da noite.
Sara chegou correndo onde o burrico estava com as tintas. Colocou a urna no chão e abriu-a; imediatamente a armadura brilhou e as correntes atacaram-na, prendendo-a dos pés à cabeça.
- Ei, me soltem! — Protestou, tentando se livrar das amarras. Porém, por mais que se mexesse, mas apertadas ficavam. Por fim, parou de se debater e suspirou cansada. — Só quero sua ajuda! É urgente... — Pediu às duas pontas, que balançavam em frente ao seu rosto, como que a analisando. Elas pareceram considerar a questão e a menina sentiu a pressão afrouxar. Logo estava livre. — Obrigada!
Iniciaram um penoso trabalho de recuperação das fachadas dos templos. A brasileira pintava o mais depressa que conseguia com a ajuda do rolo, sendo elevada nas partes mais altas das paredes pelas correntes de Andrômeda; a própria ponta circular arriscava usar o pincel, adiantando o serviço.
Já passava das duas da manhã quando finalizaram em Libra. Suspirando de desalento, a menina seguiu com o burrico e suas novas aliadas para Áries.
- É, vamos varar a noite aqui... — E adentraram a madrugada com as pinturas.
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