Notas iniciais
Putzgrila, ficou enorme dessa vez. Quem manda me empolgar nos diálogos... Bom, obrigada a todos pelas reviews. Se acharem o final meio abrupto é porque ou eu parava ou o capítulo ia seguir sem fim. Aí dei um stop pra começar outro. Divirtam-se.

Saint Seiya não é meu, é do Kurumada. Sortudo! =D

Estava nas terras áridas de sua pátria. Corria brincando atrás do irmão até que este tropeçou e caiu. Aproximou-se preocupada e sacudiu-o com força. Daniel acordou de supetão e pegou-a pelos ombros, dando-lhe tapas no rosto e gritando “Acorde, acorde”.

Abriu os olhos assustada, as faces queimando de dor. Olhou para frente e encontrou um Milo extremamente irritado:

- Acordou, pivete? Maravilha... Então vamos! — Disse colocando-a de pé.

Sara firmou a visão olhando em volta e para si mesma. Estava aos pés do 13º templo e suja até os cabelos de tinta branca, tendo as correntes de Andrômeda amarradas ao redor dos braços. Shion provavelmente estava pastando pois nem sinal dele havia. Observou as paredes e alegrou-se percebendo que conseguira cobrir a caricatura do Grande Mestre.

- Aonde vai me levar? — Perguntou ainda zonza.

- Para o inferno... — Respondeu — Guardas, prendam-no. — De súbito inúmeros homens surgiram e ela teve seus braços presos às costas. — Agora ande! — Ordenou o Escorpião, estendendo a mão para sua blusa, com a intenção de levá-lo arrastado. Entretanto as correntes, as quais permitiram que a menina fosse amarrada, colocaram-se entre os dois, impedindo o contato. O homem estreitou os olhos perigosamente mas elas não se mexeram; bufando de ódio, caminhou para dentro da casa fazendo sinal para que fosse seguido.

A morena caminhou devagar tendo às costas os vigias do Santuário que pareciam se divertir com sua situação; pararam somente ao entrar no salão principal e virem-se diante do trono da Deusa Athena, no qual o Mestre estava sentado. Formando um corredor estavam os onze cavaleiros de ouro, Kanon e os de bronze; os aprendizes estavam mais afastados junto com Kiki. Sara foi obrigada a ajoelhar-se e ficou admirando o chão.

- Bom dia, aprendiz. Dormiu bem? — Indagou com um sorriso de puro sarcasmo.

- Pouco, senhor. — Retorquiu, fazendo o homem ficar sério na mesma hora.

- CALADO! Só pode falar com permissão. Estamos aqui hoje para seu julgamento. — Ela assentiu, muda. — Sabe do que é acusado? — Sara abanou a cabeça. — Bom, deixe-me fazer uma breve listagem. Furto, mentira, provocar desordem, destruir propriedade alheia e ofender a autoridade máxima do Santuário depois de Athena, no caso, EU! Está correto? Fale!

- Nem tudo, senhor... — Disse num fio de voz.

- Hã? Repita e mais alto.

- Nem tudo!

- Ah é... — Falou sardônico. — E qual dessas acusações é verdadeira?

- A de mentira.

- SÓ essa? — Riu com gosto. — E o roubo da armadura de Andrômeda?

- É que... Era um empréstimo. — Arriscou.

- Oh, claro que era... Explique isso ao dono dela. — Apontou para Shun; este tinha um semblante irritado e muita mágoa no olhar.

- Por que fez isso Daniel?

- Desculpe... Eu precisei de ajuda.

- E por que não me pediu? Eu teria lhe oferecido auxílio...

- É sério? — Espantou-se.

- Claro. — Falou sorrindo de leve. A garota porém virou os olhos para o Grande Mestre e este mirava o jovem cavaleiro com uma expressão furiosa.

- Shun! Atrever-se-ia a isso?

- É... Mas Shion... — Gaguejou, sem saber o que fazer.

- Por isso eu não a pedi a você. Não poderia me ajudar mesmo que quisesse. — Respondeu triste.

- Agora que estamos razoavelmente entendidos, por favor, recolham as correntes desse ladrãozinho miserável. — Ordenou o Mestre com um gesto de mão. Os guardas aproximaram-se mas ao tentarem tocar nas hastes de ferros foram eletrocutados por uma forte energia. — Que está acontecendo, por Zeus!

- Acho que elas gostam de mim, senhor. — Sorriu a garota, irônica.

- Pirralho, não provoque... — Ameaçou Shion. — Andrômeda, dê um jeito nisso! — Antes que ele o fizesse, contudo, as pontas avançaram e enrolaram-se em seus punhos, puxando-o para perto da menina e fazendo-o ficar de joelhos, na altura dela.

- O que é isso, por que estão agindo assim com esse... Esse seqüestrador? — Questionou bravo.

- Desculpe, Shun... Não quis te magoar. — Pediu, os olhos marejados. O rapaz mirou atentamente as íris negras e por mais que tentasse só conseguia extrair dali culpa, arrependimento e medo; não havia a menos sombra de maldade ou perfidez. Isso fez com que as feições dele se suavizassem e toda a raiva sumisse.

- Eu desculpo sim. Agora calma, Daniel. — Sorriu limpando as lágrimas num gesto inconsciente.

- Cavaleiro de Athena! Compostura! — Exclamou Shion ao ver a cena. Shun corou ao perceber o que fazia e parou imediatamente, olhando em volta. Todos os seus colegas o observavam espantados, menos Milo, que tinha um ar divertido.

- Sinto muito, Mestre. — Desculpou-se. — Hora de voltar, amigas. — Pediu tocando as correntes, que dessa vez enroscaram-se em seus braços e foram acomodadas gentilmente na armadura trazida pelos sentinelas. — Gostaria de pedir que não castigue esse aprendiz, Mestre. Ele realmente errou mas minha armadura escolheu acompanhá-lo, então não tenho porque crucificá-lo.

- Se não quer isso, assim será. Mas antes de continuarmos, por que pegou a urna, pivete?

- As correntes me ajudaram a pintar as casas.

- Ah sim, as lindas caricaturas... — Esse comentário fez Máscara da Morte e Shura terem um ataque de risos. — Quietos! Pode me dizer então o que queria ao humilhar-me daquela forma? — Indagou estreitando os olhos.

- Mas não fui eu! Juro por Athena que não desenhei aquilo!

- Morda sua língua antes de proferir o nome de nossa Deusa, moleque irritante! — Vociferou. — Escapou da alegação de roubo mas ainda há muitas outras a serem consideradas. E não acredito que não tenha sido o autor dessa “infeliz” brincadeira.

Sara bufou. Estava realmente encrencada.

- Sou inocente!

- Então, quem seria o culpado? — A garota engasgou. Quando pensou em proferir os nomes dos autores, lembrou-se das palavras de Argol: “por sua causa fomos obrigados a quebrar pedras por uma semana, como meros escravos. E supervisionados pelos seus coleguinhas de ouro que fizeram questão de tornar esse castigo ainda mais desagradável...” Não queria que a história se repetisse; por ela, assumiria sem pestanejar aqueles atos. Porém Shion provavelmente estava preparando algo terrível como punição que devia incluir algo mais além de sua provável volta ao Brasil.

- Não posso dizer... — Sussurrou.

- Por que eu não estou surpreso com isso? Então só me resta admitir que seja o responsável. — Sorriu com um prazer sádico.

- Grande Mestre, Daniel afirma categoricamente sua inocência. Não deveria dar-lhe uma chance para provar isso? — Pediu Afrodite, surpreendendo a todos.

- Está do lado dele, Peixes? Pois bem, imaginemos que não tenha culpa. Só que ainda sim ele está acobertando os responsáveis e isso é tão inaceitável quanto ser o cabeça dessa tramóia! — Exclamou furioso. — Se puder pelo menos provar que é só um comparsa serei mais tolerante no meu julgamento.

O cavaleiro ficou pensando, sem saber como agir para salvar o rapaz. Foi quando uma voz se manifestou:

- Senhores, creio que haja uma maneira. — Sugeriu Francis, um pouco temeroso mas confiante.

- Aprendiz, não tem autorização para se meter.

- Mas...

- Sem MAS! — Ordenou Shion.

- Mestre, por favor, ouça o que temos a dizer. — Implorou Kiki, indo até o trono e ajoelhando-se na sua frente. Ele olhou o garoto ameaçadoramente porém deu um suspiro derrotado e acenou para que continuasse. — Há na casa de Libra uma balança que Dohko deixou para ajudar o Daniel quando sentisse dúvidas. Vou buscá-la. — O menino sumiu e apareceu segundos depois segurando um objeto dourado que parecia ser pesado para ele. — Aqui está. — Entregando ao Mestre e voltando para perto dos aprendizes.

- Hum, interessante... Tragam o moleque aqui! — Os guardas seguraram-na pelos cotovelos e arrastaram-na até lá. — Soltem-na. Agora vamos ver o que está escondendo. — Estendendo a balança para Sara que aceitou receosa. — Primeiro, a dúvida que não quer calar: pintou aquelas figuras horríveis no Santuário?

- NÃO! — O prato não se moveu e Shion bufou de desagrado.

- Mas sabe quem fez!

- Sei. — Novamente a balança não se mexeu.

- E vai falar?

- Não posso... — Gemeu, com o objeto imóvel nas mãos.

- Pois pra mim chega! Realmente não há dúvidas de que não é culpado só que está encobrindo os autores. Sendo assim, não me resta outra escolha a não ser... — Foi bruscamente interrompido pela voz trêmula e apavorada da garota.

- Es-espere! Eu quero falar com Athena! Para ela eu posso revelar tudo!

- Pivete, Saori não se encontra no Santuário, ela não pode te ajudar. — Falou Máscara da Morte.

- Se isso é um julgamento, eu exijo meu direito de me explicar para nossa Deusa! — Vociferou a brasileira, o semblante assustado modificado para uma máscara de fúria. — Não sofri tudo aquilo à toa... Vai me negar isso, Grande Mestre? — Encarou-o firme; o homem vacilou um instante antes de responder.

- Esse é um desejo o qual não posso recusar. Falará com Athena, aprendiz, daqui a três dias, quando retornar. Mas, por hora, estará trancafiado na cela da prisão do Santuário.

- Dohko disse que hoje era o prazo final para ele decidir se continuo ou não meu treinamento. Não posso me ausentar tanto tempo assim. — Afirmou incrédula.

- Não se preocupe, ele será informado de TUDO! — Sorriu Áries cruelmente. — Agora levem esse traste e o coloquem no nosso catre mais confortável.

Os guardas riram com a ironia e apontaram as lanças para a morena, obrigando-a a seguir com eles. Sara deu uma última olhada no salão e encontrou Kiki; este estava chorando nos braços de Ugo, que tentava acalmá-lo.

- Amigo, eu vou voltar, espere por mim... — Falou com uma voz tão doce que surpreendeu a todos; afinal, como um rapaz que estava sendo talhado para a guerra podia exprimir tamanha meiguice?

A tal prisão era com certeza um dos piores lugares que já tivera a oportunidade de pôr os olhos. Desceu uma escadaria comprida até chegar a um labirinto de corredores. Conforme os atravessava observava pequenas cavernas guardadas por grades e dentro das celas ora esqueletos ora homens em péssimo estado. Assustou-se quando viu um garoto pouco mais velho que ela, estava tão emagrecido que aprecia que a pele grudava diretamente nos ossos. Não teve chance de perguntar porque estava ali pois foi empurrada para um dos cubículos e amarrada pelos braços a pesadas correntes que desciam das paredes.

- Bom, o Mestre ordenou que sua estadia aqui fosse agradável... — Disse um dos guardas sorrindo cruelmente. Fez um sinal para os colegas que se aproximaram estalando os dedos. A garota em segundos sentiu o gosto de ferro do sangue na boca; a cada golpe parecia que ia perder os sentidos mas uma nova onde de dor a fazia permanecer acordada. Aquilo pareceu se perpetuar por horas até que seu corpo adormeceu por completo.

Uma voz chamava distante, sua mãe gritava o nome de seu irmão. Este porém estava a seu lado e foi quando Sara percebeu que era ela quem procuravam. Abriu os olhos devagar, ou melhor, tentou abrir; um deles estava tão inchado que as pálpebras simplesmente não queriam se separar.

- Daniel! Por favor, Daniel, acorde!

A menina focalizou a vista e imagens distorcidas começaram a aparecer, logo se transformando em três de seus colegas.

- Que... Que fazem aqui...? — Balbuciou debilmente.

- Por Athena,olhe seu estado! Como puderam te deixar assim, florzinha? — Perguntou Damien preocupado, tocando-lhe o rosto delicadamente.

- Agora não é hora para perguntas. Shan, vai ver se o Rickertt e o Adonis estão conseguindo segurar os guardas. E você me ajuda. — Ordenou Francis aos amigos. — Vamos tirar essas algemas. — Portando as chaves, as abriram rapidamente e depositaram a morena numa cama de palha.

- Até que foi fácil colocar aqueles caras pra dormir, hein? — Disse o aprendiz de Gêmeos entrando na cela.

- Está mais forte, soldado. Que treinamento tem tido? — Perguntou o alemão, chegando junto.

- Ah, segredo de est... — Parou a frase no meio chocado com o que via.

Sara tinha o rosto transfigurado; um olho estava tão roxo e edemaciado que mal se abria, múltiplos hematomas espalhavam-se pela face assim como pequenos cortes, seus lábios estavam tão inchados que pareciam uma massa disforme; havia ainda marcas arroxeadas pelos braços nus.

- Deuses... — Murmuraram em uníssono se aproximando.

- Onde está o Shan?

- Deixamos ele de vigia. — Respondeu o grego. — Inglês, o que pode fazer?

- Não muito mas dá pra aliviar a dor e cuidar pra que esses machucados não infeccionem. — Falou retirando de uma pequena maleta uma ampola e uma seringa. — Daniel, vou te dar um remédio para que se sinta melhor. — E aplicou uma injeção no braço ferido. Quando porém tentou puxar a camisa do colega para cima teve sua mão contida por dedos delicados mas não por isso menos firmes. Olhou para o seu dono e encontrou a morena o mirando assustada; fez um pequeno gesto de negativa com a cabeça e desfaleceu.

Não teve idéia de quanto tempo dormiu. Quando por fim abriu os orbes negros encontrou uma parede de pedras lisas e úmidas. Remexeu-se rolando para o lado ficando cara a cara com Damien; o francês ressonava tranqüilo sentado no chão e apoiado na cama e tinha a boca a poucos centímetros da sua. A menina corou intensamente com a cena e só não roçou os lábios com os do colega porque ainda sentia muita dor neles. Ficou admirando a pele branca quase translúcida, os fios antes escuros e agora dourados pelo Sol grego caindo displicentemente pela testa. Sorriu e uma fisgada na mucosa a trouxe de volta à realidade, gemendo de leve. Seu acompanhante acordou com o barulho e riu, alisando com doçura o rosto machucado; Sara sentiu-se vasculhada por aquelas safiras.

- Que bom que está respirando, florzinha... Não imagina o susto que nos deu.

- Como souberam...? — Perguntou fraca.

- Não sabíamos. Fugimos à noite para vir te ver e o inglês teve a brilhante idéia de trazer material médico.

- Hum? — Resmungou sem entender.

- Ele disse que ouviu o Shura comentando sobre como os guardas do Santuário eram “gentis” com os prisioneiros aqui. Aí veio preparado para o pior. Infelizmente, acertou na mosca. Merde!

- Dói... — Reclamou do carinho.

- Pardon. Durma agora, não vamos deixar mais ninguém encostar em você... — E sem dar chance para a garota fazer qualquer gesto aproximou-se e beijou-a de leve.

A brasileira corou intensamente e mesmo o desconforto que sentiu não foi suficiente para fazê-la recuar. Porém nesse momento a grade foi aberta com um estrondo e dois cavaleiros entraram. Ambos tinham expressões duras nas faces e um parecia que mataria alguém.

- Moleque! Que pensa que está fazendo? — Indagou Máscara da Morte.

- Nada mestre, só cuidando de meu colega. — Disse dando de ombros o que só fez enfurecer ainda mais o homem.

- Pois trate de ir embora, depois falaremos sobre isso, capiche?

- Sim, senhor. — Se levantando e deixando a prisioneira com seus algozes.

- Mask, pode me deixar a sós com ele? — Pediu Saga gentilmente.

- Ok. Vou aproveitar e informar ao meu aluno que certos “relacionamentos” não são bem vistos aqui...

Quando foram deixados a sós o geminiano avizinhou-se do catre onde a garota estava deitada e abaixou-se, ficando na altura de seus olhos.

- Hum, que estrago... — Mirando os machucados. — Realmente aqui é um lugar terrível, não acha jovem Daniel? — A menina limitou-se a assentir com a cabeça. — Sabe, já fui o Grande Mestre do Santuário. Isso aconteceu antes mesmo de você nascer. Eu tinha certos privilégios e um deles era o acesso exclusivo à biblioteca com os escritos secretos dos deuses. Já li praticamente tudo que tinha ali. E um dos pergaminhos falava algo sobre um Toque da Vida, um poder extraordinário que a Deusa Athena possui e concedeu a pessoas especiais.

Sara já estava estranhando aquela conversa, sem saber onde ele queria chegar. Achou melhor permanecer quieta e deixou-o continuar.

- Esse poder permite que quem o use eleve sua cosmo energia a um plano quase divino e ela é canalizada para outra pessoa, salvando-lhe a vida. Não é destrutivo e sim curativo. E ainda por cima muito difícil de ser despertado. Apenas aqueles que desejam mais o bem do próximo que o seu próprio o conseguem. E quer saber o mais divertido sobre esse dom? Só mulheres podem usá-lo! — Terminou encarando-a com os olhos azuis afiados, uma águia pronta para atacar.

A morena vacilou, trincando os dentes. Os orbes negros encheram-se de lágrimas e foi a muito custo que não chorou. Apenas olhava e olhava o cavaleiro à sua frente que esperava uma retórica mas nada conseguiu falar.

- Ah, Daniel, que é isso. Vai me dizer que não está surpreso? Afinal, é um milagre que um “rapaz” consiga utilizá-lo. — Disse fazendo aspas com os dedos, um sorriso debochado no rosto.

- E-eu sou homem... — Conseguiu pronunciar por fim. Aquilo pareceu tão sincero quanto dizer que um elefante voava.

- Hum, certo, certo. Não se importa se eu verificar não? — E antes que ela pudesse interferir teve os pulsos presos por uma mão poderosa enquanto outra se avizinhava por entre suas calças. Sara estremeceu sentindo os dedos calejados tocarem sua parte mais íntima. Olhou o homem e viu que este tinha um semblante, ao invés de triunfante com a descoberta, chocado de surpresa.

Saga não acreditava. A pele macia, lisa, sem pêlos. Não era uma mulher, era uma menina. Uma pobre criança perdida em meio a guerreiros, alguns tão perigosos quanto sádicos. E ela vinha agüentando as piores humilhações calada. Mirou as íris enegrecidas e notou o medo ali aumentando rapidamente.

- Calma, Daniel não se preocupe. Prometo manter segredo. — Falou libertando-a. Ela porém se encolheu mais e chorou. Um choro há muito contido, de desespero, mágoa e saudades. Grossas lágrimas se desprendiam daqueles olhos antes tão cheios de alegria. O geminiano não conseguia deixar de se sentir penalizado pela cena; agora entendia a fixação do aluno pela colega. Além de ter percebido o fato dela ser mulher era capaz de despertar em qualquer um o sentimento de proteção. Suspirou, sem enxergar outra saída a não ser... — Desculpe, você vai sofrer menos assim. — Colocou o dedo na testa machucada e murmurou de leve. — Satã Imperial.

Sara sentiu a mente escurecer e perdeu a consciência. O cavaleiro limpou delicadamente as lágrimas das bochechas rosadas e beijou-a suavemente.

- Quando acordar só lembrará do momento que estava tendo com Damien. Cuidarei para que continue a ser um garoto até que esteja pronta para revelar esse mistério. — Finalizou levantando e saindo da cela.

A reclusão durou mais dois dias ainda. Nesse meio tempo a morena teve companhia dos outros aprendizes que garantiam sua segurança. Nenhum outro cavaleiro surgiu para visitá-la, o que só fazia aumentar-lhe o receio de Dohko tivesse desistido de tê-la como aluna. E foi com estes pensamentos na cabeça que foi conduzida na manhã do quarto dia para o templo de Athena. Encontrou o salão ocupado pelos cavaleiros de ouro, prata e bronze e ao passar por Argol e seus amigos percebeu nitidamente o pavor em seus olhares. Encaminhou-se até defronte o trono da Deusa e ajoelhou-se, mantendo a cabeça baixa. Um minuto depois Saori entrou e tomou seu lugar de direito.

- Daniel, olhe para mim. — A garota levantou a vista e encarou os orbes anis, estranhando a expressão de choque e repulsa que tomava conta da face sagrada. — SHION! Quem foi o responsável por isso? — Apontando para ela.

- Com certeza foi alguma briga que provocou. — Respondeu cinicamente.

- Aprendiz de Libra, quem o machucou dessa forma? Diga e ele será imediatamente castigado. — Sentenciou Athena.

- Hã... Minha Deusa, eu gostaria de conversar sobre isso em particular com a senhora. — Pediu timidamente.

- Não precisa ter medo, pode falar aqui sem problemas. — Sorriu a mulher.

- Mas eu gostaria muito que fosse privativo...

- Fale de uma vez, pivete! Não temos mais tempo para perder com suas infantilidades! — Exclamou o Mestre exasperado.

- Pois então prefiro voltar para onde estava! Athena, Grande Mestre, mestres de ouro, cavaleiros, colegas, até breve! — Despediu-se de todos com uma mesura e dirigiu-se para a saída, com a intenção de voltar à cela.

- Espere! — A voz doce e firme da Deusa irrompeu o silêncio que se instalara no salão, diante da atitude ousada da aprendiz. — Está bem, Daniel, será como deseja. Venha comigo e os demais esperem aqui.

Ambas entraram numa pequena sala reservada e permaneceram lá por bastante tempo. Do lado de fora, o caos se instalara.

- Não acredito no que aquele pirralho fez! — Comentou Hyoga.

- E conseguiu convencer Saori. — Disse Seiya, ainda espantado.

- É incrível, não? Meu mestre ficará surpreso como evoluiu. — Sorriu Shiryu.

- Ué, Dohko não veio? — Perguntou Shun.

- Até onde eu sei, não, Shun. Quando parti de Rozan ele ainda estava lá. E é estranho pois pelo que me contou há três dias expirou o prazo que deu ao garoto para provar seu valor.

- Ainda bem que não pôs os pés aqui. Ficaria muito decepcionado, meu amigo... — Suspirou Shion pesadoro.

- Decepcionado por que, Mestre? — Questionou Adonis se aproximando e sendo seguido pelos colegas.

- Ora aprendiz, seu amigo tem se mostrado um grande causador de problemas, não vê? — Intrometeu-se Milo, com um sorriso sarcástico e um quê de malícia na voz.

- Não é verdade! Daniel não é assim! — Exclamou Kiki irritado. — Quem o provoca é você e o Máscara!

- Como é? Repete isso, tampinha! — Grunhiu o Escorpião, avançando.

- MILO! Não se atreva a encostar um dedo nele! — Sentenciou Mu às costas deles.

- E vai fazer o que, Áries? — Indagou Angelo, que avizinhava-se estalando as articulações das mãos. — Quer enfrentar nós dois? Afinal, seu pupilo também me ofendeu...

- Máscara, pare você também. Sabe que o que Kiki disse nada mais é do que a verdade! — Disse Aioros.

- De novo, Sagitário? Quer saber, estou farto de seus “conselhos”. Athena devia ter te deixado morto!

- Não fale assim de meu mestre! — Interrompeu Rickertt, os olhos injetados de fúria.

- E vai fazer o que, ragazzo? Me bater? Você pode tentar se quiser... — Fechando os punhos e posicionando-se.

- Ih, é agora que o caranguejo vai ver o que é bom! — Ironizou Adonis.

- Máscara! Por Budah, o que está havendo com vocês? — Exclamou Shaka, horrorizado.

- Quem pediu sua opinião, Virgem? Esses pirralhos andam muito abusados, alguém aqui tem que mostrar quem manda. — Rebateu o canceriano, olhando de esguelha para Shion.

- Não gostei da insinuação, cavaleiro...

- Se a carapuça serviu... — Comentou sardônico.

- Como se atreve a me destratar assim? Lembre-se que sou o Mestre desse Santuário e me deve obediência e respeito! — Gritou o homem furioso.

- Respeito... Até parece... — Cochichou Argol para os colegas que começaram a rir, atraindo a atenção dos outros protetores de Athena.

- O que é tão engraçado, hombre? — Perguntou Shura.

- Só estamos comentando como seus alunos os veneram. — Retorquiu Misty, irônico. — Vocês os controlam tããão bem.

- Está sugerindo algo que não sabemos?

- Hum, sim! Quer ver? O pingüim ali. — Apontou Kamus, que estreitou ameaçadoramente os olhos. — Ele não sabe que seu aprendiz à noite ataca a sua adega particular. Já o vimos bebendo bem quietinho. Os aprendizes dos traidores fogem para espiar o acampamento das Amazonas. — Referindo-se a Kanon e Saga. — Ou ainda, que o judeu adora aproveitar o tempo livre para fazer apostas. Shaka, que feio, não consegue ensinar a seu pupilo como se livrar dos terríveis hábitos. — Finalizou Argol, provocando gargalhadas nos cavaleiros de prata e expressões furiosas nos de ouro.

- Parem de contar mentiras, seus infiéis! — Vociferou Afrodite. — Já não basta o castigo que receberam, querem outro?

- Mas não fizemos anda. — Disse Capella cinicamente. — Seu aluninho quem começou.

- NÃO É VERDADE! — Gritou Floriano possesso. — Mestre, o senhor acredita em mim, não é?

- Claro que sim.

- Ah, então pergunte a esse rapaz por que achamos rosas despedaçadas perto da arena.

O menino ficou branco, depois azul e por fim roxo de vergonha. Já Peixes não acreditava no que tinha acabado de ouvir.

- Floriano... Não... Você está treinando direitinho como eu mandei não é? Ou...

- Desculpe... — Murmurou o rapaz. Foi o suficiente para o cavaleiro cair de joelho aos prantos. Babel sorriu e resolveu pôr mais lenha na fogueira:

- Não sei se o Máscara vai se importar com isso, mas o francesinho adora seduzir as criadas deste templo. E devo concordar que é muito bom no que faz. — Angelo fechou a cara e olhou assustador para o pupilo que se limitou a fingir que não era com ele. — Os dois orientais aí de vez em quando afanam umas coisas lá do refeitório, sempre os encontro comendo algo escondidos. Esqueci de alguém? — Perguntou a Dante.

- Hum, sim. Carneiro. — Referindo-se a Mu. — Seu aluno anda indo a lugares bem reservados fazer certas coisas sozinho... O esquisito é que ele de vez em quando geme o nome de um rapaz! O alemão adora provocar os outros aprendizes do Santuário para testar suas forças. E Shura, contenha esse pivete que tem em casa. Sabe qual a diversão dele? Usar a Excalibur nas aprendizes de Amazonas. Não sei como não tirou a máscara de alguma delas mas a maioria está ficando sem roupas usáveis.

A esta altura, a cizânia estava formada. Kamus ralhava severamente com Adoh, cuja cor das bochechas rivalizava com a dos cabelos. O mesmo acontecia com Adonis e Alexius, que recebiam uma bronca dos gêmeos. Shan e Yuri ouviam toda a lamentação de Aldebaran e Aioria e tentavam se explicar, dizendo que apenas não gostavam da comida dos mestres. Shaka prometia a Enos deixá-lo de jejum por um mês se soubesse que ele fora a jogatina uma vez mais. Floriano tentava se desculpar com Afrodite, o qual só fazia chorar e perguntar aos deuses porque o castigavam daquela forma. Mu não tinha coragem de brigar com Ugo e o aluno tinha virado uma estátua de vergonha. Aioros começou um longo discurso sobre o porquê de evitarem-se brigas desnecessárias e Shura olhava Basílio com desprezo enquanto ele ajoelhava-se pedindo clemência. Por fim Máscara da Morte chacoalhava Damien pelo colarinho, gritando sem parar.

Apesar de espantado, Milo permanecia sereno, seu aluno, por mais almofadinha que fosse, era o único não citado pelos cavaleiros de prata.

- É rapaz, pelo menos um aluno certinho tem lá suas vantagens. Ou há algo dele que eu não saiba?

- Não, esse inglês sempre anda na linha, nunca o vimos fazer nada demais. — Disse Misty tranqüilo. O Escorpião abriu um sorriso de vitória que sucumbiu rapidamente quando o Lagarto continuou. — A menos que você considere que falar mal de um mentor sem parar durante os treinos seja algo de ruim.

- Como é que é?

- Ah, tem que ver os elogios que ele faz a sua pessoa. Sua delicadeza de elefante, seus hábitos de porco, sua capacidade ímpar de desorganização... — Imitando o menino. Logo havia outro aluno sendo sacudido pelo mestre.

Seiya e seus amigos olhavam embasbacados a cena, ao lado de Shion, que balançava a cabeça de desgosto.

- Grande Mestre, não vai parar com isso? — Perguntou Shun

- Eu? Por que deveria? Essas crianças inconseqüentes estão recebendo o castigo por seus erros. Se me intrometer agora estarei tirando a autoridade de seus tutores e será o fim.

- Engraçado, não citaram o Daniel. — Comentou Shiryu.

- Porque desse sabemos todos os erros! — Grunhiu Áries.

- Sei não... É estranho. — Insistiu o Dragão.

- Concordo contigo, meu rapaz. — Ouviram uma voz atrás de si e deram de cara com Dohko, que tinha uma expressão triste.

- Mestre! Que bom que o senhor veio! Já estava preocupado, cheguei há três dias mas não consegui encontrá-lo. Pensei que viria ver o resultado do treino de Daniel.

- E eu vim. Um dia antes do prazo. E depois do que vi, só tenho uma decisão a tomar. — Proferiu enigmático. — Agora com licença. — Se dirigindo até a sala onde estava Athena e entrando, fechando a porta atrás de si.

Os minutos correram devagar, os ânimos controlando-se aos poucos. Uma hora se passou e todos haviam se sentado no chão ou nas cadeiras dispersas no salão, aprendizes de um lado e professores do outro. Os cavaleiros de prata mantinham-se afastados, rindo e fazendo piadas entre si; já os de bronze preferiram permanecer calados. Shion meditava, ou seja, pensava em maneiras de castigar Sara pelo que supostamente havia feito. E Kiki andava de um lado para o outro, ansioso. De repente a porta se abriu e Saori saiu acompanhada da brasileira e do Libriano; a morena tinha a face completamente curada dos ferimentos.

- Meus defensores! Escutei o relato do jovem Daniel e também de Dohko sobre o que acabou de acontecer aqui. — Disse fuzilando os presentes com o olhar. — Quero dizer que estou muito decepcionada. Porém creio que saberão contornar esses problemas sem muitas dificuldades. Por fim, já sei quem foi o responsável pelas tais caricaturas.

- E quem foi? — Indagou o Grande Mestre.

- Antes, pode falar a eles qual foi seu pedido, Dan? — Perguntou gentilmente a Deusa.

- Que não houvesse castigos... — Falou hesitante.

- Este rapaz contou-me tudo, sem nada esconder. Eu então lhe concedi um desejo, qualquer que fosse. E o que ouvi em troca? Piedade. Sem mesquinhez, sem vingança. Apenas um pedido de clemência àqueles que lhe feriram. E isso inclui a ti, Shion! — Finalizou apontando-lhe com o báculo.

- O QUÊ? O que eu fiz?

- Vê esse rosto? Agora não há mais machucados mas antes era uma máscara de vergonha. Como pôde deixar que isso acontecesse aqui, neste Santuário que deveria pregar a paz entre os homens? Pois estou farta dessa sua perseguição para com este jovem. Dohko, por favor, pode dizer-lhe sua vontade?

- Como quiser, minha Deusa. Meu amigo, Daniel cumpriu a contento, apesar de todas as dificuldades, as tarefas que lhe impus. E nem assim você lhe deu crédito. Não sei o porquê dessa raiva porém queria que ela sumisse. Dei minha palavra que só voltaria para treinar meu pupilo aos oito meses e só se passaram pouco mais de três. Então pedi a Athena que encarecidamente lhe indicasse outro tutor. E ela escolheu a ti!

- COMO É? Querem que eu treine esse pivete?

- Não, não quero... EU ORDENO! — Proferiu Athena.

Notas finais

Beijos!