Notas iniciais
Saint Seiya não me pertence, sendo propriedade de Masami Kurumada e Toei Company Animation.

Jamiel, cordilheira do Himalaia. Um lugar inóspito onde a vida segue e se desenvolve com dificuldade. Pouco chove e a água existente provém do derretimento das geleiras das montanhas. Os humanos que conseguem viver lá formam comunidades tão pequenas que nem estão nos mapas oficiais do governo do Tibete. A comida é escassa, os animais adaptados para grandes altitudes, a vegetação em sua maioria rasteira ou pequenos arbustos. Um vento frio cortante e o ar rarefeito lembram a todos que se aventuram por lá o motivo de seu outro nome: Teto do Mundo.

Uma espécie de torre ergue-se imponente à beira de um penhasco, afastada de qualquer contato com pessoas. Quem pudesse admirá-la perceberia de imediato um detalhe: não havia portas no andar mais inferior. No último andar encontrava-se um homem de longos cabelos verdes e olhos violetas. Na testa havia dois pontos da mesma cor de suas íris. Trajava camisa e calça de tecido grosseiro porém resistente e tinha os punhos enfaixados por tiras de couro leve. Admirava distraído o horizonte à sua frente quando teve a atenção desviada por uma voz doce, quase feminina:

- Mestre! Já terminei as 500 flexões que o senhor mandou. O que faço agora? — Perguntou Sara, ao pé da torre.

“Jogue-se nesse abismo”, pensou Shion. Mas em vez disso respondeu:

- Faça mais 500 e depois corra até a ponte e volte por 100 vezes.

- Como quiser! — Disse a garota, obedecendo-o sem hesitar.

- Raios, como fui parar aqui? — Resmungou zangado, consciente que a menina não o ouviria. Fechou os olhos e rememorou a cena que culminara na sua estada forçada em Jamiel.

Flash back- COMO É? Querem que eu treine esse pivete?- Não, não quero... EU ORDENO! — Proferiu Athena.- Mas... Mas...- Sem MAS! Conversarei com todos aqui presentes sobre seus erros e atitudes e, conforme prometi a Daniel, não punirei ninguém, apenas aconselharei. E você, Shion, não é exceção.- Então por que quer me obrigar a treiná-lo?- Para que essa sua ridícula implicância pare. Ele é um garoto e você o Grande Mestre do Santuário. Contudo, age como se disputasse espaço como duas crianças! — Devolveu Saori bastante irritada. — Não é um castigo e sim a maneira que encontrei de atender ao pedido de Dohko e tentar fazer com que haja respeito entre vocês. Mais uma coisa, esse treinamento não ocorrerá aqui.- Onde então?- Escolhe o lugar que melhor lhe aprouver, menos a Grécia. Agora, quero que entrem comigo Floriano e Afrodite. Os demais serão chamados um a um mas podem ir cuidar de suas vidas por enquanto. — Disse a moça, encaminhando-se para a sala. Antes de entrar porém o aprendiz chegou perto da colega e sussurrou-lhe:- Contou sobre a rosa? — Ela fez que não e ele suspirou aliviado. A morena corou ao sentir a respiração quente em sua face e virou o rosto, constrangida.- Meu caro aluno, Athena nos espera, quer se apressar? — Chamou o mestre de Peixes com a voz dura. O rapaz acompanhou-o e eles sumiram pela porta.Os cavaleiros e alunos se dispersaram, só restando no salão Shion, Sara, Dohko e Kiki, que se recusara a sair de perto da menina.- Seu traidor, como pôde me jogar contra nossa Deusa? — Acusava o ariano desesperado.- Meu amigo, acalme-se. Não está vendo que é por atitudes como essa que ela ficou brava? E já foi dito, não é um castigo, queremos apenas que pare de perseguir meu pupilo.- Eu não o persigo! — Exclamou.- Ahã! — Fizeram a garota e o menino num uníssono de deboche. O homem a olhou furioso- Ora seu... — Avançando. Dohko o deteve.- Shion! Já chega, não adianta lutar contra uma ordem de Saori. Só te resta escolher onde vai treiná-lo. Tem que partir em dois dias.Ruminando de ódio, o Grande Mestre se retirou sem ao menos se despedir. Libra respirou fundo, tentando aplacar a tristeza.- É, eu sabia que ele não aceitaria muito bem.- E o que será de mim, mestre? — Perguntou a brasileira receosa.- Fique tranqüila, ele não vai te machucar. Não parece ultimamente mas meu amigo é uma das pessoas mais gentis daqui.- Ahã! — Repetiram a expressão jocosa.- E não faça mais isso, é extremamente desrespeitoso. — Censurou. — Estou orgulhoso de você, Daniel. — Sorriu em seguida, tranqüilizando a menina.- Mesmo? Por quê?- Você demonstrou sua força ao cumprir suas tarefas e provou seu caráter ao não denunciar os Cavaleiros de Prata. E falo isso pois seus motivos foram justos. Não tentou se aproveitar da situação. Há realmente muito ódio e rancor neste Santuário e estás lutando para que esses sentimentos sumam. Meus parabéns! — E abraçou-a apertado, deixando a aluna corada.Fim do Flash back

Sara sorriu lembrando-se da cena de antes. Finalmente conseguira a aprovação de seu mestre e o melhor, ele sentia orgulho dela. Nem os piores castigos de Shion poderiam fazê-la esmorecer agora.

Fazia uma semana que haviam chegado. O Grande Mestre decidira-se por Jamiel por esta ser a terra de treinamento de Mu, seu antigo pupilo. Kiki falara-lhe maravilhas sobre o local mas a realidade mostrara-se bem diferente. A princípio estranhou a torre sem portas e ficou ainda mais brava ao descobrir que só poderia entrar teleportando-se para o andar acima ou pulando para ele. Com sua altura pouco avantajada e seus conhecimentos nulos sobre telecinese, há sete dias dormia ao relento. Athena proibira Shion de causar-lhe danos físicos diretos e sem motivos e deixá-la morrer de fome, por isso nas refeições ele descia da casa e entregava-lhe um prato de comida. Sem poder entrar, estava sem tomar um banho decente e fedia horrores. E o pior de tudo era o frio. Sempre acostumada com os rigores do Sertão Nordestino ou ainda com o Sol grego, aquela paisagem gélida e o vento cortante faziam todos os seus nervos pinicarem a pele, como se agulhas finas fossem enfiadas pelos poros.

No momento encontrava-se em treinamento para o físico, conforme tinha dito o ariano. Shion avaliara-lhe a musculatura e só faltara cuspir no chão de raiva o perceber que força bruta não estava entre seus melhores atributos. Desde então praticava exercícios diários para tornar-se mais forte. Era algo mecânico e quase sem emoção, o que permitia que sua mente vagasse longe dali.

“Ainda bem que deu tempo de eu me despedir e distribuir algumas tarefas.”, pensava. Em suas lembranças havia os conselhos a Kiki para que cuidasse bem da horta, o pedido a Shaka e Mu para que continuassem a administrar as aulas para as crianças, o breve adeus aos colegas e as sinceras recomendações para eles se mantivessem firmes. Quase tivera o coração partido ao ver lágrimas nos olhos do amiguinho. Suspirando, terminou a série e sentou-se observando uma figura mais distante. Milagrosamente conseguira convencer o Grande Mestre a deixá-la levar o burrico junto consigo. Tinha o cuidado de não chamá-lo pelo nome e sim com assobios, que ele respondia de pronto. Olhou para o horizonte e viu o Sol se pôr. Mais um dia se findara e ainda não conseguira entrar na casa. Mas nessa noite iria conseguir, custasse o que custar.

O céu escureceu, tingindo-se de anis e aos poucos as estrelas pipocaram. Shion retirou-se de seu “posto de vigília” e deixou a garota ao léu outra vez. Era tudo o que Sara queria. Esperou até que todo o lugar silenciasse, arrastou o animal de estimação para perto da torre e posicionou-o próximo a ela, colocando a seu lado uma pedra baixa, tal um degrau. Afastou-se até uma distância que considerara razoável e correu. Correu a toda velocidade e com todas as forças que tinha; num segundo tinha alcançado o burro, pisando primeiro na pedra e depois em seu lombo e saltando o máximo que podia. Esticou os braços e foi grande felicidade que percebeu seus dedos agarrarem-se na borda da varanda mais baixa. Forçou-se um pouco e jogou o corpo para dentro, rindo. Foi então que escutou uma voz séria à sua frente:

- Vejo que conseguiu, pivete. — Observou Shion com desprezo.

- Finalmente...

- Gostaria de saber como um futuro cavaleiro só teve uma idéia dessas após tantos dias.

- Eu a tive antes mas tive que treinar muito, meu salto não é tão alto assim...

- Pff! Vá tomar um banho, você fede! — Resmungou, afastando-se.

A água nunca lhe pareceu tão maravilhosa. Esfregou-se com fúria, seu corpo ansiava por limpeza. Saiu do banheiro enxugando os cabelos e com um semblante tão feliz que o ariano não teve coragem de comentar.

- Agora vamos jantar, aprendiz. Ah, e como recompensa pelo seu feito, você vai preparar tudo hoje. — Falou com um sorriso de puro sarcasmo.

- O senhor manda, mestre! — Respondeu a aluna alegremente, indo para a cozinha. O homem limitou-se a suspirar e balançar desgostoso a cabeça, acompanhando-a.

- Hum, até que não é um mau cozinheiro.

- Com certeza sou melhor que o senhor. — Disse a brasileira sorrindo.

- Maneire suas palavras, garoto. Pode estar sob a proteção da Deusa mas ainda sou seu mestre aqui e posso te fazer passar maus bocados. — Retorquiu estreitando ameaçadoramente os olhos.

- Desculpe... — Murmurou constrangida.

- Vou dormir. Trate de arrumar tudo e aproveite para limpar esse lugar, está um nojo. Mu realmente não vem aqui há muito tempo. Quando terminar pode se recolher. — Dirigiu-se para a porta e parou no batente. — Acho que já posso ensinar-lhe um pouco de telecinese, não creio que vá ficar mais forte do que já é, pirralho. — E com uma risada retirou-se.

Sara sorriu, estava conseguindo dobrar aquele cavaleiro tão durão. Trabalhou até deixar a cozinha brilhando e encaminhou-se para seu quarto, cambaleando de sono. Ao passar pelo corredor, contudo, notou estar diante do quarto do cavaleiro e que este encontrava-se deitado, adormecido. Corou ao mirá-lo por inteiro, Shion usava apenas um calção azul escuro colado e nada o cobria. Não imaginava que por baixo do manto de Grande Mestre pudesse haver um corpo tão magnífico. A menina apertou as têmporas com força, idéias muito estranhas tomavam-lhe os pensamentos e não estava gostando nada delas. Percebeu então que o lençol havia caído e estava displicentemente jogado no chão. Sem pensar muito no que fazia, adentrou o recinto e pegou o pano, cobrindo-o parcialmente. Virou-se para ir embora quando uma forte pressão tomou conta de seu pulso.

Sentiu ser puxada e cair, com um leve baque, na cama do homem, bem ao seu lado, a boca dele a poucos centímetros da sua. Suas faces queimaram violentamente e ela parou de respirar, com medo de acordá-lo e piorar ainda mais sua situação. Shion dormia profundamente, parecia imerso em algum sonho pois tinha um sorriso nos lábios rosados. A morena tentou levantar-se e percebeu que ele a mantinha presa pela mão esquerda; com cuidado foi soltando-se dos dedos fortes, conseguindo seu intuito com certa rapidez. Preparava-se para sair correndo quando o cavaleiro remexeu-se e colocou o braço em torno de sua cintura, puxando-a de encontro ao peito. O contato entre as peles de seu rosto e do tórax dele foi o suficiente para fazê-la estremecer. Ouviu-o murmurar de leve seu nome:

- Daniel...

Mordeu os lábios, o que ele estaria sonhando?

- Moleque... Inútil...

Sara torceu o nariz com certa raiva, coisa boa não era.

- Perle... Fique...

Agora sim, era estranho. Quem seria Perle?

- Te amo...

Ela sorriu. Então era uma namorada? Onde estaria? Estava confabulando distraída quando algo pressionou sua nuca e com horror sentiu sua boca pressionada à dele. Começou como uma suave carícia e à medida que seu espanto crescia uma língua faminta penetrava-a, sugando com força a sua própria. Uma faísca percorreu-lhe o corpo, aquilo era muito gostoso, apesar de errado. Pensou ainda em empurrá-lo mas estava sem coragem. E se ele a culpasse? A acusasse injustamente? Não haveria desculpa que o convencesse do contrário. Respirou fundo quando o beijo terminou e seu mestre tornou a ficar quieto. Fez uma nova tentativa de se livrar daqueles membros de ferro, sem sucesso. Olhou para o rosto do cavaleiro e não conteve um sorriso ao observar o semblante tranqüilo. Ele ficava muito mais bonito quando não estava bravo. Adormeceu sem perceber, aconchegada em braços fortes e incrivelmente gentis.

Notas finais


Beijos!