Quero Ser Um Cavaleiro
6 Mentir é feio e traz problemas
Notas iniciais
Sara suspirou ao entrar no templo, o dia mal começara e ela já estava envolvida numa bela confusão. E agora ainda deveria esperar por um castigo, que pela cara do Grande Mestre seria terrível. Só estava feliz por finalmente conhecer o cavaleiro de Libra. E como era bonito! Aqueles olhos, aquele queixo másculo, o corpo malhado... Perdida em pensamentos nem percebeu a chegada de seu professor.
- Daniel. Daniel? DANIEL! — Dohko chamava-lhe gritando.
- AI! Sim, eu, aqui, desculpe! — Respondeu toda atrapalhada. Ele sorriu.
- Calma, calma, rapaz. Não se assuste. Muito prazer, sou Dohko. — Cumprimentou-a estendendo-lhe a mão.
- Prazer, Daniel. — Disse a garota apertando-a de volta.
- E então, caro aluno, o que sabe sobre artes marciais? — Perguntou o homem, sentando-se num sofá velho na sala. A brasileira ficou muda e ele arriscou outra questão. — E sobre o cosmo? — Nada de novo. — Você teve treinamento em seu país? — Já começando a se irritar.
Sara fez que sim com a cabeça mas a pequena balança que tinha em mãos tornou a inclinar-se acusando a mentira. “Porcaria”, pensou.
- Sabia que é muito feio mentir?
- Hã... Bem... É que... — Ela tentava encontrar uma explicação convincente. — É que nosso treinamento no Brasil é alternativo. — E ficou tensa ao notar que o pequenino prato pendia cada vez mais, quase encostando a base da balança. Dohko lançou-lhe um olhar terrível. — Tá certo, eu nunca treinei na vida! — O objeto tornou à posição de equilíbrio.
- Como podem me mandar um aprendiz que não sabe nada? Nenhuma técnica? — Ele olhou-a esperançoso mas obteve um não em resposta. Suspirou pesadamente. — O que disse a Shion?
- Que sabia lutar... — Respondeu num fiozinho de voz.
- Sua sorte é que a armadura de Libra o escolheu como seu legítimo sucessor, senão essa balança que segura nem sequer se moveria, não importa as barbaridades que dissesse. Só que agora tenho um problema. Eu esperava um aprendiz para treinar e não um bebê recém saído das fraldas.
- Eu não sou um bebê! — Disse ela exasperada.
- Tem razão, eles saberiam se defender melhor. — Retorquiu sarcástico. — Bom, lembra o que o Grande Mestre falou? “Um aprendiz que tem como símbolo a Justiça não deveria proferir inverdades.” E graças a isso ganhaste um castigo. Pois já que gosta de mentir, vou dar-lhe outro.
- Espere, mas eu...
- Sem mas! Se quiser se livrar disso só me responda mais uma coisa: tem algo ainda a esconder?
- Não! — E não conseguiu olhar a balança. Porém sabia que a mesma havia se mexido até o prato tocar em sua base.
- Mesmo com tudo o que lhe foi dito continua a esconder coisas. E deve ser um segredo e tanto, nunca vi a Justiça pender tanto para um lado. Saiba que só estará apto a possuir a Armadura quando essa pequena balança permanecer estática. Duvido que ela volte ao normal tão cedo ou mesmo até o fim de seu treinamento. Ficarei com ela e saberei o que anda aprontando. — Completou, andando até a garota e tomando-lhe o objeto das mãos. — Agora, vamos voltar ao templo de Athena.
Muda como uma porta Sara seguiu seu mestre até o grande salão, adentrando até um enorme espaço onde uma mesa comprida estava disposta em seu centro. Nela os 12 cavaleiros do dia anterior encontravam-se sentados, junto com a Deusa e o Grande Mestre. Este ficou surpreso ao vê-lo.
- Por que este retorno tão rápido? Achei que só viria à noite.
- Não estarei aqui quando a lua surgir. Vim apenas comunicar-lhes uma decisão minha. Meu aprendiz acaba de me decepcionar profundamente e por isso decidi que ele tem que aprender uma lição.
- Dohko! Mas o que o Dan fez? — Perguntou Aldebaran espantado.
- Isso é entre nós dois, Deba. Mas preciso que todos aqui saibam de seu castigo. — Virou-se então para Sara e disse, olhando-a duramente. — Durante os próximos oito meses terá que se virar sozinho. Vai conseguir seu próprio sustento, sua própria comida, suas roupas, tudo! Não quero saber como fará isso, só não tente por meios ilegais que a balança penderá cada vez que sair dos eixos. Não poderá freqüentar o refeitório para se alimentar com seus colegas. E só poderá aproximar-se deles quando lhe for permitido. Essa punição começará a partir de amanhã e se quando eu retornar o prato estiver inclinado mando-o de volta ao Brasil. FUI CLARO? — O cavaleiro de Libra parecia possesso. A menina assentiu rapidamente, sem coragem de falar. — Quanto a vocês, meus amigos, os proíbo de ajudarem-no gratuitamente, ele irá merecer cada migalha que ganhar. Saori, sei que está achando tudo isso muito severo mas é essa a minha vontade e a farei prevalecer.
A Deusa balançou a cabeça em aprovação; Dohko então fez uma reverência e deixou a sala arrastando seu discípulo. Shion suspirou:
- Eu sabia que havia algo de errado com aquele garoto. Ele parece problemático. Nunca vi meu amigo tão furioso.
- Mas ele me parece bem calmo, Mestre. — Ponderou Mu.
- E você mesmo nos disse que a Armadura de Libra o escolheu. Então, não há dúvidas quanto a sua legitimidade. — Acrescentou Kamus.
- Eu sei, mas aquela personalidade.... Há alguma coisa que não consigo identificar... — Duvidou Áries. — Bom, não importa. Com certeza depois do castigo que recebeu vai se tornar uma pessoa melhor.
- Pobre criança... — Murmurou Afrodite, com pena.
Na casa de Libra a situação ainda se mantinha tensa.
- Vai obedecer sim! Eu sou seu mestre e quer queira ou não, cumprirá minhas ordens! — Exclamou Dohko pondo um ponto final na discussão que tinha se iniciado nas escadarias. Sara bufou de raiva mas não teve outro remédio senão aceitar. — Já que não há mais nada o que fazer aqui, eu vou partir. Ouviu o que disse lá em cima, não é? Àquilo acrescento mais três condições: meu templo deverá estar brilhando quando voltar; sua condição física deverá estar mais preparada; e sua cosmo energia deverá estar acesa. Quebre alguma dessas regras e não haverá segunda chance.
Ia partir sem se despedir quando subitamente se parou e avançou para uma pequena cômoda encostada na parede da sala. Sobre ela depositou uma balança semelhante àquela que fora entregue a Sara, só que num tamanho maior.
- Essa balança é como a que a armadura lhe deu. Irá pender sempre que proceder de maneira desapropriada. Isso lhe ajudará a saber os caminhos a seguir. — Disse, voltando-se para a morena, com os olhos tristes. — Não me desaponte de novo. — E assim, se foi.
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