Quero Ser Um Cavaleiro
7 Sobrevivendo
Notas iniciais
Sara deixou-se escorregar por uma parede, sentando-se desajeitadamente no chão frio.
- Como fui me meter nessa? Não acredito que estraguei tudo! — Disse socando o chão com força. — Mas se eu contasse a ele a verdade aí que eu estaria perdida. — Instintivamente mirou a balança e notou que ela não se mexera. Realmente, falara a verdade. E deixou-se ficar no piso gelado, pensando horas a fio como poderia fazer para conseguir comida e dinheiro. E a cada momento uma grande tristeza e saudade invadiam-lhe o coração, fazendo com que lágrimas chegassem aos olhos. Chorou copiosamente, querendo mais do que nunca estar com a mãe naquela terra sem perspectivas, só que segura e tranqüila. Que o irmão ficasse na Grécia com um monte de garotos baderneiros e nada confiáveis, com Grandes Mestres desconfiados e Cavaleiros de Libra perversos.
Nem percebeu que a noite chegara e que seria bom ir ao refeitório comer algo uma vez antes do castigo começar. Levantou-se e seguiu cambaleando até o galpão. Notou que dessa vez estava quase deserto e gostou disso. Sentia-se um monstro, estava suja, os cabelos desgrenhados e olhos inchados pelo choro. Tomou uma sopa rala com pão seco, sem olhar para os lados. Assim que terminou, saiu correndo dali, não queria ter o desprazer de encontrar seus colegas. Voltava cabisbaixa pelo caminho sinuoso quando uma enorme sombra surgiu à sua frente. Rickertt se aproximou marchando e Sara se preparou para o pior:
- O que quer?
- Pedir desculpas. — Disse o rapaz batendo continência. — Achei-o fraco mas demonstrou ser muito corajoso, soldado. Tem meu respeito a partir de agora.
- Obrigado, fico feliz com isso... — Ela sorriu triste, estaria isolada por seis meses, ia ser difícil. — Ah, e seu nariz, o machuquei muito?
- Não, não foi nada. Um golpe de sorte. Bem aplicado por sinal. — E ele riu, revelando uma fileira de dentes muito alvos.
- Posso ver? — Pediu a menina esticando a mão e tocando-lhe o rosto suavemente. O rapaz porém retesou e voltou à postura séria.
- Creio já ser tarde, meu mestre me aguarda. Tenha uma boa noite, Daniel! — Despedindo-se e indo quase correndo para a casa de Sagitário. Sara observou-o por um momento e deu de ombros, seguindo para sua própria casa.
Kiki já a esperava, com um olhar triste. Ela afagou os cabelos ruivos e disse-lhe que não se preocupasse. E num arroubo maternal, pegou-o no colo e levou-o para a cama, cantando até o menino dormir. Quando este caiu no sono, retirou-se e resolveu explorar os arredores do templo. Qual foi sua surpresa ao descobrir, ao lado das enormes colunas, um terreno abandonado não muito grande, coberto de ervas daninhas?
- Hum, isso aqui daria uma boa horta... — Assim pensando, procurou alguma ferramenta que pudesse utilizar parar arar a terra; porém nada encontrou. Há muito ninguém ia ali, dado o estado do lugar. Então, iluminada apenas pela luz do luar grego, a aprendiz de Libra pôs-se a arrancar o mato e revolver o solo com as próprias mãos. Não se atemorizou com a possibilidade de haver cobras ou outros animais peçonhentos; na verdade, nem pensava nisso. O contato com a terra fazia bem, dava-lhe tranqüilidade e renovava-lhe a esperança. Já era madrugada quando terminou.
- Ufa, deu trabalho mas ficou bom! — Exclamou, admirando o campo arado, com sulcos bem divididos, só aguardando para ser semeado. — Agora é só arrumar umas sementes, mas eu faço isso depois. — Sara então voltou à casa, tomou um banho e dormiu, tendo pela primeira vez em dias um sonho bom.
Acordou quando o Sol já ia alto. Calculou o horário, devia ser perto do almoço. Sentiu o estômago roncar, precisava de comida. Antes disso porém resolveu ver como estava Kiki. Procurou-o no quarto e encontrou apenas uma cama arrumada, com certeza ele já estava treinando. “Pelo menos não preciso alimentá-lo”, pensou. Por fim, achou de bom tom pesquisar mais o templo de Libra e ver o que acharia ali; afinal, sem recursos como se encontrava, deveria saber de antemão os gastos mais urgentes.
O local parecia estar desabitado há muito tempo. Teias de aranha pendiam do teto, os móveis estavam cobertos de poeira, alguns infestados de cupins. Mesmo a geladeira da cozinha era de um modelo muito antigo e Sara desconfiou que não duraria muito tempo. Existia eletricidade mas não lâmpadas suficientes, o que tornava o lugar escuro e úmido. O piso era de pedra e tinha falhas por todo ele, inclusive um corte que parecia ter sido feito por uma espada no corredor que dava passagem à próxima casa zodiacal. As paredes necessitavam de pintura urgente, visto que o mofo alastra-se sobre elas sem piedade. Fez uma avaliação rápida do mobiliário: possuía uma sala com um sofá quase se desfazendo, uma cômoda de madeira onde estava a balança (esta ainda estava firme, sem insetos) e uma mesinha de centro carcomida nas bordas; na cozinha encontravam-se um fogão a lenha que não via limpeza há anos, a velha geladeira movida a querosene, um armário antigo, uma pia de pedra com torneira, duas cadeiras e uma mesa central em péssimo estado de conservação (não encontrou talheres, pratos ou copos ou quaisquer outros utensílios domésticos, apenas uma faca grande sem fio); três quartos com uma cama e um armário cada (e uma colônia de animais própria); dois banheiros com só um chuveiro elétrico (o outro contava apenas com um cano para saída de água e quando foi aberto despejou lodo por todo o piso).
- Maravilha, deve ser o pior templo de todos. — Murmurou Sara desgostosa. Além de ficar sem alimento e orientação estava obrigada a reerguer o local. — Depois que arrumar dinheiro eu faço isso. Agora procurar comida! — Exclamou ela batendo as mãos e espantando o desânimo.
Voltou à cozinha e pegou a faca, mesmo sem fio era uma arma e poderia precisar dela dali em frente. Colocou-a na cintura e saiu da casa, indo na direção oposta ao refeitório. Desceu, desceu e desceu sem chegar a lugar nenhum. Nos arredores havia apenas as casas zodiacais e o grande relógio. Chegou ao final sem nada encontrar. Suspirando de desalento ia refazer o caminho quando se reparou com uma fenda estreita e escondida. Curiosa, espremeu-se por ali e qual foi sua surpresa o se deparar com um grande bosque.
- Como isso veio parar aqui? — Perguntava-se a menina, sorrindo de alívio. Com certeza acharia o que comer ali dentro. Andou por entre as árvores, olhando as copas, procurando alguma que desse frutas. Por fim encontrou uma macieira que estava carregada de maçãs maduras. Sem pestanejar, a morena colheu várias e sentou-se comendo, satisfazendo sua fome. Resolveu marcar a árvore para se lembrar de onde estava quando voltasse mas com pena de ferir o tronco catou várias pedrinhas e fez uma seta apontando o seu “anjo salvador”. — Agora eu não me perco. — E continuou sua caminhada.
Encontrou uma romãzeira, também carregada mas já estava empanturrada; apenas a marcou como a árvore anterior e seguiu em frente. Por fim chegou a um riacho, com peixes em abundância. Ponderou se deveria pescar algum porém desistiu momentaneamente da idéia por um simples motivo: não tinha como prepará-lo. O fogão da casa estava imundo e não havia nada com que pudesse acendê-lo. “Fica para a próxima”, pensou. Reparou então que arbustos de vime cresciam às margens do rio e teve uma idéia. Colheu quantas folhas conseguia carregar e caminhou e volta para a casa. Lá chegando, pôs-se a trabalhar.
Quando Kiki retornou, à noite, encontrou a amiga na pobre sala, rodeada de cestos.
- O que é isso, Sara? — Perguntou.
- É Daniel, Kiki. Sempre Daniel, ou Dan. — Ela consertou. — São cestas.
- Sim, mas por que estão aqui? — Ele pegou um do chão, era pequeno e tinha o formato de um prato.
- Eu as fiz. — Disse simplesmente.
- Por quê?
- Ora, Kiki, esse templo nem uma tigela tem e ainda estou sem dinheiro. Minha mãe, antes de se casar e mudar para Ventura com meu pai, era de uma terra de artesãs. Ela que me ensinou a usar o vime. E outras coisas também. Logo, logo você vai ver. — Respondeu sorrindo. — Ah, já se alimentou? — Ele fez que sim com a cabeça. — Então vá tomar banho e dormir.
- Credo, você parece o mestre Mu. — O menino reclamou.
- Pode me considerar assim se quiser. Agora vai lá.
O ruivinho obedeceu resmungando. Sara riu, ele lembrava-lhe o irmão, também não era chegado a higiene. Depois de acomodá-lo na cama, banhou-se e dormiu profundamente.
Acordou antes do raiar do sol e voltou ao bosque carregando um dos cestos; este voltou repleto de maçãs e romãs e até algumas amoras que achou pelo caminho. Trazia também mais folhas. Quando seu pequeno hóspede acordou encontrou a mesa da cozinha repleta de frutas servidas nos pratos artesanais. As cascas tinham sido retiradas e estavam sobre a pedra da pia.
- Oba, isso é melhor que aquela comida do refeitório. — Disse ele se refestelando.
- É, eu sei, mas não podemos viver só disso. Tenho que conseguir dinheiro para levantar esse lugar e dar um jeito nesse fogão. Mas sem nem um pano limpo não posso fazer nada. — Suspirava a brasileira, amolando a velha faca na pia. — Não tem jeito, vou ter que pedir ao Grande Mestre um emprego. Ah, e ainda vou receber um castigo dele. — Finalizou triste.
- Se eu puder fazer alguma coisa... — Falou Kiki, indo até ela e abraçando-lhe a cintura.
- Seu apoio já é suficiente, querido. — Sorriu e deu-lhe um beijo na testa. — Pode ir treinar, só tenha cuidado.
- Tá! — Exclamou e saiu correndo para o campo de treinamento.
- E agora, lá vai Daniel para a toca dos leões. — Brincou ela parodiando uma passagem bíblica. E seguiu para o templo de Athena.
Lá chegando foi prontamente introduzida no salão central pelos guardas, que sabiam da sua condição de futuro cavaleiro de ouro. No trono a aguardava Shion. Este a olhava de forma dura e nada amigável. A sua frente estavam os gêmeos e Shura. Ela aproximou-se e se ajoelhou em reverência.
- O que deseja, jovem aprendiz? — Perguntou Áries secamente.
- Vim conhecer meu castigo, ó Grande Mestre. — Respondeu ela sem se mover.
- Ainda não pensei no assunto. Se for só isso, pode se retirar.
- Não, não é só isso... — Disse a menina, olhando-o pela primeira vez.
- E o que seria então?
- Gostaria de um emprego, ó Mestre.
- UM O QUÊ? — Exclamaram os três cavaleiros que a tudo assistiam calados.
- Um emprego. — Reafirmou. — Mestre Dohko exigiu que eu arcasse com minhas próprias despesas e as do templo de Libra. Só que para isso preciso de dinheiro. Como roubar não é uma atitude muito louvável... — Disse com um toque de sarcasmo. Shion fuzilou-a com o olhar.
- Está bem, não posso mesmo vê-lo morrer a mingua, seria um desperdício. — Sara notou um quê de falsidade naquelas palavras. — Já que foi a causadora do evento no refeitório é lá que irá trabalhar, todos os dias, antes do desjejum. Obedecerá todas as ordens que lhe forem impostas, não importa se é ou não um futuro Cavaleiro de Ouro. Receberá um salário à altura de seus esforços, sempre aos sábados. Descansará aos domingos. E só poderá comer se lhe permitirem. Começará amanhã, antes da aurora. Agora vá embora, sua presença me irrita. — Terminou, fazendo um gesto para que ela deixasse o local, sendo obedecido prontamente.
- Até que ele não é tão desonesto assim, Shion. — Comentou Kanon. — Eu gosto dele.
- Mas eu concordo com o Mestre, não sei se merece confiança. — Suspeitava Saga. — Que acha, Shura?
- Tem coragem. E fibra. Basílio, meu pupilo, me contou o que houve ontem e percebi a integridade do que o jovem Daniel fez. — Ponderou o capricorniano.
- Eu sei, não foi ele o causador da discórdia mas foi o único a admitir a culpa. — Suspirou Shion. — Só que não é isso que me incomoda. Aqueles olhos... E aquele corpo pequeno...
- Que têm eles? — Perguntou Kanon.
- Eles escondem algo...
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