A segunda feira começou relativamente tranqüila. Sara iniciou seus serviços muito cedo nesse dia, queria ter bastante tempo para arrumar Libra. Assim que terminou no refeitório, voltou correndo para a casa e encontrou seu hóspede ainda dormindo.

- Kiki! Vamos, levante, temos trabalho a fazer! — Chamou sacudindo-o.

- Mestre Mu, agora não...

- Vamos lá, seu dorminhoco... Já é hora do café. — Ria a garota, deitando ao seu lado e fazendo-lhe carinho.

- Hum? Quem é... Ah, bom dia, Dan! — Sorriu o ruivo, coçando os olhos e quase dormindo com a carícia que recebia.

- Nem vem, acorde logo. — Ela beijou-lhe o rosto e carregou-o no colo até o banheiro, deixando-o sozinho. Minutos depois se encontravam na cozinha.

- O que faremos hoje? — Perguntou ele, enquanto comia.

- Bom, tem tanta coisa pra consertar aqui que eu nem sei, viu? Que acha de irmos até ao tal povoado que tem aqui perto pra ver se posso encontrar coisas mais baratas? Afinal, a grana que consegui não foi muita mas já dá pra colocar uma ordem aqui.

- Eu te levo lá. Bora? — Convidou o menino, estendendo-lhe a mão de forma galante.

- Ah, esse cavalheiro vai me levar? Estou lisonjeada. — Brincou a morena, aceitando-a.

Desceram com o burrico por um caminho diferente do que levava ao bosque e logo se encontraram diante de um conjunto de casas humildes, a vila de Aglaia (Beleza). Sara amarrou o animal na entrada do lugar e andava de mãos dadas com Kiki, procurando algum centro comercial.

- Ah, uma mercearia afinal! — Exclamou, largando o menino no meio da rua e entrando. Comprou panos de chão, toalhas de banho e rosto, produtos de higiene pessoal e limpeza, vassouras, inseticida, mais pratos, talheres e copos, algumas panelas, uma frigideira, uma grande faca bem afiada, lâmpadas, baldes, bacias e lençóis. Ao vê-la sair arrastando uma caixa entupida de tranqueiras, seu amigo assustou-se.

- Pra que tudo isso?

- Confie em mim e verá. — Sorriu. — Agora, seja bonzinho e coloque essas coisas no lombo do Shion e volte com ele pra casa. Estarei de volta mais tarde. — O menino acenou com a cabeça, obedecendo de pronto.

“Agora, tenho que achar uns móveis novos e uns tecidos”, pensava a brasileira. Voltou a passear pela vila e notou que apesar de pobre, o povo local era bastante amigável. Tratavam-na com cortesia e gentileza, deixando-a saudosa de casa. Andou por toda a localidade e para sua alegria descobriu uma loja de roupas onde também vendiam algumas fazendas. Comprou vários metros dos mais diversos tecidos, assim como tesoura, linhas e agulhas. Não encontrou nenhum artesão onde pudesse encomendar uma mesa e cadeiras novas e se contentou com as sementes para sua horta. Comprou uma grande bolsa de couro e colocou todas as compras lá dentro.

Ia voltando pelo mesmo caminho que fizera quando percebeu muitas crianças brincando na rua. Estranhou o fato, já que nesse horário seria normal que estivessem estudando. Aproximou-se de uma delas, uma garotinha loira de aparentes oito anos, e perguntou:

- Bom dia meu bem, onde é a escola daqui?

- Escola? O que é escola?

- Hã? É o lugar onde se aprende a ler, pequena.

- Ah! Não tem mais, ela fechou. A professora foi embora e ninguém mais veio.

Sara ficou chocada. Tão jovens e sem instrução? Imaginava que o destino daquelas crianças seria servir a Atena e ao Santuário mas que elas tivessem a chance de escolher algo diferente para si. E só poderiam fazer isso com educação básica. Lembrou-se do seu pobre povoado e de como fora difícil aprender a ler e escrever por lá. O pai garantira que todas as crianças tivessem acesso a uma escola, sendo que era ele quem as ensinava. Após sua morte, um amigo seu continuou seu trabalho e com a chegada do cavaleiro à procura de aprendizes, estes passaram a receber ensinamentos em grego. Seu irmão Daniel adorava aprender essa língua e fez questão de incluir a irmã nas aulas. Logo ela também já tinha domínio extenso daquela escrita secular.

- Querida, e onde vocês tinham aula?

- Ali ó, eu te mostro! — Disse a garotinha, puxando-a pela mão e levando-a a uma velha casa afastada. Estava em uma situação deplorável. O teto era de palha e tinha furos em toda sua extensão; as paredes estavam pretas de sujeira e mofo; o chão de terra batida irregular. Não havia bancos ou mesas para os alunos e o velho quadro negro tinha manchas do tempo.

- Ninguém toma conta daqui?

- Não, por quê?

- Nada. Agora me diz, se alguém viesse dar aulas, vocês viriam assistir? — Questionou a brasileira, com uma idéia rondando-lhe a cabeça.

- Ah, eu viria sim. — Respondeu ela contente.

- Então fale com uns amiguinhos seus para estarem aqui daqui a uma semana que vou vir ensinar vocês umas coisas legais. — Sorriu a aprendiz. — Eu só queria saber onde vou fazer vocês se sentarem... Não tem cadeiras aqui... — Ela se perguntava pensativa.

- Cadeiras? Meu pai sabe fazer! Ele sabe fazer tudo! — Exclamou a garota.

- Mesmo? Me leva até ele? — Sem responder a criança saiu correndo e adentrou por uma porta de uma habitação um pouco escondida. Curiosa, a morena seguiu-a e entrou, pedindo licença. — Olá, alguém em casa?

- Como vai, meu filho? — Perguntou um simpático senhor aproximando-se; atrás dele vinha a menina. “Deve ser filha dele”, pensou.

- Eu sou Daniel, prazer em conhecê-lo. Sou aprendiz de mestre Dohko, da casa de Libra.

- Oh, um cavaleiro de ouro? Quanta hora. — O homem parecia embaraçado.

- Não fique constrangido! — Sorriu a morena. — Estava conversando com sua filha e ela me disse que sabia fabricar móveis.

- Sim, é verdade! Quer ver alguns? — Respondeu mais calmo.

- Sim, adoraria. — E foi levada para uma oficina nos fundos da casa. O artesão era mesmo habilidoso pois havia inúmeras peças de madeira finamente trabalhadas espalhadas por toda a sala, cadeiras e mesas ricamente decoradas, móveis de muito bom gosto. — Seu trabalho é excelente. Quando cobra por uma peça dessas? — Apontando para uma cama maciça.

- Não posso cobrar de um defensor do Santuário, senhor! — Retorquiu o homem baixando a cabeça. Sara notou que além do respeito havia medo em seu olhar.

- Os outros cavaleiros o ameaçam?

O homem se assustou com o comentário displicente mas o olhar que dirigiu-lhe foi bastante revelador.

- Pois saiba que não sou como esses que conhece, sou diferente de qualquer cavaleiro que já tenha pisado aqui. — Disse ela sorrindo. — Qual seu nome?

- Orestes, senhor.

- Me chame de Daniel, Orestes. Eu gostaria muito que fizesse para mim alguns móveis, seria possível? Pagarei por todos, é só dizer o preço.

- Desculpe mas seria um desrespeito, Daniel. Não posso cobrar.

- Então, o que acha de uma troca? — Perguntou sorrindo.

- Troca?

- Sim, ouça-me e veja se aceita. — E em poucas palavras a aprendiz explicou-lhe suas intenções de reerguer a escola. E que precisaria de carteiras e uma mesa para dar aulas.

- Mas é uma idéia maravilhosa! Estávamos aguardando o Grande Mestre tomar uma providência sobre isso mas infelizmente ele anda ocupado demais para se lembrar de nossas crianças. — Falou o homem amargurado.

- Que nada, o mestre Shion lembra sim daqui. — Mentiu a brasileira. — Mas realmente ele anda sem tempo. E então, negócio fechado?

- Sim, senhor! — Respondeu Orestes selando o acordo. — Terá tudo o que pediu no máximo em uma semana.

- Obrigado! E quanto a você, pequena, nos vemos daqui a sete dias, leve seus amigos, viu? — Disse a morena sorrindo, bagunçando os cabelos da menina e indo embora..

Sara voltou para casa à tarde naquele dia. Resolveu aproveitar o tempo que restava de luz solar para fazer sua horta e iniciar um novo projeto para ganhar dinheiro.

Após plantar as mais diversas hortaliças, sentou-se no quarto e começou a cortar os tecidos que comprara. Usou os mais grosseiros para fazer roupas de treino para si mesma e para seu hóspede — já sabia as medidas do garoto — e com os demais iniciou a confecção de lenços para a cabeça e pescoço, saídas de praia e camisetas, todas ornadas com bordados típicos de sua terra natal: o fuxico e o rococó. Quando Kiki chegou à noite encontrou-a sentada na cama tendo montes de roupas ao redor.

- O que é que você está aprontando agora? — Perguntou curioso.

- Meu amor, esqueceu que sou em quem ganha o dinheiro aqui? Vou vender isso aqui no domingo de novo, vão fazer mais sucesso que os cestos. — Respondeu ela sorrindo.

- Você realmente é doida.

- E você é realmente um bobo. Agora olha só o que eu te fiz. — E atirou-lhe as vestimentas que tinha preparado.

- OBA! Obrigado, Dan! — Exclamou o menino, dando-lhe um apertado abraço. — Vamos passear amanhã?

- Infelizmente não dá. Tenho que ir à casa de Gêmeos logo cedo.

- Na casa do Saga? Fazer o que?

- Pagar uma dívida com o Adonis... — Ela suspirou.

- Não gosto dele!

- Nem eu, mas não se preocupe, não vou deixar ele me maltratar. Promessa de homem!

- Tá prometido viu? Posso dormir contigo hoje? — Perguntou o ruivo, fazendo uma carinha de enternecer até pedra.

- Ah, está bem. Mas na sua cama que essa tá muito cheia! — Disse ela rindo, carregando-o no colo e deitando-se com ele, adormecendo rapidamente. Kiki ainda custou um pouco a dormir, gostava de ficar olhando para o rosto da amiga, ela tinha tanta serenidade naqueles olhos negros mesmo com o que passava. Sentia-se aquecido na sua presença e se pudesse a protegeria de tudo. Adorava acordar com ela e vê-la sorrir. E odiava quando os outros aprendizes a faziam chorar. Só a conhecia há uma semana e parecia que tinham vivido sua vida toda com ela. Antes de entregar-se ao sono desejou que aqueles braços ternos que o envolviam nunca deixassem de abraçá-lo.