Queridos Pesadelos.
9 Ultor.
Notas iniciais
Não irá acontecer novamente.
Mais fico hesitante para escrever.
Não gosto quando minhas fics ficam perto do fim.
Essa não está.
Mais ainda sim eu fico.
_Você não é erro nenhum. Como assim Cyara? — O professor tinha a cara de quem olhava para uma louca. Saiu imediatamente para buscar um copo de água na cozinha. Parecia bravo por sua aula estar sendo interrompida.
_Sou sim... — Cyara tentou se levantar, se apoiando na mesa do professor — Ele me disse... Ele me diz muita coisa...
_Que coisas, Cyara? Ele quem? — Perguntou Malese — Sobre... Aquela coisa? — Abaixou o tom de voz.
_Você chama isso de "aquela coisa"? Como se fosse um segredinho de adolescentes? Como se fossem crianças sussurrando sobre um segredo do tipo, mais uma pista na brincadeira de caça ao tesouro? — Levantou o olhar para ela, não sabia por que, mais não gostava de se referir a "esse assunto", de uma maneira qualquer — Isso é uma tormenta. É aquele tipo de tempestade que te faz encolher... — Esfregou os braços com as mãos cruzadas e desviou o olhar, já se direcionando à sua carteira — Estou com frio...
_Você me entendeu mal. Se está sendo atormentada, eu sou a pessoa que pode te entender do melhor jeito o possível. Mais só se você deixar. Vai ter que me contar tudo Cyara. Tudo.
_Malese. Cyara. Chega, vamos todos nós na biblioteca hoje as 2 horas da tarde. Vamos poder conversar. — Hiran sentou Malese na cadeira mais próxima.
_Vamos? — Cyara perguntou. Hiran ia junto? O que ele tem a ver? — Você vem?
_Claro. Tem coisas sobre mim que você não sabe também. Lembre-se que nada aqui é confirmado. Só estamos levantando as hipóteses mais óbvias que pode--
_Sua água, Cyara. — O professor pousou a mão sobre seu ombro — Esta mais calma? Quer contar o que houve?
_Não... — Murmurou — Obrigada.
_Tudo bem então — O professor levantou, afastou alguns alunos e bateu palmas para silencia-los — Vamos dar continuidade a aula!
Ao decorrer das aulas, vários alunos disseram coisas, tacaram alguns papeis, e muitos saíram da sala.
O sinal tocou. E novamente, Malese foi a ultima a se dar o trabalho de levantar da carteira. Mais não estava sozinha, tinha Hiran. Tinha Cyara. Não havia nenhum pesadelo. Não tinha mais nenhuma sombra, ninguém ferido, ninguém... morto.
Alguma coisa havia bloqueado seus sonhos com Hiran e muito provavelmente com Cyara. Eles estavam envolvidos. Tudo o que via era isso.
Duas horas da tarde em ponto. Nem um minuto a mais ou a menos. Biblioteca Pública Sapientiam. Ultima mesa, ao lado das prateleiras de geografia. Ao lado das caixas de livros velhos, quadrinhos rasgados e jornais que ninguém lê. Malese foi a ultima a chegar, sua bolsa pesava, trazia os diários especiais de seu pai. De 15 anos, de 20, 22, 24 e 28. Se sentou. Cyara estava batendo com a unha impaciente na lateral amassada da latinha de refrigerante, Hiran acenava, lendo um livro tão grosso quando o "Senhor dos Anéis".
_Maleeeeeeeeese! — Gritou — Ainda bem que chegou, ela já estava quase fazendo eu contar tudo. — Apontou com o polegar para Cyara.
_É. — Respondeu seca — Quase.
_Você trouxe?
_Trouxe sim — Malese se sentou em uma das cadeiras azuis desbotadas de ferro da mesa circular, tirando os livros encadernados com couro.
_O que são? — Perguntou Cyara, pegando um e folheando.
_Os diários do meu pai. Quando ele começou a escrever, com 15 anos, quando ele conheceu minha mãe, com 20, quando eles ficaram juntos, com 22 e 24 e quando a... Quando os problemas dele terminaram, com 28. — Malese deu um tapinha em cada um, enquanto os colocava lado a lado na mesa respectivamente.
_Vamos procurar alguma coisa nele, certo? Mais vocês não iam contar alguma coisa? Você pensou nisso Hiran, comece — Cyara cruzou os braços, seus lábios estavam trêmulos, mais foi como se passasse por cima disso e o encarasse ainda mais.
_Certo... — Hiran começou a pensar e tirou o celular do bolso — Olhem — Mostrou uma foto — Nas visões das sombras da família da Malese, quem compra o feitiço é uma mulher chamada Khatara no Branlieri.
_O sobrenome dela, era de um clã de bruxas que levou a feitiçaria por vários lugares até ser caçada e como diz a lenda... Extinta — Completou Malese, olhando de relance entre Cyara e Hiran. Até pousar definitivamente os olhos no menino.
_E nessa placa, está escrito Branlieri. Mal dava para ver, mais em uma das fotos antigas da minha família, das do tempo da minha avó, da para ver cada detalhe. A madeira é velha, e se está na minha família é porque eu tenho algo a ver com eles. Eu posso ser um também — Fez uma pausa — Pela pressão, eles podem ter fugido e mudado o sobrenome. Para Martin.
_Entendo... — Resmungou Cyara — E você Malese?
_Antes de ler alguma coisa nos diários do meu pai, você vai ter que me prometer não contar nada.
_Estou aqui. Não estou?
_Bem... Desde pequena, desde muito tempo, desde... sempre, integrantes da minha família podem ter pesadelos se muito envolvidos com alguma pessoa. Dependendo do que acontece no pesadelo, até você juntar as cenas da sua cabeça com a vida real, alguém já se machucou ou... Morreu — Malese suspirou — Tudo depois de sombras forçarem os acidentes.
_S-Sombras? — Cyara, levantou rapidamente a cabeça e se sentou ereta. Sua respiração foi ficando alterada.
_O que foi? — Hiran fechou o livro e o colocou numa cadeira vaga na mesa ao lado.
_Vou falar rápido, espero que me escutem. Minha família nunca mudou de sobrenome, disso eu tenho certeza, existem documentos muito antigos lá. Sempre me perguntei o por que de não terem sido jogados fora, mas a resposta sempre era que não podiam, porque eram valiosos. Depois do por que de não terem sido queimados. E a resposta era a mesma. Mas eles nunca falavam o por que. Era só, porque não podiam. Chamam minha mãe de traidora, como eu havia dito. Meu pai, eu nunca soube quem... ou o que... Quem ele foi, ou quem ele é... — Ela parecia angustiada — Desde que me mudei... Uma sombra dizendo ser um Ultor aparece pra mim... Mais hoje... No final do recreio... Eu consegui ver ele. Parecia uma pessoa. Um homem. Alguma coisa preta batia atrás de si e era todo vestido de cinza. Tinha um tipo de espada prateada nas mãos mais... Ela brilhava.
_Você tinha chegado correndo na sala. Depois o professor chegou e tentou te acalmar. Você começou a dizer que era um erro, e que esse tal Ultor queria punir o erro. O que quer dizer? — Malese de repente, ficou séria e fria, tanto quanto no dia em que Hiran a conheceu.
Pessoas ainda passavam por perto cochichando e rindo. Dizendo a outras para não chegarem perto. Ainda davam indiretas para Hiran. Os professores ainda estavam afastados dela. Ainda cercavam Cyara, e provavelmente, começariam com o mesmo estilo de exílio com ela.
Cyara ainda estava assustada. Hiran sabia se controlar muito bem, parecia tranquilo, mais no fundo de seus olhos, era possível ver uma pequena chama de medo. Malese já estava acostumada. Nasceu acostumada.
_Eu só lembro de fechar os olhos, a lâmina brilhava muito, mesmo sendo uma sombra que carregava. Não sei explicar. Era como se a alma fosse escura, mais sua arma era diferente... Nunca vi nada igual. — Ela suspirou — Ele sempre diz que as decisões que meus pais tomaram foram erradas. Que meu pai não podia e minha mãe traiu a todos quando fez alguma coisa. Que eu não devia ter nascido. Que tudo foi errado, mais o erro sou eu. E erros tem que ser corrigidos. Por que se não eu posso acabar com tudo.
_Acabar com tudo o que? — Perguntou Hiran — O que mais você sabe?
_Vai acontecer alguma coisa, algum dia. Eu não sei... Sempre quis fugir do assunto. Mas sempre quis descobrir por mim mesma. Os documentos que falei... São contratos. Contratos marcados em sangue.
Todos sentiram um arrepio. Era como se do nada ligassem todos os resfriadores da biblioteca. Mais as portas estavam fechadas e o sol dominava tudo. Malese abriu um dos diários.
_"Dia 19 de Setembro. Meu nome é Will e me obrigaram a escrever tudo aqui para não ficar louco. Não sou normal. Assim como meu pai não foi. E como temo que algum filho no futuro será. Posso tanto salvar pessoas como acabar com elas. Mais não sou eu. São sombras. Sombras vivas."
_Sombras vivas? — Repetiu Hiran.
_Apesar de eu nunca ter visto, meu pai disse que sempre tinha a impressão de ver alguém antes das sombras chegarem.
_Ultor? Ele está atras de você? Por que estaria? — Cyara correu nas palavras.
_Calma. Eu nunca vi, mais não deixo de acreditar. As sombras nunca vinham de alguma coisa perto, sempre tinham uma linha além. Alguém as iniciava, mais não era eu. Porém, eu nunca vi.
_Continue — Pediu Cyara e Malese assentiu.
_Esse é de quando ele quebrou a maldi... Isso. "[...] Não sei se fico feliz ou se... Não sei de nada. Pelo que contam, quando se quebra, passa para outro e eu sinceramente prefiro passar por tudo do que ver alguém na mesma situação. Mais eu quero viver! [...]" - Malese passou algumas folhas, resmungando que queria ler algo sobre a quebra e não sobre melancolia-pós-libertação — "[...] Não era isso. Ela não foi quebrada definitivamente. Precisamos das três linhagens, mais só tenho uma. Só tenho a mim. Com minha filha a caminho, isso só foi passado pra ela. E daqui a alguns anos, ela vai ter que conseguir sozinha. [...]" — Malese fez uma pausa e apontou o dedo para si mesma e para os dois — Três. Linhagens.
_Linhagens? — Cyara não parecia rir de verdade, parou subitamente — Eu nem sei se sou realmente dessa família.
_Claro que é, por que outros motivos o Ultor te perseguiria? — Perguntou Hiran.
_Nem acredito que vocês acreditaram em mim...
_Ah Cyara, a essa altura nós acreditamos em tudo. — Bufou Malese.
_Malese... Onde seu pai está?
Malese se remexeu na cadeira.
_Ele trabalha fora... Bem, ele e minha mãe... Ela vem mais para casa, os dois são arqueólogos. Eu moro com o resto da família do meu pai, a família da minha mãe não gosta de mim... — Abaixou a voz — Eu já a machuquei muito...
_Não precisa falar disso Malese — Cyara enrolava o dedo em um dos cachos.
_Bom. Sabemos a história um do outro, descobrimos que precisamos das três linhagens. Cyara. Vai nos ajudar?
_Ajudar em que Hiran?
_A descobrir o que são as sombras. O que é ou quem é o Ultor e como quebrar isso que fica pregado na Malese... Ai! — Hiran massageia o ombro atingido por Malese.
_Eu... — Cyara vira o rosto um pouco tensa, mais logo se arqueia sobre a mesa — To dentro.
Horas se passaram. Não encontraram mais do que detalhes do que já sabiam. Até Cyara ficar um pouco tonta e sentir as pontadas nas costas e as dores de cabeça.
_Eu acho... — Estava ofegante — Melhor ir pra casa... — Se levantou da cadeira, colocou a mochila nos ombros e saiu correndo. Malese e Hiran não ficaram para trás.
A seguiram por vários minutos, até a menina não conseguir mais parar de correr. Enfraquecendo até andar lentamente. Já começara a escurecer e o campo municipal não era um lugar assim tão habitável no começo da tarde. Onde todas as árvores tampam o que resta do sol e ainda não chega a hora de se ligar a iluminação. É quando as melhores pessoas resolvem ficar longe.
Cyara cai de joelhos, arremessando a mochila incrivelmente longe. Hiran congelou seguindo a bolsa com o olhar e Malese, depois de descansar por três segundos sobre os joelhos, voltou a correr até a menina.
_O que foi? A dor é tanta assim? — Malese tentava controlar os braços da menina, pareciam querer rasgar a roupa que vestia. Hiran já voltava a correr até elas.
_Está doendo... Está muito forte... Ele está aqui! — Ela só parava de tentar alcançar as costas para ver entre as sombras das árvores.
_Ele está aqui? Como sabe? — Hiran caiu sentado ao seu lado, tentando acalmá-la.
_Minhas costas doem, é como se alguma coisa quisesse explodir aqui. Treme muito e é quente! Queima muito — Ela já estava choramingando — Aquela coisa prateada dele. Ele quer cortar isso! Ele me disse! Sai daqui! — Cyara começou a se contorcer e dar tapas em sua cabeça, como se tivessem vozes ali dentro.
_Espera. Onde ele está? De onde a voz vem Cyara?– Malese conseguiu segurar os pulsos da menina, o que a fez abrir os olhos.
_Você sabe o que ele diz? — Hiran se levantou num pulo. Apontou — Alguma coisa ali! Tem alguma coisa ali!
_Onde? — Gritou Malese, caçando com o olhar. Folhas começaram a se agitar, estava calor, o sol acabara de começar a se por, de onde vinha tanto vento?
_Ele quer corrigir o erro. Vocês fazem parte do erro. — Fez uma careta — Eu não consigo aguentar... Está doendo muito — Sua camiseta manchou com dois riscos de sangue.
_Você não sabe o que é e que ligação tem com a Nivikienzi não é? — A mesma voz, grossa e macia. — E o garoto, não tem ideia do que pode fazer não é? E a menina amaldiçoada não sabe o que pode conseguir não é? — E deu uma gargalhada rouca, surgindo detrás de uma das árvores, em sentido completamente diferente do lugar de onde a voz vinha, com uma capa cinza e um capuz tampando os olhos — Assim está melhor. Vai ser um trabalho rápido.
Eles estavam com medo. Aterrorizados. Com vontade de correr e não parar mais. Mais a maldita falta de coragem mal deixou que respirassem. O homem retirou uma espada da capa, que reluzia todo o brilho que faltava no meio de sua escuridão. O homem retirou sua capa e duas coisas se abriram atrás de si. Tiram o som de uma sacola plástica sendo sacudida. Eram escuras. Não passavam boas coisas. Mais foi justamente isso, que os fez querer descobrir além.
Hiran era o único que conseguia enxergar além do brilho e da escuridão.
Malese era a única que podia ver as cenas em suas sombras.
A camiseta de Cyara, explodiu em plumas douradas.
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