Queridos Pesadelos.
8 Tormentas.
Notas iniciais
Malese a olhava contar histórias que seus avós lhe contavam, perplexa. Ela dizia com tanta naturalidade, com tanta desenvoltura, como se já estivesse acostumada com aqueles modos, rituais, tradições...
_Cada um integrante da família que se mudava, carregava uma verbena num colar. Ai eles davam para cada um que eles não quisessem que se envolvesse em alguma coisa que eles faziam, e rezavam nele. — Disse Cyara sem parar, era tanto entusiasmo, tanta harmonia nas palavras, que para ela parecia normal, uma coisa rotineira.
_Verbena? Não é essa planta que afasta o mau? — Pergunta Hiran, se sentando na cadeira. Parecia interessado.
_Sim, também ouvi isso. Parece que meus ancestrais eram ligados à expressão, ou coisa do tipo — Cyara faz uma careta, ri, como se não fosse nada e se vira para Malese — Agora. Não precisa ficar tão chocada. — Tocou em seu ombro, e sentiu um arrepio descendo do toque, passando pelo pescoço, até a espinha — Tem que saber reconhecer lendas mentirosas quando ouve uma.
_Eu sei. – Respondeu. Agora mais relaxada pela doçura que sua voz aparentava. Como se em meio à neve, tivesse um único canto aquecido, um canto em que se Malese se aprofundasse mais, poderia sair queimada — Só que parece... Tão real.
_To sabendo – Sussurrou – Vou indo, quero ver como é a escola, ainda não tive oportunidade de vê-la direito... – Disse calmamente, quase em um canto que parecia hesitante. Remexeu a bolsa e pegou o celular e um fone de ouvido prateado, saindo da sala enquanto dava com a mão.
Hiran se virou para Malese, parecia saber de algo. Sua face estava iluminada e animada, erguia o dedo como um gênio prestes a dar um exemplo de uma de suas descobertas fascinantes.
_Ela é da família daquela velha que fez isso com você! – Dizendo isso seu dedo se abaixou e seu rosto se escureceu – A mando de alguém da minha...
Malese o olhou séria. Pelo que sabiam, uma mulher mandara uma bruxa jogar uma maldição em um bebê, que era quebrada quando passara para frente. Mais havia um jeito de quebra-la sem precisar esperar tanto. Sem precisar sacrificar a mentalidade de uma criança. Sempre havia uma falha, sempre havia um jeito.
_Precisamos descobrir como quebrar minha maldição! – Disse Malese em bom tom – Eu, eu não sei, se eu fosse ela ficaria com receio de contar isso a alguém!
Nesse mesmo instante, o olhar de Malese pareceu congelar na porta, Hiran a seguiu e suspirou. Cyara estava voltando à sala.
_E-eu voltei... – Ela pareceu estar pensando se não era melhor sair correndo, fazer mil perguntas aos seus familiares ou à Malese e Hiran – Voltei, esqueci o meu... Lanche... – Ela andou até a mochila, sem retirar os olhos deles. Os encarava pasma, como se não tivesse vergonha, nem medo de levar um xingamento.
_Você escutou. – Afirmou Hiran.
_Sim. Olhe Malese, se você tem uma maldição, eu não sei se posso ajudar, eu sou diferente. Todos da minha família acreditam, adoram, praticamente vivem por essas coisas, mais eu nunca me deixei tocar. Sabem quantas vezes eu já não fui maltratada por isso? – Ela perguntou, parecia atormentada ao mesmo tempo em que era inalcançável – Muitas. Muitas vezes. E tudo porque eu não sei da minha origem.
Hiran e Malese a olharam curiosos. Como uma menina assim não saberia de sua origem? Já deu tanto para perceber quanto para sentir que ela tinha algo a ver com a maldição. Algo muito importante.
_Não me olhem assim... – Virou o rosto, os dois restantes se sentiram desconfortáveis, afinal, seus olhares pareciam flamejar refletidos nos olhos castanhos de Cyara – Minha mãe morreu quando eu ainda estava em sua barriga. – A olharam assustados – Dizem que ela teve uma complicação, mais tenho quase certeza que ela foi morta. Não conheci meu pai, e minha família odeia que eu fale nele, odeia ele e minha mãe, a chamam de traidora. Mais eu meio que... Meio que sinto e percebo que estão errados e mentindo pra mim. Meu pai não devia ser horrível como dizem, e minha mãe não devia ser uma traidora. Eu sobrevivi por um milagre.
Após isso, Cyara por impulso agarra o lanche sai correndo.
-
Uma menina com olhos aguados encostada em um portão de grade de ferro. Cyara chorava, toda a vez que tentava se lembrar de algo sobre seu pai, ou pelo menos imaginar como era, sentia uma forte dor de cabeça, pontadas nas costas, como se algum osso estivesse sento puxado para fora, mãos formigando e olhos irritados. Parecia uma alergia a certos pensamentos. Ela não podia evitar. Ela não podia fazer parar. Médicos falavam que não era nada, mais ela sabia que era algo.
Todos que estavam a cercando começaram a se afastar, como se o sinal tivesse soado. Porém, tudo estava silencioso, como se todos tivessem virado zumbis.
_Cyara – Uma voz lhe chamou.
_Q-quem é? Por favor, de novo não! – Cyara praticamente gritou enquanto corria.
Há alguns dias, havia começado a ter alucinações assim. Uma doce, misteriosa e poderosa voz num brilho tão forte como o próprio sol, que fazia com que Cyara fechasse os olhos para não parecer ficar cega. Era tão... Impossível, que assustava saber que estava acontecendo. A voz lhe dizia sobre sua mãe, dizia que ela era uma bruxa, e que seu sangue tinha que pagar pelo que fez e falava de seu pai, que cometeu um grave erro, e que esse erro devia ser punido.
_Eu não sou o erro! Não teve erro! – Ela tampava os ouvidos com as mãos, desesperada.
_Você é o erro. E o dever de um Ultor é punir o erro.
Pela primeira vez, Cyara conseguiu cerrar os olhos, os abriu a ponto de ver uma figura vestida de cinza com duas coisas negras batendo atrás de si. Em sua mão havia algo prata. Que reluzia ainda mais seu brilho, o que fez Cyara fechar os olhos novamente e aterrorizada correr novamente. Aquilo era uma lâmina.
_Cyara! Cyara! Cyara Zendeea! Abra os olhos, está tudo bem! – Gritava o professor.
Cyara não sabia como nem porque, mais estava na sala de aula, agachada na parede onde estava pregado o quadro-negro. Estava balançando a cabeça com negatividade, enquanto resmungava chorona – N-não sou um erro! Deixe-me em paz.
_Que erro Cyara? – Hiran se aproximou e baixou seus braços, todos os alunos estavam-na olhando.
_Cyara, o que ouve? – Perguntou Malese, fazendo com que Cyara se virasse para ela e abrisse os olhos.
_Ultor... O Ultor quer punir o erro. – Dizia embaraçada – Eu sou o erro Malese, eu...
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