Queridos Amigos
6 Capitulo 6: Inferno
Notas iniciais
Já haviam passado algumas semanas após o acordo dos quatro moradores de não se envolverem na vida uns dos outros, e haviam cumprido com ele dia após dia. Quando acordavam quase não saiam do quarto, e quando um estava fora, os outros três esperavam o sortudo desconhecido terminar de realizar seus afazeres e voltar aos aposentos. Era assim para preparar a própria comida, tomar banho, ou atender qualquer outra necessidade.
O desconforto era mútuo, e nenhum deles se atreveria a mudar isso.
Merida estava sentada com as pernas esticadas sobre a cama de lençóis brancos, segurava o celular tocando em suas mãos, via a foto alegre de sua mãe enquanto o telefone vibrava, mas aquela foto alegre a assustava.
Norte ordenou o neto a emprestar o carregador de seu telefone para o norueguês e a escocesa, e de mal grado, o fez.
A ruiva falou com a mãe desde que havia fugido de casa. Sabia que estava passando dos limites, mas temia demais falar com Elinor. Mas diferente das outras vezes, atendeu a ligação e colocou o aparelho sobre o ouvido, ainda temerosa.
— Oi mãe.
— Merida! Ah! Que alívio! Eu estava tão assustada! Você está bem?
— Estou sim mãe! – disse Merida, agora menos amedrontada.
— Onde você está?! Por que não me ligou?! – gritou uma Elinor raivosa.
O rosto da filha se fechou novamente revirando os olhos.
— Eu estou na casa de um... Amigo... – respondeu relutando em falar a última palavra.
— Me diga onde é! Eu vou aí te buscar!
— Não vou dizer!
— O que?! Por que não?!
— Eu acho melhor ficar afastada agora. Não quero ver ninguém.
— Merida, você é jovem! Não sabe o que quer!
— E a senhora sabe?! – respondeu a ruiva com raiva.
Ouviu a mãe ficar silenciosa do outro lado da linha, e logo depois soltar um longo suspiro.
— Não está falando de ficar aí, está?!
A ruiva permaneceu em silêncio, sem saber o que responder.
Ouviu a impaciente figura materna suspirar novamente pelo aparelho.
— Merida! – disse Elinor com descontentamento – Todo esse tempo gasto, educando você, preparando você, dando à você tudo aquilo que eu nunca tive! Me diga, o que espera de mim?!...
— Por que quer me envolver agora nos negócios da família?! – respondeu impetuosa, quase interrompendo.
— Merida! – disse a mais velha com verniz de fúria – Você é nossa única filha! Você vai herdar nossa empresa, e o quanto antes aprender sobre ela, melhor!
— Mas não acha que ainda é cedo demais?! – disse a ruiva, modificando e exaltando a voz.
— “Cedo demais” ?! Na sua idade eu saberia mais coisas que você nem pode imaginar!
— Não é disso que eu estou falando! Não é de você!
— Ah! Mas é claro! Tudo é sempre sobre você!
— Como?! Você nunca me escuta!
— Eu sou sua mãe! Você ouve a mim!
A mais nova gemeu alto através do telefone.
— Por quê?!
— “Por quê” ?! Merida! Você está agindo feito uma criança mimada! Você vai herdar a nossa empresa, é a nossa única herdeira e espero que aja como tal!
— E você é um monstro! Isso é o que você é! Se algum dia eu tiver filhos só pra ser uma mãe como você, espero nunca ser mãe, espero morrer antes disso, porque você é uma péssima mãe! – disse a ruiva em meio a ira.
Elinor nada falou, mas a mais nova ouviu um respirar longo e alto do outro lado da linha. Sinal de que passou dos limites, mas mesmo assim, não se sentia mal por isso.
Um longo e trágico silêncio surgiu entre as duas.
O coração de Merida batia forte e sem escrúpulos, a escocesa sentia que o órgão ia explodir em seu peito. Continuava segurando o terrível aparelho fonte de desgraça no ouvido, mas o silêncio a fazia mover os olhos azuis esperando por algum esperançoso sinal de resposta.
A demora silenciosa a assustava, começou a temer pelo pior, seus lábios grossos quase chamaram por sua mãe.
Mas abruptamente, para o alívio e desgosto de Merida, Elinor respondeu.
— Como pode dizer isso?! – havia tanto raiva quanto choro na voz de Elinor.
A ruiva desligou furiosa, não suportava mais aquela funesta discussão.
Olhou o aparelho com raiva, ofegando, o peito subindo e descendo, e impetuosamente o atirou com força na parede clara e dura.
Pôs as duas mãos sobre o rosto triste, sentido as malditas lágrimas surgirem contra sua forte vontade.
E ficou sobre a cama de lençóis brancos e bagunçados, os pés descalços sobre a cama, as pernas dobradas e cobertas pela calça usada, a coluna agasalhada curvada, a cabeça baixa sendo escondida pelos cabelos cacheados e volumosos e as mãos no rosto. Chorando aflita, incapaz de fazer outra coisa no momento.
A jovem e bela Rapunzel dormia sobre a cama, seu corpo magro se contorcia, bagunçando os lençóis grossos e brancos enquanto suava sem parar no quarto gelado.
Seu rosto úmido de lágrimas e suor torcia os músculos em sofrimento, fechava com força ambas as pernas enquanto seu punho cerrado, magro e branco pressionava com força a virilha por cima de seu pijama modesto.
Sua cama ficava cada vez mais bagunçada à medida que se movimentava.
— Não!... Por favor!... Para!... – sussurrava enquanto chorava e seu rosto ficava desesperado.
— Não! – gritou quando acordou, se sentando na mesma hora.
Seus longos cabelos soltos e rosto alvo estavam suados, os olhos verdes arregalados, a boca triste entreaberta, seu peito subindo e descendo sem parar.
Aos poucos a loira se abrandou, mas logo depois caiu em choro, escondendo o rosto em suas suadas mãos delicadas.
Lentamente tentou sair da cama, mas ao invés disso caiu no chão duro e gelado, ainda suada e chorando.
Ficou bastante tempo ali, estática, deitada no chão, chorando, o peito subindo e descendo, o rosto voltado para cima e os olhos verdes ficando sombrios.
Sofria amargamente.
Poucos instantes depois, levantou com certo desespero, pegou uma toalha, e correu em direção ao banheiro, ignorando as regras de sequer olhar para o rosto de seus estranhos companheiros.
Entrou no banheiro, o sol descoberto pelas nuvens frias no momento, então não precisou acender a luz, viu a banheira, pia, vaso, prateleiras, todas brancas e iluminadas pela agradável luz quente e dourada vinda de fora.
Era um lugar espaçoso com apenas o tapete vermelho no chão junto de alguns acessórios de limpeza.
Bruscamente ligou a água quente, enquanto aguardava a banheira encher pendurava a toalha branca e macia, trancava a porta e tirava suas roupas suadas o mais rápido possível.
Entrou nua na banheira antes mesmo dela encher, aguardou em silêncio e com o rosto triste e sombrio, mas já pegava o sabão e lavava diversas partes de seu corpo, o pescoço, o busto, a virilha, chegava a esfregar tais partes com força.
Fez isso por um bom tempo, mas logo depois, quando a banheira estava cheia desligou o chuveiro.
Ficou sentada na mesma, com parte do corpo coberto pela água limpa e reluzente, a cabeça baixa, os cabelos molhados, abraçando os joelhos enquanto os mesmos lhe cobriam os jovens seios. Já não estava suada, mas mantinha a aflição em seu rosto.
Lentamente e com a voz trêmula começou a cantar baixinho.
Brilha linda flor
Teu poder venceu
Traz de volta já
O que uma vez foi meu
Cura o que se feriu
Salva o que se perdeu
Traz de volta já
O que uma vez foi meu
Uma vez foi meu
Depois desabou em lágrimas nas mãos molhadas.
Norte e Rubi estavam no aeroporto frio, cinzento e movimentado da cidade, estavam agasalhados com roupas pretas. Aguardavam o horário da viagem de norte chegar e o mais velho voltar para Moscou. Sentavam-se à uma mesa redonda e preta em bancos metálicos, comiam e bebiam seu café da manhã enquanto estavam de frente um para o outro e conversavam.
— Tinha dito que ia ficar apenas alguns dias, e olha o senhor aqui semanas depois! – disse Rubi com certo desdém, seus olhos sérios olhando para baixo enquanto limpava a boca suja dos restos de sua comida com um guardanapo amassado.
— A vida é cheia de imprevistos, e os negócios também! – respondeu Norte enquanto seguia a apreciar sua refeição, sem se preocupar com justificativas, fazia isso como ninguém.
— Tanto tempo na cidade e nem assim foi nos visitar.
— Eu já disse! Vivo muito ocupado por causa do serviço!
— Mas o senhor foi ver o Jack!
— Ele está com problemas! Precisa de mais atenção!
— E as outras meninas não?!
— Você já fornece à elas toda a atenção que necessitam!
Rubi olhou o pai com raiva e ar de condenação.
— Eu estarei aqui pro natal! Prometo!
— Sei... Eu gostaria de falar sobre uma coisa!
— Diga!
— Jack me falou que tem duas meninas morando com ele, eu queria falar sobre isso com o senhor antes, mas as circunstâncias não deixaram, e eu tenho quase certeza de que o senhor esteve fugindo de mim para não falar sobre isso, é verdade?
Norte olhou a filha com os olhos azuis arregalados, olhou para o lado e novamente para Rubi.
— Qual das duas coisas?
A mais nova segurou um riso, já conhecia o jeito brincalhão de seu pai.
— As duas meninas, é sobre isso que quero falar.
— Há mais um menino também.
— Eu sei! Jack me contou! Vamos deixá-lo de lado e falar só sobre elas, que tal?
— Qual é o problema?
— “Qual é o problema?” ?! Não entendeu onde quero chegar? Tem um rapaz adolescente, morando sozinho com duas garotas adolescentes que não são parentes dele e ainda por cima sem supervisão de um adulto e o senhor me pergunta “qual é o problema?”.
Norte sorriu.
— Do que é que você tem tanto medo?
— Pai, o senhor é inteligente, sabe onde quero chegar! Sabe... Aquela coisa que homens e mulheres fazem para ficar “grávidos”.
Norte riu enquanto baixava a cabeça, os ombros largos e fortes saltando.
— Para de rir! Isso não tem graça!
— Rubi! Deve confiar na criação que deu ao seu filho!
A mais nova se silenciou, remoendo a ausência da vida do filho, pensando concretamente que sequer chegou a cria-lo.
— Eu confio no meu filho, não confio é nelas! Seja lá quem elas sejam! Eu já fui casada, sei que uma mulher pode subverter a criação de um homem! Seja ele quem for! Adão e Eva! Sansão e Dalila! Davi e Betsabeia! Exemplos famosos de homens que caíram por causa de mulher! Por que com meu filho não aconteceria o mesmo?!
— Mas e se assim ele ficar mais feliz? – perguntou sorrindo.
Rubi novamente ficou em silêncio, olhando o pai sorridente.
— O que te dá mais medo? Perder um filho ou ganhar um neto?
— Eu não quero mais falar sobre isso! – disse com os olhos fechados e passando a mão de unhas pintadas na testa alva.
O mais velho fungou sorrindo, voltando a comer, aproveitando a vitória na discussão.
— O senhor podia ser uma figura paterna pra ele...
O idoso distraído engasgou quando ouviu.
Viu a filha lhe olhando de lado com desdém em seus sérios azuis olhos, o cabelo branco lhe cobrindo parcialmente o rosto.
Norte bateu no peito com o punho grande e forte pigarreando, tentou responder, mas não conseguiu.
— Não se sente culpado? – perguntou a mais nova com frieza.
— Estou sempre muito ocupado tomando conta da minha família, mas não tenho tempo para ela. Como acha que me sinto?
Pai e filha ficaram constrangidos e em silêncio, baixaram a cabeça de frente para o outro. Rubi com os braços e as pernas magras cruzadas sob o tecido preto de sua calça modesta e seu casaco e o grande Norte encolhido sobre sua comida.
De repente os autofalantes do aeroporto informaram aos passageiros do mesmo voo que Norte para se dirigirem aos locais necessários.
— Tenho que ir agora – disse com simpatia.
— Faça uma boa viagem pai.
— Obrigado filha.
Se levantaram, Norte pegou sua bagagem volumosa recebeu um abraço da filha magra em seu corpo vasto, pôs a mão forte nas costas da mesma.
— Espere! – disse o mais velho, pegou a bolsa e a abriu, puxando uma caixa de presente pequena e azul com uma fita da mesma cor, só que mais escura.
— Entregue para o Jack, fale para ele abrir apenas no natal, caso eu não chegue a tempo.
Os dois albinos se olharam, a mais nova lançando novamente um olhar de reprovação sobre o pai, e este, forçando um sorriso em seu rosto luminoso, mas falhando.
Balançou a cabeça, jurando-lhe obediência, mas a decepção sentida ofuscava o brilho de seus olhos.
— Está bem, assim aproveito e conheço as duas meninas com quem o senhor deixou ele morando – disse tentando descontrair.
Afastou-se dele e ficou de costas, de repente parou, como se lembrasse de alguma coisa, virou o rosto sobre o ombro, com os olhos escondidos pelos belos e lisos cabelos.
— Dasvidaniya! – falou com frieza, e seguiu caminho.
— Dasvidaniya – respondeu um Norte solitário e abatido, vendo a filha amada se afastar decepcionada, suspeitando que a mesma sequer ouviu.
O grisalho Jack estava fadigado com o estilo de vida forçadamente adotado devido à inconveniente presença de seus hóspedes, então decidiu exercer soberania. Saiu do quarto escuro assim que acordou e começou a assistir à televisão de tela plana.
— Oh loira! Você está aí há mais de uma hora! Sai daí! Eu preciso escovar os dentes! – disse Soluço enquanto batia repetidas vezes na porta marrom de madeira com o punho cerrado, seus cabelos castanhos bagunçados.
A ruiva saiu do quarto apressada enxugando as lágrimas impregnadas ao redor de seus azuis olhos tristes, testava o telefone, vendo se estava estragado, mas para sua sorte não estava. Acabou se deparando com Haddock.
— Oh albino! – chamou Soluço.
A entrada do corredor onde ficava o banheiro jazia atrás do sofá azulado voltado para a grande televisão que estava ligada no momento.
Jack olhou sobre o ombro com desdém em seus olhos azuis e hostis.
— Você é quem manda na casa! Manda ela sair!
— Pra ser sincero quatro olhos, enquanto o que ela fizer não me atingir eu não estou nem aí.
O castanho olhou com desprezo maior, e sussurrou: “Quando você casar vai ser capacho da sua esposa.”.
Bateu mais forte na porta chamando: “Rapunzel!”.
— Já vou! – gritou uma loira irritada de dentro do cobiçado banheiro.
Merida seguia olhando com desdém, também queria escovar os dentes.
A loira saiu com uma toalha branca na cabeça, com poucas mechas de lisos cabelos loiros molhados escapando da mesma e enfeitando sua testa. Enrolada em uma toalha grossa que segurava acima dos seios com a pele ainda molhada e os olhos verdes raivosos.
— Não se pode mais nem tomar banho em paz! – disse raivosa.
De repente, alguém bateu na porta da casa.
Os três jovens no corredor olharam para ela ao mesmo tempo, Soluço e Merida sentido medo, sabiam que o único que sabiam que eles estavam lá era Norte, que estava voltando para a grande Rússia.
Rapunzel, ainda molhada e de toalha, se atreveu a ter esperanças infundadas, torcendo para que fossem seus preocupados pais que estavam ali para busca-la. Mas a luminosa esperança esmoreceu um segundo depois.
Ficaram os três congelados no meio do corredor escuro.
— Ninguém vai atender? – perguntou Jack olhando os três, o braço descansando sobre o sofá, segurando o controle.
— Você está mais perto da porta! Por que não atende você?! – disse Merida com receio.
O platinado se levantou caminhando em direção à mesma, que ficava ao lado da televisão.
— Eu não estou fugindo de ninguém, logo não espero visita, já vocês...
— Eu não estou fugindo de ninguém – gritou Rapunzel.
— Detalhes... – argumentou Jack mantendo seu insistente desdém.
Abriu a porta de madeira clara, e se surpreendeu com a figura parada atrás dela.
— Mãe?! – disse surpreso, como se não a esperasse ver de novo na vida.
Soluço e Merida soltaram o ar dos peitos estufados, com alívio, Rapunzel se acabrunhou, sentindo suas poucas esperanças morrerem.
— O que está fazendo aqui?!
Os três hóspedes no corredor se olharam curiosos em resposta à reação duvidosa de Jack.
Rubi segurava o pequeno e humilde presente azul enlaçado. Atrás dela estava o céu sombrio, pálido e cheio de nuvens, frio como seu rosto maduro. Atrás, próximo à rua à esquerda da mulher, estava seu carro preto bem estacionado.
— Oi Jack! – disse com frieza e relutância depois de um longo suspiro – Eu vim aqui trazer isso.
Estendeu a mão que segurava o presente, o mais novo acolheu o mesmo com estranheza.
— O seu avô me mandou trazê-lo.
— O que é? – perguntou sem grande interesse, olhando para o mesmo.
— Eu não sei, me falou que era para falar para você abrir só no natal – respondeu a mãe com desapontamento.
Os dois ficaram em um desconfortável silêncio por um tempo desgraçadamente prolongado, a mais velha sequer notou a presença dos outros moradores da casa.
— Como tem estado? – perguntou com postura rígida.
— Bem! – respondeu virando o rosto, indiferente.
— Precisa de alguma coisa? – perguntou, suplicando que a resposta fosse sim.
— Não senhora, obrigado.
Permaneceram mais um tempo em silêncio.
Rubi olhou a casa, procurando ver se estava limpa, e estava, seu filho depressivo estava fazendo um bom trabalho.
De repente olhou para rostos brancos a olhando no meio da escuridão, e por um momento ficou assustada, mas se tranquilizou ao ver inocência nas três faces, embora uma delas estivesse só de toalha.
— Oi! – disse forçando um sorrindo e acenando para os três desconhecidos, buscando sua simpatia – Vocês devem ser os amigos do Jack!
Os trio se olhou rápido e em silêncio, e depois de uma curta pausa, responderam com rostos alegres.
— Ah, sim! Somos amigos do Jack!
— Nos divertimos muito!
— O filho da senhora é muito legal!
A mulher fez sem notar um pequeno sorriso quase impossível de perceber ao ouvi-los falando bem de seu amado filho, mas todos foram interrompidos pelo mesmo.
— Não somos amigos! – disse alto o jovem Jack, com o rosto insolúvel como pedra e postura rígida como de sua forte mãe.
Todos os quatro se silenciaram ao ouvi-lo, e o olharam com rosto assustado e coração abatido.
Soluço, Merida e Rapunzel incrédulos com sua cruel sinceridade para com a própria mãe, e sua inabalável hostilidade para com seus hóspedes até mesmo diante de terceiros.
Rubi olhou o filho com tristeza nos olhos azuis em seu belo rosto branco e frio que permaneceu sem alterações.
O mais novo a olhou ainda com rigidez no rosto jovem, seus olhos hostis ávidos pela solidão, pela ida de sua preocupada mãe.
A mãe silenciosa compreendeu seu pedido.
— Está bem... Eu te amo filho!
— Eu também amo a senhora mãe – respondeu com frieza.
Rubi deu as costas, desceu a escadaria sozinha e mantendo sua postura.
Jack a olhou se afastando, seu rosto jovem tremeu um pouquinho como se fosse chorar, mas conseguiu manter sua rigidez.
Rubi chegou ao carro com o rosto insolúvel, abriu a porta do mesmo, sentou-se com recato no banco macio, fechou a porta, colocou o cinto, e bruscamente baixou a cabeça, pôs a mão sobre a testa e suspirou alto e profundamente.
Jack fechou a porta assim que a viu entrar no carro.
Virou-se para voltar ao sofá, mas se deparou com o olhar de julgamento e condenação de seu hóspedes, julgamento por causa de sua frieza para com a mãe, e condenação por sua sinceridade crua: Eles não eram amigos.
O grisalho manteve o firme olhar sério e voltou para o sofá macio e confortável, já sentado atirou o presente para o lado com certo desdém, e voltou a assistir.
Os outros três de repente se olharam quase inconscientemente, mas no mesmo instante saltaram os ombros, viraram o rosto, e voltaram a cuidar de seus afazeres, com a dura realidade em mente, todos estavam sozinhos.
Merida entrou no banheiro antes de Soluço para cumprir suas necessidades básicas da manhã e espremer para fora do peito qualquer resquício de angustia provocado pela conversa com sua mãe, para o desgosto de Soluço, que também incomodou a ruiva em seus afazeres, mas a escocesa se manteve firme, e se atreveu a demorar mais do que pretendia como vingança. Saiu do banheiro empurrando o norueguês para o lado e voltando para o quarto.
Agora Soluço escovava os dentes, esfregava do jeito que sua mãe o ensinara, olhava sua boca repleta de espuma branca e grossa, fazendo as mais variadas caretas para alcançar com a escova onde julgava necessário. Quando terminou cuspiu a espuma, lavou o rosto e a boca e enxugou ambos com uma toalha de rosto no banheiro que agora estava escuro, pois a luz estava apagada, e a porta aberta.
De repente, sentiu o telefone no bolso da calça moletom vibrar. Pegou o aparelho e viu a foto de sua amada mãe. Atendeu.
— Oi mãe – disse com o telefone já no ouvido.
— Oi Soluço! – disse com doce voz materna – Você está bem?
— Estou – disse saindo do banheiro e indo para o quarto.
— E como vão as coisas por aí?
— O dia já começou complicado! – disse deitando-se sobre a cama macia, colocando a cabeça sobre um travesseiro gelado e aconchegante.
— Sério? O que houve? – perguntou com interesse.
— A mãe do garoto de cabelo branco veio aqui hoje, ele basicamente expulsou a própria mãe, e disse que não somos amigos na frente dela, justo quando estávamos falando bem dele.
— Sério?! – respondeu Valka, intrigada.
— É! Esse cara tem problemas mentais...
— Está precisando de alguma coisa?
— Não senhora. O albino vai ao mercado toda semana com o cartão do avô dele, ele compra o básico do básico pra todo mundo comer, ordens do Norte eu acho. Ele inclusive vai ao mercado hoje, só não sei que horas, ele costuma ir a noite pra chegar de madrugada, acho que ele gosta de ver a gente passar fome, ou sono, ou fazer a gente esperar, acho que ele gosta é de fazer a gente sofrer.
Soluço ouviu o riso agradável da mãe do outro lado linha e sorriu também.
De repente, ouviu o riso de Valka ser interrompido, e um longo suspiro vir da mesma.
— Mãe? – chamou Soluço, preocupado.
— Me perdoe por isso Soluço.
— Pelo que? – perguntou com inocência.
— Oi Soluço! – disse uma grossa voz familiar.
Um arrepio de medo percorreu o corpo magro de Haddock, que se remexeu sobre a cama de lençóis brancos com os belos olhos verdes arregalados.
— Pai?! Oi! Pai! Oi! Pai! Oi...
— Não me venha com essa!
O mais novo se calou.
— O que pensa que está fazendo? Fugindo de casa! Passando semanas sem falar comigo!
— Eu sei pai! Desculpa! Eu sei! Ai que confusão...
— Então é isso que pretende fazer na vida?! Fugir?!
— Pai... – disse o mais novo tentando se justificar.
— Soluço escute! – gritou o mais velho, sempre implacável, enchendo de medo o coração do jovem filho – Nossa empresa não anda muito bem ultimamente, e eu preciso achar pelo menos uma pessoa que me ajude! Você é mais inteligente do que seu irmão! Isso é fato! E quero que você invista em algo que nos dê futuro!
— Pai! Eu já tentei! Tá! Eu já tentei e tentei muito fazer algo pra ajudar! E no final eu só percebi que aí não existe futuro para mim! Então é melhor que eu invista onde tenho futuro! Ir atrás de coisas que me interessem! Porque, isso?! Isso não me interessa!
— Então é isso?! – questionou Stoico com rigidez – Nossa empresa anda mal e nem isso faz você reconsiderar?! Vai me abandonar quando preciso de você?! Vai fugir?! – Soluço nada respondeu, não tinha mais o que conversar, depois de mais um tempo em silêncio, disse o mais velho com frieza – Você não é um viking! Você não é meu filho!
Haddock ouviu seu pai desligar o telefone. Seu rosto jovem estava amedrontado e assustado, os úmidos olhos verdes arregalados e vermelhos, engoliu seco e demorou para tirar o telefone do ouvido.

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