Queridos Amigos
7 Capitulo 7: A Dualidade Frost
Notas iniciais
Era fim de tarde, e o vasto céu aos poucos era consumido pela ameaçadora escuridão da noite fria de Filótes.
Rubi ouviu batidas altas na porta de madeira de sua bela casa.
Abriu a porta usando um avental branco e sujo com as mangas finas arregaçadas, se deparou com uma figura incomum, mas não desconhecida.
Uma mulher alta, até mais alta do que a própria, que não era baixa.
Era Valka, a excelsa esposa de Stoico. Carregava uma bolsa bonita no ombro direito, segurando com as duas mãos a alça grossa. Usava uma camiseta amarela de mangas longas por baixo de um confortável casado marrom, junto de calças e botas marrons.
Um olhar um tanto desdenhado surgiu na face séria de Rubi. Olhou a outra mulher de cima a baixo sem demonstrar simpatia.
— Em que posso ajudar?! – perguntou com sarcasmo cruel.
Valka demorou a responder, surpresa com a reação da mulher de cabelos brancos.
— Boa tarde! – disse Valka no início de um sorriso – A senhora é a senhora Rubi não é?! É um prazer, eu sou...
— Eu sei quem a senhora é, senhora Valka, esposa de Stoico, o sócio norueguês do meu pai russo. Eu já a vi várias vezes quando nós duas os acompanhávamos em suas negociações. Nunca conversamos, mas eu sei o seu nome! – disse sem rodeios.
— Isso! – respondeu Valka, olhando Rubi com desconforto – Meus amigos me chamam de Val!
— Olha... – disse a platinada se encostando no portal ao seu lado com total desinteresse, a mão branca e quente tocando a testa – Dona Valka, desculpe-me a grosseria, mas é que agora estou ocupada fazendo um bolo pra minha filhinha triste, então me permita perguntar de uma vez, por que veio aqui?
— Eu queria conversar com a senhora, sobre seu filho.
Rubi arqueou as sobrancelhas bem feitas e arregalou os olhos azuis. Seu corpo magro e alto bruscamente desencostou do portal e ficou ereto.
Saiu da frente da porta e estendendo a mão trabalhadora para dentro da casa disse:
— Por favor entre!
A mais alta adentrou a moradia sem hesitação, passando na frente da moradora.
Valka viu a bela casa daquela peculiar família russa, o chão limpo de madeira, as paredes verde-musgo cheias de formas imaculadas, os móveis antigos, alguns de madeira, nas paredes os mais diversos apoios e prateleiras feitas de madeira, e um abajur alto com corpo de metal preto e fino, emitindo uma bela e agradável luz dourada ao lado da porta. A escandinava pôs o casaco no apoio perto dela, depois ficou parada, apreciando a bela visão na qual se encontrava inesperada e agradavelmente mergulhada.
— Por favor espere aqui! – disse Rubi logo após fechar a porta enquanto se afastava, pegou uma bolsa no caminho.
— Claro! – respondeu Valka apreciando sorridente a beleza ao redor.
Rubi começou a caminhar bruscamente entre os corredores escuros da casa, a cabeça fria começando a esquentar.
Bateu educadamente na porta do quarto de sua filha mais velha.
— Pode entrar! – respondeu Esmeralda de dentro do quarto.
A mais velha abriu a porta com violência e se deparou com a filha de lado para a mesma, sentada com as pernas cruzadas em um banquinho de frente para sua penteadeira com um grande espelho oval com entalhes dourados de madeira, a estante repleta de maquiagens e materiais de beleza. Usava belas roupas leves de sair, se olhava no espelho com os olhos azuis vendo o belo rosto enfeitado, enquanto enfeitava o lábio carnudo com um brilho labial úmido e rosado.
O quarto de Esmeralda era grande, havia uma bela e enfeitada cama de casal na qual dormia sozinha sob os lençóis gelados e macios, um grande armário para suas belas roupas, uma lâmpada dourada, um belo tapete rosa, cheio de belas formas ordenadas e várias roupas sobre o chão.
— Quero que leve sua irmã para sair! – disse Rubi com autoridade.
— Não dá! Tenho um encontro hoje! – respondeu despreocupada ainda se olhando no espelho, guardando o brilho labial.
— Não tem mais!
— Mas mãe! – disse olhando a mais velha com desgosto no rosto enfeitado.
— Sem “mas”! Você vai me obedecer! Entendeu? – disse rigorosamente, levantando a voz.
Esmeralda gemeu de desgosto enquanto girava a cabeça revirando os olhos.
— E o que a senhora quer que eu faça?!
Rubi tirou um pequeno bolo de dinheiro da bolsa e deu para a filha dizendo: “Pegue isso aqui! Não ligo para onde for com sua irmã! Leve-a para o shopping, ao cinema, ao parque, qualquer lugar! Só saia com ela e só volte quando eu ligar, ou lhe passar uma mensagem! Entendeu?!
— Entendi! – respondeu a mais nova agora com um sorriso nos lábios enfeitados, pegando o dinheiro e começando a contar – Posso pegar o carro? – perguntou quase casualmente, se aproveitando da situação.
— Pode! E não me importa o que façam, contanto que não façam nada errado, você e sua irmã voltem sãs e salvas e na hora que eu mandar! E devolva para mim o que restar do dinheiro!
— Mas mãe! – reclamou Esmeralda franzindo o cenho.
— Você entendeu?!
A mais nova gemeu de novo, curvou o corpo magro e olhou a mãe de baixo, desgostosa.
— Entendi! – respondeu desagradada.
Rubi fechou a porta do quarto com força quando saiu.
Caminhou rapidamente até o quarto da filha mais nova, abriu a porta com a mesma força de antes, e se deparou com a filha sentada no chão de tapete alvo, os pés brancos e pequenos descalços, usando um vestido fino. A pequena platinada brincava tristemente com seus brinquedos de pelúcia no meio do quarto escuro, agora iluminada pela luz branca que adentrava seu belo quarto em forma de retângulo.
Seu admirável quarto era tipicamente infantil, uma cama pequena bem arrumada, brinquedos espalhados e coisas de princesa.
— O bolo já está pronto? – perguntou Emma com um sorriso inocente no rosto.
Rubi olhou amorosamente para a filha pura no meio da escuridão desagradável. Nos últimos dias a pequena Emma se esquecia de acender a luz de seu quarto.
Acendeu a luz, caminhou até a pequena em silêncio, se ajoelhou sobre uma perna e começou a falar.
— Emma – pôs a mão no ombro pequeno da filha, que seguia sentada, segurando ainda uma pelúcia nas mãos pequenas – escute, a mamãe recebeu a visita de uma... Amiga – relutou em dizer a última palavra, mas concluía que era a melhor maneira de explicar de forma discernível para a mais nova – Nós duas vamos conversar coisas de adulto, então você vai sair com sua irmã agora.
— Mas e o bolo? – perguntou Emma tristonha.
— Eu vou terminar de fazer – respondeu – quando você chegar você come.
A mais nova olhou para baixo, triste.
— Entendeu? – perguntou amena.
Emma balançou a cabeça, ainda com o rosto triste.
— Essa é minha menina! – disse, e beijou-lhe o rosto gelado e macio – Vá se trocar.
Rubi levantou, olhando a filha de cima com um sorriso amoroso no rosto, e saiu fechando a porta.
Instantes depois a russa voltava para a cozinha, para terminar de preparar o bolo.
Valka permanecia na sala, aguardando sua hostil anfitriã.
Ao chegar na cozinha, Rubi chamou a visitante com a mão, que adentrou a mesma, por mais que aquele lugar estivesse sendo usado, ainda assim estava quase totalmente limpo.
— Sente-se! – disse para Valka, de costas, terminando de colocar o bolo da filha na forma.
A norueguesa sentou-se em silêncio, pondo a bolsa sobre a mesa redonda de madeira.
— Tchau mãe! – disse Esmeralda, caminhando com a mão esquerda dada para a irmã pequena enquanto saia pela porta, usando um casaco e carregando as chaves do carro na outra mão.
— Tchau mãe! – disse Emma acenando, usando também um casaco, este que ficava grande demais em seu corpo pequeno.
— Tchau! – respondeu Rubi distraidamente por causa do bolo.
A escandinava olhava a mulher magra de costas trabalhar com precisão e rapidez, os cabelos alvos e imaculados balançando enquanto isso.
— Aguarde um pouco senhora Valka, já termino aqui! – disse de costas para a mesma, enquanto colocava o bolo no forno quente com suas azuladas luvas de cozinha.
— Não precisa ter pressa – respondeu educada.
Quando Rubi finalmente fechou a porta do forno, vendo o próprio reflexo no vidro escuro do mesmo, agora iluminado pela luz alaranjada da chama, levantou-se, tirou as luvas e as atirou forte para o lado, no balcão da cozinha.
Virou-se para a visitante.
Eslava e escandinava se olhavam defronte no meio da cozinha grande, cujos vários móveis brancos estavam fracamente cobertos por uma escuridão mórbida, a mesa debaixo da luz branca do local sagrado sendo o lugar mais iluminado, brilhando sobre Valka, sentada, com as mãos sobre a madeira limpa da mesa e Rubi, de pé, com o corpo apoiado no fogão, com as mãos sobre o mesmo. Ambas se olhando sérias e pacíficas.
— Desculpe – disse Rubi ficando ereta e caminhando em direção à geladeira – Não lhe ofereci nada, gostaria de alguma coisa? Uma água? Um café? Uma cerveja? Desculpe, não tenho Linie Aquavit, aceitaria Vodca?
— Vodca?! – Valka questionou baixo, contudo, Rubi voltou-se para a mesma segurando uma garrafa de vidro com um conteúdo transparente, com a face natural – Russos... – disse ela sorrindo enquanto balançava a cabeça, se divertindo com a mulher – Eu aceito a cerveja.
Rubi colocou a garrafa gelada de Vodca sobre o balcão limpo e voltou-se para a geladeira. Pegou uma garrafa marrom repleta de belos e grossos cristais de gelo. Valka ficou com água na boca ao ver tal imagem.
A albina foi até o balcão, pegou o abridor, tirou a tampa metálica fazendo o som clássico de garrafa sendo aberta e metal caindo e a colocou sobre a mesa diante de sua visitante. O gelo subindo lentamente em espectro da boca destampada da mesma.
— Obrigada – disse a mulher norueguesa pegando a garrafa e a olhando com avidez.
— Vai querer um copo? – perguntou indo em direção ao armário alto cheio de taças, canecas e diversos tipos de copos.
— Não! Obrigada! – disse Valka logo após separar os belos lábios da garrafa de cerveja, limpando o canto da boca.
Rubi abriu o armário e pegou um copo próprio para Vodca. Pegou a garrafa no balcão, caminhou até uma cadeira, serviu-se e sentou-se diante da mulher do outro lado da mesa, deixando a garrafa ao lado do copo. Tudo em silêncio.
A russa bebeu todo o líquido em apenas um gole, para a surpresa de Valka, que degustava da cerveja de sua anfitriã, depois Rubi voltou a encher o copo.
— Me desculpe a pergunta, mas como me encontrou? – começou, perguntando séria e direta enquanto recarregava o recipiente, o olhar sereno e sério olhando o mesmo encher.
— Falei com o Norte e pedi a ele para me dizer onde você morava, e ele me passou esse endereço.
— Meu pai?! Mas ele está em um voo para Moscou, não devia usar o telefone, isso é... – dizia a albina, contudo, se deu conta dos corriqueiros atos atrevidos e inconsequentes de seu velho pai – Ah pai... – disse com os olhos fechados e os finos dedos brancos sobre a testa alva – O senhor não vai mudar nunca?!
Valka olhou para baixo e para o lado com sorriso constrangedor, mas logo depois começou a falar.
— Enfim! Eu sou a mãe do Haddock, o garoto que atualmente está morando com seu filho! Ele me disse há alguns dias que estava morando com o neto do Norte.
— Ah, ele é seu filho?! Eu não sabia!
— Sim! Eu sou a mãe dele! Esperava que soubesse... E ele me falou do que aconteceu hoje cedo quando a senhora foi visita-lo.
— Falou foi?! – disse com certo desdém, mexendo o líquido de seu copo olhando evasivamente para o mesmo.
— Falou! E eu gostaria de falar sobre isso com a senhora! – disse Valka, exigente.
— O que ele falou? – perguntou Rubi, com o mesmo nível de exigência.
— Me falou que ele quase expulsou a senhora daquele lugar, que quando meu filho estava falando bem dele ele disse que não eram amigos. É verdade?
— Não totalmente, não foi só ele que falou bem do meu filho, as duas meninas também. Por falar nisso, a senhora não se incomoda que o filho da senhora esteja morando com duas meninas sozinho?
— Não! Eu confio no meu filho! E agradeceria se não tentasse mudar de assunto!
— Se me permite Dona Valka, por que a senhora se importa com meu filho? – respondeu raivosa – Um rapaz estranho que nem sequer o filho da senhora chegou a conhecer direito?! Isso não é da conta da senhora! – concluiu.
Valka de repente modificou o rosto sereno, um brilho sombrio apareceu em seus olhos verdes e seus lábios antes pujantes e alegres murcharam abruptamente.
Rubi arqueou levemente as sobrancelhas ao notar a reação extrema e inesperada da visitante.
A escandinava olhou para o lado, sentindo um tremor familiar no coração dentro do peito antes acolhedor, que aos poucos subia e descia.
A platinada seguiu olhando a mesma, mantendo certa insensibilidade.
— Desculpe! – disse a norueguesa alta ainda mantendo seu olhar esverdeado aflito – A senhora tem razão! Uma total estranha vem aqui querendo falar com a senhora sobre seu filho e a senhora tem o direito de saber o porquê.
A eslava permaneceu em silêncio, olhando-a fixamente.
Valka suspirou olhando para o alto com pequenas gotas começando a tentar transparecer de seus olhos agora conflituosos, enquanto sua mente afiada buscava palavras adequadas para falar.
— Eu já conheci gente com um comportamento semelhante ao de seu filho, e acredito que esse comportamento não é saudável, e eu me sinto na obrigação de fazer algo a respeito para tentar ajuda-lo – havia surgido um estranho peso em sua voz sábia, quase um choro sofrido.
Rubi olhou atentamente o rosto agora carente de paz da visitante, segurava o copo frente aos lábios rosados olhando ainda com atenção a mulher a sua frente. Pequenos sinais de empatia começavam a surgir em sua face séria, e um caráter acolhedor atrofiado para pessoas que não são de sua família aos poucos começou a estranhamente ganhar força.
Pôs o copo sobre a mesa e falou:
— Essa gente que a senhora conheceu... O que aconteceu com ela?
Valka não respondeu, não teve forças para tal, seu rosto maduro, agora tenso, manifestava uma sensação de peso sobre a cabeça castanha.
— Ela morreu não foi?
O rosto belo da escandinava começou a se contorcer e ficar vermelho, enquanto poucas lágrimas começavam a sair de seus agora tristes e dolorosos olhos claros.
— Ela se matou? – perguntou Rubi, com sua compaixão aumentando gradativamente e uma doçura começando a surgir fracamente em sua voz sempre séria.
Valka enxugou as lágrimas e bebeu da cerveja, seu rosto doloroso pareceu um pouco mais aliviado após o gole.
— Era alguém que a senhora amava?
A visitante pôs a mão no rosto, respirou fundo. A resposta estava clara como água.
— Lamento – Rubi falou baixo olhando-a com respeito e uma empatia aumentava em seus frios olhos azuis.
— Quando se conhece e ama alguém que foi vítima desse mal, você passa a vida inteira se culpando por isso! Isso dura a vida inteira! Você pensa: “Eu poderia ter impedido?” “Será que eu não dei atenção o suficiente?”. Você se lembra dos momentos bons que vivenciou com essa pessoa... E apesar de tudo essa pessoa continua sendo a mesma diante de você, nunca um...
— Entendi! – disse Rubi, o tom de voz implorando para que parasse de se torturar.
Valka olhou o rosto alvo da eslava com olhar relutante e aflito, mas compreendendo seu pedido.
— Me desculpe – disse envergonhada.
Rubi estranha e lentamente direcionou a mão ao punho fechado da outra mulher, o caminho inteiro a russa relutava, como se uma virtude de empatia ou até de comunidade a conduzisse a tal ato nobre, mas ao mesmo tempo sua frieza a tentasse impedir. Sua mão repetidas vezes se arrastava pela madeira fria da mesa e parava, seguindo este ritmo enquanto a norueguesa seguia com olhar baixo, sombrio e distraído.
Alguma coisa naquela mulher escandinava despertava tal conduta na mãe russa, e no fundo ela sabia que era porque aquela mulher queria falar sobre seu filho distante de quem queria se aproximar.
Valka se assustou quando sentiu a mão gelada e macia de sua anfitriã tocar a dela em um caridoso ato de consolo.
— Como se sente? – perguntou Rubi com sinceridade e importância em seus olhos fortes.
Valka demorou para responder, levou alguns segundos para assimilar a gentileza da mulher que antes lhe fora hostil. Aos poucos recolheu a mão, mas agradeceu-a com os olhos e um sorriso amistoso no rosto.
Rubi também recolheu a mão e não respondeu sequer com a face.
Agora com umidade ao redor dos olhos e voz chorosa, Valka tomou um gole maior da cerveja, e logo depois continuou:
— Culpada. Sinto saudades. Eu só queria poder abraçar essa pessoa de novo, dizer que a amo. Eu não quero a senhora passe por isso também... Ainda mais com seu filho.
A eslava a olhou com mais conforto, como se encontrasse certa liberdade para falar com aquela mulher com quem nunca tinha conversado direito. Agora ela ouvia o coração de Valka, sabia seus pensamentos, seus sentimentos e suas verdadeiras intenções.
— Se quiser falar mais sobre isso pode falar, sou toda ouvidos – disse agora forçando um sorriso gentil, embora distante, em seu rosto sincero.
A escandinava sorriu novamente.
— Obrigada! – suspirou e prosseguiu, como se nada tivesse acontecido – Também temo pelo meu filho... Ele é tão solitário, o primo dele, os amigos do primo, seus colegas de escola, ele não consegue fazer amizade com ninguém! Ele só tem o gato dele como amigo, acho isso uma coisa saudável, mas ainda assim, creio que ele precisa de um amigo humano...
— Eu também temo pelo meu filho – disse Rubi com a voz estável – Desde a morte do pai a alguns anos ele nunca mais foi o mesmo.
— Você é viúva... – disse Valka – Lamento!
— Tudo bem – disse Rubi reavendo sua frieza enquanto segurava o copo de Vodca – Isso foi há muitos anos.
— Se não se importa, posso perguntar como aconteceu?
A albina sorriu para a norueguesa enquanto seus belos ombros saltavam.
— O que é isso?! Uma troca de histórias trágicas?!
— Acho uma boa ideia! – disse a visitante cruzando os braços sobre a mesa, brincando – Eu já falei um pouco sobre mim! Agora é sua vez!
A fria Rubi fechou os olhos e suspirou, sentindo a queimação habitual da Vodca em sua garganta.
— Tudo bem! – respondeu abrindo os cansados olhos azuis – Foi há alguns anos, Jack era pequeno, e Emma, minha filha mais nova, a menininha que você viu, era menor ainda, eu a considerava basicamente uma recém nascida. Emma foi quem passou menos tempo com o pai, mas duvido que ela sinta falta de um, o irmão dela assume esse papel muito bem, ela se lembra pouco dele, mas o ama muito. Contudo Jack herdou todas as virtudes de seu pai, eu falei que ela estava fazendo um bolo porque ela está triste, e ela está triste porque o irmão dela não está aqui, ela sente saudade dele.
Valka prestava piamente atenção na história de Rubi. A eslava bebia novamente de sua forte bebida transparente e voltava a encher o copo.
— Meu marido era polonês, era um marido maravilhoso e um ótimo pai – disse Rubi fazendo involuntariamente um sorriso nostálgico no lábio rosado, mas de repente o mesmo sumiu – Certa noite de inverno nevado, ele voltava do mercado, carregando as compras, vinha a pé pois tinha o costume de fazer longas caminhadas. Vinha uma moça jovem andando na direção contrária a dele, usando fones de ouvido. De repente um carro escorregou na neve que estava no chão de pedra, ia em direção à menina, mas ele empurrou ela e o carro o acertou em seu lugar – A anfitriã bebeu rapidamente outro gole de Vodca, e novamente enchia o copo mantendo um olhar raivoso e sombrio – Alguns minutos após o acidente chegou a ambulância, o motorista estava bêbado e não estava usando cinto de segurança, morreu na batida, já a menina sobreviveu. Me ligaram do hospital, fui o mais rápido que pude, nem sequer falei aos meus filhos para não preocupa-los. Meu marido estava com ossos quebrados, hemorragia interna e os aparelhos não podiam fazer muita coisa por ele... Ele me falou muitas coisas antes de partir, segurou minha mão o tempo inteiro. A menina cuja vida ele salvou sequer apareceu em seu funeral...
Um longo instante de silencio surgiu na cozinha vasta e gelada, Valka olhava a russa fixamente, enquanto a mesma ficava com os olhos tristes, frios e pesados olhando para o lado, lembrando dos terríveis momentos finais de seu amado cônjuge.
— Que triste! – disse a norueguesa sem sequer tremer o rosto – Eu lamento.
Rubi a olhou de relance, mantendo a frieza de seu olhar.
— Obrigada – disse a eslava, falando baixo e apática por baixo do copo que levava à sua boca – Quem foi que você perdeu? – perguntou a albina logo após beber a substância no copo e colocá-lo sobre a mesa.
A pergunta soou como uma ordem, e para a escandinava, responde-la era uma coisa justa, já que Rubi lhe contara a história toda de sua grande tragédia.
— Meu irmão – respondeu bruscamente – Era a única pessoa que eu tinha na vida antes de me casar, meus pais faleceram quando eu ainda era criança, ele me criou.
— Há quanto tempo foi isso?
— Isso foi há muito tempo. Eu já tinha meus vinte anos. Brigávamos muito, mas no fundo, a gente se amava... Eu o amava...
— Lamento...
Mais um instante de silêncio se iniciou após as lamentações.
— Senhora Rubi! – disse Valka, fazendo a albina levantar o olhar triste – Nunca considerou se casar de novo? Sabe... Dar outra figura paterna ao seu filho, talvez isso possa ajudá-lo... E talvez sua filhinha também possa se beneficiar com isso.
Rubi balançou a cabeça baixa, fazendo que não.
— Não, eu nunca mais vou me casar de novo.
— Escute, imagino como pode ser traumatizante perder um marido de forma tão horrível e tão cedo, mas não deve querer evitar relacionamentos novos com medo de que isso aconteça de novo...
— Não... – disse a russa quase rindo – Não é isso!
— Então é o que?
— É uma longa história – disse Rubi sorrindo e coçando a cabeça, parecendo debochar de si mesma.
— Sou toda ouvidos, e tenho tempo de sobra! – disse a norueguesa tentando brincar.
Rubi olhou a visitante de lado com um sorriso rosado e forçado ainda mantido em seu rosto alvo. Suspirou e comentou: “Já que insiste.”.
Valka se ajeitou na cadeira e gesticulou para que a anfitriã começasse.
— Eu, assim como meus filhos, nasci na Rússia, em Moscou, mas quando nova fui enviada para a Ucrânia para morar com alguns tios meus porque meu pai não tinha muito tempo para mim e temia me deixar com quem não conhecesse. Lá eu terminei minha formação, entre elas religiosa, e lá na Ucrânia se ensina o seguinte sobre o Matrimônio: O amor é mais forte do que a morte, e não se acredita que o amor entre marido e mulher deixa de existir quando um dos dois morre, tanto que os padres recomendam não contrair um segundo matrimônio.
A escandinava arqueou as sobrancelhas.
— E é isso! – continuou Rubi mantendo um sorriso debochado sobre si mesma – Eu acredito que meu marido ainda me ama lá do céu, e não quero trair seu amor, o conhecendo bem, ele faria o mesmo por mim, um dia quero voltar a estar com ele, para sempre – Valka seguiu calada, olhando a mulher com os olhos verdes arregalados – Se quiser rir, pode rir, mas depois vai embora da minha casa! – ameaçou a anfitriã.
— Não! – respondeu a visita quase rindo muito mais pela ameaça do que pelas crenças da eslava – Claro que não, não vou rir! – Valka olhou a mulher com admiração, enquanto suas convicções lhe esquentavam o coração – Isso é muito romântico! – disse com tanta admiração que quase sussurrou.
— A ideia não é ser romântica, mas... Obrigada! – disse Rubi com sincera gratidão, embora a escamoteasse com véu de desdém.
— Deve se sentir muito sozinha.
— Sim... É bem solitário... Mas nossas crenças nos fortalecem.
— Quer saber?! Adorei! Acho que vou fazer o mesmo que você! Stoico foi meu primeiro amor! Quero que ele seja o único, caso ele vá primeiro não pretendo me casar de novo! – disse obstinada e sorridente.
Rubi sorriu um tanto desdenhada em meio ao sofrimento de seu rosto.
— Não acho que esse seja o espírito da coisa, mas caso seu marido parta antes de você e você conseguir viver assim, ficarei feliz em saber que não sou a única nessa situação – disse a eterna viúva – sem ofensas.
— Eu adoro meu marido – disse Valka – Apesar de todos os problemas, ainda mais os que ele tem com Soluço. É ele quem mais me dá forças, quem está ao meu lado... Me compreende, me ama...
— Espera, Soluço?!
— Ah, desculpe! É que é assim que chamamos meu caçula em casa. É o apelido dele, quase um segundo nome.
— As pessoas que nos conhecem nos chamam de “os Frost”.
As duas acabaram rindo, agora mais descontraídas.
— Não é tão ruim! – disse Valka ainda sorrindo.
— Não, não é! – disse Rubi desfazendo o sorriso alegre lentamente – Senhora Valka, obrigada por vir aqui e tentar me ajudar.
— Pode me chamar de Val! – respondeu.
As duas mães se olharam, maduras e sorridentes. Mas logo depois voltaram a conversar seriamente.
— Eu sei que meu filho tem problemas! – o sorriso sumiu do rosto de Valka – E eu temo que ele queira se unir ao pai dele antes de mim por vontade própria, mas isso tudo é culpa minha!
— Não! Rubi! Escute! Eu sei que seu filho tem problemas, e que os pais também erram, mas a partir de um certo momento, ele terá que fazer suas próprias escolhas, e isso será responsabilidade dele!
— Eu agradeço por tentar me consolar, não estou dizendo que ele não tem pecados, só estou dizendo que os pecados dele tem uma origem, eu! – falou apontando com o polegar para si mesma, enquanto segurava o copo com a mesma mão – Nós também iremos pagar pelos pecados que fizemos outras pessoas cometerem!
— Como pode ser culpa sua?!
— Eu nunca estive ao lado dele! E ele com certeza nunca me viu como alguém com quem pode contar! Quando eu falei para ele e suas irmãs da morte do pai, a Esmeralda e a Emma vieram correndo até mim, chorando, já o Jack, ele apenas ficou de pé no seu canto, chorando sozinho, sentindo solidão, o único movimento que ele fez depois disso foi o de cair sentado chorando com as mãozinhas no rosto!
Valka engoliu seco, olhando para o lado, deu um longo gole de sua cerveja gelada.
— Se quiser pensar mal de mim, pode pensar, mas não pense mal do meu filho! Ele é um bom rapaz!
— Meu filho também é! Eu acredito em você!
Rubi sorriu em meio a amargura de seu rosto, logo depois gemeu de frustração e disse:
— Mas cuidar dele era tão difícil! Cuidar das meninas era mais fácil! E era o pai dele quem mais cuidava dele quando ele era pequeno!
— Eu sei que cuidar de meninos é mais difícil! – disse Valka sorrindo – Eu tenho três em casa! E olha que só dois deles são meus filhos!
A eslava demorou a entender a piada, mas quando entendeu, as duas voltaram a rir.
— E como você faz? – perguntou finalizando as risadas.
— Precisamos conhece-los, ceder um pouco, nos adequarmos ao gosto deles. Muitas vezes já assisti aos jogos do meu marido e do meu filho mais velho sem nem saber para quem torcer, muitas vezes já ouvi as histórias do meu filho caçula sem ter ideia do que se tratava, além de ajudar a cuidar do gato dele, mas também temos gostos em comum.
— Você é uma boa mãe! – disse Rubi, agora mais sorridente – Você poderia me ajudar...
— Claro! Salve meu contato! – disse a norueguesa.
Um segundo após sua fala, o telefone da russa tocou. Ela olhou o número, era desconhecido. Logo depois desligou.
A eslava viu sua visitante guardar o telefone logo após a estranha ligação.
— Foi você quem ligou? – perguntou após olhar dela ao telefone repetidas vezes.
— Foi! – respondeu sorrindo.
— Como conseguiu meu número?
— O Norte... – começou Valka.
— Meu pai te passou, já entendi! – disse ela interrompendo e balançando a cabeça com os olhos fechados, suportando as atitudes inconsequentes e inesperadas de seu pai.
— Olha, adorei conversar com você – disse se levantando e pegando a bolsa – Queria ter falado mais sobre seu filho, mas agora preciso ir. Ainda quero falar sobre isso.
— Tudo bem, Val... Também gostei de conversar com você. Também quero falar sobre meu filho. Se quiser pode tomar toda a cerveja.
A norueguesa obedeceu no mesmo instante.
Ambas caminharam conversando para fora. Valka fazendo vários gracejos.
— Só espero que não me prendam por dirigir bêbada!
— Não tem como você estar bêbada! O teor alcóolico dessa bebida é muito baixo e pelo jeito que bebe não é sua primeira vez. E levando em consideração o que eu sei o que pessoas bêbadas podem provocar, se você estivesse bêbada eu não a deixaria dirigir.
— Sem graça... Posso lhe fazer uma pergunta?
— É sobre a minha casa não é?!
— Sim...
— Eu sei, a maioria das pessoas que olham nossa casa sabendo que eu sou filha de um mega empresário russo ficam surpresas por nossa casa não ser uma mansão com mil andares e centenas de empregados e eu saber cozinhar e fazer nossa própria comida. Mas a explicação é simples, meu pai não nasceu em família rica, e quando ele enriqueceu jurou para si mesmo que não queria ser mais um daqueles ricos que não tem contato com gente pobre. Todo final de ano ele doa brinquedos e comida para as criancinhas pobres de Moscou, tudo do próprio bolso, um verdadeiro São Nicolau. Ele ensinou isso a mim e eu passei esse ensinamento aos meus filhos. E também o meu marido não era rico e sempre teve que trabalhar muito na vida, então ele também aceitou viver assim. Meu pai inclusive adorava ele, já que ele sempre ajudava meu pai quando ele fazia caridade às crianças de Moscou.
Valka pegou o casaco e olhou a platinada com respeito e admiração. Rubi agradeceu a gentileza através de seus olhos azuis, ainda manifestando certo constrangimento.
Rubi abriu a porta e deixou a visita sair, olhou a norueguesa caminhar até o carro vermelho no meio da noite.
Acenaram uma para a outra.
— Da próxima vez quero comer do seu bolo, se sua filha deixar! – gracejou a norueguesa novamente.
— Pode deixar! – respondeu a russa agora mais sorridente.
A escandinava vestiu o casaco.
— Val! – chamou a russa quando a norueguesa estava prestes a entrar no carro.
Valka a olhou sobre o veículo, com a mão direita sobre o mesmo.
— Meu filho é uma boa pessoa! – disse Rubi, agora com sofrimento em seus olhos brilhantes debaixo da noite escura, Valka a olhando com atenção – Você vai ver!
Já era madrugada, a mística lua prateada brilhava no céu escuro sobre a cidade fria que aos poucos se enchia de neblina densa.
Jack estava sentado no banco frio de um ônibus cinzento, ao seu lado e em seu colo várias sacolas brancas carregando comida e bebida.
O jovem russo usava um moletom branco com desenhos de belos flocos de neve azuis, o capuz macio levantado sobre a cabeça, cobrindo parcialmente os cabelos brancos. O rosto jovem e sem ânimo apoiado na mão direita, próximo ao vidro da janela.
Olhava as ruas escuras, geladas e sem vida passarem rapidamente diante de seus olhos azuis, algumas iluminadas por belas luzes brancas, mas que iluminavam pouco na cidade, a maior parte do que via eram lugares escuros e esteticamente hostis.
Não havia mais nenhum passageiro no ônibus. Quando o veículo parou, o eslavo caminhou sozinho pelo mesmo até descer as escadas em silêncio.
O motorista apenas fechou as portas e seguiu seu caminho na noite escura, o último a ser servido ficou de costas para o veículo grande indo embora, fazendo barulho e deixando fumaça.
Jack começou a caminhar pela calçada à sua esquerda, havia herdado o hábito de fazer caminhadas com seu pai, ainda mais quando fosse às compras.
Andava em silêncio, carregando as sacolas em ambas as mãos, debaixo da luz azulada da lua e cercado pelos becos e vielas limpos, escuros e frios.
O platinado gostava de ir ao mercado de madrugada porque tinha menos fila, e tinha esse hábito graças ao seu herói de infância. Além de amar o silêncio e o frio da noite em Filótes, sentia como se as baterias recarregassem.
De repente, o rosto calmo de Jack ficou pesado, sentindo a cólera que sentia antes de sair da casa de seu avô, cólera provocada pelos visitantes indesejados.
Aos poucos começou a reclamar baixinho consigo mesmo.
— Se aqueles moleques mimados não tivessem aparecido eu não precisaria carregar mais peso, nem ouvir reclamações daqueles ingratos por comprar comida a essa hora. Obrigado mamãe e vovô, muito obrigado por me obrigarem a comprar comida pra eles! Vocês são amáveis! Obrigado! Se querem me ensinar como é ruim ter filhos, meus parabéns, fizeram o trabalho muito bem feito!
O albino seguia reclamando, porém gostava de ir ao mercado em tal horário, não só pelo hábito nostálgico, mas também porque quando chegava, seus hóspedes estavam todos dormindo, ele podia guardar tudo e ir dormir sem ter que falar com ninguém.
Dentro de pouco tempo chegou na rua da casa em que morava no momento, não havia postes de luz na frente dela, por isso a luz azul do luar brilhava intensa sobre a mesma.
Jack subiu as escadas brancas de madeira enquanto procurava as chaves da casa no bolso.
O russo destrancou e abriu a porta despreocupado, contudo, ao fecha-la e tranca-la novamente se virou e se assustou, os ombros agasalhados deram um leve salto.
Viu que Haddock estava sentado no sofá macio da sala, os óculos fora de sua face, a mão magra sobre a boca, os olhos verdes olhando para baixo deixando escorrer lágrimas quentes e salgadas. Ainda estava vestido com suas roupas casuais, as costas curvadas e o olhar preocupado. O rosto triste e o corpo magro iluminados pela azulada luz pacífica da lua.
Jack olhou aquela cena surpreso. Não só por não esperar ninguém acordado – o susto já fez valer o fato – mas por não esperar ver a face da angústia no sofá da sala de seu avô naquela madrugada.
— Quatr... – ia chamando o hóspede da forma habitual, mas segurou a língua e mudou de ideia – Haddock?
Soluço virou o rosto para o mesmo com a mão ainda sobre a boca.
— Você está bem? – perguntou olhando-o com seriedade em seu rosto mais ameno e menos encolerizado.
Haddock sorriu quase com escárnio, não pretendia manter pose.
— Estou acordado de madrugada, chorando no sofá da sala de uma casa que não é minha! Ah, sim! Estou ótimo, obrigado por perguntar!
O eslavo revirou os olhos diante da resposta hostil do norueguês e caminhou em direção à cozinha.
Ficou em silêncio após a resposta do escandinavo, e o castanho voltou ao seu sofrimento solitário.
Jack colocou as compras sobre o balcão. Dentro de alguns poucos minutos colocou tudo em seu devido lugar e logo depois guardou as sacolas.
Pegou uma lata gelada de refrigerante e abriu, fazendo um barulho alto no silêncio da casa. Caminhou novamente até a sala, olhando Haddock ao longe, que estava de lado para ele, ambos iluminados pela luz azulada do orbe lunar que entrava pelas janelas, e lhe perguntou:
— Posso pelo menos perguntar qual é o problema?
Soluço o olhou de lado, mantendo sua melancolia e olhar choroso.
— Por que quer saber? – perguntou mantendo a hostilidade.
No fundo, o garoto russo tinha coração mole, e facilmente se compadecia de pessoas sofrendo.
— Não tenho nada melhor pra fazer! – disse com ar de deboche.
O escandinavo olhou o albino franzindo o cenho com ar de insulto, agora parando de chorar. Jack o olhava atentamente, em seu rosto jovem jazia a sombra de um sorriso.
— Dane-se! – disse Soluço após um longo gemido, não tinha mais nada a perder, falar com aquele garoto eslavo sobre seus problemas não devia fazer muita diferença – Briguei com meu pai! Nós dois brigamos e ele disse que eu não era filho dele!
Jack ficou em silêncio, seu rosto frio iluminado pela luz azul do astro noturno já não possuía qualquer sinal de deboche ou sorriso.
— Então?! – disse Soluço erguendo as mãos buscando qualquer sinal de satisfação – Feliz?!
O russo o olhou com os olhos sérios o rosto sofrido e agressivo de Haddock, que transparecia certa pequenez e implorava para ser deixando sozinho em sua amargura.
Um instante de silêncio se seguiu. Jack bebeu de sua lata gelada de refrigerante, e logo depois se virou, caminhando em direção ao quarto, deixando o norueguês sozinho.
Mas de repente uma mão grande e feminina segurou seu pulso, o eslavo olhou para trás, viu sua mãe.
— Aonde você vai? – perguntou Rubi, olhando o filho pequeno se afastar do quarto da irmã que chorava.
Dentro do quarto da filha o pai de Jack enrolava uma bandagem no joelho pequeno de Esmeralda, manchado de sangue por causa da queda que levou de sua bicicleta nova. A pequena platinada segurava um bichinho de pelúcia enquanto colocava as mãozinhas sobre o rosto enxugando as lágrimas, enquanto esticava a perna para o pai cuidar de seu joelho ferido.
Diante da porta do quarto, a mulher alta olhava o filho pequeno vestindo roupas escuras de frio se afastar do quarto da irmã, deixando-a sozinha com os pais. Em seus olhos azuis que na época possuíam certa doçura em evidência, a mãe condenava o filho por tal conduta.
— Vou para o meu quarto brincar! – respondeu o pequenino Jack, numa mistura de temor e inocência.
— E vai deixar sua irmã sozinha?!
— Ela está com a senhora e o papai!
— Mas você é o irmão dela! E ela está chorando. Não acha que deve dar atenção à sua irmã? Quando ela caiu o pneu da bicicleta empenou. Ela deve estar bem triste agora.
— Mas o que eu posso fazer?
Enquanto eles conversavam, o homem da casa os ouvia, enquanto a filha seguia chorando.
— Nada do que eu fizer vai concertar a bicicleta, ou o joelho dela.
— Às vezes as pessoas nem sempre precisam de alguém para concertar seus problemas, às vezes elas só precisam falar sobre seus sentimentos, dizer o que estão sentindo! E essa pode ser a melhor coisa que se pode fazer por elas. Pergunte à ela como ela se sente.
— Jack! – chamou seu magnânimo pai.
O mais novo caminhou até ele com confiança, seus olhos claros reluzindo o ambiente.
— Sua mãe está certa! – sussurrou o mais velho no ouvido do filho.
O homem se levantou, o pequenino menino russo levantou o rosto para olhar o pai se levantando, afastando-se e ficando ao lado da esposa, sendo abraçado por ela.
Jack ficou diante da irmã mais velha, olhou o pai, que fez sinal para seguir adiante, e logo depois perguntou com sua voz pueril e inocente.
— Como você se sente Esmeralda?
A mais velha olhou o irmão caçula, o rosto vermelho e choroso, úmido por causa das lágrimas quentes sobre o rosto contorcido.
— Está doendo! – disse chorando – E a minha bicicleta nova estragou! Quero que ela concerte logo! Quero também que meu joelho melhore!
O mais novo seguia olhando a irmã chorosa.
— Lamento – disse.
Esmeralda de repente avançou e abraçou o irmão caçula enquanto chorava.
Ao ver o resultado, o pequeno russo olhou os pais com um sorriso no rosto.
Rubi não demonstrava grande orgulho, apenas uma fria aprovação de sua conduta, já o pai o olhava com orgulho nos olhos e um sorriso grande e luminoso no rosto.
De repente, Jack voltou ao tempo presente, ainda olhava para trás, enxergando uma imagem mais nova de sua mãe o puxando pelo braço. Eis a prova cabal de que a visita anterior de Rubi o havia afetado. Não se recordava desse momento distante de sua vida há muitos anos.
Seus olhos voltaram-se para Soluço, ainda sentado sobre o sofá, o corpo curvado, de frente para a luz azul e triste da lua.
— E como você se sente? – perguntou o eslavo quase que contra a própria vontade.
Soluço se sobressaltou e o olhou em silêncio. Viu o rosto sério de Jack, sua cólera tendo sido lançada longe e uma amenidade estabelecida em sua postura.
Haddock sentiu certo agrado em seu peito ao ouvir a pergunta, ninguém jamais o havia perguntado isso, nem mesmo a mãe carinhosa.
Baixou a cabeça, e decidiu responder.
— Meu relacionamento com meu pai nunca foi dos melhores...
O platinado se deu conta de que a conversa seria longa, então caminhou até o sofá para se sentar, Soluço afastou-se um pouco para dar espaço ao grisalho enquanto falava, o russo colocou a lata de refrigerante sobre a mesa de vidro.
— Ele sempre gritou comigo! E eu sempre odiei os gritos dele, eles sempre me encheram de medo... E eu sempre fui um bom filho! Passei a vida inteira tentando agrada-lo, mas com o passar do tempo eu vi que era inútil! – suspirou com o rosto abatido – Ele sempre teve mais orgulho do meu irmão mais velho do que de mim! – Jack arqueou uma sobrancelha quando ouviu – E o pior é que ele nunca teve que fazer esforço! Meu pai não gosta do que eu já sou naturalmente, e quando tento ser algo que ele aprova... Enfim, é uma desgraça...
— Lamento pelos seus problemas com seu pai – disse o russo com o rosto jovem manifestando empatia.
Haddock, agora mais abrandado olhou-o franzindo o cenho, arqueando uma das sobrancelhas e sorrindo com estranhamento.
— Quer saber?! Você é um bom ouvinte quando não está agindo feito um babaca! Sem ofensas...
Jack revirou os olhos, rindo do gracejo.
— Obrigado, eu acho. E relaxa, eu não me ofendi, já me chamaram de coisa pior.
Os dois rapazes ficaram levemente mais confortáveis com a presença ainda estranha um do outro. Soluço se sentia melhor, o coração agora batia mais aliviado, Jack bebeu um gole de sua lata. Ambos permaneciam lado a lado iluminados pela bela luz da lua que entrava pelas janelas.
— Eu sei que não é da minha conta, mas se quer uma dica, tente resolver seus problemas com seu pai.
Soluço o olhou agora sorrindo e com questionamento nos olhos verdes.
— E como é sua relação com seu pai? – perguntou o norueguês, quase como num insulto, buscando descobrir se o anfitrião possuía legitimidade para oferecer tal conselho tão trivial.
Jack bebia de seu refrigerante quando ouviu a pergunta, parou de beber na hora, seus olhos azuis se arregalaram, refletindo a luz do local. Olhou Haddock em silêncio pelo canto dos olhos, logo depois separou os lábios da lata, passou a manga do moletom sobre a boca.
— Meu pai morreu – respondeu o eslavo numa mistura de simplicidade e dor arcaica.
O escandinavo desfez o sorriso desdenhado que jazia em sua face jovem na hora que ouviu, arregalou os olhos verdes e sentiu um arrepio de vergonha por todo o corpo.
— Me desculpa, eu não queria...
— Tá tudo bem! Deixa disso! – disse Jack gesticulando com a mão, forçando um sorriso no rosto – Isso já faz tempo! Ainda sinto saudades é claro, mas já sofri mais por causa disso...
Soluço, com o rosto baixo sob os cabelos lisos e um olhar sombrio nos olhos verdes, se atreveu a perguntar.
— Posso perguntar como ele morreu?
O sorriso singelo no rosto alvo e macio de Jack aos poucos desapareceu. Um olhar sério e fixo surgiu em sua face, mas seus olhos azuis não estavam voltados para Haddock, olhava como se sua mente jovem retornasse a uma época distante e escura de sua curta vida.
— Ele foi atropelado. Um cara bêbado ia acertar uma menina na rua, ele salvou a vida dela, mas não conseguiu se salvar.
Um longo instante de silêncio imperou entre ambos. Jack voltou a beber da lata.
O norueguês o olhava agora pensativo, revendo seu julgamento equivocado acerca do neto de Norte. Talvez sua conduta hostil e duvidosa possuísse uma justificativa válida.
— Lamento – respondeu simplesmente.
O grisalho de repente o olhou, abandonando a frieza de sua face jovem, e voltando a sorrir para o mesmo.
— Ele era meu herói! Morreu como um! E apesar de tudo, fico feliz por ele ter partido de forma que considero ser digna...
Jack baixou a cabeça, sorrindo ao falar de seu amado pai. Soluço o olhava distraído em meio a aquilo que parecia ser agradáveis recordações de um passado ensolarado e florido do albino com a figura paterna.
Aquele garoto eslavo o havia consolado, fazendo-o se sentir melhor em meio seus problemas tortuosos. Sentia na obrigação de oferecer ao russo sentando ao seu lado o melhor que podia de suas condolências.
Haddock lentamente ergueu a mão magra de dedos finos. Jack sequer percebeu a aproximação estranha da mão branca do escandinavo ao seu lado. Soluço demorou bastante tempo, mas conseguiu fazer seus dedos alcançarem o ombro do garoto russo, coberto pelo macio e aconchegante moletom branco do mesmo.
Jack se sobressaltou na hora, olhando bruscamente para o rapaz de cabelos castanhos. Viu Soluço apertando os olhos, indicando sua tentativa aparentemente pequena e falha de consolo. O grisalho demorou a responder, olhando da mão a face de Haddock repetidas vezes com os olhos azuis surpresos e indecisos, demorando para contrair e compreender a situação.
Depois de um longo tempo com o platinado o olhando, o escandinavo considerou afastar a mão, visto que o mesmo parecia não ter simpatia à sua nobre tentativa de gentileza.
Mas aos poucos, Jack sorriu para o escandinavo e quase num lapso de momento, soltou a mão da lata de refrigerante e colocou a mesma sobre o ombro de Soluço, coberto pela camiseta fina e verde que usava.
O norueguês se espantou, arregalando os olhos verdes, mas aos poucos consentiu.
Ambos se olharam, sorrindo e balançando a cabeça, realizando os atos lentamente e com recato, acolhendo o nobre ato de consolo um do outro.
E assim ficaram os dois jovens, se olhando em silêncio, consolando um ao outro com a mão sobre o ombro mais próximo, a silhueta escura de ambos sentados sobre o sofá rodeados pela luz azul mística e misteriosa da sublime e bela lua.
No dia seguinte, Jack acordou tarde, não falou mais nada com Soluço após sua conversa na madrugada e o ato final de compaixão.
Assim que acordou sobre a cama macia, esticou os braços agasalhados pelo moletom branco da noite passada, não foi capaz de não sentir o odor exalado de suas axilas.
Sabia que não tinha como o odor sair de seu corpo, pois havia banhado na água quente a noite antes de dormir.
Era óbvio, o odor inesperado vinha de suas roupas que não lavava há tempos.
Uma das tarefas domésticas as quais fora ensinado pelos pais era lavar roupa. E dentre todas era a tarefa que mais odiava.
Havia lavado as roupas poucas vezes no período em que esteve sozinho, e após a chegada de seus malditos hóspedes, não lavou as roupas sequer uma vez, não queria se deparar com eles no caminho para a lavadora.
O albino poderia se impedir de encontrar-se com os outros adolescentes morando na casa, mas não poderia evitar o curso natural de que quando não se lava alguma coisa ela inevitavelmente encarde e suja.
Considerando a madrugada passada, que esteve longe de ser desagradável, unida ao odor inconveniente exalado de suas roupas, Jack tomou coragem para ir até o quarto destinado a higienização das vestes.
Tirou as roupas que usava e atirou-as num canto do quarto, abriu o guarda roupa e tirou do mesmo outra calça moletom, desta vez azul, uma fina camiseta preta, colocou meias brancas macias e vestiu chinelos confortáveis.
O russo sabia que o moletom branco que usou sobre as roupas sujas estava limpo, e considerando o hábito masculino de considerar que a roupa ainda era utilizável, não o separou para ser lavado também. O vestiu novamente, fechando quase totalmente o zíper branco no peito.
Catou as roupas sujas e abriu a porta lentamente fazendo um baixo e longo barulho. Viu a casa escura, fria e pálida. Era mais um dia monótono e sem luz em Filótes.
Olhou com seus azuis olhos brilhantes por mais um tempo, ainda não considerava o local seguro e livre de encontros desconfortáveis, pelo menos não com suas hóspedes femininas. Havia adquirido certa empatia por Haddock.
Mas após um longo tempo de espera, observando um corredor escuro, estático e silencioso, basicamente morto, decidiu sair.
Saiu lentamente, buscando fazer o mínimo de barulho com a porta de madeira, e caminhando na ponta dos pés calçados.
Fechou a porta com cautela, parou, olhou ao redor, ainda notando o silêncio fúnebre no local escuro e vazio. Deu de ombros lentamente e seguiu seu caminho.
Jack caminhava silenciosamente, carregando o bolo de roupas sujas dentro de um balde, o rosto sem demonstrar grandes expressões diante da tarefa chata que teria que fazer.
Passava agora por um local mais afastado da casa, chegando a ser um local estranho, como um planeta inexplorado.
Diferente do resto da casa, o corredor que dava para a lavadeira tinha paredes rosadas horríveis, e as luzes amarelas eram fortes e saturadas. Mas pelo menos o lugar onde ficava a máquina de lavar era um local menos horrível, tinha as paredes frias e acinzentadas de cimento não pintado, e de manhã a luz branca e fraca de fora entrava pela pequena janela alta de vidro.
O albino abriu a porta velha com certa violência, e se assustou com o que viu.
A sua frente jazia uma Merida usando apenas uma toalha fracamente alaranjada para cobrir o corpo magro no meio do frio daquela sala pequena, estava encostada na parede cinzenta, sentada abraçando as pernas nuas, de frente para a máquina de lavar que chacoalhava barulhenta diante dela.
A escocesa havia se assustado com a abertura abrupta da porta, e olhou bruscamente para a mesma, fitando o grisalho com seus olhos azuis, algumas mechas de seus ruivos cabelos cacheados tocando a face macia.
E ficaram assim por alguns instantes. Jack de pé, segurando um balde com suas roupas sujas, usando o moletom branco com o capuz abaixado, a calça moletom azul folgada e os pés com brancas meias macias calçadas com um chinelo velho marrom. Merida de toalha sentada de lado para o russo, abraçando as pernas nuas, olhando-o de baixo. Ambos a poucos metros de distância, o rosto de ambos surpreso e os olhos azuis entrelaçados no lugar cinzento.
— Ruiva?! – disse Jack com ar de estranhamento.
Merida se levantou com dificuldade, a mão esquerda segurando a toalha macia sobre os seios, tentando se levantar com os dedos da mão direita empurrando o chão e as costas se apoiando na parede.
— O que está fazendo aqui? – perguntou enquanto olhava a jovem celta a sua frente se levantar com dificuldade.
A última coisa que esperava certamente era se deparar com um de seus hóspedes indesejados no local mais amaldiçoado da casa antiga de seu avô.
— Por que está vestida assim? – perguntou antes que a ruiva tivesse tempo para responder.
— Estou lavando minhas roupas! – disse Merida de forma agressiva, logo após conseguir se levantar – E estou vestida assim porque não tenho mais nada para vestir. E eu não queria usar as roupas da sua avó.
— Ah – disse Jack sorrindo, sentindo-se triunfante – Eu não esperava que iria seguir minhas regras!
— Não fiz isso por você! – respondeu a escocesa possante e com rapidez – Fiz isso pelo Norte!
— Tá! Que seja! – disse Jack olhando para o lado com desdém – Vai demorar? Eu também preciso lavar minhas roupas!
— Vai! É melhor você esperar lá no seu quarto! Quando eu terminar eu te aviso!
O eslavo revirou os olhos e virou-se para o corredor para ir embora, mas um detalhe óbvio e chamativo lhe chamou a atenção.
Ficou de lado para a ruiva, sorriu com tom de brincadeira e a olhou com os olhos azuis de cima a baixo.
— É sério mesmo que só tem essa roupa pra vestir?!
Merida com o pavio curto, passou as mãos belas sobre o cabelo e o rosto, rangendo os dentes e gemendo de raiva.
— Não! Eu estou só de toalha com boa parte do meu corpo descoberto no frio numa casa alheia porque eu sou uma masoquista que adora passar frio!
Jack a olhou com falta de apreço enquanto a ruiva o olhava com os olhos azuis hostis, buscando expulsa-lo de sua presença.
O grisalho deu de ombros menosprezando a hóspede, e logo depois virou o rosto e caminhou alguns passos no corredor, buscando voltar ao quarto.
Logo após o grisalho sair, a ruiva voltou a olhar a máquina.
Mas de repente, enquanto caminhava, Jack sentiu uma grande mão feminina novamente apertar-lhe o pulso. Parou de andar quando novamente sentiu a presença de sua mãe a sua frente, recordando de sua antiga memória de infância, forçando-o a atender seu instinto de ajudar quem precise.
— Ela não está sofrendo! – sussurrou Jack, com os olhos claros voltados para cima, como se sua mãe pudesse ouvi-lo – Não emocionalmente pelo menos.
Sabia que se sua mãe estivesse lá para responder, responderia: “De todas as formas ela precisa de ajuda!”.
O russo suspirou, insatisfeito, cedendo, recordou-se também de seu pai, sabia que ajudar quem precisasse o deixaria orgulhoso e também que ele utilizaria o mesmo argumento.
Caminhou de ré com certo desleixo e aversão à sua natureza de bom samaritano, o rosto voltado para cima com os olhos revirados, até voltar para frente da porta, ainda segurando o balde.
Merida estava com o rosto ainda raivoso, mas o coração apascentado, o corpo curvado diante da máquina, olhando sua roupa disforme bater.
O eslavo a olhou mantendo o deboche em sua face.
— Merida! Não é?! Esse é seu nome – a ruiva o olhou bruscamente e com surpresa, ainda com o corpo curvado – Quer ir comprar uma roupa pra você?
A celta ficou um tempo em silêncio, a última coisa que esperava ouvir daquele grisalho que ainda lhe era estranho era tal oferta, e se ouvisse, esperaria que fosse em um tom de piada.
Por mais que as pálpebras pesadas do garoto russo, unido ao seu rosto fechado indicasse uma falta de boa vontade, ainda assim, Merida sentia sinceridade em sua proposta.
— O que?!
Jack revirou os olhos suspirando e respondeu: “Eu vou repetir. Quer ir comprar uma roupa pra você?”.
Mais um instante de silêncio desconfortável surgiu.
— Eu não tenho dinheiro – respondeu a ruiva quase sem vontade – Você tem? – perguntou em tom de ofensa.
— Meu avô me deu o cartão dele, disse que eu podia usar para comprar o que fosse necessário. Eu acho que isso inclui ajudar vocês – disse a última parte expondo seu desgosto.
— E por que você faria isso? – perguntou Merida formando um sorriso debochado no rosto alvo, cruzando os braços nus, erguendo a face e olhando Jack de cima.
O albino a olhou ainda mantendo certo desprezo, agora muito mais pela postura da escocesa diante da oferta do que pela própria hóspede.
— Veja bem, ao que parece, essa é mesmo a sua única roupa, e como você mesma disse, vai demorar para que termine de lavar, e você ainda vai ter que esperar secar, vai ter que passar e isso vai levar muito tempo, talvez leve até o dia inteiro, já que não tem sol. O que significa? Você vai ter que passar o dia inteiro de toalha, pode até pegar um cobertor para se cobrir, mas imagino que isso vá te atrapalhar em fazer alguns serviços além desse, como o de cozinhar e coisas assim. Resultado: Você vai passar frio o dia inteiro. Então, você tem duas opções: A primeira, você fica o dia inteiro só de toalha numa cidade fria e provavelmente adoece, ou a segunda, você para de ficar pedindo satisfação e aceita minha oferta! – terminou o monólogo com o rosto hostil.
A ruiva o olhou franzindo o cenho, ainda com os braços cruzados e suspirando, balançou a cabeça com os olhos fechados, cedendo.
— Tá bem! – disse a mesma – Me dá uma roupa, o cartão e o que mais for preciso que eu vou lá comprar – falou estendendo a mão com ar cobrança.
— Nada feito! – respondeu Jack.
A ruiva baixou a mão arqueando as sobrancelhas. O russo continuou:
— Se você quiser comprar essa roupa, você vai e volta comigo e eu uso o cartão!
— O que?! Por quê?! Tá com medo que eu roube o cartão do seu avô?! Que besteira! Eu não sou ladra! E eu não faria isso com o Norte! E outra! Não fui eu que fui atrás de você pedir uma roupa nova, você que veio me oferecer!
— Não faz diferença! Se você recebesse um cartão emprestado do seu avô...
— Não conheci meus avós – interrompeu Merida cruzando os braços e com o rosto com repulsa.
— Se você recebesse um cartão emprestado do seu pai ou da sua mãe – prosseguiu Jack sem rodeios reafirmando com certa fúria – Ou de qualquer pessoa nesse mundo que seja seu responsável legal! Você o entregaria para um estranho sair e fazer o que quiser com ele?
A escocesa ficou calada, mantendo o rosto sério e desdenhado e os braços cruzados sobre a toalha grossa.
— Então? Vai querer comprar ou não? – perguntou o eslavo.
— Tá! – respondeu Merida, cedendo em meio ao ódio – Mas eu preciso de roupas! Não posso sair assim!
— Usa uma roupa da minha vó.
— Ué! – respondeu a ruiva debochando – Não foi você quem disse que não era para encostar nas roupas dela?
— Disse! Mas vou abrir uma exceção! – respondeu colocando o balde dentro da sala sobre o chão gelado.
— E seu avô não vai se incomodar? – perguntou acompanhando os atos de Jack com os olhos azuis.
— Ele está em Moscou agora, muito longe para reclamar, e se estivesse aqui não iria achar ruim se fosse para ajudar quem necessita. Vamos! – chamou-a fazendo um gesto com a mão.
A ruiva o seguiu, e caminharam um atrás do outro nos corredores horríveis daquele lugar.
Jack se encostou na parede perto da entrada do corredor, deixou a Merida raivosa passar por ele, logo depois apagou as luzes e saiu.
Cada um foi para o próprio quarto.
O russo vestiu uma calça jeans cinza claro, usava ainda seu moletom branco. Pegou um par de sapatos cinzentos com cadarços de mesma cor e os levou para a sala. Quando terminou de amarrar os cadarços, viu a escocesa saindo do quarto.
— Desculpa, mas você se lembra qual era o manequim da sua avó? Por que as roupas dela cabem tão bem em mim?
Merida usava um belo e confortável casaco branco, calças pretas antigas com barras largas, mas que a jovem celta colocou dentro das botas também pretas e com salto. Sentia o calor agradável por debaixo das roupas.
— Minha vó já era falecida quando nasci – respondeu se levantando e olhando a ruiva – Mas ela e meu avô se casaram jovens e enriqueceram juntos. Já moraram aqui por um tempo, e tinham o hábito de guardar algumas roupas da juventude, por isso tem tantas coisas dela que servem em você.
A escocesa olhou Jack com o rosto frio inexpressivo e os olhos azuis com certa ternura apesar da força nos mesmos.
— Lamento por não ter conhecido sua avó – disse a escocesa, relutantemente.
Sentia que mesmo que o garoto russo não estivesse fazendo aquilo por boa vontade, ainda devia tentar retribuir tamanha gentileza de alguma forma. Rendendo-lhe um consolo desnecessário foi a melhor maneira que lhe surgiu.
— Lamento por não ter conhecido seus avós também – respondeu Jack quase que de relance.
Foi um ato de consolo um tanto frio de ambos.
Jack e Merida ficaram um tempo parados, distantes um do outro na sala fria e escura, com a porta fechada entre ambos. Os dois sequer se olhavam nos olhos, e forçadamente saboreavam daquele silêncio desconfortável.
— Vamos? – perguntou o russo, quebrando o silêncio.
A escocesa saltou os ombros e o olhou com os olhos azuis arregalados.
— Vamos – respondeu sem grande empolgação.
Caminharam em silêncio até a porta. Jack que estava mais perto saiu primeiro, após Merida sair, pegou a chave para trancar a porta.
— Vai trancar a porta? – perguntou a ruiva com as mãos frias nos bolsos, olhando a chave sendo introduzida no cilindro da fechadura.
— Não posso deixa-la destrancada, relaxa, o Haddock e a loira nem vão sair do quarto, sequer vão notar que saímos – respondeu enquanto trancava.
A escocesa estranhou a forma com que Jack falou do garoto norueguês.
— Vamos – repetiu o russo.
Ambos caminharam em silêncio pela calçada, sentindo o frio da cidade, olhando sempre para frente, com olhar desinteressado. Chegaram ao ponto de ônibus que estava cheio de adultos antissociais, cada um cuidando de seus assuntos, alguns lendo jornal, outros mexendo com o telefone, mas todos com roupas de frio, o ar virando neblina e ignorando uns aos outros.
O russo e a escocesa ficaram de pé a frente deles, lado a lado, com certa distância um do outro, pois apesar de tudo ainda eram estranhos. Ficavam em silêncio, apenas respirando, sentindo o ar gelado saindo de suas bocas e narinas e virarem jatos de espectro, enquanto aguardavam o ônibus chegar.
Após algum tempo de espera, Merida perguntou:
— Está com o cartão aí não está?
— Estou – respondeu Jack sem virar o rosto.
— Por que não pagamos um taxi então?
— Taxi sai caro. E não quero ficar gastando dinheiro à toa.
A ruiva novamente desdenhou do albino e sua decisão.
— Qual é o problema? – perguntou Jack, com sorriso debochado – Não quer cansar as perninhas de princesa?
A celta revirou os olhos.
— Escuta aqui! Pro seu governo, eu já corri quilômetros sem suar tá? Suas pernas magrelas é que não vão suportar, por isso eu perguntei!
A escocesa virou o rosto, e o eslavo seguiu sorrindo da mesma.
Passado um tempo, o ônibus chegou, e pequena parte dos passageiros entraram no veículo.
Logo após chegarem ao outro ponto de ônibus, Jack e Merida seguiram até a estação do metrô. Nele, o russo e a escocesa viajaram de pé, o eslavo a esquerda, a celta a direita, ambos segurando nas barras metálicas com seus agasalhos brancos, olhando para frente com os serenos e desinteressados olhos azuis, em silêncio. Eram os únicos passageiros que não estavam sentados no vagão.
O metrô parou para acolher e deixar passageiros. Vários entraram e apenas um desceu, deixando um lugar momentaneamente vazio.
Merida olhou o local vazio, mas ele estava ao lado de Jack, considerando que o platinado poderia querer sentar-se e que ela não alcançaria o lugar antes do mesmo, abandonou a ideia e seguiu olhando para frente com os olhos intensos.
Mas de repente, sentiu um esbarro leve em seu braço esquerdo agasalhado pelo antigo casaco branco. Olhou para o lado e viu Jack ainda segurando na barra, o russo fez um gesto rápido com o rosto, indicando o lugar vazio.
A ruiva olhou por um segundo, sem entender. Ele estaria realmente oferecendo o lugar que estaria mais próximo dele para ela sentar?
Merida congelou, não queria que aquilo fosse uma pegadinha para que zombassem dela depois. O eslavo novamente não compreendeu a reação extrema da escocesa.
Após alguns instantes se olhando, sem compreender um ao outro. Jack disse:
— Se eu fosse você eu sentava logo, tem um monte de gente entrando agora que vai querer sentar no seu lugar.
Ao ouvir isso, Merida olhou um homem desconhecido, adulto, robusto, de cabelo preto bem aparado, usando um sobretudo preto, caminhando pelo chão de metal em direção ao lugar que cobiçava e que lhe fora dada oportunidade para toma-lo para si. Após isso, Merida prontamente correu até o banco, sentando-se no mesmo, quando o outro passageiro estava prestes a chegar. O estranho de cabelos aparados olhou a ruiva com o olhar de fúria por cima do ombro largo enquanto se via forçado a se dirigir para uma barra de metal.
A ruiva olhou o homem forçando um sorriso nos lábios rosados e dentes brancos, como se dissesse em tom de brincadeira “cheguei primeiro”. O homem virou o rosto, mas não sem antes manifestar sua insatisfação silenciosa.
Logo depois, Merida olhou Jack com o rosto mais sereno, que sorria para a mesma, em parte se regozijando com a atitude engraçada da celta, em parte sendo estranhamente simpático com a mesma.
Logo depois, o russo voltou a olhar para frente, com o olhar frio sereno e o rosto inexpressivo.
Merida olhou-o por alguns instantes, seus olhos claros agora manifestando surpresa. Se deu conta de uma camada cavalheiresca na índole nivelada do grisalho.
Os dois jovens seguiam em sua viagem, até que finalmente chegaram a uma estação que ficava no shopping movimentado da cidade.
Saíram do metrô cercados por estranhos usando roupas de frio se movimentando para todos os lados, o hálito de todos virando fumaça gelada.
Andavam lado a lado, a certa distância um do outro, o ar de seus pulmões jovens que saíam de seus narizes vermelhos e lábios rosados virando espectro.
Olharam os vários andares movimentados do shopping gelado, cada andar com os mais variados tipos de cores, lojas, lanchonetes com comida quente, livrarias cheias de leitores curiosos, lojas de roupas cheias de pessoas vaidosas entre muitas outras atrações. Era de certa forma um ambiente agradável.
Jack e Merida caminharam por algumas lojas sem falar muito um com o outro, dando muito mais atenção aos próprios gostos do que ao verdadeiro objetivo de sua viagem, mas vez ou outra o eslavo chamava a atenção da ruiva sobre suas roupas, que na maioria das vezes respondia com um descaso expresso por meio de uma resposta curta ou com um simples “hum...”.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!O russo sempre franzia o cenho ao ser respondido de tal maneira. E sentia mais raiva quando a escocesa o deixava para trás apenas para ver algo que a interessava mais do que suas roupas.
Mas eventualmente, a jovem celta iniciou a busca de suas novas vestes.
Jack e Merida subiram mais de uma escada rolante, sempre olhando para cima e para os lados, buscando ver alguma coisa a mais que lhes interessasse.
Chegaram a um andar de piso branco, também movimentado e repleto de lojas coloridas, bem iluminadas e chamativas. Começaram a caminhar novamente em desconfortável silêncio pelo mesmo.
— Aquela loja tem boas roupas – disse Jack apontado com o dedo alvo para um estabelecimento de nome Modas Dun Broch.
Ao se deparar com o nome, a escocesa parou imediatamente, arregalou os olhos azuis sentindo o coração parar momentaneamente.
Buscou olhar dentro da loja uma figura familiar, e em menos de um segundo encontrou.
Elinor de cabelo preto e preso, caminhando pela loja, conversando com funcionários e clientes, seu rosto mais fechado do que de costume, mas sempre com o corpo magro em movimento, trabalhando.
Embora não tivesse sido vista, Merida entrou em pânico, e rapidamente pegou a gola do casaco, levantou a mesma e abaixou o rosto, buscando esconder a face, esquecendo-se de fazer o mesmo com os cabelos volumosos. Caminhou rapidamente em direção a um grande vaso de planta no shopping.
Jack a seguiu confuso.
— O que está fazendo?
A ruiva estava encostada na parede, olhando para a loja de sua família ainda tentando esconder o rosto com a gola, a escocesa sequer se lembrava da existência daquela loja naquele shopping.
— Nada! – respondeu com a voz abafada pela roupa olhando em direção a loja.
— “Nada” ?! – perguntou o grisalho sarcasticamente – Está agachada aí com a gola na metade do rosto e não está fazendo nada?!
Enquanto o albino falava, Merida notou a mãe saindo da loja com um homem desconhecido engravatado, cujos cabelos eram bagunçados e mantinha um olhar marrento. Aos poucos notou que se tratava do Sr. Macintosh.
Jack aos poucos notou que a ruiva a sua frente olhava fixamente para um lugar, e notou a mulher alta escocesa.
Elinor, enquanto conversava com o homem se sentiu sendo observada. Olhou ao redor sem notar muita coisa diferente, exceto um estranho rapaz de cabelos brancos olhando para ela. Virou o rosto com desdém, talvez se tratasse de um garoto iludido buscando prazer em sua beleza madura.
Porém, quando os olhos escuros da mulher morena passaram em sua direção, Merida temeu ser vista, e bruscamente agarrou Jack pela roupa para cobrir-lhe a face e os cabelos.
— Ruiva! Para! O que tá fazendo?! – disse o russo enquanto começava a se debater, segurando os pulsos brancos e firmes da celta, tentando soltar as mãos inconvenientes de sua roupa.
Enquanto o eslavo tentava se desvencilhar da mesma, Merida seguia tentando observar a mãe, notou que aparentemente ela não a havia notado.
Pretendia manter o albino como seu esconderijo até que a mesma fosse para longe, mas o russo se debatia, os questionamentos altos contínuos e a resistência de Jack tornavam a tarefa difícil, além de possivelmente chamar a atenção da mulher de quem estava fugindo.
— Me solta! – disse o grisalho ainda tentando puxar as mãos da escocesa.
A ruiva rangeu os dentes, olhando Jack com os azuis olhos raivosos, puxou-o com força, fazendo ambos os rostos ficar apenas a alguns centímetros um do outro. O eslavo arregalou os olhos assustado.
— Escuta aqui ô cachinhos de neve! Tá vendo aquela mulher?! – perguntou apontando Elinor com o dedo fino, Jack a olhou pelo canto dos olhos – Ela é minha mãe! Eu estou tentando me esconder dela! Se ela me pegar aqui eu vou me ferrar em proporções tão absurdas que nem eu posso imaginar! Então eu agradeceria se parasse de chamar atenção e calasse a sua boca!
As últimas palavras de Merida saíram mais altas do que a própria esperava, chegando a ecoar pelo shopping, quase todos que estavam lá ouviram, voltando o olhar para a mesma.
Um longo instante de silêncio se iniciou. Jack olhava ao redor enquanto a ruiva seguia segurando suas roupas.
A escocesa arregalou os olhos, olhando ao redor, vendo todas aquelas pessoas estranhas voltadas para ela, mas não apenas estranhos a olhavam.
— Merida?! – questionou Elinor olhando para a mesma.
Aqueles enormes cabelos cacheados e alaranjados tornava impossível não reconhecer a filha.
Mãe e filha se olharam diretamente. Logo após outro instante de estática e silêncio. As duas reagiram.
Merida atirou Jack para o lado e começou a correr.
— Merida! Espera!
Elinor começou a perseguir a filha.
O grisalho e o senhor Macintosh olharam ambas sem entender.
A ruiva correu direto para a escada rolante, descendo, enquanto corria sobre a mesma, empurrava e pedia perdão aos outros clientes cuidando de seus próprios assuntos e olhando a estranha de cabelos cacheados correndo cheia de pressa.
O jovem russo acompanhou Merida com os olhos, vendo-a fugir desesperada.
— Você rapaz! – disse uma voz feminina, madura e raivosa indo na direção de Jack.
— Hein?! – disse o mesmo voltando-se para uma Elinor encolerizada.
— Quem é você? – perguntou agarrando o mais novo pela roupa, tal qual Merida a poucos instantes – Pra onde ela foi?
— Como é que eu vou saber? – perguntou o eslavo com certo temor.
A escocesa voltou o rosto para baixo, vendo a filha correr depressa pelo andar de baixo do shopping.
Merida já ofegava enquanto corria com o rosto jovem desesperado.
Atirou o rapaz desconhecido para o lado e correu para a escada rolante, também descia os degraus que rolavam, mas com mais recato e pedindo perdão com mais seriedade aos outros usuários da escada.
Jack olhava de cima ambas correrem, no meio do Shopping movimentado, cheio de pessoas cuidando de seus próprios interesses, lojas belas e chamativas e pontos turísticos.
Merida não forçava o corpo a semanas, e sentia agora as consequências. Estava se cansando mais rápido, sua face alva estava ficando vermelha, sentia o suor desconfortável descer pelas têmporas e pelas juntas de seu corpo, as roupas pareciam ficar mais quentes e pesadas. Sua mãe em breve a alcançaria.
De cima, o grisalho ainda a observava. Reconhecia o lugar por onde a ruiva estava indo, conhecia um atalho, e tomou caminho para o mesmo imediatamente.
Enquanto isso as duas escocesas seguiam correndo, chamando a atenção dos outros clientes e funcionários do Shopping,
A ruiva se cansava cada vez mais, sentia que não conseguiria correr por muito mais tempo, e o desespero aumentava pois a mesma sequer sabia aonde ir, onde queria chegar, sabendo que estaria segura das garras de sua mãe.
Olhou para trás enquanto corria suada e ofegante. Notou a mais velha em seu encalço, correndo com uma velocidade razoável e uma força de vontade inabalável. Seu rosto jazia fechado, e uma fúria se manifestava em seu rosto vermelho enquanto corria.
Merida gemeu de medo e tentou correr mais rápido ainda, mas suas pernas jovens começavam a doer.
Seu coração chegou a se tranquilizar levemente quando olhou para trás e viu que havia uma multidão entre ela e sua mãe, impedindo uma de ver a outra. Pensou que poderia funcionar como nos filmes, quando há uma perseguição e o fugitivo consegue alcançar o outro lado de um trilho, onde há um grande trem em movimento separando ambos, dando oportunidade ao fugitivo para escapar.
Mas logo depois a infeliz razão lhe veio à mente como uma pedrada, aquela multidão não impediria sua mãe possante e furiosa. Parecia que nem um trem impediria.
A ruiva seguia a correr, balançando os braços magros, o corpo da jovem se aproximando de seu limite, quando de repente, sentiu uma mão estranha agarrar-lhe a mão direita de dedos finos e a puxar com força para o lado.
A celta foi aos rodopios parar na escuridão entre duas lojas.
Soltou a mão com violência, erguendo os punhos para atacar o estranho que a puxara, fosse quem fosse, sabia que não tinha como ser sua mãe.
Mas de repente, notou que era Jack, que a olhava suado, as mãos alvas levantadas e abertas em sinal de paz, os cabelos brancos úmidos sobre sua testa, a boca aberta ofegante, e os olhos azuis arregalados olhando a escocesa. Havia feito muito esforço para chegar onde estava.
Ambos se olharam em silêncio, quando de repente ouviram uma voz feminina e madura gritar.
— Merida!
Ambos olharam para o movimento, e Jack imediatamente reagiu.
— Entra aqui! – falou empurrando Merida para dentro de uma sala estranha e escura, cuja porta cinzenta estava aberta.
A ruiva não resistiu, entrou sendo empurrada na sala escura, de costas, dando alguns passos para trás, os olhos azuis arregalados, suada, ainda ofegante e a boca aberta.
Jack trancou a porta do lado de fora. E ao ver uma Elinor suada com os cabelos úmidos correndo ao lado dele, correu para se esconder atrás de outro vaso de plantas.
Viu a mulher alta parar ofegante, com o peito subindo e descendo, olhando ao redor, procurando a filha fugitiva.
De dentro da sala escura e estranha, Merida tentou abrir a porta, mas se deu conta de que estava trancada, gemeu desgostosa, mas com certo alívio, certamente sua mãe não a encontraria ali, e no momento era isso que importava.
Começou a procurar um interruptor perto da porta, e quando finalmente encontrou, acendeu uma luz branca e fria.
Seus olhos demoraram a se adaptar à luz do ambiente, mas aos poucos notou as prateleiras com produtos de limpeza, vassouras, panos e baldes, era onde se guardava os produtos de limpeza de uma das lojas do shopping.
Sentou-se descansando de sua correria, sentido o corpo esfriar, debaixo da triste luz branca e cercada pelas paredes lisas e cinzentas marcando os tijolos no lugar frio e desconfortável.
O russo seguia a observar Elinor, que algumas poucas vezes chamou alto o nome de sua filha em meio sua respiração alta.
Alguns instantes depois, chegou o outro homem de cabelos bagunçados que estava junto da mulher escocesa.
— Desculpe por isso Sr. Macintosh, não era minha intenção que o senhor visse essa cena – disse Elinor com ar de súplica, enquanto ofegava.
— Não precisa se preocupar minha cara senhora, a senhora nem imagina os problemas que tenho com meu filho de vez em quando.
— Desculpe a pergunta, mas o senhora viu aonde ela foi?
— Desculpe, eu estava a acompanhando com os olhos, mas a perdi também.
— E agora? Onde ela está? – perguntou a mulher preocupada, olhando ao redor – Eu estava tão perto...
— Sra. Dun Broch, me perdoe a inconveniência, mas é que agora nós precisamos ir, os Srs. Dingwal e McGuffin estão nos aguardando.
— Eu sei... – respondeu Elinor ainda preocupada, olhando ao redor, procurando a filha.
— A propósito, o Sr. Dun Broch, Fergus, não vai aparecer?
— Não! Ele ainda está na Escócia, resolvendo alguns assuntos, e quando é ele quem resolve, as coisas costumam se enrolar – disse olhando defronte para o mesmo
— Hum...
— Desculpe, eu não devia tratar ele assim, está fazendo o melhor que pode – respondeu baixando o rosto, com olhar pensativo nos olhos escuros.
— Podemos ir?
— Vamos...
Jack viu com seus olhos azuis a mulher e o homem caminhando lentamente, a mulher relutante em sair do lugar, olhando sempre ao redor, procurando a filha com o rosto aflito.
Se levantou e foi atrás deles, até olha-los sair pela grande porta do shopping.
Quando olhou ambos saindo pela mesma apascentou o rosto alvo, os olhos claros mais abrandados. Mas de repente, arregalou os mesmos, como se houvesse esquecido algo e saiu correndo em direção a sala pequena onde havia trancado Merida.
Quando chegou até a mesma, abriu a porta com força, olhando a escocesa sentada, com frio, abraçando as pernas com o triste rosto baixo.
A ruiva olhou Jack de baixo, vendo a silhueta escura dele segurando a maçaneta da porta.
— Pode sair, eles foram embora.
— Tem certeza?
— Vi eles saindo pela porta.
A celta se levantou com dificuldade e começou a ir em direção a porta.
O russo saiu da frente para que Merida passasse. Saiu logo após ela, fechou a porta e trancou, logo depois entrou na loja e devolveu a chave.
—Que lugar é esse? Por que eles te deram a chave?
—É uma das lojas do meu avô, os funcionários me conhecem, eu só precisei pedir.
De repente ambos se olharam com os olhos azuis. Merida agora mais passiva, olhos claros e puros voltando-se para baixo e o rosto do grisalho repetidas vezes.
— Obrigada – falou baixo.
Jack sorriu para a mesma, porém, os olhos dela estavam baixos.
— Olha! – disse o eslavo apontando para o lado.
A ruiva olhou e viu uma notória loja de roupas com decoração natalina. As decorações de natal se iniciavam cedo em Filótes.
Começaram a caminhar em silêncio, a escocesa olhou para trás e viu a loja de brinquedos cheia de enfeites de natal e com o nome “Brinquedos do Norte”.
Ambos entraram, e Merida, mais por querer voltar para a casa de Norte o quanto antes, do que por realmente querer encontrar roupas condizentes com o gosto próprio, escolheu suas novas vestes.
Experimentava uma das roupas escolhidas em um dos mostruários brancos e bem iluminados, as roupas belas da avó de Jack penduradas nos ganchos da parede enquanto a ruiva se olhava no espelho.
Jack estava do lado de fora, ao lado da porta do mostruário, escorado na parede, com o pé sobre a mesma e os braços cruzados.
— Então quer dizer que sua mãe é dona de uma loja de roupas.
— De uma rede de lojas de roupas. A marca Dun Broch é da nossa família – respondeu a ruiva enquanto se olhava no espelho, vestindo a nova roupa.
— Merida Dun Broch... Você entende muito de roupas?
— Mais do que gostaria.
— Sabe como lavar as roupas da minha vó?
A celta olhou para o lado, notando as roupas nas quais havia suado, se dando conta exatamente a que o eslavo se referia.
— Hã... – Merida gemeu sarcasticamente olhando a mesma.
— Sabe que alguém vai ter que lavar elas não sabe?
— Tá! Eu já saquei. Eu lavo elas pra você, fui eu quem as molhei de suor, eu mesma lavo, e sim, eu sei como lavar as roupas da sua avó!
Passado mais um tempo, Merida saiu, o platinado a olhou ainda usando as roupas antigas da avó, carregando as novas pendendo sobre o braço.
— Eu já escolhi! Vamos?
Jack pagou a vista as roupas com o cartão de seu avó, recebeu as compras em sacolas e Merida as puxou de suas mãos.
Ao saírem, andando lado a lado olhando o shopping movimentado, a ruiva sentiu a fome apertar na barriga vazia, era quase hora do almoço e nenhum dos dois havia comido nada ainda desde que acordaram.
— Ainda tem dinheiro nesse cartão? – perguntou e ambos se olharam.
Foram juntos para a praça de alimentação, cheias de mesas, pessoas, barulho e movimento.
Comiam em uma mesa pequena, preta, quadrada e de madeira, sentados em cadeiras também pretas de madeira. Sentavam-se um na frente do outro, mas o rosto de ambos estava voltado para o lado, se recusando-se a se olhar, enquanto isso mastigavam sua comida, e as compras jaziam no chão, ao lado de Merida, perto dos pés da escocesa.
O russo, enquanto mastigava e olhava para o lado, evitando contato visual, olhou o rosto de sua mãe repetidas vezes em meio à multidão, olhando-o com ar de reprovação.
Sabia que a ruiva enfrentava problemas, e que devia fazer algo para tentar ajudar, como já estava fazendo, mas que poderia fazer melhor.
Outras vezes também via o pai, e sempre que via o fantasma do casal julgador exigindo uma conduta específica do filho com relação aos problemas de quem estava perto dele, tentava argumentar pensando: “Isso não é da minha conta, não é da minha conta!”.
Mas no final, a voz paterna e materna sempre venciam.
— Posso perguntar o que há entre você e sua mãe? – perguntou como se guardasse as palavras por muito tempo e isso o deixasse sem ar.
— Por que quer saber? – perguntou a ruiva com desdém.
— Eu estava curioso, há tempos não pedia as chaves da loja do meu avô, e também, você está morando na casa dele então...
— Escuta! Eu agradeço pelas roupas, a casa e a ajuda que você me deu, mas isso não me obriga a falar nada pra você e isso não é da sua conta! E aliás, por que eu te diria?!
— Por que não diria?! Tem medo de que eu conte para alguém? Acorda! Pra quem eu contaria?! E outra, de que forma você me contar isso vai prejudicar você ainda mais?!
Merida de repente se calou, olhando para o mesmo com os olhos azuis pesados, o cenho jovem franzido e a boca um tanto aberta. Talvez percebendo que não tinha como perder muito mais.
— Só estou tentando ajudar, mas se não quiser, é decisão sua, mas de todo jeito, lamento pelos seus problemas com sua mãe...
— Tá bem! – respondeu interrompendo-o, logo depois suspirou, jogando-se sobre sua cadeira, olhando-o mantendo o olhar pesado.
Jack se ajeitou sobre a cadeira, olhando-a com um sorriso quase que debochado no rosto.
— Meu relacionamento com minha mãe nem sempre foi assim. Só que de um tempo para cá ela vem tentado controlar toda a minha vida! Mas eu não vou deixar que isso aconteça! Não se eu puder impedir!
O russo seguia a olhando.
— E como você se sente?
— Frustrada! Ela não tem esse direito! É a minha vida! Eu devo tomar as minha decisões! E boa parte das coisas que quero para mim não a agradam! E vice versa... É injusto! Ela nunca me escuta! Nunca se preocupou em perguntar o que eu quero, sempre sai por aí me dando ordens tentando me fazer ser igual a ela... Mas a verdade é que eu prefiro morrer do que ser igual a ela!
Jack a ouvia atentamente.
A escocesa sentia uma dor estranha no peito, mas sabia que se tratava de uma dor boa, a de liberar aquilo que sentia, sentia o coração agitado se acalmar aos poucos.
— Você deve me entender... Pelo que eu vi você também tem problemas com sua mãe...
— Não... – respondeu sorrindo e olhando para baixo – Eu tenho problemas com ela, mas nunca fugi dela no meio de um shopping...
Seguiu-se um tempo demorado em silêncio, agora mais confortáveis com a presença um do outro.
— Aquele outro cara era seu pai?
— Não, era um sócio da minha mãe. Ela quer que eu me case com o filho dele...
— Sério?!
— Mais ou menos, ela tem basicamente três preferências, o filho daquele cara, ou os filhos de outros dois sócios dela.
— Que dureza!
— Nem me fale. E olha que nenhum deles sequer é bonito.
O eslavo sorriu, olhando baixo.
Mais um momento de silêncio surgiu, e Merida agora olhava o neto de Norte com certa intenção enquanto franzia o cenho, se sentia confortável para tal.
— E você? Posso perguntar qual é o problema com sua mãe?
O albino a olhou surpreso.
— Vamos lá! Eu te falei do meu problema.
— E eu estou acolhendo você na casa do meu avô, vim comprar roupas para você e te salvei da sua mãe!
— E daí?! Não são a mesma coisa! E você só usou as coisas do seu avô para me ajudar!
Jack a olhou com ar de ofensa. E Merida imediatamente corrigiu.
— Desculpa! Eu agradeço a ajuda, mas sabe do que estou falando...
O eslavo suspirou alto.
— Não somos muito próximos! – começou, a ruiva imediatamente esmoreceu o rosto – Ela até tenta, mas... É muito difícil se aproximar de alguém que nunca foi muito afável com você. E quando meu pai morreu ela piorou de vez...
— Lamento pelo seu pai... – disse a celta quase interrompendo.
O russo olhou para a mesma, sorrindo.
— Obrigado.
— Sabe... – disse Merida – Apesar de tudo, acho que você a ama.
— Já viu aquele filme que conta a história do William Wallace?
A escocesa revirou os olhos.
— Só porque sou escocesa devo ter visto esse filme?
— Mas então, assistiu ou não?
— Coração Valente?! Sim! Já assisti. Muitos erros históricos, mas um bom filme.
— Lembra da cena que o William descobre a traição do Robert Debruce?
— Com certeza, pra mim é difícil esquecer... Atuação maravilhosa.
— Sabe, ele fica totalmente abatido e decepcionado quando descobre a traição dele. Acho que isso acontece com a gente também. Uma pessoa que odiamos pode nos ferir, mas só alguém que amamos pode nos destruir. Acho que é o que acontece conosco e nossas mães...
Merida sorriu lentamente olhando Jack com seus olhos azuis.
— É... Acho que te julguei mal... Também acho que está certo no que diz... Minha mãe já me destruiu várias vezes...
Jack a olhou com os olhos serenos, aos poucos arrastou a mão em direção a mão deitada da escocesa. Colocou a palma de sua mão sobre as costas da mão da mesma, num ato de consolo.
Ambos se olharam entrelaçando os olhos azuis, um sorriso rosado surgindo no rosto de ambos. E ficaram assim por alguns instantes, no meio da multidão em movimento.
Logo após terminarem de comer, pegaram o metrô, depois o ônibus, foram sentados em ambos.
Enquanto caminhavam de volta para casa, Jack e Merida não se incomodavam em caminhar com um pouco mais de proximidade, o rapaz caminhando do lado da rua. Agarrou a alça da sacola na mão da ruiva, oferecendo-se para levar as compras, a princípio a escocesa recusou, mas um segundo depois cedeu, e o platinado levou as compras, como seu cavalheiresco pai lhe havia ensinado.
Ao chegarem a casa antiga de Norte, Jack estava certo, o norueguês e a alemã sequer saíram de seus quartos, deixando de notar o sumiço de ambos.
Merida entrou em seus aposentos, tirou as roupas da senhora Norte e vestiu uma de suas roupas novas. Caminhou até a lavadora segurando as roupas disformes da avó de Jack em suas mãos.
Encontrou-se com o grisalho no meio do caminho carregando de volta o balde com as roupas sujas.
— Espere! – disse Merida – Deixe lá! Eu lavo pra você! Não tenho como retribuir agora pelas roupas que você me comprou então vou pagar assim!
A ruiva tirou o balde com as roupas de Jack basicamente a força, mas não sem antes colocar as roupas da senhora Norte dentro do mesmo.
— Tá bem então! Como quiser! – disse Jack olhando Merida, sorridente, alegre por não ter que lavar as próprias roupas.
Acompanhou a ruiva com os olhos. Viu-a abrir a porta para entrar, mas de repente a escocesa parou, virou-se olhando para o russo e disse com desconforto e sinceridade em seu rosto agora humilde: “Obrigada.”.
Falou num tom mais gentil. Logo depois bateu a porta.
Jack olhou incrédulo a início, mas logo depois sorriu e respondeu: “De nada.”.
E voltou para o quarto.
Já estava de tarde, as nuvens pálidas de Filótes se dissiparam um pouco, revelando a agradável luz do sol dourado, esta que entrava pelas janelas limpas de vidro no velho casarão.
A loira Rapunzel estava em seu quarto, iluminada pela luzes solares, sentada sobre a cama com os lençóis disformes, usando seu pijama cor de rosa cheio de desenhos. Pegou uma escova e começou a pentear os longos cabelos lisos e dourados que estavam soltos.
Levou pouco tempo para terminar, mas logo depois tentou fazer tranças em seus belos cabelos, mas havia um problema, a alemã estava acostumada a alguém fazer as tranças por ela. Então tinha dificuldades, repetidas vezes levantava o corpo sobre a cama, se ajeitando, tentando recomeçar o serviço, mas falhando novamente. Olhava o rosto belo no espelho retangular de pé sobre a cama ficar cada vez mais raivoso e desgostoso.
De repente, Rapunzel sentou-se em cima de seus cabelos compridos. Sentiu a cabeça ser puxada para trás, e sem ter onde se apoiar direito, caiu da cama. Tentou se segurar na estante, mas era muito lisa, então apenas conseguiu derrubar um perfume caro que levava consigo.
O baque de seu corpo jovem sobre o chão duro de madeira atapetado se deu junto de um gritinho de medo e um som alto de vidro quebrando.
— Ai! – falou quando atingiu o chão.
Caiu protegendo a cabeça, ao se recuperar do choque, a germânica se deu conta de que suas pernas ainda estavam sobre a cama, e permitiu que ali permanecessem por mais um tempo.
Seus cabelos espalhados pelo tapete, o perfume tendo caído sobre uma região fora do tecido no chão.
A loura olhou o vidro de perfume espatifado, o líquido cheiroso se espalhando ainda mais um pouco pelo chão amadeirado.
Gemeu baixo de desgosto ao olhar o ocorrido com seus olhos verdes.
— O que foi isso? – disse Jack abrindo a porta abruptamente, a preocupação exposta em seus olhos azuis. Havia voltado a vestir sua calça moletom e as meias brancas com os chinelos velhos.
Qualquer som de coisas quebrando na casa de seu avô e no quarto de um dos hóspedes não devia ser bom sinal.
Se surpreendeu e se acalmou ao mesmo tempo quando viu Rapunzel deitada sobre o chão, e um vidro de perfume desconhecido quebrado sobre o piso de madeira, molhando o chão do quarto, mas ao mesmo tempo deixando-o cheiroso.
A cama de Rapunzel ficava de lado para a porta, e a cabeça da loira acabou de frente para a mesma. A alemã teve que remexer um pouquinho o corpo para olhar diretamente para Jack com seus olhos verdes.
— O que aconteceu? – perguntou o russo.
— Nada, eu só caí – respondeu Rapunzel, tirando as pernas de cima da cama, se levantando – e quebrei o jarro de perfume caro que minha mãe me deu.
— Espere aí, eu vou buscar algo para limpar isso.
Poucos instantes depois o albino surgiu com um rodo, panos, uma pequena vassoura junto de uma pá e uma lata de lixo.
Jack não foi capaz de fazer a loira limpar a bagunça sozinha, não foi o que o pai lhe ensinou, e a mão delicada de Rapunzel reforçava essa recordação.
Juntos se ajoelharam ao redor do perfume quebrado, limpando o mesmo em silêncio, tirando o perfume e arrastando os cacos de vidro sobre o chão de madeira.
O grisalho fez questão de pegar a maioria dos cacos de vidro, e depois limpou o resto com a vassoura colocando os cacos menores sobre a pá, colocando os mesmos no cesto.
Jack se levantou pegando o lixo, o balde, os panos, o rodo e as vassouras.
— Obrigada – agradeceu a alemã.
— Como isso aconteceu? – perguntou prestes a sair.
— Eu estava tentando fazer tranças no cabelo...
— Você fez essa bagunça toda tentando fazer tranças?!
— Eu sei! É que em casa minha mãe e algumas empregadas costumam fazer isso pra mim, e eu achei que conseguia fazer sozinha, mas me enganei – disse com o rosto baixo, envergonhada.
Deu as costas para o platinado e caminhou novamente em direção a cama, mas de repente sentiu o cabelo a puxar novamente.
— Ai! – gemeu, e notou que alguns pequenos fios ficaram presos nas frestas da estante de madeira – Droga! – falou tentando tirar, ao conseguir, sentou-se sobre a cama, voltou-se para Jack e disse – Agora só me falta voltar a tentar.
O russo olhou toda a cena incomodado, e dando-se conta de que não seria possível à Rapunzel realizar tal serviço, inevitavelmente sentiu a presença dos pais novamente, revirou os olhos gemendo e caminhou em direção à alemã, deixando sobre o chão os objetos de limpeza.
— Loira! – chamou enquanto caminhava até a mesma, Rapunzel o olhou com a face abatida e sentimentos de vergonha nos olhos verdes – Quer que eu faça pra você?
— Você sabe fazer tranças? – perguntou incrédula.
— Sim! – respondeu sentando-se atrás da loura sobre a cama, pegando seus cabelos.
— Tá bem então – respondeu Rapunzel, com certo desconforto, abaixando as mãos, deixando-as sobre seu colo enquanto olhava no espelho o reflexo da face alva iluminada pelos raios solares.
Após um longo instante desconfortável de silêncio Jack ainda mexia nos cabelos da loura, que se perguntava do serviço que o mesmo realizava já que por mais que seus cabelos fossem longos não era costumeiro demorar tanto. Após mais alguns instantes a alemã resolveu falar.
— Nunca conheci um menino que soubesse fazer tranças – o silêncio perto de outra pessoa lhe era perturbador.
— Tenho duas irmãs – respondeu Jack, ainda concentrado no cabelo de Rapunzel.
— Elas te ensinaram a fazer trança?
— Quem você acha que faz trança no cabelo delas?
A loira riu baixo.
— E você é bom nisso?
— Melhor que qualquer cabelereiro.
Rapunzel riu de novo.
— Jura?!
— Bem, eu passei a vida inteira morando com três mulheres, alguma coisa eu tinha que aprender.
— Mas você só tem quinze anos, um cabelereiro tem décadas de prática e experiência com vários tipos de cortes.
— Detalhes...
Mais um instante de silêncio se seguiu, aos poucos Jack parou e franziu o cenho, notando algo que quase lhe passou despercebido.
— Espera... Eu nunca te falei minha idade! Como sabe que tenho quinze anos?
A alemã arregalou os olhos, olhando para os lados buscando uma resposta convincente enquanto desfazia o sorriso nos lábios.
— Hã... Eu... Chutei.
O reflexo do eslavo apareceu no espelho quando o mesmo se inclinou para o lado, o rosto indicando incredulidade em suas palavras ao mesmo tempo que cobrava uma resposta mais crível.
Rapunzel, ao ver a face do mais novo no reflexo do espelho tentou não olhar em seus olhos, desviando o olhar enquanto mordia os lábios, constrangida.
— Olhou minha identidade?! – perguntou com ar de acusação.
— Não! – respondeu quase interrompendo-o e balançando o rosto, mas como não era boa em mentir logo confessou com o rosto aflito e alto-punitivo, balançando novamente, confirmando o fato – Sim!
— Mexeu nas minhas coisas?! Por quê? – parou de fazer tranças na hora.
— Desculpa é que eu queria...
— Espera! Quando fez isso?
— Há alguns dias atrás! Quando você estava dormindo! – respondeu dolorosamente – Fiz isso com os outros também! Entrei no quarto de vocês enquanto dormiam.
— Roubou alguma coisa? – perguntou novamente com ar de acusação.
— Não! – respondeu prontamente e com honestidade gesticulando para o espelho – Não seja bobo! Por que eu faria isso?! Eu não sou marginal, e eu sou rica e tenho dinheiro aqui comigo, e vocês também provavelmente teriam notado se eu tivesse feito isso! Vocês nem estão com muita coisa!
— Então? – perguntou Jack, cobrando uma resposta.
Rapunzel se encolhia, baixando a cabeça, os olhos verdes ainda se movimentando para os lados, evitando falar a verdade.
O albino seguia a olhando pelo reflexo do espelho, pressionando-a.
O silêncio durou alguns segundos torturadores para a loira, que logo depois respondeu.
— Eu estava tentando descobrir algum podre de vocês! – falou como se faltasse o fôlego – Pronto! Falei!
— O quê?! Como assim?!
A alemã suspirou com a coluna curvada e a cabeça baixa.
— Meu pai disse que se eu descobrisse que vocês são de alguma forma ameaça a minha vida, ele vinha me buscar. Então fui atrás de provas...
O russo deixou o corpo reto novamente, saindo da frente do espelho e voltando a ficar atrás da loira. Pegou a carteira no bolso, verificando a integridade e a presença de seus pertences. Estava tudo em seu devido lugar.
Revirou os olhos balançando a cabeça e voltou a cuidar dos cabelos loiros de Rapunzel.
— E então? – perguntou Jack descontraidamente, os olhos azuis voltados para as tranças da germânica – Descobriu alguma coisa?
— Nada... – respondeu menos temerosa.
— Menos mal, pra mim pelo menos, assim pelo menos sei que não há nenhum marginal na minha casa.
— Essa casa é do Norte.
— Tanto faz!
Os dois jovens seguiram mais alguns instantes em silêncio, o eslavo com a cabeça baixa, cuidando dos cabelos da mais velha, e Rapunzel agora com a cabeça erguida, sentindo Jack mexer nas pontas de seus cabelos, possivelmente prestes a terminar o serviço.
— Pronto – disse o grisalho quando terminou.
A loira ficou o de lado para o espelho, segurando a trança para o mesmo, olhando-o. Se surpreendeu ao ponto de soluçar sorridente. Nem mesmo suas empregadas já fizeram trança tão bela quanto aquela.
— Nossa! – disse sorrindo – Você realmente falou a verdade quando disse que fazia trança melhor do que cabelereiro!
Jack seguia sentado com as duas pernas sobre a cama, Rapunzel virou-se, sentando-se de lado para o mesmo olhando-o diretamente, com um sorriso no belo rosto luminoso.
— Obrigada!
O albino estranhou tamanha gentileza, mas sorriu em sinal de simpatia.
Depois de mais um tempo em silêncio, o russo resolveu perguntar:
— Desculpa, mas... Fuçar as minhas coisas?! Está mesmo tão desesperada para ir embora?
A alemã baixou o rosto, pondo a mão esquerda sobre o braço direito, dando de ombros, envergonhada.
— Desculpa, é só que... Eu não me sinto bem aqui, cercada de estranhos, sem ninguém em quem eu confio para poder conversar.
Jack notou o sombrio isolamento de Rapunzel, expresso em seu olhar triste, o corpo pesado e que ficava mais sombrio ainda por causa da penumbra em sua face, por estar contra o sol. Era realmente uma jovem sensível.
Olhou-a com os olhos místicos azuis repletos de empatia, sentindo-se até mais confortável para falar com ela.
Sentiu novamente a presença de seus pais, mas dessa vez não se incomodou.
— E como você se sente?
A loura o olhou pelo canto dos olhos, mantendo a pose triste. Fechou os olhos, suspirou e respondeu.
— Eu não tenho sido muito feliz nos últimos anos. Meus pais me mandaram para cá para ver se eu conseguia ficar mais alegre, mais... Satisfeita com minha vida... Mas acho que no fundo eles sabem que não é tão simples assim... Eu só queria me sentir confortável, me sentir livre... Mas... Pra mim isso é impossível. É algo que está dentro de mim – olhou para cima, observando a casa, dando um longo suspiro – E agora está fora também.
O eslavo baixou o olhar, não sabia exatamente qual era o problema dela, nem do que ela estava falando, mas sua sensibilidade alta lhe tornava possível tocar o sofrimento da mesma.
Passou-se um longo período de tempo após o monólogo de Rapunzel. Até que Jack também resolveu falar.
— Sabe... Eu acho que também não tenho sido muito feliz...
— Por que não? – perguntou a loira, sensível, olhando para o mesmo com empatia nos olhos claros.
Jack olhou-a diretamente, seus olhos azuis se encontravam com os olhos verdes de Rapunzel, ambos com um brilho em comum.
Passaram alguns segundos assim. O russo suspirou curvando o corpo magro, suspirando baixo fazendo aos poucos surgir um sorriso fraco nos lábios jovens.
— Já que estou falando isso para todo mundo, então lá vai: Meu pai morreu. E ele era meu melhor amigo, sinto falta dele... E mesmo com o passar dos anos essa sensação nunca foi embora...
— Lamento – sussurrou a alemã, com o olhar ainda triste.
— Obrigado. Sabe quando as pessoas querem te ajudar, e elas aparecem fazendo e falando todo tipo de coisa, mas no fundo elas não nos ajudam?
— Sei... – respondeu Rapunzel forçando um sorriso – Sei muito bem como é.
— Pois é. Minha mãe e meu avô são assim, e depois de muito tempo decidiram me mandar pra cá. A princípio não gostei, mas depois comecei a curtir, até vocês chegarem – disse a última parte esmorecendo abruptamente o rosto.
A germânica sorriu.
— Desculpe.
Um momento de silêncio surgiu. Ambos se olharam sorrindo por alguns segundos, envoltos pela luz dourada do sol no quarto de Rapunzel. Mas logo depois, Jack baixou a cabeça, ainda mantendo um sorriso no rosto.
A loira sentiu um peso sombrio na consciência do platinado que jazia de costas curvas. Lentamente, seguiu o impulso de colocar a mão delicada sobre mão alva do russo.
Jack a olhou bruscamente, surpreso, Rapunzel sorriu com os olhos, e lentamente disse:
— Jack, não é? – o grisalho fez que sim com o rosto silencioso – Se quiser alguém para conversar, pode falar comigo!
Aos poucos o eslavo sorriu, e logo depois fechou o punho, recuando um pouco a mão, dizendo:
— Agradecido! O mesmo vale para você.
Depois levantou-se da cama.
— Agora se não se incomoda, tenho um programa para assistir na televisão.
— Tá bem! – respondeu Rapunzel olhando-o partir.
— Ah! A propósito! Pode demitir seu cabelereiro tá?
Rapunzel riu alto.
Jack sorriu e logo deu as costas para a mesma. Abriu a porta de madeira para sair.
— Jack! – chamou Rapunzel.
O albino parou com um pé fora do quarto, e olhou para a mesma.
— Obrigada! – disse sorrindo com certa alegria.
O mais novo sorriu para a mesma, e logo depois fechou a porta.
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