Querido idiota
3 Capítulo 2
Nos sentamos em uma mesa mais afastada, onde a luz era amarelada e os sofás confortáveis. Parecia um Starbucks do aeroporto. Mas não era. Assim como minha relação com Naruto, naquele momento, parecia existir. Só que era uma ilusão. Eu bebericava meu café tranquilamente, esquecendo a companhia desagradável. Enquanto Naruto tamborilava os dedos no tampo da mesa, seu café já devia estar esfriando.
— Não vai tomar? — eu quis saber, sem perder o tom de descaso.
— Ah, vou — confirmou e levou o copo à boca, como se pretendesse provar o que disse. — Isso quer dizer que assinamos uma trégua? — emendou, olhando fixa e demoradamente em meus olhos.
Engasguei por um momento e ele levantou a mão para me acudir, no que eu rejeitei.
— Po...sso... Me... Virar... Sozinha... — resmunguei tossindo.
Seus olhos eram muito azuis e estavam ali, tão pertos que eu fiquei desconcertada. O embaraço maior foi notar certa preocupação na expressão de seu rosto, eu não gostava daquilo. Fazia o pedido de desculpas dele soar como verdadeiro e eu não queria me enganar. Talvez esse foi seu plano, me fazer baixar a guarda para aprontar alguma coisa digna de Oscar comigo.
— Tá melhor? Quer que eu pegue água? — indagou e eu o fuzilei com o olhar.
— Para com esse joguinho, eu não vou cair nessa sua desculpa esfarrapada. — rosnei entredentes. — Você me acha uma idiota? Pensa que vou cair nesse papo furado de arrependimento?
Um longo suspiro antecedeu sua resposta, ele até parecia realmente arrependido. Uau! Naruto era bom naquilo, em fingir e enganar pessoas. Mais precisamente, no caso, eu.
— Não vou forçar a barra, demonstrarei com minhas atitudes. — finalmente proferiu, dando um longo gole no café.
Gargalhei, uma risada debochada, que saiu um tanto estranha. Um misto de horror, com surpresa.
— Caramba, você está empenhado nisso — ironizei —, quase acreditei em você.
Ele riu, um riso baixo e rouco. Me arrepiei. Sei lá, algo na intensidade daquela situação, além disso, a voz do Naruto sempre foi boa de se ouvir. Se ele não fosse tão babaca comigo, eu corria sério risco de me apaixonar. Porque Naruto era bonito, bem bonito para ser sincera. Eu precisava focar nas suas babaquices, porque a carência não podia falar mais alto. Jamais! Eu gostava do Kiba, puts Kiba. Perdi meu sorvete e nosso primeiro encontro.
Inspirei profundamente e peguei meu celular, que apitou naquele instante. Era uma mensagem do Kiba, ele não ia morrer tão cedo. Como será que conseguiu meu número? Ignorei que estava com Naruto e abri o whatsapp.
"Ei, Hina, espero que não se importe por eu ter pegado seu número com a Sakura. Só queria dizer que podemos marcar outro dia, ela me contou que você precisou ir pra casa. Que tal hoje à noite?"
Sorri instantaneamente para o celular e já fui digitando.
— Seu namorado? — Naruto quis saber, uma sobrancelha se erguendo ao me encarar.
— Ainda não, em breve quem sabe. — respondi displicente, fazendo o mesmo com Kiba pelo celular. — Bora? Eu tenho compromisso mais tarde.
Naruto assentiu, meio confuso meio contrariado, mas nada disse. Seguimos para fora da cafeteira, ele ainda com o café na mão e o silêncio se fez presente entre nós.
(...)
Ao chegarmos em casa, minha mãe estava pirada querendo saber aonde fomos. E, pelo brilho em seu olhar, ela acreditava erroneamente que estávamos nos dando bem.
— Quem bom que chegaram, querido. — dona Harumi foi até ele, abraçando-o apertado. — Estou tão feliz que estejam aqui, está com fome? — e já dispôs comida em cima da mesa.
— Também estou feliz de estar aqui. — respondeu educado, abrindo aquele sorriso que iluminava tudo. — Karin já comeu?
— Ainda não, ela quis esperar você. Está lá em cima com a Hanabi. — explicou, fazendo sinal para eu chamá-las.
Bufei e sai batendo o pé, eu não seria a empregada daquele garoto de jeito nenhum! Fui me aproximando do quarto e ouvi vozes, elas conversavam entre sussurros e minha curiosidade comichou.
— Isso, ele quer pedir desculpas por ter pegado no pé da Hinata. — Karin falou, como se fosse um grande segredo.
— Vai ser difícil o Naruto conseguir o perdão dela, minha irmã não suporta ele. — Nabi protestou e eu ri, era verdade.
— Eu imagino, na verdade eu sei. — Karin devolveu, firmando a voz. — Eu sempre disse pro meu irmão não fazer essas coisas com a Hina, porque um dia ele se arrependeria. Mas não adiantava.
— Naruto vai ter que correr atrás do prejuízo. — Nabi brincou, rindo marotamente. — Mas ele tá apaixonado pela minha irmã?
Arregalei os olhos, apaixonado? Que?
— Não sei, acho que não, ele só está arrependido — negou — por enquanto, pelo menos. — emendou em seguida.
— Ah, seria legal se eles namorassem, né?
— Eu ia adorar, eu amo a Hina. — um suspiro alto, antes de completar. — Mas o Naruto tinha ou tem uma namorada, a Shion, ela não está exatamente feliz por nos mudarmos.
Hum, ele namora? Porém, dane-se.
Achei que era hora de interromper, não queria saber de nada sobre Naruto.
— A mãe tá chamando pra comer! — gritei do corredor, fazendo o caminho de volta para o meu quarto.
Tranquei a porta e fui tomar um banho, toda aquela história tirou meu apetite. Eu só queria água morna caindo sobre mim e lavando meus anseios. Naruto na minha casa, merda. Joguei pedra na cruz? Por que a vida tinha de ser tão ingrata comigo? Decidi que não me deixaria abalar por ele, eu tinha um encontro com o Kiba, oras! Portanto, nada abalaria minha fé de que aquele dia poderia ser salvo. Eu estava enganada.
Desci para almoçar — ou jantar — dado o horário, com a resolução de não deixar aquela visita interferir na minha felicidade. Que foi muito breve, vou explicar porquê. O almoço correu tranquilamente, Naruto não tentou nada estranho, pelo contrário, foi completamente educado comigo e com todos. Logo meu pai chegou do trabalho e ficamos ali, curtindo a família, porque mamãe quis porque quis que todos nós assistíssemos um filme juntos para dar boas-vindas aos visitantes. Fui obrigada a ficar, mesmo querendo sumir para a casa da Sakura.
O filme passava na TV e eu ficava no Instagram, namorando as fotos do Kiba, ele era tão lindo. Não conseguia resistir. Aliás, vez ou outra eu sentia os olhos de Naruto em mim, mesmo à meia-luz. Ignorei esse detalhe, quando meu celular vibrou. Mensagem da Sakura.
"Amigaaa, sinto muito, estou aqui no shopping com meus pais e eu vi algo que você não vai gostar." Emoji de coração partido.
"O que?" — respondi muito rápido, o coração bombeando sangue demais.
"Acho melhor falar pessoalmente."
"Agora, tô presa em uma sessão de filme em família." — devolvi, aflita, roendo a unha do dedão.
"Kiba está beijando uma garota aqui na praça de alimentação."
Meu mundo desabou, como ele beijava outra se iríamos sair mais tarde? Comecei a hiperventilar, aquilo só podia ser engano. Não era possível. Mas a prova não negava o que Sakura vira, ela me mandou uma foto dos dois se beijando. Meus olhos encheram de água na mesma hora. Poxa, eu gostava tanto dele!
Sai da sala correndo, com o coração apertado e os olhos azuis de Naruto me seguiram.
— Aonde vai, filha? — meu pai perguntou, não respondi. Precisava ficar sozinha.
Me tranquei no quarto e liguei para minha amiga. Que me confirmou exatamente o que eu já sabia. Kiba fazia jogo duplo entre eu e a novata do colégio. Eu chorava de raiva, por saber que gostei de um garoto que dava em cima de duas ao mesmo tempo. Sakura pediu para eu dormir na casa dela e nos enchermos de doces, me animei minimamente. Só precisava convencer minha mãe dessa resolução. O filme devia ter acabado, ouvi uma batida na porta e a voz abafada da Karin reverberou pelo quarto.
— O que houve, miga? Você saiu correndo, ficamos preocupados.
Fui até lá e abri a porta, dando de cara com Hanabi, Karin e Naruto, os três olhando para mim interrogativamente.
— Não foi nada, eu vou dormir na minha amiga hoje. — respondi, querendo despistar Naruto. Se fossem apenas a Nabi e a Karin eu contaria o me infortúnio, mas com Naruto ali não.
Eu havia me gabado de um futuro namorado mais cedo, não iria dar esse gostinho a ele.
— Ah não, miga. — Ká protestou com a voz aguda. — Achei que teríamos uma noite de meninas!
Eu sorri, estava com saudades dela e mesmo assim a negligenciava por causa de Naruto. Eles eram diferentes entre si, tanto na aparência quanto na personalidade. Karin era ruiva e Naruto loiro, ela legal, ele insuportável. Começava por aí as diferenças.
— É mana, vamos fazer algo legal. — Nabi concordou. — Não acho que a mãe vai deixar você sair hoje, ela já ficou resmungando quando você saiu da sala do nada.
— Tem razão — aceitei — Mas sem o Naruto. — apontei para ele, que estava parado com as mãos nos bolsos da calça, em silêncio.
— Suspeitei desde o princípio. — Karin brincou. — Tudo bem, é que ele ficou preocupado com você e veio com a gente.
Fiz um bico.
— Certo, vamos fazer algo nós quatro então! — fiquei com pena de deixá-lo abandonado. — Vou avisar à Sakura que não poderei ir hoje.
— Noite de meninas, em Naruto. — Nabi provocou, dando um cutucão nele. Que riu, balançando a cabeça.
— Não conheço ninguém aqui, vai ter que servir. — respondeu divertido e eu acabei rindo também.
— Mas se você fizer qualquer idiotice, eu te soco. De verdade. — ameacei e ele concordou com a cabeça.
— Não farei nada para te irritar, Hinata. — e, quando seus olhos encontraram os meus, senti sinceridade neles.
O celular do Naruto tocou, consegui ler o nome na tela por ser quase um tablet de tão grande. Shion.
— Oi Shion, já cheguei... — e sua voz foi sumindo, à medida que se afastava de mim.
Não sabia dizer exatamente o que senti naquele momento, era estranho, eu não conseguia entender porquê Naruto agira diferente comigo. Seria apenas arrependimento genuíno e puro? Eu estava na defensiva? Teria de descobrir, se quisesse ter um pouco de paz enquanto os irmãos Uzumaki ficassem na minha casa.
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