Estávamos os quatro no meu quarto, jogando Uno, havia uma jarra de suco e bolo em cima da cômoda ao lado da cama. Eu me sentia à vontade, apesar de tudo. Ao desligar o celular, Naruto não mencionou nada sobre Shion. Mas eu já sabia quem ela era graças a conversa da Hanabi com a Karin. Aliás, nem era da minha conta, certo? Tão melhor, assim ele teria alguém para se preocupar, ao invés de ficar enchendo meu saco. Não estava feliz, óbvio, e sim conformada. Kiba foi um cachorro comigo, vida que segue, o que eu podia fazer? Não havia escolha. Ficaria na minha, não focaria mais em garotos tão cedo. Meus estudos viriam em primeiro lugar, quero dizer, depois da minha família e amigos.

Suspirei e vi que Hanabi jogou um +4 pra mim.

— Safada! — exclamei com indignação.

— Você estava distraída, ela aproveitou. — Naruto afirmou, sorrindo com os olhos.

— Pois é, essa traíra. — respondi, olhando Hanabi, que continuava rindo da minha cara.

A noite seguiu assim, tranquila e sem incidentes, mesmo com Naruto tão próximo de mim. Era estranho. Quando já era dez horas, minha mãe apareceu com uma bandeja de sanduíches, porque nenhum de nós quis jantar. Estávamos completamente absortos no jogo, tanto que sequer pensamos em descer. Ignorando os protestos dos meus pais de que iríamos morrer de fome se não comêssemos nada. Foi aí que entrou mamãe, trazendo um arsenal de lanche e rolinhos de canela.

Estava divertido, eu começava a ganhar e sentia Naruto cada vez mais próximo de mim. Era como se ele estivesse se movendo lentamente em minha direção, fingi que não vi. Podia ser involuntário, então preferi fazer a egípcia. Além de tudo, ele namorava, certo? Não faria sentido algum que Naruto estivesse sutilmente "dando em cima de mim". De modo que ignorei esse detalhe e continuei jogando. Foi só quando senti sua mão na minha, de forma bem sutil, que a surpresa me ocorreu. Naruto rapidamente puxou a mão, corando um pouco no processo. Acho que o espaço entre nós estava bem resumido mesmo, ao que parecia Karin e Hanabi não notaram e se notaram disfarçaram. Eu o olhei de canto, ele desviou o olhar mordendo o lábio inferior. Achei atraente, mas virei o rosto, ainda que sentisse um leve formigamento onde nossos dedos se tocaram.

— Acho melhor fazermos uma pausa pra comer. — anunciei, aproveitando para me afastar delicadamente dele.

— Tem razão, Hina — Karin concordou —, eu tô morrendo de fome.

Nós rimos e largamos o jogo pela metade. Respirei aliviada por estar razoavelmente distante de Naruto agora e pretendia continuar. Tudo o que eu menos queria era outro garoto babaca na minha vida.

Era isso, eu morreria solteirona, porque nenhum deles prestavam. Nesse instante Naruto levantou, alegando que iria so banheiro, o celular ficou e assim que ele saiu apitou. Possivelmente indicando mensagem. Karin e Hanabi estavam comendo feito duas lombrigas e eu acabei dando uma espiada para ver de quem era a tal mensagem. A curiosidade sempre foi meu ponto fraco, assumo.

"Não vou aceitar que termine comigo...", e foi apenas isso que consegui ver na tela.

Caramba, eles terminaram? Naruto terminou? Por quê? Quando? Hoje?

Certo, não era da minha conta, porém eu queria saber. Aproveitei a deixa e sai na ponta do pé do quarto, para ir ao outro banheiro. Com sorte encontraria Naruto no corredor e casualmente eu poderia perguntar sobre Shion. Seria vergonhoso, mas necessário se eu quisesse sanar minha curiosidade.

Dito e feito, quando estava indo ele voltava. Lindo, os cabelos meio bagunçados, camiseta azul, realçando os olhos cor de céu incríveis. Precisei respirar fundo. Tá, algumas coisas mudaram desde que nos vimos pela última vez. Ele estava muito mais interessante fisicamente, se é que me entendem. Eu podia ver o volume na garganta dele, o que era extremamente sexy. Hello, o que tem de mais atraente no homem e por que é o pomo-de-dão? É algo tão másculo, eu fico admirando isso nos garotos. É, cada qual sente-se atraído por algo específico. E Naruto tinha vários atributos, além do que eu citei agora: a mandíbula quadrada, a voz rouca e grave faziam parte do conjunto. Aí aí, volta para a terra Hinata.

Fingi não vê-lo para não dar na cara e já havia passado por ele, quando Naruto me chamou.

— Hinata?

— Oi? — fingi naturalidade.

— Está chateada por eu estar aqui? — a pergunta me pegou de surpresa, ele parecia tão desprovido de hostilidade, que eu não consegui ser rude.

— Não. — por isso minha resposta acabou sendo tranquila.

Eu nem sabia se estava mentindo ou sendo sincera, mas foi o que saiu.

— Que bom — e passou as mãos pelos cabelos, como que aliviado —, eu fiquei com medo de não conseguir me aproximar de você sem te irritar.

— Por que tudo isso, Naruto? — eu quis saber, ainda confusa e curiosa sobre seu súbito interesse por mim.

— Eu já te falei, só queria consertar as coisas. — foi quando Karin chamou do quarto.

— Naruto, a Shion não para de ligar. Pelo amor de Deus, pede pra ela parar de encher o saco!

Ele corou um pouco e seguiu para o quarto, sem olhar para mim outra vez. Não consegui atingir meu intento de descobrir sobre o relacionamento dele. Contudo, outra coisa interessante aconteceu. Ou não, vai saber. Ainda pisava em ovos com ele.

Fui ao banheiro sem querer e quando voltei, Naruto não estava. Karin contou que ele saiu com o celular e não voltara ainda. Achei compreensível, dado o teor da mensagem que a Shion enviou. Eu não queria mais jogar. De modo que comi e inventei a desculpa de que minha cabeça doía. Elas pareceram entender e foram fofocar na nossa área de lazer, onde tinha rede e essas coisas. As duas iriam dormir no meu quarto, porque Naruto ficaria no da Hanabi por enquanto. Então eu deitei um pouco, buscando reorganizar meus pensamentos enquanto as duas não voltavam.

Ouvi um barulho na porta e franzi o cenho, meus pais já deviam estar dormindo há tempos, seria Naruto? Hesitei antes de levantar da cama, até que ouvi sua voz rouca soar distante.

— Hinata?

Quando abri a porta, ele esperava encostado na parede, cabeça baixa e mãos nos bolsos do jeans. Não sabia porquê, mas eu gostava quando ele fazia isso. Era tão espontâneo e ingênuo, Naruto parecia um garoto normal assim. Com as mãos nos bolsos, calmo, nem parecia a peste que infernizou tanto a minha vida.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.