Querido Vinicius [HIATUS]

3 Tiko, o cachorro de olhos grandes.


Notas iniciais
Que merda é esse título do capítulo? Não sei, devo estar com mesmo problemas da cabeça kk Enfim, aqui vai mais um capítulo. E boa leitura!

Quinta-feira, 6 de fevereiro

23:15

Querido Vinicius,

Desculpe por te fazer esperar, aconteceu muita coisa. Não sei o que lhe deu em mim… Mas primeiro, se acalme.

Não sei para onde começo… vou tentar aclarar os acontecimentos bizarros.

Quem me aproximou foi o Carlos, o garotinho que quase foi espancado pelos amiguinhos do rei.

Quando fechei você, depois, fiquei a olhar interrogativo para ele.

Desculpe por ter te machucado, Vini, tive de que ser.

Ele olhou para você mas não ligou muito e depois olhou-me, todo tímido.

― I-incomodo-te? – perguntou, me olhando e depois desviou para o chão.

― Não, esteja à vontade – sorri abertamente, deslizando você para o meu colo. Viu como sou gentil?

Ele sentou-se na minha frente, tirando algo nos seus bolsos e colocou em cima da mesa. Olhei para ele, era apenas uma caixinha de cartão. Ele deslizou a caixinha na minha frente e sorriu corado.

Isso é para você… – disse tão baixinho que quase tentei aproximá-lo para escutar mas consegui.

― Para mim? – perguntei atónito, olhando para a caixinha que “dançava” na minha frente. – Porquê?

― P-porque você salvou-me… – gaguejou de leve, inquieto enquanto brincava com as suas mãos.

― Não é preciso – falei com firme, empurrando a caixinha sem interesse para o menor que me olhava surpreendido.

― M-mas – gaguejou com pressa. – É para você! – vociferou e empurrou a caixinha de volta para mim.

Fiquei surpreendido com o gritinho dele, que corajoso.

― Mas eu não quero! – pronunciei infantilmente.

“Idiota.” Eu sei que você falou, Vini. Eu sei de tudo (mentira, não sei nada mesmo).

― EU QUERO QUE VOCÊ ABRA ESSA MALDITA CAIXA – bradou tão alto que quase senti os meus ouvidos a estourar.

Arregalei os olhos, olhando para ele, todo assombrado. Carlos percebeu o que havia feito, tampou as mãos na sua boca e arregalou os olhos como eu fiz.

Carlos lançou o olhar à sua volta, assustado, e voltou a olhar-me, arrependido.

― D-desculpe-me… – murmurou, cabisbaixo.

― Sem problemas, você ganhou – bufei, pegando a caixinha e abri de forma suave.

Deparei o chocolate em forma de homem, com posição de um herói. Fiquei processando por alguns segundos a analisar o homem-herói de chocolate.

Sabes, Vini, é muito bizarro que uma pessoa oferece um chocolate em forma de homem e, pior ainda, na posição de um herói. Não curto heróis, sei lá. Acho ridículo, porque sei perfeitamente que nesse mundo não existe heróis.

Esqueça o Mandela, ele fez uma ação só para ganhar uma fama. Não fique brabo, Vini. Que coisa. Apenas sou realista, viu?

Vou ignorar que você deixou-se escapar algo como “Ingrato e tolo”. Podes ter raiva de mim, mas não acredito nos heróis. Você saberá o porquê quando eu tiver vontade.

Mas percebi que Carlos me considerava como um herói, fiz a pior careta do que já fiz. Carlos me olhava aterrorizado.

― Quero que saibas uma coisa – falei com tom duro. – Eu não sou herói, eu odeio. Entenda que salvei-te por seres duas vezes mais pequeno do que este estupido rei. O que eu não suporto são as diferenças – cuspi, desgostoso.

Os olhos do Carlos começaram a lacrimejar, com a boca entreaberta, chocado. E, depois, com a boca a tremer, tentando dizer algo mas não conseguia.

― Q-quer dizer que… — finalmente começou. – Você não me salvaria se eu fosse um pouco maior do que ele?

― Exatamente – assenti, colocando o chocolate na caixinha e empurrei para ele.

Carlos ficou em silêncio e depois começou a soluçar levemente, pegou a caixinha e levava a manga comprida da sua camisola, enxugando e fungava.

― O-obrigado mais uma vez… — sussurrou num tom choroso, afastando o cabelo nos seus olhos, e notei que tinha os olhos grandes e castanhos como um cachorro abandonado.

Por causa disso, Vini, lembrei logo do meu falecido cachorro, era um vira-latas mas tinha uns grandes olhos castanhos, como o Carlos. Chamava-se Tiko.

Como ele morreu? Morreu atropelado, amigo, é assim que a vida é.

Decidi chamar o Carlos de Tiko. Fica-lhe muito bem, não achas?

Não? Quero lá saber, você é apenas um livrinho inútil.

Ok, ok, desculpe-me, Vini.

Voltando ao assunto anterior…

Tiko afastava-me lentamente, fungava e soluçava baixinho. Epá, não sou cruel. Não posso estar sempre a salvar os outros, pelamor.

Cale a boca, Vini. Eu tenho motivos para isso.

Quando ele se afastou, finalmente dei atenção a você mas ouvi um grito do Tiko. Virei-me rapidamente e encontrei-o ao longe, estava agarrando uma caixinha como uma proteção e olhava de horror para o rei estúpido! Oh, não… de novo?!

E depois, foi rápido demais. Arregalei os olhos quando o rei empurrou com muita força ao garotinho que foi ao encontro no chão com um forte banque. A caixinha dele caiu para o lado e abriu-se, deixando o homem de chocolate a exibir.

Levantei bruscamente e atirei você em cima da mesa e desatei a correr à direção deles.

Doeu? Não faz mal, você é forte e já acostumou a minha agressividade, né? Opa! Se você fosse mesmo uma pessoa, já me terias batido. Ainda bem que você é um livrinho inútil. Acalma-se, estava zoando…

O rei arqueou a sobrancelha quando apareci na sua frente. Desta vez, ele não tinha seguidores por perto, que sorte.

― Então, você é o Ghost Boy que tanto falam… — cuspiu ele, com careta de repulsão. – Era para não meteres a vida dos outros, por acaso, eu convidei-te ou quê?

― Uau, estou adorando de ser reconhecido. Que honra – pronunciei num tom de sarcasmo. Não queria ser reconhecido mesmo, só traria desgraça. – Meu caro, mesmo eu sem ser convidado, posso entrar em qualquer se eu quiser.

Percebi que Carl-, quero dizer, Tiko, estava desesperado de sair dali.

― Você tem garras, garoto. Mas isso não vai ficar impune! – resmungou ele, dando um soco no meu rosto.

Desviei pelo reflexo, não sei, mas foi por reflexo mesmo, Vini. Espera, estás a me dizer que estou a mentir? Não, sempre fui fraco porém só que meu pai ensinou-me como defender. Apenas isso, só sei as técnicas de defensa. E o resto não sei, apenas fugir.

― Vamos lá, amigão. Podemos fazer pazes? – ri com deboche, vendo a erupção do rei prestes a explodir. – Vá lá, deixa o garotinho em paz. Ele é duas vezes mais pequeno que você, isso é covardia.

Sinceramente, Vini, eu nem sei qual é o nome dele. Agora você percebeu? Que lerdo! Calma, eu estava zoando mas a maior parte é de verdade. Entenda uma coisa que é muito comum em mim: quando eu odeio uma pessoa, nunca sei o nome nem quero saber.

― Como eu se ligasse – vociferou, furioso. Ele deu uma rasteira tão rápida que nem tive tempo e acabei caindo de bunda.

Arregalei os olhos e Tiko juntou-me, arregalando também. Tentei afastá-lo o mais rápido possível mas me acabei levando um chute na cara. Cara, doeu bastante. Eu sei que você está rindo de mim, Vini, mas foda-se.

A minha cabeça rodopiou logo até vi estrelas no meio do dia. Que lindas estrelas… Acorda, você está sendo espancado.

Tiko me tentou ajudar mas levou um chute na sua barriga, de novo. Fiz um esforço para levantar-me e sair dali, deixar o garotinho atrás.

“Oh meu Deus, você é muito filho da puta.” Eu sei, eu ouvi, Vini. Mas não tive escolha.

“Tomara que você morra logo.” Ou, ou, ou, calma aí. Tu estás a me dizer que abandonei o Tiko? Vais ver…

Peguei uma barra de ferro que estava debaixo da terra onde eu o enterrei caso se acontecer algo ruim, ou seja, só para emergências. Sim, eu só fui buscar isso para voltar de novo e dar a maior surra inesquecível de todos os tempos. Quero ver ele aguentando a dor insuportável da barra de ferro.

Voltei onde eu tinha levado a tareia e vi o Tiko desmaiado, não mexia nada quando o rei tentava abaná-lo com o pé para que pudesse dar um sinal de vida. A cena lembrava muito da minha recordação desagradável.

Na minha recordação estava o cachorro no chão, imóvel e cheia de machucados e sangue visível em algumas partes. Não respirava, era óbvio que estava morto. E o homem tentava acordá-lo com o pé! O PÉ! Não podia simplesmente abaná-lo com as mãos? É mais gentil, não era preciso ter medo de sujar com as mãos. Lixo…

Gritei “Tiko!” ao cachorro mas ele não reagiu… Sempre reagia quando eu o chamava e pulava em mim para dar umas lambidas mal cheirosas. E depois, ficou tudo preto, não sei o que aconteceu mas acabei de acordar na minha cama. A minha mãe explicou-me que eu tinha desmaiado e já enterraram o Tiko. Desatei a chorar ali mesmo a abraçar a mãe que ficou a sussurrar as palavras dóceis e adormeci nos braços dela.

Só de lembrar disso, deu-me uma certa raiva e o rei não apercebeu a minha presença. Eu estava mesmo atrás dele, erguendo a barra de ferro tão alto que senti os meus olhos brilhavam de um modo aterrador.

Mas, naquele momento, senti que alguém me impediu de avançar a barra de ferro.

Se não fosse por ele, eu o teria matado.

Notas finais
Quem será essa pessoa? Hm... quanto suspense. Agora vou dormir em paz, sempre fico com cheias de ideias bizarras na história. É mesmo genética da família '-' Enfim, espero que tenham gostado. Beijos!