Quem de nós dois...

3 Quando algo acontece...


Nossos corpos ardem no fogo da luxúria, do desejo, somos uma pira e a nossa cama um templo, nos ofertando a divindades antigas, nosso ato de amor é a nossa dádiva. Somos estranhos que se conhecem há séculos, nossos corpos se encaixam, se completam, nos perdemos um no outro, nos encontramos um no outro, eu me revelo e você me preenche, plenos. Fez-se a luz. Um novo mundo nasceu em mim. Sou Gaia, o elemento primordial.

Na penumbra do quarto, repousamos, lassos, largados, silenciosos. Logo a carne vibra e os corpos exigem mais, viciados no toque, no prazer. Sou sua esfinge, um ser mítico o desafiando: Decifra-me ou te devoro.

Você me toma como um conquistador, um general que invade terras desconhecidas e cobiçadas, conquistando com sua espada forte, sou sua bainha, travamos uma luta insana, onde os dois são vencedores. O sono profundo é recompensa dos heróis.

Quando acordamos, estamos envoltos pela escuridão, estamos famintos, pedimos sanduíches e cervejas pelo serviço de quarto. Fazemos um piquenique improvisado sobre a cama.

“Irei embora em dois dias. ” Aviso.

“ Por quê? “

“ Porque preciso volta para casa, para minha vida”

“ Por quê? “

“ Porque sim. ”

“ Você pode ficar um pouco mais, mudar a passagem, ficar mais alguns dias. ” Você diz, dando de ombros.

“ Não, posso. Tem o hotel”.

“ Eu tenho uma casa alugada aqui perto. Você pode ficar lá, comigo, até partir. ”

Fico atordoada com o convite, não esperava algo parecido.

“ Você é doido? Como coloca uma completa estranha na sua casa? ”

“ Você não parece perigosa. ”

“ Não, eu não sou, pelo menos, acho que não. Mas, poderia ser. Eu preciso pensar. ”

“ Tenho que ir. Tomar um banho, dormir um pouco. A gente se vê mais tarde? ”

“ Sim, a gente se vê mais tarde. ”

Quando você sai pela porta, o quarto se enche de vazio, como se levasse todo o ar, toda a vida. Tomo um banho, ajeito a bagunça e me deito, para mais uma noite insone, pensando no que fazer, quero dizer que sim, quero ficar com você, mas é uma loucura. E os meus planos? E a minha vida do outro lado do oceano? Ela ainda estará lá, me esperando.

No dia seguinte, você volta como o sol e ilumina minhas ideias nebulosas, espanta os meus medos, que fogem para a sombra, sem coragem de encará-lo. Que se dane os meus planos! Quero ficar com você, quero me perder em você, quero me achar em você.

“ Sim, eu fico. ” Proclamo e você sorri.

“ Vou mostrar a minha casa a você. ”

Pegamos a estrada, subimos, descemos, chegamos a uma pequena vila de casas brancas, igreja branca, portas coloridas, pés de romãs e roseiras, deixamos o carro na entrada, seguimos a pé pela viela, subindo, paramos diante de uma pequena casa de portas e janelas azuis, apertada entre as outras.

“ Eu aluguei. Melhor que hotel ”.

Empurra a porta e, como uma intrusa, a luz invade o lugar, iluminando as paredes claras. O sofá e a cama de alvenaria brotam do chão, cobertos por almofadas coloridas, mesa e cadeiras madeiras, o ventilador de teto barulhento, sei bem porque decorei cada canto, cada detalhe daquele lugar, até a rachadura na parede perto da janela, onde o gato amarelo da vizinha gosta de deitar para pegar sol. Sobre a pia da cozinha, ainda está a louça do seu café da manhã. Repasso os olhos pelo lugar, sou uma invasora, desbravando o seu território, o conhecendo melhor.

Sei que é uma loucura, mas estou decidida a viver essa fantasia, viver você, mesmo que apenas por alguns dias.

Você vai se aproximar por trás e grudar seu corpo no meu, enlaçar minha cintura, beijar o meu pescoço, arrepiar minha nuca, logo estaremos na cama, nos lençóis impregnados com o seu cheiro, logo você estará dentro de mim, logo eu me dissolverei nos seus braços. E será, somente, a nossa primeira vez naquela cama.

Mais tarde, quando a fome aperta, improvisamos um almoço, a cama é nossa mesa. Você tem um bom estoque de vinho, temos pão, queijo de cabra, azeitonas. Uma refeição milenar, somos deuses do Olimpo.

No mormaço da tarde, olhos fechados, ouvindo o barulho monótono do ventilador de teto, sua mão quente sobre o meu ventre, sua cabeça pesando no sobre o meu seio, é o que me lembro.

Dois dias depois, eu entro na sua casa como senhora, coloco a minha escova de dentes junto à sua, um gesto tão íntimo, tão comprometedor. Por fim, a realidade, estou morando com um homem que conheci há apenas alguns dias, se alguém cogitasse essa possibilidade tempos atrás, riria na cara dele. Mas, hoje, estou aqui, na sua casa, na sua cama, com um homem que faz o meu corpo tremer, querer, exigir, que mexe com minhas entranhas, visceral, contrai meu ventre, sou só uma mulher, a sua mulher.

Durante o dia, você segura a minha mão e me leva pelas ruas da cidade, me mostra lugares bonitos, coisas antigas, ruinas, me conta histórias de imperadores, heróis, deuses e guerreiros, eu o sigo, absorvo, assimilo. Comemos em pequenos escondidos restaurantes, sabores da terra, que você conhece bem.

À noite, saímos para beber, dançar. Dançamos como loucos intoxicados pela música e nos amamos e nos amamos.

Lembro de uma vez, na madrugada, voltando para casa, você enlaçado na minha cintura, falando bobagens no meu ouvido, riamos, felizes por simplesmente existirmos. De repente, me puxou para um pequeno beco, contra um muro de pedra, um muro que testemunhou milênios, guerras e conquista e que, essa noite, testemunhou a nós. E você me quis e me teve ali, de pé, no meio da rua, no meio da cidade, contra as frias pedras antigas, envolta pela escuridão da noite, entorpecidos pelo vinho, pela música, pelo amor. Doidos. Doida. Sou uma outra mulher. Uma mulher destemida. Uma mulher apaixonada.

Acordo cedo e o encontro dormindo ao meu lado, aproveito esse seu estado de inconsciência para espiá-lo. Observo e guardo os seus detalhes: o nariz reto um tanto torto, a boca desenhada, os longos cílios que eu invejo, seu peito subido e descendo suavemente, sou indiscreta. Quero levá-los, guardá-los comigo para sempre.

Agora, passado um tempo, diante de você vejo que não me lembro de tudo, seu rosto está diferente ou será a minha memória falha? Levo a minha xícara aos lábios, sorvo a um gole quente, doce e espesso, nossos olhos se encontram, seus olhos sorriem. Será que me adivinha os pensamentos?