Quem de nós dois...
4 A história de nós dois.
Meu tempo junto a você é tão curto, só mais alguns dias, as horas passam voando, logo terei que partir, por isso, durante o dia devoramos a vida, correndo contra o inevitável. À noite, nos devoramos, nos engolimos, nos saciamos, somos ferozes canibais, querendo nos guardar um dentro do outro. Como poderei viver sem você?
Após nos amarmos, deitados na cama, fazemos promessas vazias, dizemos mentiras, juras que sabemos não serão cumpridas, fingindo que não nos perderemos quando eu partir.
“ Eu vou encontrá-la, quando voltar e tudo será igual. ” Você mente, eu finjo que acredito e mergulho na sua boca, roubou-lhe as palavras, quero trancá-las dentro de mim. Um dia, eu as libertarei e elas sairão voando a sua procura como pombos-correios, que buscam o seu ninho.
“ Nunca será igual. Nunca seremos iguais. ” Com o peito pesado, antessinto, tal qual um oraculo. Você ri, caçoa, me chama de dramática, mas sabe que é verdade, então, se cala. Sem mais palavras, nos amamos outra vez, com furor e desespero, antecipando o doloroso adeus.
Quando o sol ressurgiu, o carro dourado cruzando o firmamento puxado por portentosos garanhões de fogo, vamos para a sua luz.
Eu me lembro quando você me desafiou. Você sempre me desafiava, sempre me punha a prova. Na praia, propôs que tirássemos toda a roupa, em plena claridade.
“ Não! ”
“ Não seja covarde! ” Disse já tirando a sua, sem nenhum pudor, ficando nu, eu olho para um lado, para o outro, ninguém parece se importar.
Você me incentiva com o olhar, eu respiro fundo e tiro a minha pouca roupa, bem devagar, é quase doloroso. Aí, eu me vejo completamente nua, exposta, na frente de tantos estranhos. Deito, sentindo o sol tocar em lugares secretos.
“ Libertador, não é? ” Você querer saber, com um sorriso na voz.
“ É esquisito. ” Confesso, um tanto inibida.
Eu só sou desinibida com você, entre quatro paredes ou em becos escuros. Nesses momentos, sou uma adepta do hedonismo, o prazer é o supremo bem da vida. O prazer que dividimos, que ainda me lembro bem, esse pensamento me faz arrepiar.
Recordo-me do gosto da sua boca, dos seus beijos, das suas carícias, você dentro de mim, de prazer explodindo em mim, sinto-me nostálgica e triste. Sinto saudades e inveja daquela mulher que eu fui, que foi sua.
“ O que é isso? ” Quero saber diante da garrafa contendo um líquido cristalino, que o garçom depositou na nossa mesa.
“ Ouzo, uma bebida local, a base de anis. Vamos, prove! ” Você derrama o liquido em um pequeno copo e me oferece, tomo um gole, faço uma careta. É bom e ruim. Você também toma o seu e preenche nossos copos, outra vez. E outra vez, nós esvaziamos nossos copos
Mais tarde, voltando para casa, tontos, nos perdemos pelas vielas desertas quase iguais. Um gato passa correndo e nos assusta, rimos como tolos, você me puxa para um canto me encosta contra a parede e me beija com ardor e desejo. Sua boca tem gosto de anis, sua mão é quente debaixo da minha roupa, eu deixo você me bolinar, você entrar em mim, sem cerimônia, sou uma vadia. Sou a sua vadia.
Acordo tarde, você não está na cama, não ouço seus sons, a casa está silenciosa, meu coração para de pavor, minha cabeça roda. Onde está você? Você se foi? Cansou de mim? O que eu farei sem você?
Ouço a porta abrir, logo você aparece na minha frente.
“ Onde você estava? ” Interrogo, mais aliviada.
“ Acabou o café, fui comprar. ” Felizmente, você não percebeu a minha aflição, meu pânico, quando se vira e vai para a cozinha. Fico ali, sentada na cama, imaginando como será a minha vida sem você? Como será acordar dia após dia em uma cama vazia. Tenho tanto medo do futuro.
Tivemos nossa primeira briga, não me lembro o porquê, provavelmente, por algum motivo bobo, quem sabe ciúmes, eu de você ou você de mim, já que estávamos em um bar, no fim da noite, dançando. Saímos de lá, mal nos falando e quando chegamos em casa, explodimos, gritamos, xingamos, por fim, você dormiu no sofá da sala. No começo, gostei da ideia de punir você com o desconforto, mas, no decorrer da noite, a nossa cama ficou tão grande e deserta, que tenho medo de me perder, não aguentei, procurei por você, ajoelhei ao seu lado. Você também não conseguia dormir. Somos dois tolos, arrependidos, trocamos pedidos de desculpas, prestamos falso juramento que nunca mais aquilo iria acontecer, por fim, fizemos as pazes, fizemos amor, ali mesmo, no sofá apertado, tendo como testemunha o impassível gato amarelo da vizinha, que repousava na nossa janela.
Em uma tarde, largados sobre a cama, sua cabeça sobre a minha barriga, você brinca como o meu umbigo, acha graça, eu finjo me aborrecer. Você pede desculpa e beija o meu umbigo. E até hoje, ainda guardo esse beijo escondido, dentro de mim.
Conto os dias, as horas, os minutos para o nosso adeus, como um doente terminal, nosso romance está fadado acabar, em um dia e hora exatos.
Algumas vezes, depois de nos amarmos, eu chorava e você me aconchegava em seus braços, limpava minhas lagrimas e acariciava os meus cabelos, como se faz com uma criança machucada e amuada. Ainda hoje, quando tenho um pesadelo e acordo, assustada, na minha cama vazia, me vem uma saudade, uma melancolia, queria que você estive comigo a me acalentar.
Certas vezes, acho que será melhor partir, me afastar, deixando você para trás, pois como posso ficar assim, desse jeito, tão completamente dependente, tão completamente apaixonada, preciso me libertar, tenho medo do que eu sinto.
Pouco antes de eu partir, estamos em uma praia, uma dessas escondidas por montanhas secas e acinzentadas, que contrastam com o mar azul turquesa, está quente, o suor escorre pelo meu pescoço, pelo meu peito, eu o convido, mas você se recusa, vou para a água sozinha, mergulho, me refresco. Quando volto, você está conversando com outra garota, meu coração afunda como se eu o tivesse esquecido, lá trás, dentro d’água, estou tento uma premonição, uma visão do seu futuro sem mim. Pode ser, porém, eu estou aqui agora, avanço como um touro na direção da capa vermelha. Eu me posto ao seu lado, sou possessiva, forço um sorriso, mas meus olhos são adagas afiadas para a outra. Você me apresenta a garota, se conheceram antes de mim. Sim, você teve uma vida antes da minha chegada. Quantas garotas se deitaram na sua cama e quantas deitarão depois que eu me for? Um ferroada atinge o meu peito, tenho ciúmes da sua vida sem mim.
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