CASA DE EUNICE

Rita esta sentada pensativa no sofá, quando Eunice entra carregando sacolas de compras. Angela passa pela mãe carregando uma garrafa de refrigerante, que é deixa em cima da mesa da cozinha. A menina corre até o sofá, e dá um abraço na tia.

ANGELA

- Oi Tia Rita.

RITA

- Oi anjinha.

ANGELA

- Você fez o bolo?

RITA

- Fiz sim. Vem que eu corto um pedaço pra você.

Enquanto Rita corta um pedaço de bolo para Angela, Eunice entra com o resto das compras, e começa a guardá-las. Rita se apressa em ajudá-la.

EUNICE

- Oi Rita. Onde é que tá a Sarah?

RITA

- Saiu com duas amigas. Susan e... Wendy.

EUNICE

- Sei. Não tinha nenhum garoto com elas, tinha?

RITA

- Não que eu tenha visto.

EUNICE

- E a terapia, como foi?

RITA

- Foi boa. Nice, eu preciso falar uma coisa com você.

Rita indica Angela com a cabeça.

EUNICE

- Angela, termine seu bolo na sala. Deve estar dando desenho a esta hora.

ANGELA

- Mas você nunca deixa eu comer bolo na sala, mãe.

EUNICE

- Tô deixando agora. Vai.

A menina vai para sala com seu prato de bolo. Logo se ouve o barulho da TV ligando.

EUNICE

- Então, o que foi?

RITA

- Lester sumiu. A polícia esteve aqui atrás dele.

EUNICE

- Como assim sumiu?! Ele fez alguma coisa de errado?

RITA

- Não. O que me disseram foi que notaram a falta dele no trabalho. Os amigos foram no apartamento dele e não o encontraram. O porteiro disse que ele não aparecia há dias.

As duas param de guardar as compras, e se sentam a mesa da cozinha.

EUNICE

- Acha que ele fugiu?

RITA

- Não. A polícia foi até o apartamento do Lester. Tinha muita roupa dele lá. As malas tambem estavam lá.

EUNICE

- Ele pode ter fugido e deixado tudo pra trás.

RITA

- Pode ser. Mas por que ele faria isso? Se fosse fugir levaria alguma coisa, certo? E se aconteceu alguma coisa com ele?

EUNICE

- Como o que?

RITA

- Eu não sei. Talvez algum acidente. Desde que aqueles policiais foram embora tem uma coisa que não me sai da cabeça. Aquilo que Lester me disse no dia em que Andy morreu.

EUNICE

- O que? A historia de o Bicho Papão ter matado as crianças? Você não esta acreditando que...

RITA

- Não! É claro que não. Eu só... Fiquei pensando. Apesar de tudo, Lester parecia tão seguro do que dizia.

EUNICE

- Lester estava perturbado, Rita. Gente perturbada sempre acredita no que diz. Olha, eu... Eu não acredito que a gente tá discutindo isso. E o Lester é bem grandinho, minha irmã. Sabe muito bem se virar.

RITA

- É, acho que tem razão. Eu vou me arrumar pro trabalho.

Rita se levanta da mesa, mas não parece totalmente tranqüilizada.

EUNICE

- Mas pensei que hoje você não trabalhasse a noite.

RITA

- Troquei de turno com uma colega.

MAIS TARDE: QUARTO DE ANGELA

É Noite. Angela esta na cama, colorindo as figuras de um livro. Eunice entra no quarto.

EUNICE

- Hora de dormir, Angela.

A menina põe o livro na gaveta, e se acomoda na cama.

ANGELA

- Mamãe, posso te pedir uma coisa?

EUNICE

- Fale, filha.

ANGELA

- Posso dormir com a luz do abajur acesa?

EUNICE

- Por que, Angela? Você nunca foi de ter medo do escuro (diz a mãe surpresa).

ANGELA

- Por nada mãe. Eu só...

EUNICE

- Fala a verdade pra mim, filha.

ANGELA

- Minhas amigas levaram um filme de terror pra gente ver. Eu não queria, mas então me chamaram de medrosa, e...

EUNICE

- Entendi, você viu o tal filme, e agora tá com medo de dormir no escuro. É isso?

ANGELA

- É (diz envergonhada).

EUNICE

- Eu devia deixar você dormir no escuro pra aprender. Tem que ter personalidade, filha. Se você não quer fazer uma coisa, não precisa fazer só pra mostrar para os outros que você pode. Tá me entendendo.

EUNICE

- Tô, mãe.

Eunice acende a luz do abajur em forma de flor,

EUNICE

- Só essa noite, tá bom?

O celular de Eunice toca,

EUNICE

- Alo? Onde é que você tá, garota? Já tô pondo sua irmã na cama. Vai dormir na casa da Susan? Tá bom, bom estudo pra vocês.

ANGELA

- A mana não vem pra casa hoje?

EUNICE

- Não. Vai estudar com uma amiga. Boa noite filha. E não fica com medo, tá bom?

Eunice dá um beijo na filha, e a cobre com o lençol. Em seguida, a mulher sai do quarto, e apaga a luz, deixando apenas a lâmpada do abajur acesa. A menina pega o abajur, e o põe no chão. Depois se inclina, e bota metade do seu corpo para fora da cama, ficando de cabeça para baixo, podendo assim olhar em baixo da cama. Ao não ver nada, Angela sorri, e pega seu abajur, colocando-o em cima da estante.

Um Pouco Mais Tarde: Super Mercado Summer Wood.

Rita coloca latas de ervilha na prateleira do mercado Winter Wood. O Super mercado Summer Wood funcionava 24 horas por dia, por isso Rita tinha horários de trabalho bem variados desde que conseguiu o emprego. Suas funções giravam entre manutenção do estoque, e abastecimento das prateleiras. Seu supervisor, um homem alto e careca vai até ela.

CLEGG

- Terminou com as ervilhas, Rita?

RITA

- Sim senhor.

CLEGG

- Então vá ao estoque e traga mais condicionadores.

Rita assente com a cabeça, e vai fazer a tarefa que lhe foi incumbida.

ESTOQUE DO MERCADO

Rita empurra a porta vai e vem, e entra na área restrita para funcionários do super mercado. Ela passa por uma área com três fileiras de armários de metal, onde os funcionários guardam seus pertences enquanto trabalham. Esta área tem uma iluminação fraca vinda de lâmpadas fluorescentes no teto,

Após passar por esse ambiente, Rita entra na sala onde se localiza o estoque. A mulher entra numa sala maior, cheia de prateleira com os produtos estocados do mercado. A sala do estoque tem uma iluminação bem mais intensa que a dos armários dos funcionários. Rita vai até o fundo da sala, e pega uma caixa, que contem uma boa quantidade de condicionador embalado.

Rita começa a fazer o caminho de volta, mas quando esta passando pela sala dos armários ouve um som estranho, parecido com o de um bebê tentando falar. Ela para, e olha para o corredor vazio formado pelos armários. Não há nada ali. Quando desvia o olhar do corredor, Rita volta a ouvir o choro baixo de um bebê. Ela larga a caixa de condicionadores no chão, e olha apreensiva para o corredor.

Durante o tempo em que esteve internada, Rita Billings costumava ter alucinações auditivas com o choro dos filhos mortos. Estaria acontecendo de novo? Rita fecha os olhos, e tapa os ouvidos, repetindo mentalmente que aquele som não é real. Entretanto, o choro do bebê começa a soar mais alto e desesperado. Rita começa a andar pelo corredor de armários, tendo a sensação de estar se aproximando do som do choro. Se for uma alucinação, parece bem real, pensa Rita.

Ela vai percorrendo o corredor, e percebe que o som vem de um armário entreaberto. Um armário entreaberto que esta bem ao lado do seu. Rita para na frente do armário de onde parece que o choro esta se originando. Só se consegue ver escuridão pela fresta do armário entreaberto. Rita estica a mão trêmula em direção ao armário, quando alguém grita o seu nome.

- Rita?

Rita tem a sensação que a freqüência dos sons ao seu redor mudou bruscamente. O choro de bebê que ela ouvia tambem para repentinamente. Rita olha para o lado, e vê sua colega Julia olhando-a com estranheza. Rita volta-se para o armário, e o abre, mas exceto um velho pano de chão, o armário esta completamente vazio.

JULIA

- Rita? Tudo bem com você?

Rita olha confusa para Julia.

RITA

- Sim, eu... Eu só vim pegar uma coisa no meu armário, mas não esta aqui.

JULIA

- Se Clegg te pega aérea assim ele te dá à maior bronca. E esses condicionadores? (diz apontando para a caixa abandonada no chão).

RITA

- Eu estava levando pra lá. Deixa eu ir, se não o Clegge me mata.

SUPERMERCADO: MEIA HORA DEPOIS

Rita termina de organizar os condicionadores nas prateleiras, e começa a andar pelo mercado, para ver onde mais pode ser útil. Ao passar pelo setor de bebidas, Rita escuta o som de risadas de adolescentes. Ela se vira, e vê três jovens casais colocando bebidas alcoólicas dentro de um carrinho. Entre estes jovens esta Sarah. Rita desvia seu caminho, e anda em direção ao grupo.

RITA

-Oi , Sarah. Não vai me apresentar aos seus amigos?

SARAH

- Tia Rita?(Diz Sarah visivelmente surpresa, mas tentando esconder o nervosismo). Você não trabalhava só de manhã hoje?

RITA

- Troca de turno. Sua mãe sabe que esta aqui?

SARAH

- Sabe sim.

RITA

- Então eu vou ligar pra ela, e perguntar se ela precisa de alguma coisa daqui, né? Você poderia levar e...

Rita pega o celular, mas Sarah coloca a mão sobre o aparelho. A garota esta vermelha. Seus amigos se entreolham constrangidos. Sarah olha suplicante para tia.

SARAH

- Tá legal , ela não sabe, mas não conta que me viu.

Um dos rapazes tenta argumentar.

MIKE

- Dona, a gente não tava fazendo nada errado. Só...

RITA

- Eu vou falar a sós com ela um instante. Com licença;

Rita passa a mão no ombro de Sarah, e a leva para longe do grupo.

SARAH

- Por favor, Tia Rita. Não pode me entregar.

RITA

- Tambem não posso mentir pra sua mãe. Mas se você for pra casa agora, eu finjo que isso não aconteceu, o que me diz?

SARAH

- Mas Tia Rita...

RITA

- É o que eu posso fazer, Sarah.

SARAH

- Mas eu disse que ia dormir fora. O que eu digo pra ela?

RITA

- Inventa uma desculpa. Você parece boa nisso.

SARAH

- Tá bom (diz conformada). Trato feito.

RITA

- Sarah, tô confiando em você. Se eu não receber um toque no meu celular vindo lá de casa daqui a quarenta minutos, eu te entrego.

Sarah foi embora com seus amigos. Quarenta minutos depois, ela recebeu a ligação prometida por Sarah.

CASA DE EUNICE: TRÊS DA MANHÃ

Rita chega em casa. Ela esta bastante cansada. Ela vai até a cozinha, e encontra a irmã com uma xícara de chá na mão.

RITA

- Fazendo serão, irmã?

EUNICE

- Tive dificuldade em dormir. Como foi o trabalho?

RITA

- Nada demais.

EUNICE

- Eu fiquei um pouco preocupada com você. Esse sumiço do Lester mexeu um pouco com você, não é?

RITA

- Obvio que mexeu. Querendo ou não, ele e eu vivemos muita coisa junto. Mas eu tô legal. Boa noite, Nice.

Rita beija a irmã, e sobe as escadas. Ela não se sentia bem. Mentiu pra irmã. Não só sobre Sarah, mas tambem sobre si mesma. O sumiço de Lester mexera com ela. Não conseguia tirar o maldito choro do bebê da cabeça. Rita têm medo de estar enlouquecendo.

Notas finais
Espero que tenham gostado co capitulo. A historia segue em ritmo lento, mas deve acelerar um pouco no proximo capitulo.