Quem Tem Medo do Bicho Papão?
3 Quando Chega A Escuridão
CASA DE EUNICE: MANHÃ.
Rita entra na cozinha. Eunice esta terminando de esquentar o café. Rita fala sorrindo.
RITA
- Nossa, você não dorme nunca?
Eunice fuzila Rita com o olhar, parecendo irritada com alguma coisa.
EUNICE
- Mentiu pra mim, Rita.
RITA
- Como é que é? Do que esta falando?
EUNICE
- Decidi lavar a roupa da Sarah antes de fazer o café, e encontrei isto no bolso dela.
Eunice entrega uma nota fiscal a Rita. A nota é do supermercado Summer Wood, registrando a compra de uma garrafa de cerveja às 23h57min da noite anterior.
EUNICE
- Você a viu lá e não me contou.
Nesse momento, Sarah entra na cozinha, olhando confusa da mãe para a tia.
SARAH
-Vocês tão brigando?
EUNICE
- Olha só, chegou à outra mentirosa. (Sarah olha para a tia). Não se preocupe, ela não contou nada. Um conselho garota, da próxima vez que não quiser que eu saiba que você foi a algum lugar, tire as notas fiscais dos bolsos! (Ela aponta para a nota que Rita esta segurando).
SARAH
- Mãe, se você me deixar explicar...
EUNICE
- Vai me explicar ou contar outra mentira? Quando você chegou ontem à noite e foi pro banho, perguntei se tinham ido a algum lugar. E você me disse “Não mãe, só ficamos estudando na casa da Susan”. Mas deu tempo de ir fazer umas comprinhas no mercado, não é?
Sarah olha suplicante para tia, como quem pede por socorro.
RITA
- É melhor falar a verdade, Sarah.
Sarah pensa por um instante, escolhendo as palavras. Eunice a fuzila com o olhar.
SARAH
- Eu fui pra casa da Susan, como eu tinha te dito. A Wendy tambem tava lá, como eu falei tambem. Mas não éramos só nós três.
EUNICE
- E quem mais estava lá?
Rita tem a impressão de que Sarah ira cair no choro, mas a garota resiste.
SARAH
- John, Tommy e... Mike.
EUNICE
- Mike Mesearve. O que foi que eu falei sobre ele?
SARAH
- Mãe, o Mike é legal. Se você desse uma chance...
EUNICE
- Cala a boca. Cala essa boca. Você perdeu a cabeça, garota?! Me desobedecendo, mentindo pra mim. Quem você tá achando que é?
Sarah olha com raiva para mãe.
SARAH
- Eu sou alguém que não julga as pessoas por quem são os pais dela, mãe! O Mike não é como o pai. Ele é legal!
EUNICE
- Tão legal que te fez mentir pra mim! Tão legal que estava comprando cerveja com ele no meio da noite! Desde quando você bebe?
SARAH
- Eu não ia beber! Só guardei a nota.
EUNICE
- A partir de hoje é da escola pra casa, da casa pra escola, entendeu?! E agora some da minha frente, se não eu não sei o que eu faço!
Sarah tenta dizer algo, mas não consegue. A adolescente sai da cozinha indignada.
RITA
- Não foi dura demais com ela?
EUNICE
- Você tá tentando ser a tia do ano? Queria que eu pegasse leve depois de ela ter mentido? Alias, depois de vocês terem mentido.
RITA
- Nice, em minha defesa, eu quero que saiba que eu a mandei direto pra casa assim que eu a vi lá.
EUNICE
- Queria que eu a deixasse sair impune disso?
RITA
- Não é isso. É que você nem deixou a garota falar. Por exemplo, quem é este tal de Mike?
EUNICE
- Filho de um cara aqui do bairro. Um cara que todo mundo sabe que não presta. Dizem que até na mulher ele já bateu.
RITA
- Sarah pode estar certa. Esse Mike pode não ser mau caráter como o pai. Você podia dar uma chance a ele. Se Sarah gosta mesmo dele...
EUNICE
- Você lembra o que aconteceu com a gente, Rita? Nós duas engravidamos cedo demais. Tem noção do que cada uma de nós perdeu com isso? Eu não quero que minha filha passe por isso. Não quero.
RITA
- Ninguém quer isso. Mas reprimir desse jeito não adianta nada. Se fosse assim, teria dado certo com a gente, ou se esqueceu do papai? Sarah é uma garota ótima, mas é uma adolescente. Até bem tranquila se quer minha opinião. Temos que escutá-la, e ensiná-la a não cair no mesmo erro da gente.
EUNICE
- Belo discurso, mas não me interessa. Independente do que acha, tinha a obrigação de me contar que a viu lá! Quando você tiver seus...
Eunice interrompe o que ia dizer. Mesmo assim, a irmã percebe. Rita abaixa a cabeça.
RITA
- Eu não vou me meter mais. Vou pro trabalho.
Rita vira-se, e sai da cozinha.
EUNICE
- Rita espera, eu não quis dizer isso. Mas que droga!
ANDAR DE CIMA DA CASA: CORREDOR
Angela abre a porta de seu quarto. Sarah sai de seu quarto, já vestida para ir ao colégio. A adolescente parece incomodada. Seus olhos estão um pouco vermelhos.
ANGELA
- Por que você e a mãe tavam brigando, mana?
SARAH
- Por nada, Angela.
ANGELA
- Aposto que fez besteira (diz rindo). Vai, me conta.
Sarah vira-se irritada para a irmã.
SARAH
- Escuta aqui pirralha, o que eu fiz ou deixo de fazer não é da sua conta, entendeu?!
ANGELA
- Ei, só a mãe pode falar assim comigo!
SARAH
- Eu falo do jeito que eu quiser! Agora sai daqui!
Angela lança um olhar magoado à irmã, e fecha a porta do quarto.
SUPERMERCADO SUMMER WOOD: UM POUCO MAIS TARDE
Rita coloca sua bolsa no seu armário. Ela olha para o lado, vendo o armário vazio de onde ela o viu o choro de bebê na noite anterior. Passara a noite inteira dizendo a si mesma que fora uma alucinação, mas tinha sido tão real. Rita é arrancada de seu devaneio quando Charlene, colega que ocupa o outro armário vizinho a chama.
CHARLENE
- Você tá parecendo cansada, Rita.
RITA
- Não durmi bem essa noite. Ainda bem que só trabalho até meio dia. Charlene, você sabe se alguém usa este armário? (Pergunta Rita apontando para o armário de onde veio o misterioso choro).
CHARLENE
- Que eu saiba ninguém usa. Tem um monte de armários vazios por ai. A idéia de por armários pros funcionários é boa, mas esse lugar tem armários demais.
Rita tem uma sensação estranha. Como se algo estalasse em sua mente. Aquilo que os franceses chamam de Deja Vu. Já ouvira aquela frase antes, mas não lembrava onde. Por que uma frase boba dessas a perturbou? “Esse lugar tem armários demais”.
COLEGÍO ALFRED PERKINS
O sinal acaba de bater para o recreio no Colégio Alfred Perkins. O professor rapidamente guarda suas coisas, e sai da sala. Sarah olha pra trás, e percebe que enquanto os amigos de Mike Mesearve estão saindo, ele esta ficando para trás. Wendy e Sharon chegam à mesa de Sarah.
WENDY
- Vamos, Sarah?
SARAH
- Vão indo, eu já vou.
As amigas de Sarah percebem Mike, e em meio a risinhos, vão para o pátio. Mike se aproxima de Sarah.
MIKE
- Você tá legal? Fiquei preocupado depois de ontem.
SARAH
- Mais ou menos. Minha mãe descobriu e me pôs de castigo.
MIKE
- Tua tia te entregou?
SARAH
- Não, eu que fiz burrada mesmo.
MIKE
- Avisei que mentir não ia dar certo. Se tú tá de castigo, quer dizer que eu não vou poder te ver hoje?
SARAH
- Acho que não. Daqui vou direto pra casa.
MIKE
- Vamos acabar logo com isso, Sarah. Eu vou falar com a sua mãe, hoje. Então, vamos poder namorar em paz.
O rapaz coloca as mãos no ombro da jovem, e delicadamente, a beija.
SARAH
- Mas não agora. Minha mãe tá furiosa. Se ver você, é capaz de te enforcar. Agora vamos comer alguma coisa, eu tô com fome.
Os dois saem da sala de mãos dadas.
CASA DE EUNICE/SALA: TARDE
Angela esta terminando o seu livro de colorir, debruçada sobre a mesa da sala. Neste momento, sua irmã Sarah senta-se ao seu lado. A jovem parece estar serena.
SARAH
- Oi mana.
Angela a ignora
SARAH
- Me desculpe por hoje de manhã, Angela. Eu estava com raiva, mas não devia ter descontado em cima de você. Eu sinto muito.
A menina olha magoada para a irmã.
SARAH
- Eu fui uma besta. Amigas?
Sarah estende a palma da mão. Angela pensa por um momento, e sorri, colocando a palma de sua mão sobre a da irmã.
ANGELA
-Tá certo. Amigas. (Angela dá um bocejo)
SARAH
- Tudo bem? Parece que não dormiu direito.
ANGELA
- Se eu contar você vai achar que eu sou uma boba.
SARAH
- Não vou não. Pode contar.
Angela conta a irmã sobre o filme de terror que assistiu no dia anterior.
ANGELA
- Mamãe me deixou dormir com a luz acessa durante a noite, mas eu não conseguia dormir com ela acena. Então eu tentava desligar, mas eu tinha a impressão... A impressão que tinha algo se mexendo no escuro.
SARAH
- Vou te contar um segredo. Eu fiz a mesma besteira quando eu era um pouco mais velha que você. Essas coisas que você vê se mexendo no escuro são coisas da imaginação. Eu sabia disso, mas tinha medo mesmo assim. Então um cara muito legal me ensinou uma coisa que me ajudou a superar o medo.
ANGELA
- Quem?
SARAH
- Seu pai, o Harrison. Ele me ensinou que se a gente fechar os olhos, e fizer uma prece especial, o nosso anjo da guarda vem e protege a gente, e quando você abrir os olhos, vai ver que não tinha nada. Quer que eu ensine essa prece pra você?
Angela confirma com a cabeça.
QUARTO DE RITA
Rita acorda sobressaltada. Teve um pesadelo como não tinha há muito tempo. Sonhou com a noite em que Shirley morreu. Porem, em uma versão distorcida da que realmente ocorreu. Em seu sonho, ela estava na cozinha da primeira casa que teve com Lester em Nova York. O marido entrava desesperado na cozinha.
LESTER
- Temos que chamar um médico. Eu acho que Shirley esta morta!
Ela se lembra de Lester ter sido mais cuidadoso, mas no sonho, ele foi quase mecânico. No sonho, após ouvir a noticia, Rita caiu no chão, mas não perdeu a consciência. Pelo contrario, ficou caída, sentindo o corpo pesado demais para se levantar. Lester se aproximou dela, dizendo
LESTER
- Ele a pegou, Rita. O Bicho Papão pegou a nossa filha. Temos que ir embora. Não estamos seguros aqui.
Lester a agarrou pelos ombros, mas quando ela ergueu a cabeça, não era seu marido que a segurava, e sim uma espécie de sombra viva, que a envolveu enquanto dava uma risada grossa e maligna.
Então Rita acordou. Agora, enquanto relembra o sonho, ela pensa na filha Shirley. Dos seus três filhos, foi á criança com que Rita menos conviveu. A menininha não chegou á completar um ano antes de morrer devido a uma convulsão causada por um acidente vascular cerebral.
Naquela época, Lester aceitou a morte da filha, não inventando nenhuma ilusão paranóica sobre o Bicho Papão como faria posteriormente com Andy. Mesmo assim, a morte dela o afetou. O afetou tanto que ele insistiu para que fossem embora da casa. Subitamente, Rita se lembra do que o marido disse quando sugeriu que se mudassem.
Lester disse que aquela casa tinha lembranças demais, e... Armários demais. Rita pensa que ela deve estar imaginando isso. Lester com certeza não disse isso. Ou disse? A lembrança parecia tão vívida. Rita leva as mãos ao rosto, enquanto o sol se põe na janela.
RITA
- O que esta acontecendo comigo?
Nesse momento, alguém bate na porta. Rita pede para que a pessoa entre. Sarah entra no quarto da tia, fechando a porta atrás de si.
SARAH
- Tia Sarah, posso falar com você?
RITA
- Claro. O que quer conversar?
Sarah se aproxima, sentando na cama.
SARAH
- Primeiro queria agradecer por ter tentado me proteger. Eu estraguei tudo por causa daquela droga de nota.
RITA
- Sarah, tudo bem.
SARAH
- Mas por minha causa você e a mãe brigaram.
RITA
- Sua mãe e eu já brigamos por muito menos. Mas no final sempre ficamos bem, não se preocupe.
SARAH
- Eu só queria que a minha mãe entendesse que ele não é como o pai. O Mike morre de medo do pai, e até já apanhou dele uma vez quando tentou defender a mãe. O Mike quer vir aqui e esclarecer tudo.
RITA
- Sarah, eu entendo o medo que a sua mãe tá sentindo, mas entendo o seu lado tambem. Vamos fazer o seguinte. Quando a sua mãe se acalmar, eu vou conversar com ela. Com jeito, ela aceita conversar com o rapaz. Mas até lá, por favor, não faça nada estúpido.
SARAH
- Como esquecer uma nota fiscal?(diz sorrindo).
Rita dá uma travesseirada na sobrinha.
RITA
- Você me entendeu.
MAIS TARDE: QUARTO DE SARAH
Já é noite. Sarah esta teclando em seu computador. Subitamente, ela ouve batidas no vidro de sua janela. Ao olhar para a janela, ela vê Mike do lado de fora.
SARAH
- O que você tá fazendo ai?! (diz nervosa enquanto abre a janela para o rapaz entrar). Se minha mãe te pega, ela te mata!
MIKE
- Eu tava passando aqui perto, e pensei, por que não visitar a minha namorada?
SARAH
- Se tivesse pensado, não teria escalado a minha janela, pra começar.
MIKE
— Isso é romântico. Lembra de Romeu e Julieta?
SARAH
- Lembro como eles terminaram. Agora você tem que sair daqui.
MIKE
- Por que adiar as coisas, Sarah? Eu podia falar com a sua mãe agora.
SARAH
- Claro, vai ser lindo. “Mãe, esse é o Mike, o cara com quem você tá fula. Espero que não se incomode de ele ter entrado pela janela”.
De repente, ouvem-se passos na escada, e uma voz grita.
EUNICE
- Sarah, Angela, o jantar tá pronto!
Sarah e Mike correm até a janela, mas antes que o rapaz saia, a garota a impede, apontando para fora. Há uma velha passeando com o cachorro do outro lado da rua.
SARAH
- A nossa vizinha. Ela não pode te ver (cochicha ela).
Eles ouvem o som da porta do quarto ao lado se abrir, seguido pela voz de Eunice.
EUNICE
- Angela, a comida tá pronta. Vai lavar as mãos.
Sarah olha ao redor desesperada. Ela abre a porta de seu guarda roupa, e empurra Mike para dentro.
SARAH
- Fica quieto ai!
Sarah fecha a porta do guarda roupa, e se afasta, no exato momento em que a mãe entra no quarto. Mike esta quase totalmente no escuro. Somente uma fresta de luz entra no armário. O rapaz só pode ouvir a voz de mãe e filha do lado de fora.
EUNICE
- O jantar tá na mesa, Sarah.
SARAH
- Tá bom, mãe. Vamos lá.
EUNICE
- O que estava fazendo?
SARAH
- Eu tava arrumando o armário. Tava uma bagunça.
EUNICE
- Eu só imagino. Agora vem, vamos descer.
A fresta de luz se apaga, deixando Mike totalmente na escuridão. O rapaz ouve a porta se fechar, sinalizando que Eunice e Sarah desceram para o jantar. O adolescente espera os passos se afastarem, e quando tem certeza que as mulheres já estão longe, abre a porta do guarda roupa cuidadosamente.
Mike sai de dentro do guarda roupa, mas antes que possa se afastar, uma mão viscosa envolve sua boca, e o puxa com força para trás, levando-o de volta para dentro do guarda roupa. O rapaz sente um hálito podre no rosto, e uma voz conhecida fala.
- Garoto safado! Você vai ter o que merece.
Era a voz do seu pai. Mike começa a se debater, mas por mais que balance e sacuda as pernas, não consegue se livrar do aperto de seu “pai”, e nem colocar os pés na parede do armário. Em seu desespero, o rapaz lembra que o guarda roupa de Sarah não era tão grande assim. Como era possível?
O agressor envolve o pescoço de Mike com um cinto, e após passar uma parte do cinto em uma barra de madeira no teto do armário, iça o jovem para cima. O cinto aperta o pescoço do rapaz, o sufocando. O adolescente só consegue raspar a ponta dos pés no chão. Esta sendo enforcado.
Enquanto sente o ar lhe faltar cada vez mais, Mike vê seu agressor, e então tem a certeza que não é seu pai, quando a figura encapuzada, e de longas garras o encara de volta. Mike então perde os sentidos, parando de respirar.
Notas finais
Ultimo dos "capitulos tranquilos". Como o final deste dá a entender, as coisas devem acelerar nos proximos capitulos.
PS: Agradecimento especial a Rumpel, por estar acompanhando, e colaborando com seus sempre otimos reviews.
Falou!
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