Quem é Helena?
2 Capítulo 2 - Vim pela diversão
Notas iniciais
Por Lívia
A ideia era assustar alguém. Mas esperar aquela cara de pavor e um quase tombo foi perfeito, não resisti a gargalhar freneticamente segurando a barriga, deixando a mochila pender pelo braço. Fui obrigada a tirar a máscara que já me sufocava no meio do riso.
Com os cabelos presos por dois rabos, jogados um em cada ombro de modo bem desleixado, a menina à minha frente parecia ter visto um demônio. Sua cara de pânico era hilária. As pupilas dilatadas e o rosto completamente pálido demonstravam seu temor, parecia que iria cair no chão a qualquer momento. E quando gritou pela mãe... Céus, minha barriga parecia que iria explodir do tanto que já doía com o riso. Lágrimas começaram a se formar no canto dos olhos quando vi a mulher e o homem cortarem a sala apressados.
— Lívia!? – gritou meu pai como uma repreensão em meio a surpresa. Tudo bem, eu menti sobre a hora da chegava, o susto já havia sido planejado assim como outras coisas mais pelo meu período de estadia. Estava disposta a fazer aquelas férias valerem a pena, de uma forma ou outra.
A menina pareceu ficar congelada onde estava e eu ainda ria quando abracei meu pai. Tirei o capuz do casaco que usava e apertei aquele velho cheiroso tão forte que pude sentir seus ossos estalarem, sem exageros. Havia um bom tempo que não via meu pai e eu era realmente apaixonada por aquele camarada. E também pelo fedelho do meu irmão, que eu via com maior frequência ao visitar minha mãe.
Deixei meu velho e olhei curiosa a minha agora madrasta. Uma mulher até bonita, de cabelos presos em um coque no topo da cabeça, o rosto tinha marcas de expressão que davam certo charme, se é que era possível. Já seu sorriso era simpático e acolhedor. Abraçou-me de forma cuidadosa, até mesmo receosa. Dei a ela o mesmo abraço de meu pai, que a fez relaxar um pouco.
— Seja bem vinda, Lívia!
Agradeci e percebi que ela olhava meus cabelos, procurando algo a ser dito. Antecipei-me desarrumando-os e dizendo “ainda não amadureceram”. Ouvi-a rir aliviada por não precisar comentar nada. Aquela situação não era de hoje, é o peso por se parecer um pouco diferente. Dei de ombros e ri junto com eles. Fui conduzida até a cozinha pela mulher, sendo seguida por meu pai. Começamos a falar sobre a faculdade e logo desviei para o casamento, era o momento deles e sabia que queriam muito compartilhar aquilo.
Falaram da cerimônia, que foi cansativa, mas muito bonita, e cheia de carinho das pessoas que formavam a nova família; de como começaram a se relacionar no escritório onde trabalhavam, onde meu velho começou a cortejá-la com florzinhas de origami (que EU ensinei ele a fazer, conste isso); e de como ela estava surpresa com Joaquim e sua vontade de saber sobre tudo. Ela realmente parecia bem feliz e à vontade com a nova união e muito confiante que fosse tudo dar certo. Bom, por mim iria, ela era legal e como eu podia não amar alguém que fazia uma comida tão cheirosa?
Joaquim e a garota que quase matei de susto (confesso que ainda tenho vontade de rir da cara que ela fez) se juntaram a nós e tomaram seus lugares. Ela agora usava óculos, de armação tão grande e grossa que parecia esconder metade de seu rosto. Os cabelos estavam arrumados em uma trança única jogada pelas costas. Era de um castanho claro quase loiro escuro, lisos. E como parecia a mãe! As duas ali, uma do lado da outra era impossível não dizer isso, a mais nova só era mais baixa. As maças do rosto pareciam rosadas, porém poderia ser apenas impressão, os óculos pouco deixavam dizer. Olhou para o prato o tempo todo, parecia incomodada, tensa. Respondia de forma direta e fria. Parecia ser daquelas garotas ser bem estressadinhas e bravas. O que fazia planos brotarem em minha cabeça e a vontade de rir veio à tona novamente. Bebi um pouco do refrigerante para me conter.
O almoço correu bem. Joaquim falava o tempo todo de como gostou do quarto onde podia ver o jardim e as borboletas que fazia a polinização. “Juro que quero saber com quem esse garoto andava conversando, é muita informação para uma criança!” Ajudei a juntar a louça e me ofereci de lavá-la, minha prestatividade foi recusada. Insisti uma segunda vez. Na terceira recusa agradeci pelo almoço que estava delicioso. “Eu amo comida, o que posso fazer?”
Meu velho ajudou a levar a mala para o quarto. Deixou-me à porta e pediu que me comportasse. Como se eu não fosse comportada o suficiente. “É, talvez eu não fosse...” Ri e entrei. Não era um quarto grande, mas era suficiente. As camas ficavam a certa distância, eram de solteiro. Não poderia ser perfeito também, era exigir demais. Havia dois pequenos guarda-roupas, que era ótimo, um em cada canto. Uma prateleira com muitos livros na parede perto da cama, um tapete comprido com almofadas entre as camas que logo imaginei ser um lugar perfeito pra ficar morgando durante uma tarde qualquer ouvindo música.
— Não pise no tapete.
Claro, nada iria ser perfeito mesmo! Virei e lá estava a menina, distribuindo irritação por detrás das lentes. Havia fechado a porta e ido para sua cama. Não sou idiota, sabia que ela estava me odiando pelo susto que dei. Joguei a mochila na cama e mostrei a máscara de gás, complemento de uma fantasia que havia feito tempos atrás.
— Desculpe pelo susto. Mas sua cara foi inesquecível.
— Não me assustei. Apenas recuei. Para que entrasse.
Ela falava com paradas que logo compreendi serem pausas para pensar no que iria dizer. “Temos aqui um ser racional, ora ora”. Ela mentia claramente e muito mal, ela se assustou e pelo que vi, parecia ter sido um dos maiores sustos de sua vida! Queria rir, mas não ia ser legal e causar conflito não era minha intensão, apesar de ser meu karma.
— Claro que não, aquela cara de pânico deve ser a sua natural mesmo.
Ela fechou a mais a cara. Eu realmente queria rir ao grito de “mããããe” repercutir na minha cabeça. Fiz foi jogar minha mala na cama e abrir o guarda-roupas, guardei as peças que havia trago, os calçados e o casaco que usava. Deixei o computador sobre a cama junto com o fone de ouvido e o celular no carregador. Sentei de frente para a cama de minha nova irmã e a observei. Seu rosto estava escondido por detrás de um livro que não consegui ler o título.
— Sou Lívia. Meus amigos me chamam de Lilith, ou apenas Lili.
— Helena, apenas Helena – respondeu sem nem ao menos abaixar o livro.
— Certo Helena, o que você faz para se divertir além de ser um bloco de gelo que fica escondida atrás de um livro?
Achei o ponto fraco dela, porque aquela olhada que me deu não era nada normal! Eu estava gargalhando por dentro.
— Você não me conhece. Creio que deva ser mais respeitosa.
— Ah, vamos lá, relaxe, agora somos irmãs! A gente deve compartilhar as coisas, como irmã mais velha devo te ensinar as coisas!
— Dispenso. Eu estou bem onde estou.
— E onde você está?
— Aqui.
— Aqui onde?
Eu também sabia jogar aquele jogo. Não tinha mais vontade de rir. Ela era grossa de forma desnecessária. Era fechada e de alguma forma misteriosa. O silêncio pesou. Percebi que ela fingia ler, pois seus olhos não saiam do ponto da página. Levantei num salto, pisando propositalmente no tapete com meu tênis, que a fez me olhar. Sai bagunçando o cabelo, como ficavam normalmente.
— Joaquim! Vamos tomar sorvete!?
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