Quem é Helena?
3 Capítulo 3 - Erguer de sobrancelha
Notas iniciais
Por Helena
Logo a porta se fechou o travesseiro chocou contra ela. Como podia alguém me irritar tanto com menos de cinco horas de convivência, e nem convivência de fato fora! Fechei o livro sem nem mesmo marcar a página em que estava, ameacei levantar e ir até a cozinha, pensei melhor. As chances de encontrar ela por lá eram grandes. Fiquei na cama olhando a porta. Quando minha mãe havia dito que ela tinha 25 anos pensei em alguém madura, pelo menos sensata, e não alguém que lembrasse uma adolescente de 15. Até eu com meus 17 não era tão infantil assim! Por pouco não me matou do coração naquela manhã e agiu como se fosse algo normal. Joaquim possuía mais maturidade que ela.
Ouvi a porta da frente bater, deduzi que haviam saído, agora poderia ir para a cozinha. Sai do quarto com intenção de ir ter com minha mãe, caso Isaac não estivesse por perto, o que era um pouco difícil nos últimos dias. Dei foi com Lívia, Joaquim e uma terceira pessoa que não reconheci ainda na sala. Ela estava de costas, mais alta que qualquer outro presente ali, usava um vestido justo até a cintura e solta no quadril de uma estampa xadrez que doeria os olhos e causaria qualquer tipo de ilusão de ótica, isso se seus cabelos levemente ondulados e negros não chamassem mais atenção que a roupa, ou sua pele branca não brilhasse tanto à luz do dia que entrava pela janela. Lívia me olhou, fazendo a garota também virar e me olhar.
Senti o chão se mover, como se eu andasse em areia movediça. Seus olhos pareceram me atingir com um peso irreal. Levemente contornados por um delineador preto, deixando-os maiores e com uma profundidade aterradora, sustentaram meu olhar até eu me lembrar de que deveria respirar. Continuei meu trajeto até a cozinha, sabendo que estava vermelha, meu rosto queimava.
— Você não vem, Helena?
O menino sorria ao lado da irmã, que revirava os olhos com a ideia. Franzi o cenho e recusei. Deparei com um sinal de reprovação de minha mãe que assistia tudo de longe. Dei de ombros tentando justificar meu desinteresse, fui repreendida com seu fatal levantar de sobrancelha. Senti que todos atrás de mim também viram aquilo e entenderam bem o seu significado, juro até mesmo ter ouvido um riso abafado que certamente era de Lívia. Ergui a cabeça e respirei fundo, com mais vergonha que raiva. Girei no calcanhar e me virei enfrentando os três, respondendo apenas um “OK”.
Fiz todo o trajeto da sorveteria caminhando atrás dos outros três, vendo Lívia bagunçar os cabelos de Joaquim e o mesmo tentando alcançar os dela, dando pulinhos ou saltando dos bancos. A desconhecida ria de forma contida, que fazia seus olhos se fecharem no processo. Olhou-me algumas vezes, mas fingi estar interessada no meu celular. Tomamos uma mesa na área externa, os irmãos foram se servir e eu via algo interessante em meu celular, algo chamado proteção de tela.
— Como está indo com Lili?
Olhei de relance a garota e logo busquei a imagem de Joaquim pegando seu sorvete na parte interna. Medi as palavras que deveria usar, acho que ponderei por tempo demais, pude vê-la se mexer desconfortável do lado.
— Ela me contou sobre o susto que te deu. Não fique chateada por isso, é o jeito dela. Gosta de brincar e às vezes não tem muito limites.
Me peguei olhando o sorriso que ela deu, realmente se desculpando pela outra. Era despretensioso e verdadeiro. Não mostrava todos os dentes e os cantinhos da boca formavam ângulos delicados. Pensei em uma coisa, depois outra. Sacudi a cabeça de forma discreta e resmunguei.
— Ela foi. Hum. Idiota.
Ela riu desta vez, deixando uma covinha lateral aparecer. Voltei a olhar Joaquim que quase se jogava sobre o sorvete para conseguir seu sabor escolhido. Li demoradamente os sabores na placa ao fundo e vi um rapaz que se sujava todo de calda sentado na mesa ao lado. Olhei de canto para a garota que ainda me olhava. Empertiguei-me na cadeira e tentei pensar em algo para falar, talvez sobre o fato de Lívia ser inconveniente.
— Quem é você? – foi a estupidez que saiu.
— Roberta. Sou amiga de Lili há uns bons anos.
— E como aguentou?
Ela riu de novo e me achei idiota. Lívia chegou esbarrando na mesa, me olhou com uma cara provocativa e sentou. O garotinho veio logo na sequência. Deixei a mesa para pedir um milkshake e ouvi de longe a gargalhada descompensada de Lívia. Esperei meu pedido encostada observando a mesa. As duas meninas conversavam a vontade, a de cabelos verdes gesticulava a cada coisa que falava como se tentasse desenhar no ar para deixar as coisas mais claras. Ria de forma frouxa e extrovertida, sem se preocupar com os curiosos do lado. A outra ria de tudo, de forma abafada e concordava com a cabeça em quase tudo também, falava bem menos. Recebi meu pedido e retornei no meio da conversa.
— ...ela quase morreu! Parecia um fantasma de tão branca! Correu pelos corredores que eu era capaz de dizer que conseguiria atravessar uma parede de tanto pavor!
A gargalhada me irritou, estavam falando de mim como se eu não estivesse ali, peguei meu telefone e me levantei. As duas me olharam sem entender. Joaquim estava entretido com uma formiga no chão.
— Onde tá indo?
— Para casa.
— Senta, tô contando do susto que dei em minha mãe da última vez que estive em casa. Escute e vai ver que você não foi a única!
Senti meu rosto enrubescer pelo mau julgamento que fiz, mas também pela raiva da forma dela me tratar também. Fiquei em pé e o olhar de Roberta me fez sentar. Tomei meu sorvete calada e ouvi Lívia contar suas histórias. Da vez que ela colocou o lixeiro da sala de aula preso a porta para cair na cabeça de algum infeliz; ou quando encheu o secador de Roberta com farinha, a fazendo ter que voltar para o banho e se atrasarem em quase duas horas para algum evento; ou ainda quando serviu biscoito recheado de pasta de dentes para a irmã de Roberta e Joaquim, o garoto nessa hora voltou a atenção à conversa e disse que havia percebido porque não existiam biscoitos com cheiro de hortelã e voltou às formigas. Não sei a graça ou a intenção das brincadeiras, era realmente muito infantil para meu entendimento, mas os outros dois, inclusive a autora das pegadinhas pareciam se divertir muito com as memórias. Elas pareciam se dar muito bem, mesmo sendo muito diferentes.
— Tenho um enigma para vocês!
Joaquim saltou na mesa assustando a mim e Roberta. Olhou cada uma das três bem nos olhos e deixou-se demorar em Lívia, era cumplicidade ou desafio a faísca que saiu deles. Seus pequenos olhinhos brilhavam. Não esperou uma resposta, apenas tagarelou sua charada:
— Você está presa em um quarto com 3 portas. A primeira contém um incêndio tão forte que dá pra sentir o calor sair de debaixo da porta. Na segunda há alguém armado com algo que vai te fazer sofrer muito. Na terceira tem um dragão que não come há anos. Para onde você vai?
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