Notas iniciais
Olá, galerinha. Tirando pó dessa fic e aproveitando para testar o ~PlusFiction. Estou estranhando muitas coisas, mas ao menos já é uma vitória ter esse espaço das notas iniciais mantido na nova versão do site. Boa leitura!

Não era tão tarde assim, mas as lentes dos óculos escuros de Miguel tingiam o cenário de um tom amarelado de lusco-fusco. Depois que desenvolvera habilidades de aranha, nem sempre a claridade fazia muito bem aos seus olhos. Tinha certa sensibilidade. E o ligeiro incômodo à luz obrigava-lhe a fazer comparações — quiçá, metáforas — nada agradáveis sobre seu desconforto físico e a alvura do Sol, as coisas boas, mornas e iluminadas.

Mas nem a estrela mais brilhante do Universo, nem seus pensamentos mais soturnos fariam perder a partida de futebol de Gabriella.

Ela estava mais calma. A apresentação do trabalho escolar sobre animais havia sido na terça-feira e, a partir de então, Gabi pouco retornava àquela quietude alarmante e dolorosamente parecida com a sua. Contara a ele, seu papá, que o professor tinha ficado satisfeito com o trabalho — fato que dividia Miguel em duas reflexões: haveria critério tão severo para trabalhos escolares de crianças de onze anos? Se sim, Miguel teria o pulso firme para não se descontrolar por causa de um professor crítico? — e que agora ela também achava arañitas até um pouco engraçadinhas. E mesmo com essa partida de futebol do seu time marcado para a data presente, uma tarde de sábado, a ansiedade dela era natural e adorável.

Lá estavam em um campo de futebol um tanto longe da escola, aguardando todas as jogadoras chegarem com seus pais. Havia muita gente e barulho, som de gente abrindo lata de refrigerante (será que só refrigerante?) e pacotes de salgadinhos. Gabriella aproveitava para se aquecer junto com outras colegas, treinando passes e rindo. Claro que Gabi era a melhor delas.

E claro que essa opinião nada tinha a ver com o fato dele ser pai dela.

Miguel ajeitou os óculos sobre o nariz. Estava de pé, de braços cruzados e observando a filha. Doía-lhe admitir que talvez estivesse mais nervoso do que ela pela partida, portanto era algo que ele admitia apenas para si mesmo e que também se consolava com a justificativa indulgente: Era sua primeira vez no futebol da filha. Nas imagens que assistiu junto com Lyla, o outro Miguel parecia sempre alegre e sereno nessas partidas e parte dele ansiava pelo mesmo sabor.

Até que ele franziu os cenhos. Já fazia um tempo que tinha passado protetor solar nela. Na pausa da partida, precisava passar de novo. Quando essa pausa seria, afinal? Se nem todo mundo tinha chegado… Ao conferir as horas no relógio, notou um leve tremular em seu pulso e a notificação em vermelho na tela. Uma chamada. Soltou um suspiro cansado, sem muita vontade de ler o que era.

— Lyla.

— Ei. — Ela prontamente protestou, sua voz saindo do outro lado do relógio. — Não sou eu.

— Então, quem…? Argh. Parker 616B. — Miguel rosnou. Ele não teria entrado em contato sem ter conseguido falar com Lyla antes. Como teria sintonizado o canal correto de comunicação? — Você está envolvida nisso.

Antes que ela pudesse contestá-lo, Miguel afastou-se ainda mais do restante de pais e atendeu a chamada. Sem hologramas, sem visão recíproca do que estava acontecendo lá e aqui. Só a voz de Peter com sua costumeira intimidade — a qual ele duvidava que realmente exista.

— E aí, grandão? Sei que você está numa missão secreta a ponto da Lyla nem mencionar o assunto, mas eu precisava falar contigo. Tá numa hora boa ou usando os dentes?

— É uma emergência?

— Não, vai demorar mais uns… Sete meses para acontecer.

¿Qué coño? Miguel parou por uns três segundos, tal qual um sinal de reticências carregando numa tela em buffering.

— Parker, do que você está falando?

— Eu vou ser pai. Eu nem acredito que eu tô falando isso. Soa muito estranho? Eu vou ser pai.

O silêncio de Miguel agora, tão diferente de tantas outras ocasiões, não pertencia ao desprezo ou deboche. Poucas vezes se vira tão impactado assim, tão fácil e tão rapidamente. Era um silêncio genuíno. Feliz, quem sabe.

— Parabéns, Parker. Fica mais em casa.

E o outro lado da linha soltou uma risada fraca.

— A Mary Jane já tá quase me expulsando. Disse que eu tô surtado, vê se pode? Um absurdo. Eu só tô me assegurando que esteja tudo certo com ela e com o bebê. Não é exagero algum.

Mas Lyla invadiu a chamada, desmentindo a versão:

— Miguel, ele quase pediu um empréstimo para comprar uma lista com pelo menos cinquenta itens desnecessários.

— Quase, Lyla. — Peter enfatizou, sem estar bravo com ela. Era difícil ver Peter verdadeiramente irritado com algo, pelo menos desde quando Miguel o conheceu. Suspeitava que reatar o casamento com MJ tivesse algo a ver com isso. Miguel sentia uma dose de fascínio e outra de cinismo ao observá-lo. — E eu nem queria, sabe? Digo, eu queria um patinho de borracha hipoalergênico com toque aveludado para bebês. Queria de todas as cores e tamanhos. Mas antes eu… Eu não queria ser pai. E agora eu só queria que nove meses se passassem em um.

Ele não soube dizer se a breve pausa para responder de novo foi grande demais. Não pareceu. Miguel girou o pescoço levemente, olhando por detrás do ombro e focando-se na figura de Gabriella no campo, driblando uma colega. O vento bagunçou seus cabelos e trouxe o som de sua gargalhada até ele. Miguel poderia pedir pra Lyla reprisar esse momento de alguma forma depois, mas se esforçou para captar cada detalhe, cada aspecto sensorial que uma tela jamais replicaria. O calor. A luz. A brisa. Esperava que a memória não fosse assim tão frágil para coisas doces.

— Desde quando você sabe?

— Que a Mary Jane está grávida? Uns três dias.

— Não. Desde quando você sabe que… Queria ser pai?

Ele escutou um “hmm” do outro lado. Peter estava pensando. E era provável que estivesse pensando naquele menino, Miles. Miguel não entraria no mérito do colapso do Multiverso pois, pos desde que a Sociedade Aranha começou a intervir, os rasgos entre as realidades foram sanadas. Bastava nada pior ocorrer, bastavam as anomalias serem contidas e as narrativas seguirem seu curso. Mas Miguel conseguia entender o “hmm” de Peter, pois experimentou a sensação em primeira mão: Ver alguém que lhe obrigasse a sentir o próprio coração. Saber que era e, ao mesmo tempo, não era uma decisão própria ou consciente entender que sim, faria de tudo pela outra pessoa; e que talvez aquilo significasse muito mais. Miles havia feito Peter B. Parker querer ser pai, Gabriella lhe provocou a mesma vontade.

Porém, só um dos dois havia conseguido alcançar a paternidade sem tragédias.

— Só aconteceu.

— Aproveita bem. — Miguel suspirou ao ouvir a resposta curta e franca dele. Sabia que, se fosse responder à mesma pergunta, ofereceria a mesma resposta. — Só não canse sua esposa de tanta foto.

É claro que ele iria fazer um ensaio fotográfico de gestante com a pobre esposa que mal tinha barriga ainda.

— Ela finge que está irritada, mas não tá. Vou te mostrar as fotos quando você voltar.

— Claro. Agora tenho que desligar, Parker. Parabéns.

Veio o apito do juiz. O restante do time tinha chegado e o jogo logo iria começar. Ele mal ouviu a despedida de Parker ao fim da chamada e foi para um assento mais perto do campo, voltando ao local da arquibancada onde estava antes. Sentou-se. Ajeitou a bolsa esportiva, conferindo água, isotônico,as barrinhas de proteína. Tratou de devorar uma, sabor torta de morango que Gabi não raramente escondia na mochila da escola.

E então, movimento no campo. Ele fixou seus olhos na sua menina de uniforme azul e rabo-de-cavalo, correndo e chamando as colegas para receber os passes. Quando alguma menina trombava com ela, cometia alguma falta boba devido a faixa etária ou no máximo dava um chute que acertava sua canela, Miguel se levantava. E então, sem querer parecer muito alterado, sentava de novo — para então se levantar mais uma vez se outra coisa ocorresse de novo.

Flagrou-se falando alto. “Marca ela, marca ela! A loira!”

Berrou quando quase fez gol. Berrou e derreteu quando ela acertou um gol ainda mais lindo que a tentativa anterior e olhou direto para ele, pulando enquanto era recebida pelas parceiras de time.

Pena que o intervalo foi curto. Deu tempo só de abraçá-la, passar mais protetor em seu rosto, braços e nuca e vê-la voltar para o time, para escutar as orientações da treinadora.

A meia hora seguinte escorreu. Mais goleadas vieram. Outros pais pareciam ter se animado com a empolgação do senhor O’Hara, também gritando para as filhas. Eram do mesmo time. No fim, empate.

Seu sangue circulava rápido como se ele próprio estivesse jogando em uma partida de tudo ou nada, vida ou morte. Essa miríade de sensações o deixava incerto de como reagir, não apenas porque não sabia como o outro Miguel reagiria; mas também porque era raro seu corpo se inquietar por uma euforia alegre. Nada de ruptura em seus vasos sanguíneos, só agitação. Uma substância diferente circulava junto, porém: melancolia.

Miguel não era um atleta ou um imenso entusiasta dos esportes durante sua vida escolar, por mais que hoje tivesse uma rotina ativa. Mas uma certeza lhe assombrava o peito: que seus pais jamais acompanhariam tal interesse, assim como não acompanharam nenhum outro. E isso, na realidade, seria bom, lembrando-se de como eles eram.

Quanto mais tempo passava com Gabi, mais angústia sentia por seus pais, sua juventude. Sua mãe, Conchata, ora dizia que ele seria igual a seu pai e era melhor não ter filho algum, ora dizia que ele entenderia o porquê ela era assim, ao ter seus próprios filhos terríveis. Gabi, ao que Miguel entendia, era parecida com ele. E não existia dificuldade alguma ao cuidar dela.

As meninas receberam flores pela participação, um buquê roxo e medalhas de latão. Mas o que mais chamou atenção de todas foi a mesa de cupcakes, onde cada falta, trombo e rivalidade foi esquecido.

Gabi correu até ele com as mãos ocupadas. Abraçou-o, sujou-o do creme do cupcake, colocou uma flor em sua orelha. Ele pegou-a no colo, ele riu, ele nem ligou pro rosto sujo. Não estava interpretando nada. No entanto, seu comportamento não deixou de chamar atenção.

A tarde já estava laranja quando Gabi correu para pegar outro cupcake e os pais das suas colegas juntaram-se para conversar um pouco, com as filhas ainda agitadas pelo jogo. Miguel se preparou para manter uma conversa rasa e educada, mas algo parecia ter captado a atenção de um dos pais.

— E aí, meu chapa?

Ele deu um aperto em seu ombro largo, em um cumprimento afável. Retribuindo com educação, Miguel se arrependeu por não ter gastado mais tempo analisando as outras relações do outro Miguel. Eles eram amigos? Não, não. Não era para tanto. Conhecidos? A reflexão foi breve. O homem, de óculos e fios grisalhos nos cabelos pretos, continuou falando:

— Nossa, Miguel. Meu esposo quase perguntou se você precisava de outro gole d’água. Acho que nunca te vi tão animado em jogo antes.

Não?

Miguel franziu a testa. Gabi tinha voltado e dava outro cupcake para ele. Parecia ter ouvido a conversa. Parecia encabulada.

— Ah, eu… — Miguel ponderou as palavras. — Eu acho que a ocasião merece.

— Ele enfrentou um bandido armado.

— ¡Mi hija! — Ele abriu um sorriso falso para aliviar a tensão. Os outros pais, uns três casais, tinham expressões variadas de choque. Às vezes, Miguel esquecia dessa capacidade inata de crianças falarem coisas do puro nada. E em seu peito, uma suspeita cresceu: Gabriella estava justificando o pai? Enxergava nele um comportamento diferente? Depois resolveria essa questão. Entre murmúrios perguntando o que havia acontecido e gente perguntando se estava bem, ele resumiu: — O pior já passou, foi um susto. Mas acho que… Muda a nossa perspectiva das coisas. Talvez eu pareça diferente.

Gabi abraçou-o de lado. Ele retribuiu, bagunçando seu cabelo.

— Bom, — O outro pai tentou chacoalhar o clima tenso que se instaurou com aquela simples afirmação de Gabriella, talvez confuso não apenas com a empolgação de Miguel pelo jogo como também pelo seu tom evasivo para desviar o assunto de um assalto. No entanto, pareceu resposta suficiente e ele se virou para o restante de meninas papeando perto da mesa. — Vamos comemorar o empate, hein, meninas? Hoje é na casa da Suzana.

Miguel mal viu o caminho que fez para o carro. Guardou as coisas no banco de trás, ajeitou Gabriella com o cinto no banco do passageiro e então sentou-se no lado do motorista. Sua cabeça estava vazia, seus dedos apertaram o volante. Encarou os outros carros partindo do estacionamento, para a tal casa da Suzana.

—¿Papá?

— Eu… Eu não lembro o endereço, mi hija. — Uma pausa. E então, ele encarou-a pelo espelho do retrovisor. — Perdón. Você coloca o endereço certinho no celular para eu usar o GPS? Seu pai está ficando velho. Velho e esquecido.

Ela pegou o aparelho, digitou e entregou-o em silêncio. Um peso afundava seu estômago e seus ombros, lembrando-o que aquele não era seu lugar, aquele não era seu universo, aquela não era sua filha e que ele era uma simples farsa. Ele seria esmagado e com razão. E então, ela riu e provocou:

— Mas você não esquece que derrubei refrigerante no carro.

Miguel soltou uma gargalhada. Gabi jamais compreenderia o quanto aquela simples troça tinha aliviado-o.

— Quer saber? — Ele deu ignição no carro. O outro Miguel realmente ficava lembrando-a por algo tão besta quanto derrubar refrigerante? Que tolice. Ou então, era em tom de brincadeira. — Nunca mais vou falar nisso de novo.

Partiram. O caminho era um pouco mais longo porque o campo de futebol era meio longe da escola e a casa da tal Suzana também não era perto. De tempos em tempos, enquanto ouvia a voz de Lyla dizer direita ou esquerda a tantos metros na tal avenida ou rua, ele buscava o rosto da filha no reflexo do retrovisor. Miguel sentia-se frequentemente à beira de ser flagrado em sua encenação. Era como se esperasse.

Agora, imaginava se Gabriella esperava algo também.

Nesses desvios de olhares, Miguel não notou algo importante no caminho: uma esquina cuja estrutura de um poste tremulou, tal qual um glitch em uma tela.