Quelíceras
5 1 + 1
Notas iniciais
Em um novo fim de tarde em casa, Miguel já tinha voltado do trabalho e organizado os uniformes e a comida para o dia seguinte, além de ter feito atividades físicas de costume — um pouco com Gabi, um pouco sem ela. Ele também já tinha tomado banho, tomado seus suplementos e agora esperava o caldo de res cozinhar para o jantar. Nesse intervalo, enquanto Gabi ficava no quarto fazendo dever de casa, ele aproveitou para mexer mais no seu tablet no sofá. Preferia algo com teclas, mesmo holográficas, mas o outro Miguel parecia não ligar muito para esse tipo de coisa. Depois iria melhorar aquele aparelho com algumas peças e acessórios novos, por ora era suficiente.
A comemoração do time de futebol no dia anterior havia sido tranquila. As meninas agiram como o esperado para um time juvenil que quase venceu: rememoraram lances épicos, criticaram adversárias, falaram dos treinos. Comeram muito. Ao menos isso também era esperado, então os pais de Suzana já tinham separado pizza e suco suficiente. Os adultos ficaram no meio, um tanto longe da mesa e das meninas, mas todos observando-as periodicamente, distraídos com a conversa alta e não tão engajados assim com a conversa adulta. Emprego, supermercado, outros pais, professores. Isso poupou Miguel dos detalhes da história do assalto. Só não poupou-o da sensação de estar sendo notado.
E era por isso que ele tinha pegado o tablet no dia seguinte.
— Lyla. — O relógio multidimensional brilhou em seu pulso. — Aquela planilha que te pedi hoje cedo está pronta?
— Sim, senhor! Só levou uma tarde inteira.
— Obrigado.
Ela pareceu querer dizer alguma coisa, mas se conteve. Miguel percebeu pelo som do comunicador no relógio, um barulho muito suave de quem inspira para falar algo e não diz. E então, silêncio completo. Por um lado, ele estava grato por não ser interrompido na tarefa que planejava fazer. Não era bem um momento para questionamentos, para julgamentos. Por outro, entendia que Lyla tinha boas intenções. Ele temia que sua programação fosse enviesada pela forma que ele próprio pensava, calando-se quando havia algo profundo demais a dizer.
Igual fazia agora, sem perguntar afinal o que ela estava pensando.
Abriu a planilha de várias abas: Tratava-se de uma contagem de certos momentos-chave para ele checar uma suspeita; momentos que tinham escapado de sua atenção enquanto acompanhava a vida do outro Miguel antes de usurpá-la. Ele sempre se atraiu pelos momentos leves, alegres; pelo fascínio de ver uma vida caseira, monótona e doce. Mas a monotonia também era traiçoeira.
E ao menos Lyla seria mais analítica nesse caso.
Quantidade de jogos do time de Gabi nos últimos 2 anos: 40.
Quantidade de vezes em que Miguel esteve presente durante todo o jogo: 31
Não era tão ruim assim. Existiam inúmeras razões para isso acontecer e, imaginava ele, que o outro Miguel não a deixaria totalmente desacompanhada. A parte comportamental durante as partidas diria mais:
Exibição de comportamento agitado/positivo: 6
Exibição de comportamento agitado/negativo: 3
Exibição de comportamento passivo/positivo: 4
Exibição de comportamento passivo/negativo: 17
Impossível. Acessou o link para compilação da última categoria, a mais numerosa. Eram mais de alguns recortes por partida, mas ele agora estava perturbado demais para se importar. Deu play e foi saltando de vídeo em vídeo, cada um em que o outro Miguel se mostrava pouco animado, para não dizer desinteressado, ao que acontecia ao seu redor. Ele não conseguia caracterizar aquilo como neutro. Não. Não quando Gabi acertava um gol e ele não vibrava. Não quando ele só encarava o próprio relógio dúzias de vezes. ¡Pendejo!
Se agitou no sofá, inconformado. Culpado, sem que a culpa fosse realmente sua. Talvez até envergonhado, por entender que tinha deixado passar esse tipo de coisa em seu monitoramento. Talvez devesse ir aos poucos na sua animação com a rotina da filha, mas por quê diabos o outro Miguel não se animava? Era notável.
E por isso, foi notável o quanto ele tinha sido diferente ontem.
Ouviu o caldo borbulhando na panela e correu para desligar o fogo. Aproveitou para tomar um gole d’água gelada, antes que a água em seu próprio corpo borbulhasse também. Retornou ao sofá e voltou a ver os vídeos, dessa vez com mais calma e na tentativa de captar uma explicação mais racional — por mais que discordasse de qualquer hipótese. Com sua visão lateral, viu Gabi chegando e colocando um caderno na mesa de jantar, seu estojo colorido. Não atrapalhou-o. Não disse nada. Mas veio e se foi, trazendo um livro do quarto, o seu celular. Acendeu outra luz. Sentou-se, depois mudou a postura, descruzou as pernas.
— Ê, ê. — Chamou atenção dela, que quase deu um pulo. Mirou-o com aqueles grandes olhos castanhos. — É fome? Já, já termino o jantar.
— Não.
— Então o que é?
Ela olhou para baixo. Demorou a responder.
— A tarefa. Tá difícil.
— Ora, e por que não pediu ajuda para o seu papá logo?
Houve uma pausa tímida.
— Por que você não gosta que eu atrapalhe quando você tá mexendo com finanças. Você sempre faz essa cara quando tá mexendo nisso. E aí você faz essa cara pra mim.
Miguel inspirou fundo.
Sentiu o cheiro do caldo de res e da própria irritação. Desligou a tela do tablet. Se visse o outro Miguel na sua frente, iria socá-lo fundo. Mas sua mente não se fixou tanto na sua imaginação, nem na memória do corpo pálido do outro Miguel estirado no chão. Gabriella esperava uma resposta.
— Eu sinto muito, Gabi. Não vou mais fazer essa cara para você nunca. E nem estou tão ocupado assim pra não conseguir te ajudar com essa tarefa, combinado? Você tem que me chamar quando precisar.
— …Tá.
— E acho que a gente vai pensar melhor com a barriga cheia. — Ele se levantou, calçando chinelos. — Só coloca seu material do outro lado enquanto eu ponho a mesa, mi hija.
Ela sorriu e ajudou-o.
Era comum conversarem durante as refeições, não raramente com o noticiário ou algum esporte fazendo barulho ao fundo e preenchendo pausas entre as colheradas. Naquela noite, o jantar foi assim: televisão ligada e conversas esparsas. Falaram de novo do jogo no dia anterior, dos próximos jogos. Miguel viu a tensão da filha se desfazendo aos poucos, tanto que ela arriscou a pergunta:
— Então por que você está emburrado vendo o tablet hoje, papá? Eram as finanças de sempre?
Miguel refletiu quantas vezes o outro tinha dito “finanças” para uma menina de onze anos saber mais ou menos o que era aquilo. Para piorar sua opinião sobre sua outra versão, Miguel não tinha captado nenhum indício de que as contas da casa iam mal.
— Ah, era um pouco de irritação com… Um colega de trabalho. Vi um e-mail. Mas já está resolvido, as contas também. Só preciso juntar para sua Quinceañera.
— ¡Papá! Faltam quatro anos.
— Você faz doze em Maio. Então já é melhor arredondar para três anos. Ou você prefere uma viagem?
— Eu… Eu não sei. Parte das minhas amigas fala de fazer festa só aos dezesseis.
— Hmf. E a outra parte?
— A outra parte não vai fazer nada, ué.
— Hmf.
Será que sua esposa pensava na Quinceañera da filha? Miguel pensou em Tempest com carinho. Pelo menos com a sua versão dela, jamais tinha conversado sobre festas de quinze anos, afinal, eles jamais tinham comentado sobre casamento e muito menos filhos. Mas será que aquela Tempest, mesmo falecida, gostaria da ideia? Será que era terrível perguntar diretamente à Gabi?
Será que Miguel jamais tinha falado disso com a filha?
Com cumbucas e colheres na pia, ele esperou a filha escovar os dentes para começar a ajudá-la com o dever de casa. Matemática. Gabi ia bem na disciplina, para falar a verdade — fato que obrigava-o a temer o instante que ela somasse 1 + 1 para notar que aquele Miguel não era seu pai. Entendia que não era tão simples, que aquela conta não fechava sem as outras variáveis.
Mesmo que a conclusão daquela equação estivesse ali, à sua frente.
Primeiro, Miguel pediu para a filha ensinar como ela tinha aprendido na escola. Iria facilitar antes dele ficar confuso com o jeito que ela fazia os cálculos ou entendia o exercício, também não deixaria Gabi perdida quando ele fosse explicar algo.
Seguiram bem. Ela já tinha feito parte da lista de exercícios e era satisfatório notar que Gabi realmente batia um pouco a cabeça pra decifrar os enunciados no lugar de pedir ajuda para assistentes virtuais padronizados na internet. Tentou direcionar o raciocínio do que fazer por ela, só fazendo as contas junto quando ela chegava em um beco sem saída.
Lendo um dos últimos exercícios e calculando mentalmente, notou silêncio dela. O cômodo, porém, ainda salpicava com um pouco de barulho vindo da televisão — tinha esquecido de desligá-la.
— Gabi, você tem que prestar atenção.
Mas ela não se virou.
Miguel focou-se na tela e todo o calor que tinha sentido ao longo da noite — a raiva pelo outro Miguel, a quentura do caldo, a satisfação de conversar e ajudar Gabi — tudo foi substituído por um sopro gélido na altura do abdômen.
Na televisão, o noticiário reportava acontecimentos estranhos em Nueva York; espasmos anômalos acontecendo em pontos diferentes na cidade, como se concreto e vidro fossem feitos de hologramas ou cordas prestes a arrebentar. Inconstantes, agressivos e a razão por qual algumas pessoas se sentiram mal nas proximidades. Glitches. Por enquanto, pareciam sob controle, mas Miguel não tinha o benefício da ignorância.
***
— Lyla, relatório.
Passava da meia noite. Miguel lavou a louça, terminou o último exercício de geometria com Gabi e lembrou-a para dormir cedo. Mas ele ainda ficaria acordado por muito mais tempo durante a madrugada.
— Tenho dados novos, mas não batem com padrões de anomalias e quebras no cânone.
— Prossiga a análise, vou investigar em campo. Quero atualizações simultâneas.
Ele grunhiu, tentando não fazer muito barulho. Seu corpo já tinha se habituado à disposição dos móveis na casa, de modo que ele poderia andar na sala sem sequer abrir os olhos. Com as luzes apagadas, Miguel ainda enxergava muito bem. Carregava frasco em uma mão e um aplicador na outra. Lyla, notando o seu furor, não pediu que não usasse a ruptura. E na verdade, talvez ela nem tenha se dado ao luxo de gastar seu processamento nisso, de tantos dados cruzados que ela analisava nas últimas horas, estabelecendo conexão com a base na Sociedade Aranha.
Não havia um “Homem-Aranha” ali, nem indícios de que isso viria acontecer — afinal, o Miguel oficial daquele universo estava morto. Então como aquele universo, até então seguro, já se rasgava? Não culpava Lyla, é claro que não. Dados como esse flutuavam. O mapeamento de pontos canônicos ainda estava em andamento. Apenas pareceu… acontecer rápido demais. Então ele tinha que ser ainda mais rápido.
Ele aplicou a ruptura em seu braço esquerdo, percebendo seus sentidos tornarem-se mais afiados em poucos segundos. Aquilo se alastrava feito fogo, feito veneno. Ele piscou e repousou o aplicador metálico e o frasco na mesa, para então sair pela varanda e caminhar até o quintal. Logo após aplicar a ruptura, Miguel sempre tinha que parar um momento para calibrar sua atenção. Em um momento, ouvia grilos, tensão elétrica em eletrodomésticos, o cão no vizinho da esquina, alguém assistindo televisão, Gabi respirando. Em outro, sua atenção era sintonizada e aquilo tudo não passava de um ruído, de estática, em comparação ao alvo de sua atenção. E agora, ele só pensava em um determinado ponto, não tão longe de onde morava.
Segundo o relato de Lyla, pelo menos dez pessoas em Nueva York ainda estavam sob observação nos principais hospitais da Upper East Side, mas ainda não era possível mensurar quantas outras pessoas tinham sofrido de náuseas, zumbidos, vertigens e dor não-específica desde o último glitch. Parte avistou esses espasmos entre o Harlem e o Bronx.
Com um pensamento, uma camada de seu uniforme cobriu seu corpo, seu rosto. E num gesto simples do punho, uma teia luminosa e vermelha atingiu o telhado de outra casa. Partiu, se lançando com rapidez e força, sem nem notar que um rosto infantil tinha testemunhado o uniforme azul cobrir seus olhos agora vermelhos.
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