Queime, Ember, queime
3 Fumaça
Notas iniciais
Ember lembrava-se de cada palavra de seu melhor amigo. De todas as pessoas naquele planeta, ele era o único que não merecia aquilo.
E ela se sentia culpada, sentia-se a principal razão de tudo de mal que acontecera a Rick.
A chuva ainda estava forte, suas gotas eram grossas e pesadas. Mas Ember mal as sentia.
A dor da perda, a dor da solidão, a dor da rejeição. A dor e o calor era tudo o que ela conseguia sentir. Duas sensações tão contraditórias, já que a dor era fria, e o calor parecia acolhedor o confortável. Ember não se importava mais em tentar controlar a nova ebulição que se aproximava. Estava ciente das consequências, mas já havia feito tantas coisas erradas em tão pouco tempo que já não tinha mais esperança.
Ainda temia a si mesma, porém, para isso ela tinha todos os motivos do mundo.
Cinzas, era tudo o que tinha a sua volta. Desde que chegara aquele lugar Ember explodiu diversas vezes. Mal sobrara escombros, já não se via grama, arvores, folhas secas. Onde outrora tivera uma bela estrutura agora só haviam cinzas. Ela destruiu tudo com seus sentimentos ruins, e sentia-se destruir-se aos poucos. Não conseguia mais diferenciar quais explosões foram internas e quais foram externas.
Tentava lembrar-se como chegara ali, no entanto, sua mente parecia ter-se transformado em fumaça. Ember não mais a controlava, tudo o que vinha eram memorias de Rick, da escola e do orfanato. Momentos bons e ruins, todos misturados quase em uma pintura abstrata transformando-se em fumaça.
Ela sentia saudades, e isso era o pior. Rick era tudo para ela, era seu mundo e sua esperança, e ele carregou tudo em sua bagagem.
— Merda, Rick! – Ember gritava para o céu, como se uma resposta pudesse vir até ela, acalmar a tempestade que se agitava em seu interior.
Ember estava cada vez mais imersa em sua própria dor, já não percebia ou distinguia as coisas a sua volta. Já não ouvia ou sentia a chuva, já não via se era dia ou noite e sequer sentia as horas passando.
A garota voltou a encarar o chão quando sentiu sua garganta se fechar e soluços fugirem de seu controle. Lagrimas mornas se formaram e tão imediatamente escorreram por sua bochecha, caindo uma por uma no chão.
Nada mais parecia fazer sentido, até sentir um toque sutil em seu ombro.
Ember virou-se rapidamente com o susto, procurando pelo rosto de quem estava atrás dela, da pessoa que estava tocando seu ombro.
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