Queime, Ember, queime
4 Cinzas
Notas iniciais
— Ember! – A voz de Rick estava abafada pela porta, mas ainda assim ela a reconhecia, sempre a reconheceria. Sua proximidade era nítida, ele a encontraria, ele sempre a encontrava.
— Vá embora! – Ember gritou de volta se arrependendo logo em seguida. Ele a encontraria com toda a certeza agora, e isso não fazia pare de seus planos
O som dos passos do rapaz se tornara mais nítidos, vindo em direção ao armário no qual Ember se escondia. Ela não queria ser encontrada, não queria conversar, nem queria companhia.
Ember se sentia quente e irritada, já não bastasse a frustração que a fez se prender naquele maldito espaço pequeno.
A garota ouviu seus passos cessarem quando Rick chegara a porta. Tentou prender a respiração numa tentativa falha de se esconder, mas já era tarde
— Ember. – Chamou ele, próximo a porta – Eu sei que está aí, e imagino que não queira conversar, mas ficar sozinha não é algo que eu possa permitir.
Ela suspirou, sentindo o nó na garganta apertar cada vez mais bloqueando sua respiração que tornara-se mais forte.
— Eu não tenho muita ideia do que aconteceu, gostaria de ouvir de você, mas não vou perguntar sobre enquanto não estiver bem. – Sua voz era baixa, calma e tranquila, porém a garota conseguia ouvir um tom de tristeza em sua voz – Me deixe entrar, Ember.
Sem pensar duas vezes, Ember se impulsionou para levantar do chão onde estivera por quase uma hora sentada envolvendo as pernas com os braços e abrira a porta subitamente.
Rick não deu tempo a garota para processar, apenas a envolveu com seus braços fortes e Ember automaticamente apoio o rosto em seu ombro, agarrando a cintura do outro fortemente enquanto deixava lagrimas grossas rolarem pelo seu rosto e molharem o ombro do rapaz.
— Shhh... – Rick acariciava os cabelos ruivos de Ember calmamente com uma das mãos.
Eles agora estavam no corredor, a porta do armário de vassouras permanecera aberto atrás de Ember, no entanto, a garota não mais ligava, não mais ouvia, só conseguia chorar.
O cheiro doce do rapaz a acalmava, seu corpo quente e seus batimentos calmos a confortavam. Ember não tinha medo em seus braços, Rick sempre fora seu porto seguro, mas ela não entendia quando foi que ele passou a exercer tanto poder sobre ela.
Ficaram assim por algum tempo, mas Ember não notou o tempo passando. Quando se deu conta já não mais chorava ou fungava, mal sentia-se triste ou frustrada. Rick neutralizava seus piores sentimentos com tamanha facilidade.
Ele afastou-se um pouco dela para que pudesse olha-la nos olhos.
— Está se sentindo melhor? – Sua voz estava um pouco rouca.
Ember apenas assentiu lentamente de modo afirmativo, sem nada dize e nem mesmo expressar algum sentimento. Nisso ela era boa.
— Ok, podemos sair daqui então? Por que não me conta o que aconteceu enquanto te acompanho até o lugar?
— Claro. – Ember respondera, um pouco decepcionada, mas sabendo que deveria voltar.
O lugar nada mais era do que o orfanato no qual Ember morava. Ela odiava aquele lugar, portanto, Rick não se referia a ele de forma óbvia. Mas Ember sabia que tinha de sair da escola alguma hora, e voltar para aquele lugar horrível que ela odiava.
No caminho, ela explicara a Rick sobre o que havia acontecido. Já fazia algumas semanas que ela estava atrás de informações sobre o seu passado, sobre sua família. Sempre houvera uma nevoa misteriosa ao redor de todos os responsáveis por ela no orfanato, e com o tempo ela ouviu coisas que a deixaram curiosa.
A história que contaram a Ember sobre como ela fora parar no orfanato já possuía algumas falhas. Emeber não tinha família viva. Seus pais morreram num incêndio cuja a única sobrevivente fora uma bebê, a própria Ember. Ninguém sabia dizer como ela sobrevivera. A encontraram entre as cinzas, suja e quente, porem intacta.
E naquele ano, Ember descobrira a primeira mentia: ela possuía uma tia viva que morava ali perto. Aquela tia viera para a cidade quando seus pais morreram, mas rejeitara a sobrinha.
A segunda mentira viera meses depois: os pais de Ember cuidavam de uma mansão. A mansão de sua família. A casa a qual fora queimada servia mais como um escritório cujo seus pais usavam para trabalhar.
A terceira mentira, a mais recente: sua tia, atualmente, morava na mansão da qual seus pais cuidavam. A mansão ficava entre a escola e o orfanato.
Rick ouvira tudo aquilo em silencio, mas Ember conseguia ver surpresa em seu rosto, e até mesmo tinha a impressão de haver um pouco de tristeza em seus olhos.
Ao fim da história chegaram ao orfanato. E assim que Ember pôs a mão na maçaneta Rick pegou o celular do seu bolso com urgência e arregalou os olhos ao olhar a tela.
— Que foi? – Perguntara a garota, assustada com a reação do amigo.
— Eu explico depois, tenho que ir. – Dissera com urgência, já dando meia volta.
— Hey, Rick! – Ember gritara, mas o garoto apenas virara o rosto e direcionara a ela seu sorriso incrível antes de sair correndo pela rua.
Ember sabia que aquele sorria era para acalma-la, mas tudo o que causara a ela fora mais preocupação. Por algum motivo ela temia pelo rapaz.
Ela entrara no orfanato e se escondera em seu quarto. Desde que a garota que dividia o quarto com ela fora adotada Ember nunca mais tivera outra acompanhante de quarto, a outra cama permanecia vazia e arrumada. A ultima vez que tivera acompanhante fora a anos, desde então o quarto é somente dela.
Era sexta-feira à noite. Ember esperou por uma mensagem do amigo, mas nada viera. Sábado a tarde, já preocupada, Ember enviara uma mensagem para ele que sequer recebera. Domingo de manhã tentara ligar para ele, mas o celular estava desligado.
Ember não aguentava mais. Fora para a escola na segunda esperando encontra-lo, mas Rick não fora.
Rick nunca fizera isso antes.
Ao sair da escola, no fim do dia, Ember se deparou com a mãe de Rick parada em frente à escola. Seus olhos inchados e vermelhos.
— Não... – Ember sussurara sozinha já imaginando o pior.
Infelizmente, descobrira que o que imaginara era o que realmente havia acontecido.
Rick estava morto.
Fale com o autor