Queime, Ember, queime
1 Fogo
Notas iniciais
Há chamas em suas mãos e tudo à sua volta está em brasa, as árvores ainda crepitam, o solo permanece quente e sua pele arde.
Ember: era esse seu nome, e fazia todo o sentido agora.
Nunca entendeu porque foi deixada para trás. Pelos seus pais, por sua família, por aqueles a quem achou que poderia chamar de amigos.
Ela se sentia só, abandonada, esquecida. Sentia ódio, sentia dor.
Suas roupas queimaram com a combustão, seu corpo permanecia quente, pronto para uma nova explosão e Ember sabia que viria logo.
Suas pernas falharam e seus joelhos se dobraram, jogando-a ao chão. Suas mãos com chamas quase mortas foram ao rosto, lágrimas insistentes tentavam escorrer pelas bochechas, mas evaporavam instantaneamente ao simples contato com a pele.
O arrependimento a atingiu, não bastasse todos os pensamentos e sentimentos, agora teria que lidar também com a culpa.
Ela queria gritar, mas quem a ouviria? De nada adiantaria.
Ember tremia, carregar o fardo do seu nome e de seu poder era grande demais, ela não conseguia simplesmente lidar com aquilo.
Era apenas uma garota, no auge dos seus 17 anos, queria uma vida normal, uma adolescência como a dos outros.
Mas ela fora privada de tudo aquilo, aqueles que deveriam ser responsáveis por ela, protege-la, são tão culpados quanto ela. Quanto a chama que queima em seu coração e, que agora, exala por sua pele irrompendo por todo seu corpo.
Sua vida era o próprio inferno, aquilo tudo era demais para aceitar, para processar, para continuar.
E ela não queria continuar. Não queria seguir em frente, levantar dali, voltar a sua vida. Não queria mais viver.
Mas como morreria? O fogo que crepitava em seu interior não permitiria sua morte, e agora ela entendia isso. Ninguém poderia matá-la, nem ela mesma. Ela era insaciável, intocável, incansável, inalcançável. Ela era fogo e chamas. Ela queima e consome tudo e todos. E ela nunca se apagará, sua chama jamais se apagará.
Ela está fadada a viver para sempre com essa maldição.
Ember olhou para cima, para o céu carregado de nuvens que rugiam e brilhavam com os raios e os trovões. A chuva estava próxima, mas nem ela poderia esfria a garota o suficiente.
Tudo o que tocava se tornava brasa, se resumia a cinzas. E essa conclusão só a deixava mais angustiada, irritada e confusa.
— Por que? — sussurrou aos céus, esperando por uma resposta que sabia que não viria.
Voltou a encarar o chão quando começou a soluçar, as lágrimas jamais terminariam o trajeto pelo seu rosto.
O cheiro de fogo, de grama e troncos queimados era incrivelmente forte quando as primeiras gotas de chuva atingiram, finalmente, sua pele nua. As gotas se transformavam em vapor instantaneamente, sua pele permanecia seca e intocável.
Ember apoiou os braços sobre o solo queimado e fechou as mãos em torno de algumas folhas e gramas úmidos, secando-as e queimando-as. Ela temia a si mesma e as coisas que poderia causar, afinal, acabara de reduzir a cinzas a mansão na qual morou a muitos anos, quando era ainda uma criança inocente e sem medos, uma criança que não esperava ser abandonada pelos pais, pela família e pelos amigos. Uma criança desprovida de ódio, de desespero. Apenas uma criança que não entendia nada sobre o mundo.
Seu corpo estava cada vez mais quente, o vapor que antes emanava agora se transformara em fumaça. As folhas sob ela queimavam e as chamas outrora apagadas voltavam a queimar ao seu redor vencendo a água que caia do céu.
Ember não sentia frio pois, assim como as chamas, o ódio, o desespero e o medo queimam e consomem. Uma sensação quente e dolorosa.
Notas finais
Críticas construtivas são bem-vindas!
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