Notas iniciais
Não sei se já falei, mas provavelmente será uma fic se 5 capítulos. Não quero nada muito longo, é a primeira original que publico! A capa era para ser uma gif haha. Enfim, já ta longa demais essa nota, né não? Fiquem com o capítulo a partir de agora, bye!

Ember era sempre o mais neutra possível.

Passando pelos corredores da escola, arrastando os dedos pelos armários, a garota vestia-se sempre de cinza ou preto, nada era chamativo em suas vestimentas. Não usava maquiagem, sua mochila e material eram simples e apenas falava durante a aula quando solicitado, sendo sempre sutil.

O que acabava com toda sua forma neutra era sua aparência peculiar.

Ember era ruiva, um tom intenso e alaranjado do cabelo naturalmente cacheado e cheio. Haviam sardas espalhadas sobre a pele branca por todo o corpo e um par de olhos azuis ciano. "Bela e peculiar" ela ouvira uma vez do seu único amigo naquele inferno chamado Terra. Mas os seus "colegas", por mais que concordassem que ela era dona de uma grande beleza, não aceitavam aquilo como uma qualidade. As garotas a viam como uma rival e os garotos a viam como perigo. Algo que emanava de Ember naturalmente afastava todos, ganhando apenas o desprezo das pessoas a seu redor.

Era mais um dia normal na escola, já havia se tornado uma rotina sofrer bullying verbal e físico.

Estava prensada contra os armários, os 3 garotos diante dela esbanjavam sorrisos cruéis e maldosos. Chegaram ali quando os corredores ainda estavam cheios, porém ninguém se importava com o que quer que fosse feito com Ember.

A ruiva nunca sustentava o olhar deles, mesmo quando a olhavam de cima com o rosto perigosamente próximo. Não temia, no entanto não tinha interesse algum em encarar os agressores.

Sempre que era agredida seu corpo parecia arder e sua temperatura subia, olhar para aqueles que a causavam tantos sentimentos ruins não parecia deixá-la próxima de melhorar a situação.

Depois de alguns minutos de silêncio no corredor vazio a garota ouviu quando um deles, o da esquerda, abrira o zíper da mochila do garoto do meio. Pelo canto do olho notou algo cintilar ao ser retirado de lá e sentiu um penso no estômago ao entender que objeto era aquele.

— Hey, não vai olhar para a gente, Fogo? — dissera o do meio, o mais alto deles e também o que a mantinha presa contra o armário. Um braço esticado empurrando o ombro já dolorido de Ember.

Ela manteve o olhar baixo, sentia um calor infernal. Um calor que sempre vinha naqueles momentos, que parecia se originar de seu coração. Cada ano se tornando mais intenso.

O garoto da direita socou o armário ao lado do rosto da adolescente fazendo-a saltar com o susto e chamando sua atenção.

— Ele falou com você, Chama! — exclamou com a mão ainda fechada sobre o armário, sua voz era grossa e irritante.

Ember negou-se a levantar o olhar, encara-los era fazer o que eles queriam e, consequentemente, dificultaria mais sua vida. Ignora-los era sua única opção.

— Tadinha, ela está com medo! — falou o rapaz da esquerda, causando aos outros gargalhadas.

A moça cerrou os punhos ao notar que o garoto que possuía a lâmina a transferiu para aquele que a mantinha contra os armários, mas os manteve presos ao lado do corpo, sentia-se impotente. Seu corpo parecia esquentar cada vez mais, porém Ember já não se importava com aquilo, deixara de se preocupar à anos.

O adolescente da direita se afastou quando o do meio aproximou a lâmina de seu rosto e Ember fechou os olhos esperando um golpe. Porém, ao contrário do corte, sentira apenas o metal gelado sob seu queixo forçando-o para cima. A ruiva permitiu que seu rosto fosse erguido e, ao abrir olhos, finalmente encarou seu agressor.

O rapaz era tão padrão quanto o resto dos alunos daquela escola. Possuía olhos castanho-escuros e cabelos lisos e negros. Nada fora do comum, nem mesmo seu comportamento agressivo.

— Está com medo? — a voz do detentor da lâmina não passava de um sussurro rouco, havia diversão em seu tom e uma sombra macabra cobria seu rosto.

Ember mantinha os punhos cerrados e forçava cada vez mais a unha contra a pele, já conseguia sentir a dor e estava ciente de que não faltava muito para abrir cortes ali. Sentia-se quente, muito quente. Sentia calor e gostas de suor se formavam em sua nuca e testa. Fechou os olhos com força ainda com a faca sob o queixo e sentiu-a ser movida para sua garganta.

— Não me lembro de tê-la permitido fechar os olhos, Fogo! — dissera o rapaz pressionando o metal frio contra sua pele.

Um filete de sangue escorreu por seu pescoço quando a pressão aumentou. Seu coração se agitou com a sensação do líquido quente e denso descendo pela pele de sua garganta.

— Abra os olhos, Chama! — disse um outro garoto, Ember não tinha certeza, mas suspeitava ser o da esquerda pelo tom de voz irritante.

Tentava respirar fundo e manter os batimentos do coração controlados, mas era quase impossível.

Estranhamente não era medo o que ela sentia, mas sim ira, ódio, aquela situação apenas estava a irritando.

Sentiu a lâmina ser afastada de seu pescoço deixando o local onde antes estivera ardendo com o corte.

Ember abriu os olhos o suficiente apenas para ver que o garoto se preparava para desferir um golpe. Quando o rapaz impulsionou a faca na direção de seu rosto a moça agiu sem pensar, ergueu as mãos rapidamente e agarrou a lâmina afiada.

A ponta de metal ficou a centímetros de seu rosto, sangue escorria por seus braços originados das feridas que a lâmina causara em suas mãos.

— Que porra é essa? — uma voz grave soou pelo corredor, uma voz conhecida não só aos outros, mas à Ember também.

Os adolescentes se afastaram rapidamente da garota, que ficou apoiada contra o armário fitando as mãos manchadas pelo tom escuro do sangue que gotejava e sujava o chão.

O clima ficara mais pesado do que antes, era quase palpável. A moça podia sentir os seus agressores temerem o que estava por vir. Eles estavam em total silêncio. Ember podia ser considerada frágil e indefesa, mas não era o caso de Rick, seu único e melhor amigo. Ele era bem mais alto e forte que os outros. Nunca fora do tipo que se envolvia com as pessoas, mas provou à elas que o importunar por esse motivo não era uma boa ideia.

Ember não lembrava de como o conheceu, ele não era do orfanato, porém estudou sempre nas mesmas escolas que ela. No entanto eles só fizeram amizade realmente quando tinham 12 anos, na quinta série, quando foram forçados a fazerem um trabalho juntos.

Inicialmente não se deram muito bem, Ember era difícil de se lidar por sempre esperar o pior dos outros, enquanto Rick era frio e calculista, não permitia aos outros se aproximarem.

No entanto, algo em Ember despertou algo em Rick, e algo em Rick despertou algo em Ember.

— Rick, desculpe...

— Nós só estávamos...

— Nós não queríamos...

— Apenas desapareçam. — Sussurrara Ember, interrompendo o trio se desesperados.

Vê-los assustados e gaguejando só a irritava ainda mais e ela não tinha muita paciência naquele dia.

Rick dirigiu a ela um olhar em repreensão que logo se desfez ao finalmente notar a gravidade de seus ferimentos.

O trio passou apressado por ele enquanto Rick caminhava a passos largos em direção ruiva. O rapaz se aproximou e tomou as mãos de Ember delicadamente, verificando os ferimentos.

— O que...

— Não pergunte! — interrompeu a garota, encarando-o pela primeira vez naquele dia.

Os olhos de Rick eram intensos e verdes, seus cabelos castanhos claros caiam sobre o rosto sem nenhum corte aparente. Ele sempre parecia um completo desastre arrumado, era estranhamente irônico.

Rick aceitou em silêncio a puxando pelo braço. O rapaz a guiou pelos corredores onde Ember deixava um rastro de sangue por onde passavam.

Ela já sabia para onde ele a levava, a enfermaria era um local constante e a enfermeira responsável nunca estava lá para atendê-la. Eventualmente Rick se dispôs a aprender sobre primeiros socorros, se tornando o seu enfermeiro particular sempre que podia.

Dentro do cômodo branco o rapaz a deixou perto de uma maca onde Ember sentou à espera do tratamento de rotina. Rick retornou com ataduras, alguns comprimidos para dor, pomadas para cicatrização e alguns produtos que Ember deduziu que seriam utilizados na limpeza dos cortes.

O rapaz trabalhou nas mãos dela e em seu pescoço em total silêncio. Ocasionalmente, a moça deixava escapar grunhidos de dor enquanto a atenção do garoto era fixada em suas palmas rasgadas e seus dedos cortados, Rick era sempre muito carinhoso e atencioso, sussurrava avisos de que poderia doer e dizia que a dor passaria logo quando Ember não conseguia esconder a dor. Caretas também fugiam de seu controle quando conseguia evitar emitir algum som.

No fim, Ember tinha ambas as mãos enfaixadas e possuía um pequeno curativo no pescoço. Rick analisou-a uma última vez antes de finalmente permitir-se suspirar, fazendo uma careta em seguida para a amiga.

— Que foi? — perguntou a ruiva já ciente da resposta.

As roupas de ambos estavam manchadas pelo sangue de Ember, não havia possibilidade de nenhum dos dois voltarem para a aula e, tanto Ember, quanto Rick, sabiam que o diretor e os professores nada fariam contra o trio de delinquentes.

— Você devia começar a revidar... — respondeu o rapaz com a voz cansada. Ele caminhou até a maca onde Ember estava e sentou-se ao seu lado cruzando as mãos e apoiando os cotovelos nas pernas. Rick permitiu-se abaixar o rosto e passou a encarar o chão.

— E o que eu ganharia com isso? — Ember o fitava, não fazia sentido revidar, nada jamais mudaria.

— Talvez respeito.

— Utilizando o mesmo método que eles? Acho que não quero esse tipo de respeito.

— E que respeito ganhará se não consegue nem os encaras?

Ela suspirou, não queria discutir com ele, mas já conseguia sentir sua irritação e seu tom de voz já era mais duro e alto.

— Não é que eu não consiga encara-los...

— O que é então? — Rick levantou o rosto para encontrar os olhos da amiga. Pela primeira vez naquele dia Ember sentiu frio. — Diga! Pois eu não consigo entender!

A garota baixou o olhar para as próprias mãos pousadas sobre o colo. Sentia elas latejarem, doíam e estavam quentes sob as ataduras, porém o suor e a sensação de calor haviam passado desde que Rick a encontrara naquele corredor.

— É complicado... — ela sussurrou, mais para si mesmo que para o amigo — Nem eu mesma entendo.

O rapaz esticou seu braço e tocou a mão de Ember delicadamente, tomando cuidado para não pressionar o machucado.

— Às vezes acho que você é realmente como o fogo. — Começou a dizer com um suspiro. Ember levantou o rosto para encara-lo sem entender o que ele queria dizer. Ele caçoava dela também? Não parecia, Rick estava incrivelmente sério como de costume. — Você é intensa, imprevisível e indomável. Você consome aqueles que estão perto e até mesmo os que estão longe. A maioria a teme e, portanto, a evita, mas existem aqueles que sabem que as chamas não são somente morte, não apenas queimam e consomem. As chamas também são agradavelmente quentes e úteis, elas aquecem, e apenas poucas pessoas veem isso e se aproximam sem medo de se queimar.

Rick encarava suas mãos, que agora estavam entrelaçadas. Ember sentia o carinho que ele a transmitia, era agradável e acolhedor. Ela olhava seu rosto pensando no quanto tinha medo de perde-lo. Rick era a única pessoa que restava a ela.

— Ninguém nos garante que você não se queimará. — Dissera por fim, depois de um longo silêncio.

— Queimar-me é uma mera consequência para desfrutar do seu calor. — Ele respondeu, com um sorriso sutil no rosto.

Rick tinha o olhar perdido, mas mesmo assim levantou o rosto para olha-la e levou sua mão livre ao cabelo de Ember, colocando algumas mechas atrás da orelha e em seguida acariciando sua bochecha.

Ember não sabia o que pensar sobre aquilo, há anos não recebia carinho de ninguém. Não tivera outra reação senão fechar os olhos e permitir-se desfrutar do momento.

— Às vezes você deve se permitir queimar. — Rick voltou a falar com a voz baixa, ainda a acariciando. Ember abriu os olhos para encara-lo enquanto falava. A voz do rapaz era calma e doce ao pronunciar as próximas palavras — Queime, Ember, queime!