Queen of ice and fire
33 Valente

Quando Arthur recobrou a consciência, notou que estava com os braços amarrados fortemente para trás, e era arrastado pelos ombros, com as costas para baixo.
Antes de um homem lhe colocar um saco de linho na sua cabeça, viu Valente relinchar no estábulo da estalagem e saltar para cima, como se lutasse para se soltar e fugir.
Elaene também teve suas mãos e pés atados, e foi colocada deitada em cima do lombo de um cavalo, da mesma forma que Arthur. Ambos sentiam em suas barrigas, uma dor incômoda e insuportável pelo atrito da cavalgada.
Paravam apenas para comer, sempre sendo depositados longe um do outro. As horas para dormir eram poucas. Quem fosse que estivesse os raptando, sabia que logo senhores de toda campina, do Vale e das Terras Fluviais iriam ao teu encalço, e por isso cavalgavam o mais rápido que podiam para onde estivessem indo.
Após o terceiro dia ambos estavam exaustos, famintos e assustados. Por fim, chegaram a um refúgio que parecia ser as ruínas de um castelo abandonado em uma região entre Harrenral e as terras Ocidentais.
Foram colocados em um pequeno calabouço, onde ao menos sentiram-se aliviados em dividirem a mesma cela. Arthur foi o último a ser colocado para dentro, e Elaene estava sentada no chão alisando as marcas dos pulsos que ardiam como se estivessem em chamas, por conta das cordas apertadas.
Quando o homem empurrou Arthur para dentro, Elaene notou que ele estava com correntes nas mãos. Correu em sua direção e o abraçou pelos ombros.
— Quem são essas pessoas, Arthur?
— Eu não sei, Elaene. – Disse sentindo a pontada do ferimento no ombro arder com a falta de cuidado dos últimos dias, quando ela o abraçou. – mas se nos quiséssemos mortos, já estaríamos apodrecendo na mata.
=^=
Elaene encostou suas costas na parede gelada do calabouço enquanto Arthur permanecia em sua frente, do outro lado da cela, com a cabeça encostada no metal frio da grade, olhando tristemente para suas mãos acorrentadas.
— O que você acha que farão conosco, Arthur?
Sem olhar para trás, ele respondeu.
— Não faço ideia, Elaene. Talvez peçam resgate, ou uma troca entre reféns.
— Lannisters? – Perguntou Elaene com os olhos assustados.
— Não deixarei que a machuquem. — Olhou para trás apenas para encontrar o olhar dela.
Elaene lhe sorriu um sorriso triste, comovida pela valentia do cavaleiro.
Em seguida ouviram passos no corredor e a luz de uma tocha. Elaene se levantou e Arthur se distanciou da grade da cela. A escuridão então se iluminou e viram que era o terrível rapaz de medonhos olhos azuis e seus guardas.
— Como estão passando os pombinhos? – Disse com um sorriso maligno no rosto.
Arthur instintivamente caminhou em direção à Elaene, para protegê-la atrás dele. Nesse instante, o sorriso do rapaz se dissipou e seu olhar gélido brilhava na cela escura. Depositou a tocha no suporte na parede e caminhou em direção aos dois.
— Cavaleiros do Sul, sempre se antecipando para protegerem suas donzelas com a própria vida. Não é tocante?
— Você não precisa dela, demonstre boa-fé e a deixe partir. Meu pai lhe dará o que pedir como resgate.
O rapaz apenas gargalhou.
— Sempre soube muito bem o poder que uma buceta tem. E até onde sei, o rei lobo andou fudendo esta aqui também.
Arthur chutou a costelas do rapaz que ajoelhou de dor, recebendo em seguida outro golpe, agora no rosto, fazendo o nariz sangrar.
Quando os guardas perceberam e entraram na cela, Arthur passou a corrente que prendia suas mãos, entorno do pescoço do rapaz, e começou a pressioná-las para trás, o fazendo sufocar, enquanto puxava o rapaz para seu peito, no chão onde deitou.
Um dos guardas avançou em direção à Elaene e ela lhe deu um soco no olho e uma cotovelada na barriga de outro homem. Porém, outros dois vieram em sua direção, girando o braço da moça, a fazendo encostar o rosto na parede gelada e suja da cela.
O guarda retirou uma adaga e apontou para o pescoço da Lady enquanto puxava o cabelo dela para trás para que Arthur percebesse a ameaça.
— Solte-o, agora! Ou sua donzela sangrará até morrer.
Arthur olhou para Elaene, e o olhar dela era de incentivo e culpa.
— Não se atreva, Arthur. Você luta, entendeu? Você pode matar esses homens em um piscar de olhos, faça agora!
Arthur fechou os olhos.
— Não se atreva, Pendragon! Ouviu? Eu te proíbo. Não desista, você luta!!!
Quando Elaene viu o olhar vacilante de Arthur, entrou em desespero. Ele seria morto se não fugisse.
— Arthur, eu te proíbo. Você é um maldito Pendragon, sangue da antiga valíria. Lute, filho da mãe. Arthur, Não!
Arthur respirou fundo e não conseguiu encontrar motivo melhor para morrer, do que salvando a mulher que amava. Soltou a corrente e levantou-se esperando sua sentença. Apenas poderia esperar que fosse rápida.
Elaene ainda continuava a gritar para que lutasse, mas estava tudo acabado.
O rapaz levantou-se tossindo e alisando o pescoço marcado pela corrente. Seu rosto ainda estava vermelho pela falta de ar, mas já havia se levantado.
— Cavaleiro estúpido. Acha nobre morrer pela honra de uma puta?
Arthur nada disse, apenas permaneceu com o olhar impassível como se não ouvisse os gritos de Elaene.
O rapaz lhe deu um forte soco no rosto usando a corrente que havia enrolado nas mãos, o fazendo cair no chão, lançando uma poça de sangue quase aos pés de Elaene.
— Não, Arthur! Levante-se! – Elaene gritava aos prantos com o desespero que a tomava.
Os estranhos olhos azuis do desconhecido se espreitaram quando se aproximou dela, então apontou para Arthur caído no chão gemendo com dor.
— Você ama esse cara?
Elaene interrompeu o choro para perguntar.
— O quê ???
— VOCÊ – AMA- ESSE- CARA? – disse o rapaz enquanto chutava na pausa de cada palavra, a barriga de Arthur, lançando um ultimo chute na cabeça do cavaleiro, arrancando uma enorme quantidade de sangue em seu nariz e boca.
— Pare!!! O que está fazendo? – Disse Elaene enquanto sentiu o aperto do soldado se afrouxar lhe permitindo agachar ao encontro de Arthur.
O rapaz perguntou mais uma vez, lançando violentos socos na cabeça de Arthur.
— VOCÊ – AMA- ESSE- CARA?
Elaene instintivamente projetou sua mão na frente de Arthur o protegendo dos socos, sentindo fortes pancadas nos dedos, e seu dedo médio da mão quebrar com o impacto.
— EU O AMO! POR FAVOR, PARE! EU O AMO, NÃO O MACHUQUE, POR FAVOR! FAÇO O QUE PEDIR, NÃO O MACHUQUE MAIS! – Gritou chorando e abraçando Arthur em seu peito.
A respiração dele estava fraca, e seus cabelos dourados estavam manchados com o próprio sangue. Seus olhos estavam quase fechados e virados, e ele soltava grunhidos e gemidos.
O garoto riu sadicamente com a cena e continuou, apontando para um dos guardas.
— Essa vadia escreverá a carta para o Rei do Norte, com seu próprio punho.
=^=
Quando Arthur acordou estava no colo dela e repousava a cabeça em seu peito. Quando olhou para cima, sentiu que a cabeça doía bastante e que seu olho esquerdo não abria. Seu olhar frágil encontrou o dela, e o dela era de preocupação.
Ela alisou seu cabelo, como se estivesse aninhando um filho no colo. E isso o fez sorrir, apesar de todas as dores. Porém, ela não lhe devolveu o sorriso.
— Você não deveria ter feito aquilo, Arthur.
Arthur levantou de seu colo, botando a mão na cabeça, jurando internamente que aquele garoto pagaria por tudo.
— Foi tudo muito rápido, Elaene...
— Você acha nobre morrer para defender a honra de uma donzela? Se você tivesse morrido, o que seria de mim aqui, com esses crápulas?
— Desculpe, Elaene. Eu não medi as conseqüências. Está tudo bem agora. – disse enquanto chiava com a dor que latejava seu olho.
— Não, não está. Você está ferido. – Elaene fechou os olhos e encostou a cabeça de volta à parede – E ele me obrigou a escrever uma carta para Robb.
— O quê ?
— Você estava certo, Arthur. Ele quer uma troca de reféns. – disse com uma risada seca e sarcástica.
Arthur arregalou os olhos e ela continuou.
— Nós dois, pelo seu amigo Jaime Lannister. É o que ele quer.
— Em nome de quem? – Arthur disse a encarando firme. – Para quem esses homens trabalham, Elaene?
Elaene olhou para as mãos antes de devolver o olhar para Arthur.
— O garoto é um bastardo de Lorde Bolton, com certeza trama algo com os Lannisters... esse maldito mercenário.
Arthur encostou a cabeça na parede gelada e suja do calabouço enquanto refletia sobre as palavras de Elaene. É claro que não os entregariam vivos. Haviam vistos seus rostos, e agora sabiam suas intenções. Assim que Robb Stark aceitasse os termos, ou os recusasse, estariam mortos.
Deveriam ariscar uma fuga. Só assim teriam uma chance. Estava machucado, mas sabia que poderiam elaborar um plano.
Arthur lembrou-se daquela noite em sua tenda, perto de Ponte Amarga, onde Elaene havia lhe contado sobre a visão que teve sobre Lyanna e Rhaegar, e não segurou o riso com a situação irônica
— O que foi Arthur? – Elaene lhe perguntou com uma sobrancelha erguida, sem entender o motivo da risada.
— Só estou me lembrando de sua visão com Lyanna e Rhaegar. “Talvez um destino parecido esteja reservado a nós”, você disse. E eu concordo de certa forma. – Ele se aproximou dela, olhando firme nos seus olhos verdes assustados. – Nós vamos fugir daqui, Elaene. Nós vamos fugir para o Sul.
— O que você está dizendo, Arthur? Você está ferido, acorrentado, e eles são muitos. – baixou a cabeça exausta – se eu ao menos tivesse meu arco comigo...
— Por isso precisamos de um plano. – avançou para perto dela, chiando com a dor que sentia na própria cabeça, e segurando seu queixo para cima – Eu não deixarei que você morra aqui, Elaene. Prometo a ti que não é aqui que sua jornada termina!
=^=
Assim como havia observado nesses últimos dois dias, os homens do bastardo Bolton obedeciam à uma certa disciplina com horários e revezavam o turno para vigiá-los. Arthur sabia que o próximo turno seria a hora ideal para começar a fuga, pois era o único momento do dia em que havia apenas dois homens em frente às suas celas. Deveria ser ágil, rápido e silencioso. E ainda estava com as mãos acorrentadas.
Arthur constatou, olhando pelas barras da grade, que um dos homens, como sempre, já estava bêbado. Deitou-se no chão e esperou Elaene fazer sua parte no plano.
Elaene começou a chorar e balançar Arthur enquanto o chamava pelo nome. Seu soluçar começou a ficar mais alto, e ela soube que já havia chamado a atenção dos dois homens que lhe vigiavam, sentados em tocos no corredor, enquanto bebiam.
Avançou para a grade e com as mãos batendo nelas, requisitou atenção.
— Por favor, o ajudem, ele está muito ferido. Mal consigo ouvir sua respiração, ele está morrendo. Por favor.
Viu o homem que estava bêbado vacilar um pouco e fazer um estralo com a boca.
— Quer dizer então que o poderoso Arthur Pendragon é apenas um garoto verde que não aguenta meia dúzia de tapas na cara? Que tipo de homens esses sulistas são?
— Por favor, ele já estava machucado antes de nos capturarmos, ele tem ferimentos de guerra e está fraco. Dê-lhe ao menos um pouco de água.
— Vocês beberam água ontem. Se ele é tão fraco, talvez deva morrer logo mesmo.
O outro homem, mais sóbrio, havia botado a taça na boca e bebia lentamente dando sinais de que pensava em algo.
Elaene olhou para trás para Arthur, que continuava em seu papel, e quando voltou para a grade continuou.
— Ele não respira mais! Por favor, me ajude. Ele está morrendo. – disse gritando – O que vocês acham que seu Senhor fará quando descobrir que deixou Arthur Pendragon morrer nessa cela imunda, antes de conseguirem o que seja do Rei do Norte, ahm?
O homem mais sóbrio levantou-se suspirando e segurando um molho de chaves, caminhou em direção à porta da cela.
— Afaste-se, Milady. Se tentar qualquer gracinha, vou enfiar meu pau tão fundo entre as suas pernas, que a partirei em duas.
Elaene afastou-se da grade, lançando um olhar gelado para homem.
O homem abriu a cela e ainda com as chaves depositadas em uma argola em sua mão, caminhou em direção à Arthur com uma adaga em punho. Ajoelhou-se devagar perto dele, e quando preparava-se para sentir a pulsação de Arthur em sua artéria no pescoço, não percebeu a movimentação de Elaene atrás de si.
Elaene que havia abaixado-se e apanhado um punhado de terra seca do chão antes de o homem abrir a cela, escondendo em suas mãos, jogou o conteúdo nos olhos do carcereiro. O homem rosnou e instintivamente abriu as mãos e a levou para os olhos. Rapidamente Arthur segurou o braço direito do homem, e impulsionando seu próprio quadril para cima, lançou suas pernas no pescoço do homem, formando um quatro quando levantou o tornezelo para sua coxa esquerda, prensando a cabeça do homem naquele pequeno vão.
O homem mal teve tempo de rosnar e Arthur o apertava como uma cobra, minando o ar vital que já não mais alcançava seus pulmões. Sem esperar a vida deixar o homem pela falta de ar, Arthur segurou a cabeça, pela nuca e pelo queixo, e a girou bruscamente para o lado, quebrando seu pescoço.
Quando ouviu sons suspeitos vindo da cela, o outro homem se aproximou lentamente. Elaene havia apanhado a adaga do carcereiro morto no chão, e escondeu-se encostando na parede, vendo pela sombra no chão, que o homem se aproximava da cela. Enquanto isso, Arthur procurava dentre as chaves do molho, aquela para lhe libertar das correntes.
Quando o homem botou a cabeça cuidadosamente para dentro da cela, viu apenas Arthur no chão, testando as chaves, e seu parceiro morto perto dele.
Ele rosnou e em um impulso entrou para dentro da cela. Porém, lento e bêbado, não teve tempo de perceber o movimento de Elaene nas sombras, e ela enfiou a adaga em seu pescoço, o fazendo dobrar os joelhos para frente, enquanto sangue jorrava de seu pescoço e sua boca.
Arthur levantou-se em um instinto para socorrê-la quando viu o homem na porta da cela, porém também mal conseguiu desenhar alguma reação. Quando a olhou, ela estava com um olhar distante e frio, e ele sentiu pela primeira vez, o traço gelado do povo nortenho nos olhos dela.
— Encontrou? — perguntou friamente.
Arthur piscou os olhos e pisando no ombro do carcereiro bêbado que já estava morto, retirou a adaga do pescoço dele com a mão, e viu a poça de sangue no chão se preencher ainda mais.
— Não está aqui. Terei de me virar usando as mãos acorrentadas.
Arthur puxou a espada que estava na bainha do homem morto, e entregou a adaga que estava com ele, para ela.
— Fique sempre atrás de mim! Não corra e não nos separamos, entendeu?
Elaene o olhou e parecia que agora seu brilho normal havia voltado. Talvez fosse medo.
— Sim. – respondeu fracamente.
Arthur a beijou firme e sussurrou em sua face, e ela notou de perto os enormes hematomas que ele tinha no rosto, e seu olho esquerdo ainda muito inchado.
— Eu te amo, Elaene. Haja o que houver, não se esqueça disso! — Disse antes de a puxar pelo braço em direção ao corredor parcialmente iluminado pela tochas.
=^=
Quando chegaram ao final do corredor, subiram uma escada estreita e encontraram uma pesada porta de madeira. Arthur posicionou sua cabeça nela, e tentou perceber os sons do outro lado. Fechou os olhos e acreditou ter ouvido passos de três homens naquele corredor do castelo.
Arthur olhou para trás e gesticulou para Elaene se esconder na penumbra. Respirou fundo e empurrou a pesada porta com o ombro.
Quando avançou sobre o corredor, de fato viu três soldados lhe olharem assustados e desembainharem suas espadas.
Quando o primeiro homem avançou, Arthur abaixou-se sobre os joelhos, girando a cabeça e fugindo do golpe desconsertado que ele lançou. Quando inclinou novamente o tronco, cortou o abdômen do homem em diagonal, não o estocando nas vísceras, pois imediatamente teve que se defender do golpe do segundo homem.
Foi um golpe forte e vertical que Arthur aparou com a espada com dificuldade, pelas mãos estarem acorrentadas. Sem ter como contra-atacar, Arthur o empurrou com o pé, o lançando ao chão.
O terceiro homem avançou e sua técnica era tão rudimentar que Arthur facilmente penetrou sua defesa cortando sua garganta em um movimento rápido e certeiro, lançando uma grande marca de sangue na parede de pedras ao lado.
Arthur ouviu um zunido próximo ao ouvido e quando olhou sobre os ombros, para trás, viu o segundo homem. Ele havia se levantado e estava com a espada pronta para o acertar, mas a soltou no chão enquanto uma grande quantidade de sangue escorria pela sua face.
Elaene estava na porta do corredor, agachada sobre um joelho e com a mão lançada para frente. Ela havia lançado a adaga na testa do homem. Rápida e precisa.
Arthur notou que novamente o olhar frio e vazio estava lá. Ele pegou uma das espadas dos soldados no chão, e entregou para Eleane a tocando nos ombros para fazê-la voltar à realidade.
— Você está bem?
— Sim.
— Precisamos ir antes que mais venham.
Quando encontraram um salão que parecia ser uma cozinha abandonada, Arthur e Elaene perceberam mais dois soldados que se alimentavam em uma rústica mesa.
Arthur acertou o primeiro antes que ele pudesse desembainhar a espada, e quando procurou o outro viu que Elaene havia cortado sua mão em um golpe forte lançando contra a mesa onde ela estava apoiada antes. O homem gritou com horror para o toco que se formou, antes de sentir a fria lâmina de Arthur lhe perfurar no peito.
Quando saíram pela porta, encontraram o luar em um corredor entre muros e Arthur pôde ouvir o barulho de cães latindo. Percebeu que eles não estavam ali no lado externo do castelo, e sim lá dentro. Ele podia sentir a ânsia e o instinto assassino dos animais.
Quando Arthur olhou para mais a frente, onde parte da muralha do castelo abandonado estava no chão, mal pôde acreditar no que via, e sentiu os olhos brilharem com lágrimas.
Valente! Seu fiel corcel de guerra.
Ele sabia que poderia matar muitos antes de cair, atrasando a perseguição atrás dela, e dando tempo para que seu corcel a levasse para um local seguro.
Elaene estava atônita ao seu lado, olhando para o horizonte, onde via um corcel marrom, imponente e belo. O animal possivelmente fugiu dos estábulos da estalagem em Lágrimas Douradas e os encontrou ali, como se soubesse onde e quando deveria estar. E ele pacientemente esperava sua hora.
Em meio às indagações, Arthur tocou o seu ombro.
— Elaene, corra em direção ao Valente. Monte-o e cavalgue como o vento em direção ao sul!
Elaene arregalou os olhos.
— E você, não vem?
— Não chegaríamos muito longe. Mas eu sei que posso matar muitos antes que... – parou a frase quando viu as lágrimas descerem pelo rosto delicado dela – antes que eles tenham tempo para lhe alcançar.
— Arthur, não!
— Não temos tempo para discutir, Elaene. O tempo que lhe darei, você precisa aproveitar ao máximo. Corra!
Elaene segurou os ombros dele como se pudesse guardá-lo e levá-lo a um lugar seguro com ela.
— Você não tem que fazer isso... por favor... – disse em uma súplica chorosa. – Não posso perder você também. É muito para uma pessoa só suportar...
Arthur de maneira desajeitada, pelas mãos em correntes, colocou a espada no cinto em sua cintura e puxou o rosto dela para um beijo de despedida. Forte, desesperado e com o sabor salgado das lágrimas dela.
Em contraste com o choro dela, ele sorria. Poderia, enfim, pagar a dívida que tinha com ela, e com o próprio pai dela, o príncipe Rhaegar: o príncipe-cavaleiro que sempre admirou. Sua vida tinha um propósito. E era salvá-la.
Arthur lançou um último sorriso torto para ela, e quando seu lábio encostou a testa dela para um beijo casto e rápido, a empurrou em direção à parede do corredor atrás dela.
Quando Elaene gemeu de susto e bateu as costas na parede, Arthur voltou para dentro da porta da cozinha e a fechou com um baque surdo e forte. Elaene ainda tentou abrir a porta, mas ele já havia botado o pedaço de madeira na tranca.
— Arthur!!! – Elaene o chamou enquanto batia na porta, mas sabia que seria em vão. Ele já havia decidido e nada o faria mudar de ideia.
Encostou a mão na porta, em forma de agradecimento e despedida, e correu para Valente como Arthur havia pedido, e os primeiros sons de espadas eram ouvidos dentro da cozinha.
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