Queen of ice and fire
43 Parede de escudos
Notas iniciais

Quando Arthur abriu os olhos ainda sentia o calor do fogo próximo que brotava da muralha e no portão do castelo. Podia ouvir o grito de agonia dos homens feridos. Não se permitiu desesperar quando notou que a vantagem deles ruía abaixo, e a parte baixa de Camelot estava condenada, junto com as pedras da antiga sólida muralha externa. Sabia que deveriam recuar para a muralha interna e abandonar a cidadela.
Tentou levantar sentindo a cabeça latejar e o pé preso em algo que lhe esmagava. Olhou para baixo e viu que teve sorte em não quebrar a perna, mas sentiu o coração parar suas batidas ao ver Valente, seu fiel corcel, agonizando em cima de seus pés.
Conseguiu se desvencilhar retirando a cabeça do animal delicadamente, e agachou-se perto dele, não contendo a emoção quando ouviu um relincho baixo e triste.
Nesse momento, Arthur viu o caos que havia se transformado as patas traseiras do animal, queimadas e dilaceradas, e seu abdômen parcialmente exposto.
Não conseguiu controlar o desespero e abraçou o animal que considerava um amigo. Ele sofria.
— Sinto muito... – disse beijando o animal e acariciando sua crina, enquanto cravava a própria espada no coração do corcel, ouvindo um último relincho baixo.
Levantou-se sabendo que não haveria tempo para luto e sacudiu os pedregulhos do seu corpo, ordenando para que os sobreviventes recuassem, apontando para o portão em cima do fosso, que separava a cidadela na parte mais inferior de Camelot, através de uma estreita ponte levadiça.
Observou que ainda alguns arqueiros que ficaram a salvo nas torres, continuavam a atacar o inimigo lhes dando mais tempo para recuar, e sabia que se tratava de um sacrifício. Gritou mais uma vez para que recuassem e viu a maioria descer e correr em direção ao portão, mas alguns insistiram em ficar e lhes dar uma chance.
Desceu da muralha em direção ao pátio cheio de pedras e fogo, e sentiu o tornozelo chiar, mas ignorou a dor, e continuou a guiar os homens para a muralha inferior, enquanto os inimigos começavam a entrar na abertura forçada, e controlavam o fogo.
Atingiu seu primeiro homem em um golpe de espada certeiro no abdômen, e outros dois em seguida com um só golpe diagonal que acertou o peito de ambos, e berrou mais uma vez para que seus homens recuassem.
Alguns vieram lhe proteger, e Arthur os empurrou para que recuassem com os outros.
Outros quarto inimigos se aproximaram, e Arthur dançou com eles. A espada girava aparando seus golpes rústicos, e acertou um dos homens que caiu gritando de dor quando teve o tendão de seu joelho cortado.
Arthur girou sobre si mesmo, e esperou outro ataque. Conseguiu acertar o abdômen de um, e virou a espada para baixo e para trás, para atingir o outro que se aproximava em suas costas.
Quando o terceiro tentou lhe golpear, abaixou a cabeça e espetou a ponta da espada nas suas vísceras.
Ouviu o zunido de uma flecha de besta próximo de seu ouvido, e abaixou-se no chão.
Viu Oberyn no meio do caos avançando a passos largos em sua direção. Seu semblante era raivoso e sentiu que ele iria lhe golpear. Quando tentou puxar a mão da espada para cima, em direção à Oberyn, sentiu o braço ficar preso em algo.
Um soldado Tyrell estava pisando na sua espada impedindo que a empunhasse, e preparando para lhe espetar com a ponta de sua espada enfeitada com desenhos de flores.
Arthur usou sua outra mão para tentar puxar sua espada curta na cintura, porém dois golpes vieram em sua direção, antes que a empunhasse.
Arthur olhou para cima e viu o olhar frio de Oberyn, ao espetar com a lança, o abdômen do soldado Tyrell que pisava em sua espada.
Virou o rosto para o lado quando o sangue espirrou em seu rosto e girou o corpo conseguindo se desvencilhar e agora empunhar a espada.
Arthur apoiou-se em um joelho e viu Oberyn retirar a lança do homem caído, e lhe dar a mão para ajudar a levantar, impaciente.
Aceitou a ajuda enquanto Oberyn lhe dizia furioso:
— Levante-se logo se não quiser voltar para a sua doce Targaryen, enrolado em um lençol branco, e nas mãos das irmãs silenciosas – lhe puxou com força e foi em direção ao seu ouvido para cochichar – Nunca mais tente empunhar uma espada contra mim, quando estiver salvando seu traseiro loiro, dragão!
=^=
Começou a abrir os olhos com dificuldade, e viu a luz das velas próximas a ela e o movimento na enfermaria improvisada, enquanto era colocada em uma maca.
Viu um cabelo claro de alguém que lhe carregava no colo, mas não era o dourado-prateado que esperava ver, e sim o de Brienne.
Merlin veio aflito em sua direção.
— Ela está ferida? – perguntou a Brienne
— Bateu a cabeça quando a muralha veios aos ares. Eu a vigiava de perto, como você bem me pediu, e a resgatei rapidamente.
— Brienne? – perguntou com dificuldade, enquanto tentava se levantar, e sentiu a mão de Merlin lhe abaixar para que voltasse a se deitar.
— Você tem que ficar deitada, teve uma concussão. Deixe-me verificar. – disse enquanto examinava o grande corte em sua testa, que só agora Elaene havia notado que era responsável pelos respingos de sangue que caíam em sua armadura.
— Arthur? Onde ele está?
Viu Brienne olhar para Merlin e responder seriamente.
— Ele liderava o recuo para a muralha inferior.
— A cidadela está perdida? – perguntou com medo, e fechou os olhos quando ouviu a resposta.
— Sim.
— Preciso encontrar Arthur — retirou a mão de Merlin, que examinava seu rosto e levantou-se – Eu tenho que ajudá-lo.
— Lady Pendragon, como seu médico, eu ordeno que permaneça deitada! – arregalou os olhos quando notou que Meistre Gerold se aproximava atrás de Merlin, e lançava um olhar repreensivo para o garoto – Chega, Merlin! Isso já foi longe demais, ela precisa saber. Não se trata mais sobre preservar a concentração de Arthur, é uma loucura que ela esteja lá fora! Se Arthur ou Uther soubessem...
— Do que diabos vocês estão falando, Meistre? Como se atreve a me dar ordens assim? – disse Elaene enquanto ficava de pé, encarando o senhor de perto.
Viu Gwen se posicionar ao lado do Meistre e lhe lançar um olhar envergonhado. O que fosse que Meistre Gerold escondia, ela sabia.
— Elaene, eu venho observando você... há quantas voltas de lua você não sangra? – perguntou Gwen timidamente.
Ela franziu a sobrancelha como se a pergunta fosse repentinamente muito difícil para responder, e gaguejou pelo choque em não conseguir precisar quando foi a última vez que teu sangue viera.
— Exatamente. Você está com enjoos, tonturas e fraquezas, e teu sangue de lua há muito não vem, pelo que Gwen me ajudou a identificar. – Respondeu Meistre Gerold
Merlin tentou interromper o Meistre, mas ele estava determinando a protegê-la, pois sabia que a única forma de Elaene se afastar do caos e de seus estranhos instintos suicidas, seria lhe revelar a verdade. A verdade que Merlin havia lhe pedido segredo, desde a primeira noite em que Elaene passou mal, e despertou sua desconfiança.
— Parabéns Lady Pendragon, você carrega uma criança. O filho de Arthur! Portanto, sente-se nessa maca, se proteja nesses muros sólidos pelo bem de nosso herdeiro!
=^=
Desceu as escadas novamente, rumo à enfermaria improvisada, e viu de longe Meistre Gerold preparar algumas ervas para as queimaduras de um lanceiro Martell.
— Eu preciso lhe pedir algo, Meistre... – disse quando se aproximou das costas do senhor de cabelos brancos como a neve de winterfell.
— Eu já sei o que irá me pedir, Elaene. A resposta é não! Escondi isso tempo demais e minha lealdade está com os Senhores de Camelot.
— Pelo pouco que sei, a lealdade dos Meistres não reside em nenhum Senhor, e sim no que é justo! – Viu o homem bufar impacientemente – Por favor, Meistre, Camelot está em grande perigo. Se algo acontecer comigo, você sabe que ele jamais se perdoará por não ter me protegido.
Viu Meistre Gerold fraquejar e virar para lhe encarar. Considerava Arthur como seu filho e faria o que estivesse a seu alcance para protegê-lo também.
— Eu juro pelos Deuses antigos e os novos, que se sairmos vivos desse inferno, Arthur saberá imediatamente, e acredite quando digo que mal posso esperar para ver seus grandes olhos azuis brilharem para mim quando souber. Mas se eu morrer Meistre, não deixe que ele carregue uma culpa que não merece ter! Arthur não merece esse peso.
=^=
Quando chegou ao grande pátio de Camelot, viu seus homens descansando de um lado, muitos mortos amontoados em um canto, e alguns feridos sendo transportados para a enfermaria improvisada na ala inferior do castelo.
Elaene correu em sua direção quando o avistou no pátio, enquanto ele retirava seu elmo, e pulou em seus braços em um abraço mudo.
— O que é este corte em sua testa? – cochichou no ouvido dela, enquanto ainda mantinha o abraço apertado.
— Não foi nada... – disse sentindo a voz embargada – Tenho tanto medo... Não morra, Arthur!
Arthur riu levemente e soltou um suspiro para responder
— Estou tentando... – disse quando viu Oberyn se aproximar com alguns senhores do Vale e da Campina, juntos de seu pai – precisamos nos reunir com nosso conselho de guerra! — Disse segurando os braços dela e retirando de seu pescoço.
— Arthur, os homens não enxergarão com bons olhos uma mulher no Conselho...
— Que se dane o que eles enxergam com bons olhos ou não... você é minha esposa, minha herdeira e minha sucessora caso eu não consiga atender ao seu pedido em não morrer, portanto, acostume-se a ignorar os olhares de gente mesquinha, porque eu irei lhe colocar naquele maldito trono de ferro, Elaene...
=^=
— É um plano muito ousado, Arthur... – respondeu Uther, desconfiado.
— É nossa única chance!
Arthur havia proposto que uma parte dos homens se esgueirassem pelas passagens secretas, que davam como rota de fuga pelas colinas atrás de Camelot, e rodeassem o castelo, surpreendendo o inimigo por trás, montando uma segunda linha de frente.
As notícias davam que o exército inimigo teve poucas baixas e de que preparavam para invadir a muralha inferior do castelo, construindo apoios de madeira diante do fosso entre o muro e a cidadela.
Em pouco tempo, conseguiriam penetrar Camelot em seu coração, e então, seria tarde demais para todos.
Arthur queria arriscar. Sabia que deveria ser ousado, ou morreriam como covardes acuados.
— Se vocês não conseguirem quebrar a linha de escudos dos Tyrell, na retaguarda, estarão sem muros e sem arqueiros para lhe protegerem, portanto, condenados. Você tem a dimensão disso, filho?
Nesse momento Elaene olhou para o mapa e por fim seu medo foi embora. Lembrou-se do sonho.
— Você deve ir e liderar esses homens como sugere, Arthur. Pelo Leste! É um bom plano. – incentivou Elaene, recebendo um sorriso amoroso dele em retorno.
=^=
Havia amanhecido, e o clima no pátio subterrâneo onde os homens se preparavam para a atravessarem os muros pelas passagens secretas, estava pesado. Podia-se sentir o medo na respiração pesada de cada um.
Arthur havia recebido seu elmo pelo escudeiro, e o segurou nervosamente após o garoto ajustar sua armadura. Ouviu passos, e reconheceu Oberyn se aproximando, vestido com sua armadura dourada como o sol de Dorne.
— Então, o plano é: dar a volta pelas colinas nas pontas dos pés e rezar para que não haja nenhum reforço inimigo lá atrás, atacar a retaguarda dos malditos frescos de Jardim de Cima, quebrar sua linha de escudos e esmagá-los contra a parede?
Arthur ensaiou um sorriso torto e respondeu.
— Esse é o plano, Martell.
— Me parece sensato. Louco e sensato. Sabe, Pendragon, eu aprecio viver. Gosto de um bom vinho dornês, uma boa carne de carneiro assada ao mel e uma boa mulher em minha cama, com sua aveludada boca em volta de meu membro. Esta noite quero voltar para a minha amada Ellaria, e possuí-la até que perca a consciência.
Arthur riu nervoso, enquanto Oberyn continuou.
— Dito isso, Sor Arthur, espero que você não cometa mais nenhuma idiotice heroica lá fora, pois não arriscarei os meus planos para esta noite para salvar seu traseiro de dragão mais uma vez!
— Obrigada, Martell. Eu o julguei precipitadamente lá fora...
Oberyn o interrompeu mais uma vez.
— Além disso, estranhamente sinto afeição pela pequena Targaryen... – continuou mesmo notando o olhar desconfiado de Arthur em si – minha irmã era uma boa mulher, a melhor que já houve. Jamais permitiria que uma criança sofresse as consequências dos erros de seus pais. E se Elaene pensa da mesma forma que ela, como me disse naquele jantar, tem muito de Elia em si... e não quero que ela fique viúva.
— E não irá – respondeu Arthur com um olhar agradecido, ensaiando um aceno de fraternidade.
Oberyn acenou de volta e tocou em seu ombro lhe dizendo baixo e repentinamente frio
— Não pense que me esquecerei de sua promessa.
=^=
Havia chegado a hora, Arthur seguiria pelos corredores subterrâneos junto de seus homens para um dia obscuro que seguiria. Poderia voltar apenas embrulhado em lençóis brancos, nas mãos de irmãs silenciosas, e sentiu o frio na espinha lhe congelar.
Abraçou-lhe ignorando o incomodo da armadura contra ela, e apertou o cabelo dele com os dedos, como se o pudesse segurar para não partir.
Sentiu mãos fortes lhe acariciarem as costas e relaxou deixando o pânico ir embora, e se preencher de esperança. Desvencilhou dos braços dele e segurou seu rosto para um beijo firme, enquanto ouvia um oficial chamar Arthur mais uma vez.
Arthur ignorou o chamado e acariciou o rosto dela mais uma vez, indeciso sobre o que diria, caso fosse a última vez que a visse. A ver com raiva ou medo, se revelasse quem era, ali no meio de um corredor abaixo do solo, não seria a última imagem que teria ter dela. Preferiu não revelar.
— Eu sempre cumpro minha promessa, não é? Eu sempre volto para você...- lembrou-se da primeira vez que Elaene havia lhe feito um pedido inesperado, em Ponte Amarga, e sentiu o peito encher-se de emoção. – Haja o que houver...
Arthur a beijou mais uma vez e afastou-se mantendo sua mão tocando a dela, esticando o braço até onde conseguiu, e sumiu diante da escuridão do corredor dando um último frágil sorriso de lado.
Elaene sentou no chão ao sentir as pernas bambas, e o pânico voltou mais uma vez. Ouviu passos em sua direção, mas nem precisou virar para o lado para ver quem lhe abraçava de lado, e encostava a cabeça em seu ombro. Reconhecia aquela voz, mesmo que agora um pouco mais madura, e a canção de ninar nortenha que cantarolava.
Sua lobinha.
=^=
O regimento de Arthur e os lanceiros de Oberyn conseguiram atravessar as passagens secretas em segurança, e encontraram as colinas atrás de Camelot vazias. Optaram por um caminho mais seguro, e deram uma maior volta entre os morros para se localizarem bem diante da retaguarda do inimigo.
Arthur não escondeu a satisfação ao notar que o plano seguia como pensado, e de que ainda não haviam sido descobertos. As tropas Lannisters encontravam-se dentro da cidadela, armando os suportes de madeira entre o solo e o fosso para invadirem a muralha inferior. Os homens Tyrell estavam expostos no campo, rente à muralha, parcialmente derrubada.
Então, ordenou que os homens formassem uma linha de escudos resistente, e que os homens portassem suas lanças para quebrar a linha de escudos inimiga. Sabia que os Dorneses eram ótimos lanceiros e resistentes em uma linha de corpo a corpo, então ordenou que estes viessem com ele na primeira linha, e Oberyn comandasse os homens evitando serem flanqueados pelo inimigo, por estarem em um número bem inferior.
Com os Lannisters presos entre a muralha inferior e a Muralha externa, seria uma ótima ideia empurrar os Tyrell contra os muros da grande muralha, e esmagar quem viesse pela frente, aproveitando da pequena abertura feita pelos inimigos na Muralha.
Mesmo se Lannisters tentassem mandar reforços para a retaguarda, esses homens estariam impedidos de ali chegarem, pelas dezenas de corpos Tyrell bloqueando o caminho.
Organizou as fileiras e saíram em disparada colina abaixo rumo à muralha. Pôde ver o olhar de espanto dos inimigos procurando por bandeiras entre os homens, investigando se aqueles que desciam a colina eram reforços e se vinham ao seu auxilio. Estavam totalmente despreparados, e viu que os oficiais ditavam ordens aos gritos para tentar organizar ao menos uma frágil linha de escudos na retaguarda.
Quando estavam perigosamente próximos, Arthur ordenou que os escudos fossem puxados e notou a resistente linha que se formou, enquanto ouvia ao fundo Oberyn ditando ordens pelos flancos.
Aproveitou que a linha inimiga estava precariamente organizada, e avançou usando a descida da colina para dar mais velocidade e ferocidade ao ataque.
Quando sentiu o choque de escudo com escudo, Arthur sentiu uma dor nos braços e no peito que chocou com madeira, porém, assim como os homens ao seu lado, se manteve firme, e ordenou que os homens embainhassem as espadas e lanças e derrubassem a linha inimiga espetando os homens em suas frentes.
Tudo seguia como planejado, os Tyrell foram pegos de surpresa e, um a um, caiam no solo próximo a muralha. Arthur sentia dificuldades de caminhar com os corpos no chão, e mesmo assim, sua linha de escudos se manteve firme e feroz, durante muito tempo.
O inimigo tentou flanqueá-los, porém, Oberyn logo dominou os flancos e os ataques inimigos novamente se concentravam em quebrar a linha de Arthur.
Porém, eram muito numerosos, e o cansaço dos homens de Arthur os impediriam de manter a linha rígida por muito mais tempo. Muitos inimigos ainda caiam, mas muitos ainda surgiam e pequenos reforços de arqueiros Lannisters começaram a surgir nas torres de seu próprio castelo.
Com os arqueiros inimigos na muralha, e expostos no campo, não teriam chance. Assim, sua linha começou a fraquejar, e por mais que seus homens fossem bravos e lutassem incrivelmente bem aquela tarde, a linha de escudos estava sendo subjugada, e o inimigo conseguia penetrar suas defesas.
Arthur sabia que era o fim.
=^=
Elaene observava o ataque da torre mais próxima da muralha inferior. Apesar da proximidade com o inimigo, convenceu Meistre Gerold de que estaria segura.
Uther estava ao seu lado, nervoso e impaciente, quando Arthur surgiu no horizonte. Vibraram quando notaram que o plano havia dado certo, e de que haviam pego o inimigo desprevenido.
Porém, enquanto a batalha se seguia, sem que Arthur conseguisse avançar para dentro do coração do inimigo, a aflição tomou conta de todos.
— São tantos... deuses, são tantos.. – suspirou Elaene quando sentiu a mudança da maré.
— Arthur irá conseguir – Respondeu friamente Uther.
Elaene fechou os olhos e por puro instinto pousou a mão no ventre, como se sua magia e seu filho pudessem salvar Arthur. Mas sentia-se tão fraca pelos poderes que utilizou na noite anterior, que não sabia se conseguiria praticar nem uma simples magia naquele momento.
Em visão privilegiada, puderam ver a quebra da linha que Arthur montou, e Elaene sentiu as incontroláveis lágrimas surgirem e descerem pelo rosto.
— Tire eles de lá! – gritou para Uther e agarrou o seu ombro quando viu que ele não reagia – Tire eles de lá, agora! – gritou apontando para a batalha.
Mas Uther desvencilhou de sua mão, e saiu da janela da torre, ordenando para seus oficiais que organizassem uma retirada em massa de mulheres e crianças pelas passagens secretas da colina, antes que o inimigo as encontrassem.
Elaene sabia que ele havia desistido de Arthur. Avançou na direção de Uther, mas foi contida por Merlin, e viu o Senhor de Camelot, com um olhar derrotado, ignorar os apelos dela e descer as escadas em silêncio.
— Você não pode fazer isso! Não pode deixá-lo lá, para morrer! – tentou se livrar de Merlin, mas estava fraca e seu corpo não obedecia, então ajoelhou-se no chão, chorando, e tampando o rosto com as mãos em desespero.
Havia falhado. Pior que isso, havia incentivado Arthur a partir rumo à própria destruição. Arthur, o pai de seu filho.
Não podia mais olhar o horizonte, não podia mais testemunhar a morte de tudo aquilo que ainda acreditava: a esperança, a paz e o amor. Tudo morreria com Arthur.
Viu Gwen correr em sua direção e lhe amparar, porém, não queria se levantar e soltou o braço da amiga, ainda ajoelhada no chão.
— Elaene, venha, levante-se!
— Deixe-me em paz! — Disse com a voz fraca de choro e não notou o olhar atônito de todos na torre.
Apenas notou a palidez repentina no rosto de Gwen, enquanto a amiga encarava o horizonte com os olhos arregalados.
— Aqueles são?... – perguntou Gwen para Merlin, e o garoto soltou um sorriso aliviado, e respondeu em seguida.
— Sim... são!
— Elaene, você vai querer se levantar e ver isso.
Elaene levantou-se rapidamente, ignorando a tontura que sentiu e apoiou-se no parapeito da torre para observar a linha fina do horizonte, e as figuras que surgiam na colina.
Ouviu um Berrante soar de lá, e tambores começaram a ditar um ritmo estranho, enquanto os homens de Arthur conseguiram recuar para longe da agora, forte linha dos Tyrell.
Entre as figuras no topo da colina, Elaene os reconheceu.
Um homem ruivo seguia a frente, e ao seu lado, um lobo gigante imponente. Tão alvo e nobre, quanto a figura do outro lobo bordado em sua bandeira, carregada orgulhosamente pelos homens.
Nortenhos.
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