Queen of ice and fire
6 O uivo dos lobos
Notas iniciais

Quando Robb partiu para a caçada com a comitiva naquela manhã, os observou partirem pela janela de seus aposentos e sentiu-se nervosa sobre seu futuro com Robb. Se seu protegido não abençoasse a união, teriam de desafiar Ned Stark. Não conseguiu imaginar como agiria se tivessem que desafiar aquele homem que lhe serviu como pai por tantos anos. Ned a acolheu em sua casa, a tratando como se do teu sangue fosse.
Sempre recebera o melhor tratamento em Winterfell, além do treinamento nas artes da guerra, dos conhecimentos gerais e de história adquiridos com meistre Luwin, das aulas de idiomas e de anatomia e curas com ervas, entre tantos outros preciosos dons.
Ali, sempre tivera a escolha entre aprender os dotes femininos, ou aquilo que tinha realmente vontade ou que julgava ser mais útil... "O inverno está chegando."
Fechou a janela na tentativa de afastar aqueles pensamentos que surgiam teimosamente. Elaene nunca se sentiu pronta para ser uma Lady, uma Senhora tutora de um castelo como Winterfell. No fundo se sentia indigna de ser esposa do herdeiro e protetor do maior reino de Westeros. Além disso, temia que toda a sua chama se apagasse quando o dever de ser mãe lhe tomasse a chama da juventude. Quais feitos seriam privados? O que perderia?
Decidiu ocupar sua mente com treinamentos de espadas no pátio. Nada de bom viria daqueles questionamentos.
Quando chegou ao pátio de treinos, viu que Sor Rodrik Cassel estava ocupado dando atenção especial ao treinamento dos garotos Starks e organizando um duelo entre Jon Snow e o príncipe Joffrey.
Ás vezes, quando o mestre de armas de winterfell estava presente, treinava com ela com atenção e destreza, porém, Jory também havia partido com a comitiva. Decidiu, portanto, que treinaria sozinha contra o espantalho de treinamento. Ao menos ocuparia a mente, e afastaria aqueles pensamentos teimosos dali.
Pegou sua espada de treinamento feita especialmente para se adequar à sua pequena mão e seu aspecto esbelto.
Eleane era boa com arco e flecha e até mesmo com uma besta. Já vencera vários duelos com Theon Greyjoy. Certa vez, havia elaborado uma disputa, com distancias absurdas e obstáculos cada vez menores. Vencera Theon acertando uma maça podre, posicionada em um tronco há mais de 60 metros de distancia. O prêmio foi simples: um mês sem que Theon pudesse fazer sequer uma piada maldosa sobre ninguém em Winterfell. Fora recompensador.
Porém, como espadachim, Eleane acreditava que nunca seria uma digna de notas. Não se sentia à vontade com o peso das armaduras, suas espadas deveriam ser adaptadas para sua flexibilidade e rapidez, e por vezes, olhava melancólica para seu arco na parede, se sentindo estranha com outro instrumento nas mãos. Mas ela sempre tinha vontade de aprender: lança, maça de guerra, leques de guerra, punhais, bastões e até mesmo correntes.
Havia, porém, aprendido a usar a melhor arma de todas: o fato de ser mulher. Os homens se intimidavam e a subestimavam, sempre! Se perdessem, seriam humilhados. Se ganhassem, não haveria honra. Eleane vencera combates usando o ponto fraco que aprendera sobre seus adversários.
Mirou na cabeça do espantalho e segurando a espada com apenas a mão direita, rodopiou girando a espada sobre sua cabeça, e ao completar a volta, acertando em cheio o boneco. Foi alternando golpes laterais, giratórios e verticais. Então, foi quando ouviu passos atrás de si, e tomada por um impulso, aplicou outro movimento giratório em direção ao intruso.
Arthur parou o movimento no ar com sua própria espada de treino, fazendo soar um baque de metal com o choque entre as duas espadas. Pararam e se olharam por uns segundos, com as espadas cruzadas.
— Você é habilidosa...
Então, Elaene girou sua espada, afastando-a do contato com a de Arthur, jogando a espada do adversário para o lado e em seguida apontando a ponta laminada da sua para o rosto de Arthur, que em sinal de rendição, levantou as mãos para o alto.
— Sou filha do Vale, meu senhor. Crescemos com Tribos selvagens por todos os lados. Qualquer passeio em meio reino pode se tornar um desastre se não souber como cuidar de si. Nós do Vale, aprendemos a empunhar espadas e arcos desde quando aprendemos a andar. Não há nada de galante nisso, só sobrevivência.
—Vocês são um povo incrível. Já visitei suas terras quando eu e meus irmãos passamos uma temporada nos domínios de Sor Royce. Um lugar belo, selvagem, inexpulgável... — disse enquanto analisava as feições do rosto de Elaene, percebendo o quanto à jovem era a descrição perfeita de onde viera, era bela, selvagem e inatingível. Admirava Robb ainda mais por ter conseguido atingir a muralha que Elaene parecia erguer à todos, menos ao amado.
Se sentindo tímida quando percebeu que Arthur a comparava com o próprio Vale, abaixou a espada, voltando a atenção ao boneco em sua frente.
— Notei que estava treinando sozinha, resolvi vir oferecer minha ajuda, se não julgar inconveniente. Seria uma honra.
—Não será necessário Sor, eu o agradeço.
Nesse instante, Elaene se preparava para executar outro golpe em direção ao boneco mirando e segurando firme a espada, quando Arthur se aproximou em suas costas, a abraçando, e corrigiu sua postura.
— Com sua permissão, minha senhora. Suas mãos são delicadas, talvez se sinta mais à vontade em relaxar mais os braços. Quando você tenciona o ombro dessa forma, seu movimento se torna mais impreciso, e você tende a cansar mais os braços de maneira desnecessária, assim...
Encostou nos braços de Elaene, corrigindo, os fazendo ficarem mais maleáveis. Em seguida, e ainda por trás de Elaene, segurou sua mão, protegida pela luva de treino, e a deixou mais relaxada enquanto segurava a espada.
Nesse instante, Elaene desviou o olhar para o lado ao encontro de Arthur, se sentindo assustada com a aproximação tão repentina, com o rosto a uma distancia mínima do seu.
—Bem melhor. Vê? Sua precisão irá melhorar... — Só então Arthur percebeu o que fizera, e o olhar assustado de Elaene perto do seu.
Por puro instinto, não pôde resistir em olhar para os lábios de Elaene. Estavam entreabertos pelo susto e pareciam ainda mais convidativos com a respiração dela batendo em seu rosto.
— Desculpe-me, minha senhora. Não quis lhe importunar — disse Arthur se afastando rapidamente, balançando a cabeça e fechando os olhos, retirando à força a sensação e a imagem dos lábios dela em sua mente.
— Tudo bem, Sor Arthur. Obrigada pela ajuda, não me esquecerei. Porém, realmente gostaria de continuar meu treinamento, sozinha, se não lhe soar ofensivo.
—De maneira alguma, me perdoe, mais uma vez. Não era minha intenção lhe atrapalhar. Deixarei que continue seu treinamento em paz. Com licença.
Observou Arthur caminhar para fora do pátio, não antes de olhar para trás mais uma vez.
Elaene se sentiu estranha. Havia algo de muito familiar naqueles olhos e na forma que ele lhe olhava. Saiu do transe quando sentiu o cutucão de Arya em sua cintura.
— Você prometeu me treinar hoje, Lê.
Bagunçando os cabelos de Arya, respondeu:
—Minha lobinha, me perdoe por estar tão dispersa ultimamente.
Agachou-se para ter um melhor contato visual com a garota.
—Não tenho sido uma boa amiga com você. Eu bem sei.
—Não se preocupe, Lê. Sei que você está triste...
—Não estou triste, de onde você tirou isso?
—Está sim, seus olhos estão cansados, então sei que não anda dormindo bem. Além disso, você mal sorri ultimamente.
Elaene sorriu melancólica.
—Quero você como esposa do meu irmão, Lê. Só você! Quero ficar com vocês pra sempre em Winterfell... não quero que você vá embora nunca... prometa-me Lê, prometa-me.
Arya tornou-se agitada.
—Você é minha melhor amiga, minha única amiga... prometa!
—Ei, o que é isso? É claro que nunca vou te deixar. Jamais. Meu lugar é aqui. Entendeu?
Arya deu um abraço apertado em Elaene, que soltou a espada de treino no chão, para aconchegar a menina em seus braços.
— Só você me entende, Lê. As outras garotas, elas são todas umas idiotas. Sansa, Jeyne, Septã Mordane...
—Ei, não fale assim da sua irmã. Vocês são diferentes, mas são uma família. Lembra dos dizeres de sua família?
Elaene afrouxou o abraço para olhar nos olhos da garota segurando gentilmente seu rosto entre suas mãos.
—O inverno está chegando...
—Os lobos podem ser solitários — disse apertando a ponta do nariz de Arya com o dedo indicador — mas no inverno, apenas a alcateia sobrevive.
Suspirou tristemente.
—O que você sabe sobre a vinda do Rei?
—Ele vem buscar o pai, para ser a Mão do Rei.
—Sua irmã Sansa, poderá ser prometida ao príncipe Joffrey, você bem sabe.
Arya torceu o nariz, do jeito que Elaene conhecia.
—O príncipe é um imbecil. Não gosto dele.
Elaene riu.
—Sua irmã poderá partir com teu pai para a capital. E se ele decidir por te levar também, prometa-me que protegerá Sansa, e seu pai?
—Só irei se você for.
—Meu lugar é ao lado de Robb também, minha lobinha. -Elaene lhe sorriu- Mas prometo não ficar longe por muito tempo. Você não irá ficar livre de mim. Quem irei treinar com Arco pela mata? Despentear os cabelos, apertar o nariz, confidenciar os roxos de cada dia de treino e mostrar cada cicatriz com um orgulho inspirador?
—Eu tenho mesmo de ir?
— Se teu pai lhe chamar, você tem de obedecer. Será bom pra você na corte, você verá. Seu pai terá tempo e escolherá um belo e nobre cavaleiro para ser seu prometido. Você será senhora de um grande castelo, e terá como filhos bravos cavaleiros.
—Essa não sou eu. Essa é a Sansa.
Arya virou as costas, e correu pelo pátio de treino em direção ao castelo.
Elaene sentiu um arrepio estranho com aquelas palavras. Olhou para o céu, e uma imensa nuvem de tempestade se aproximava no horizonte. Um vento zumbiu pelas pedras do pátio lhe atingindo friamente no rosto.
Pela primeira vez, as palavras da Casa Stark lhe apavoraram “O inverno está chegando”...
=^=
Com a comitiva fora de Winterfell para a caçada com o Rei Robert, Winterfell voltara a ter um pouco daquela paz conhecida de antes. Algumas poucas pessoas ficaram para trás, rostos desconhecidos e outros nem tantos.
Ainda com as palavras de Arya em sua mente, Elaene caminhava ao entorno do castelo principal, agradecendo a calmaria e brincando com um das argolas de sua cota de malha de treino.
“Essa não sou eu. Essa é a Sansa.”
Indagava qual seria o seu destino, também. Se não fosse com Robb, não seria de mais ninguém. Não se imaginava cuidando de um castelo ao lado de qualquer outro senhor que fosse. Sentou-se encostado as costas na parede de pedras.
Porque seu pai não lhe amava? Porque não lhe deixava ser feliz? Porque a havia escondido no norte, tão longe de casa? Nem ao menos conhecera a Capital... Porque o amor não podia ser livre?
Suspirou triste com tantas perguntas que tinha guardado, e ninguém havia ali para lhe responder. Seu pai estava morto e se ainda havia respostas para tudo aquilo, apenas uma pessoa a deteria: Ned Stark.
Suspirou descansando a cabeça entre as pernas.
Nesse instante, ouviu um burburinho vindo em direção da torre ao Sul do castelo. Eis que viu Jon Snow correndo em sua direção, com um olhar assustado e arregalado.
—Elaene, vá para o castelo e chame o meistre Luwin e a Senhora Stark imediatamente!
—O que aconteceu, Jon? Está me assustando.- Disse Elaene, se levantando.
—Bran estava escalando outra vez. O intendente o viu no chão, desacordado. Ele caiu.
—O que quer dizer com, “ele caiu”, Jon? Caiu de onde?
—Bran escalava a torre de vigília abandonada ao sul...
Elaene o interrompeu
—Bran nunca cai!
—Ele caiu...ele caiu...
Antes de voltar a si, Elaene botou as mãos na cabeça em desespero.
Ned e Robb estavam fora. Deveria ser forte e apoiar Catelyn Stark, girou sobre os pés e correu em direção ao castelo, levando as palavras negras à senhora do norte.
=^=
Elaene se sentia arrasada, mas em nenhum momento transpareceu fraqueza alguma. Quando viu Bran deitado imóvel, com um aspecto pálido horrível, sentiu um bolo de choro formar em sua garganta.
Viu Bran nascer, o viu crescer. E o viu escalar. Dezena de vezes, e nunca cair. Ele nunca caía.
Enfiou a mão nos cabelos do menino, que dormia em sua cama. Meistre Luwin havia dito que as próximas horas seriam determinantes, e a vida do pequeno Lorde estava por um fio.
Olhou para a Senhora Stark e sentiu um aperto no peito. Catelyn era uma mulher linda com seus longos cabelos ondulados e vermelhos, seus olhos de um tom azul claro e suas maças do rosto protuberantes.
A mulher que estava na sua frente estava arrasada, com rosto inchado e as lágrimas não paravam de escorrer por seu rosto enquanto acariciava a mão de Bran.
Sentiu Meistre Luwin lhe encostar nos ombros.
—Elaene, está tarde. Seria melhor ir descansar.
—Não tenho sono, meistre. Não deixarei Bran e nem a Senhora sozinhos...
Depois de muito tempo em silencio, Catelyn lhe dirigiu a palavra pela primeira vez:
—Vá, minha filha. Nada há para fazer aqui. Preciso que você esteja forte para estar com Arya, Sansa e Rickon. Faria isso por mim?
—Claro, Senhora Stark. Não tenha nenhuma preocupação em mente. Providenciarei tudo que for necessário enquanto vosso marido e filho estão fora.
Segurou a mão da Senhora, tentando lhe transmitir o melhor sorriso de conforto. Queria dizer algo como “vai ficar tudo bem”, ou “Bran irá acordar”, mas preferiu dizer tudo com o mais singelo e sincero olhar.
Rickon foi o primeiro a adormecer. Era não mais que um bebê, inocente e perdido no meio de tudo aquilo. Não fazia nenhuma ideia da gravidade da lesão do irmão.
Mas o garoto sentiu falta da mãe e principalmente do pai, que por mais que explicasse que estaria fora caçando com o irmão mais velho e o Rei, o garoto continua a resmungar e chamar pelo nome de seu protetor.
O próximo quarto, foi o de Arya. A garota estava olhando pela janela, quando o uivo dos lobos soavam la fora.
—Minha lobinha, está tarde. Precisa dormir...
Sem ao menos olhar para trás, Arya respondeu ignorando o que havia ouvido
— Eles sabem que Bran está morrendo. Eles conversam entre si, eu sei.
—Do que está falando Arya? Seu irmão não está morrendo, não diga isso. São apenas lobos uivando.
—Você sabe muito bem que não são apenas isso, Lê. Eu sinto o uivo de Nymeria lá fora, sinto o uivo do cão felpudo, de fantasma, da Lady, vento cinzento, e do lobo de Bran. Sinto a dor deles... o lobo de Bran, ele sofre tanto.
—Arya, olhe para mim.- Elaene atravessou o quarto ficando de frente para a menina. — Bran está mal, não posso mentir para você, lobinha. Meistre me disse que suas costas foram amassadas no chão, e poderá não acordar. As próximas horas irão determinar o futuro do vosso irmão.
Abaixando-se, continuou.
—Preciso que seja forte, por mim, por Bran e por sua mãe. Entende?
—Sim...
—Lembra das palavras que trocamos hoje no pátio? ´
—Alcateia unida, sobrevive.
—Os lobos sofrem lá fora, e aqui dentro. Preciso que fique forte, minha loba. Tão forte quanto Nymeria...
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