Queen of ice and fire
24 Morrer por honra, viver por amor
Notas iniciais

Elaene acordou com seu próprio grito. O sonho fora real. Só poderia ter sido.
Olhou assustada à sua volta e notou os vários cacos de vidros do vaso no chão, e as flores que antes estavam no recipiente, agora estavam esparramadas pela escrivaninha enquanto as gotas de água continuavam a pingar pelo chão de madeira.
Levantou da cama em um salto, e saiu correndo, desceu as escadas quase tropeçando nos próprios pés. Corria de encontro a tenda até sentir as pernas amolecerem.
Atravessou o pátio do castelo e viu soldados lhe lançarem olhares curiosos. Somente quando atravessou o portão, notou que estava apenas com suas vestes de dormir. Não deu a mínima. Sentiu os pés doerem com os galhos no chão, e espinhos que fizeram sua sola dos pés sangrarem. Avançou mancando na entrada da tenda.
Quando entrou, viu Arthur segurando um cavaleiro pelos ombros e o chacoalhando, como se o quisesse fazer voltar à realidade.
— Nunca irão acreditar em você. Vá agora, Brienne! Estarás a salvo lá. Agora! – Elaene olhou assustada para a figura em sua frente que chorava compulsivamente, e notou tratar-se de uma mulher.
Brienne se afastou com dois passos para trás, e notou a presença de Elaene, a anunciando para Arthur. Ele olhou-a assustado.
— O que faz aqui? – Perguntou enquanto Elaene avançava contra ele, segurando seu rosto nas mãos e examinando seu pescoço e dorso à procura de ferimentos.
—Elaene? – perguntou mais uma vez, mas ela chorava e o olhava com um olhar aterrorizado, sem conseguir dizer nada. – O que faz aqui? – perguntou Arthur, mais uma vez.
— Eu vi tudo, Arthur. Vi tudo. Vi machucar você! – Conseguiu dizer num sussurro, porém quando olhou de relance, viu o corpo de Renly deitado, sem vida.
Sentiu os joelhos quebrarem e os olhos saltarem ainda mais da órbita. Arthur a segurou pelos braços, a impedindo de desabar no chão.
— Deuses, aconteceu! – Sentiu as lágrimas jorrarem enquanto Arthur a segurou num abraço apertado para lhe acalmar.
— Brienne, eu cuido disso. Faça o que pedi. Você tem de ir agora, ou morrerá antes que amanheça. Entendeu? – Disse com Elaene chorando com o rosto cravado em seu peito.
Quando Brienne saiu para cumprir o plano que Arthur havia traçado para ela, segurou o rosto de Elaene com as mãos, tentando fazê-la se recompor.
— Você não pode ser vista comigo aqui, Elaene. É muito perigoso! Podem acreditar que você está envolvida.
Elaene recobrou a consciência.
— Arthur, você deve partir comigo. Agora! Não irão acreditar em você também.
Arthur olhou para baixo, sabendo que ela estava certa.
— Não tenho escolha! Se eu partir, será minha sentença de culpa.
— Se ficar, será sua sentença de morte! – Disse Elaene retirando as mãos dele de seu rosto, as segurando. – Por favor, Arthur. Venha comigo!
— Não posso, Elaene. Sinto muito!
— Você será morto, Arthur! Assim que Loras entrar por essa tenda, não há quem o impedirá de transpassar sua espada em você.
— Ele pode tentar, mas assim estarei me defendendo e não fugindo de algo que não fiz. – Disse com firmeza.
— Se você não for, eu não sairei dessa tenda. Direis que sou sua cúmplice, o que não será mentira – Disse sentindo Arthur ceder. — Fuja comigo, por favor... fuja comigo. Arthur... – Repetiu aproximando seu rosto do dele. — ...não morra por honra, viva por amor.
=^=
Arthur havia cedido às súplicas de Elaene, e sorrateiramente apanharam sua égua e partiram em uma fuga desesperada e acelerada.
Estavam evitando as estradas e não haviam descansado desde quando fugiram de Ponte Amarga. Quando a noite deixou a trilha muito perigosamente escura, encontraram uma gruta para descansarem e depois seguirem viagem com o primeiro raio de luz no horizonte.
Permaneceram em silencio durante quase todo o trajeto, e agora estavam encarando o fogo da fogueira que compartilhavam.
Elaene desviou o olhar para ele, e notou o quanto ele estava triste e abatido. Ele sentiu o olhar e encontrou com o dela.
— Vamos provar sua inocência, Arthur.
Ele desviou o olhar para o chão, como se não tivesse ouvido nada.
Ela pegou-se lembrando de tudo que viu na tenda. Sabia que havia sido alguma magia negra usada pela Sacerdotisa vermelha. Sentiu um aperto no peito ao pensar que fora o amuleto que de alguma forma havia salvado Arthur.
Aquela maldita bruxa o queria morto e perguntou se teria salvo Arthur realmente com algum tipo de poder que possuía, ou apenas assistido à tudo de uma forma passiva enquanto sonhava.
Teve vontade de compartilhar os pensamentos e dúvidas com ele, mas ficou com medo da reação que ele teria. Poderia considerá-la uma bruxa também, e não suportaria ver o desprezo no olhar dele. Precisava encontrar Merlin.
Encostou a cabeça na parede na qual estava apoiada, e sentiu-a pesar com tantas coisas não ditas. Depois de um tempo deitou-se de lado com as mãos apoiando a cabeça, e adormeceu com o cansaço do dia.
Arthur a observava dormir, e ali tentou encontrar forças para enfrentar a desonra que trouxe para sua família.
Seu pai acreditaria nele? O apoiaria?
Sentia medo das conseqüências de um ato que nem ao menos foi responsável. Sabia que deveria ter ficado e honrado seu titulo de cavaleiro, lutando por sua inocência. Mas olhando-a dormir incrivelmente tão serena em sua frente, sentia sua convicção desvanecer.
Queria acordá-la e beijá-la. Dizer a ela que se não o amava, estava tudo bem, poderia mentir para ele. Porque bem ali, naquele momento, ela era a única coisa em que ele acreditava.
Levantou-se e retirou seu colete de couro fervido, a cobrindo. Tentou evitar olhar para suas vestes de dormir que eram finas e marcavam seu corpo. Retirou uma mecha de cabelo que teimava em ficar na frente de seu rosto, e desejou que aquele momento pudesse durar um pouco mais.
=^=
Acordou com Arthur chamando teu nome suavemente e a tocando gentilmente no ombro.
— Elaene, o sol irá nascer. É melhor seguirmos viagem, estamos bem próximos à Camelot.
Sentia o corpo imensamente cansado, mas esforçou-se a por de pé para partirem. Desejou em silencio que pudesse se banhar, pois ainda estava com as vestes de dormir e os pés descalços, sujos e machucados.
Dividiam o mesmo cavalo, com Elaene na frente de Arthur. Ela percebeu que ele ficava desconfortável com aquela aproximação tão íntima, e poderia jurar que ele aspirou o aroma de seus cabelos algumas vezes pelo caminho.
Ele estava calado, abatido e distante durante todo o percurso, e o silêncio parecia não ter fim. Quando por fim atravessaram as águas do rio Avalon, entrando no território de Camelot pela primeira vez, sentiu o alívio invadir sua mente. Estavam a salvo. Ou pelo menos por enquanto.
Alcançaram o castelo no final da tarde, e estranhamente notou a tensão nos braços dele, no lugar do alívio. Os guardas anunciaram sua chegada e abriram prontamente o portão.
Quando desmontaram, Arthur lhe pegou pela cintura lhe ajudando a descer, porém mais uma vez evitou o seu olhar. Ela viu caminharem em sua direção um meistre idoso, e uma moça de cabelos longos e com largos cacheados castanhos. Ela tinha uma pele oliva que brilhava e olhos pequenos e negros.
A moça viu Arthur e saiu correndo em sua direção. Viu que ele preparou-se para um abraço, porém a jovem lhe agarrou o pescoço e beijou sua boca com vontade. Elaene sentiu-se chocada e desviou o olhar para baixo, sem saber qual forma deveria se portar.
Arthur segurou a moça pelos ombros para a olhar nos olhos e ela pareceu não se ofender com a interrupção, e tocou o rosto dele com as mãos.
— Guinevere, esta é Lady Elaene Arryn. – Arthur disse as palavras lentamente para que Gwen concentrasse em quem estava ao lado dele, e se comportasse de outra maneira.
Gwen olhou para o lado e por fim entendeu o recado. Era ela. Elaene.
Com muita naturalidade, fez reverência para Elaene, que ainda não conseguia olhar para cima, tomada por um sentimento que não estava habituada a sentir.
— Lady Arryn, sinto muito. – Disse Gwen não conseguindo segurar um riso abafado, porém divertido. – Sor. Arthur falou muito bem sobre você, mas não poderia imaginar que era realmente tão linda quanto ele afirmava.
Elaene devolveu a reverência ainda com muita timidez.
— Prazer em conhecê-la, Lady Guinevere. Arthur é um amigo gentil, certamente.
— Amigo? – Disse Gwen com estranheza e provocação.
— Onde está meu pai, Meistre Gerold? — Disse interrompendo Gwen, quando o senhor se aproximou deles.
— Esperando-te. Não preciso acrescentar que está furioso...
— Certamente, não. Gerold, por favor, cuide dos ferimentos de Lady Arryn. E Gwen, providencie os aposentos para que descanse, e faça com que ela se sinta o mais confortável possível. – Disse as últimas palavras lentamente, como um pedido implícito para que não deixasse a situação ainda mais constrangedora.
=^=
Uther entrou como um trovão dentro do salão, e Arthur logo soube que a ira havia sido despertada. O dragão acordou.
— Mas o que diabos aconteceu em Ponte Amarga, Arthur???
— Pai, você precisa me ouvir com calma?
Uther avançou contra Arthur, agarrando sua garganta em um só movimento. Apertou-a e o empurrou até ele encostar as costas na mesa atrás de si.
— Você resolveu seguir o mesmo caminho de seu amigo Lannister? Resolveu que jogaria nossa família na lama e na desgraça por conta de um regicídio?
Arthur não esboçou reação alguma enquanto o próprio pai o enforcava. Estranhamente não teve forças para se defender, nem mesmo por palavras.
Uther vi o rosto do filho roxear e soltou o aperto com um suspiro furioso.
Arthur tossiu e massageou o pescoço com as mãos, virando o corpo para trás, para se apoiar na mesa.
— Eu não matei ninguém, meu pai. Obrigado por confiar em mim.
— Se foi aquela maldita e monstruosa cavaleira de Tarth quem matou Renly, porque fugiste de lá como um infeliz ladrão de cenouras? — disse com os dentes cerrados em sinal de fúria
Ainda com a voz fraca, Arthur continuou.
— Somos inocentes, pai. Nem eu, nem Brinne Tarth matamos Renly. Stannis e aquela maldita sacerdotisa vermelha invocaram alguma espécie de magia negra para matarem o próprio irmão.
Uther lhe lançou um olhar com misto de espanto e incredulidade.
Arthur continuou o encarando.
— Se nem ao menos meu próprio pai acreditas em mim, como aqueles homens acreditariam? Se ficasse, seria morto pelos súditos leais à Renly, antes que o dia clareasse. – Abaixou o olhar e sentiu o amuleto de Elaene ainda em seu pescoço. – Eu escolhi viver.
Uther foi em direção à janela, controlando a vontade de avançar novamente contra o filho.
— Estamos acabados. Lannisters e Tyrells contra nós. – Porém, como um clarão, ele mudou a expressão do rosto repentinamente. – Mas temos um trunfo nas mãos.
Arthur lançou um olhar questionador, e Uther respondeu sua indagação.
— Elaene Arryn.
— Não seria Elaene Targaryen? – Arthur respondeu por instinto.
— Ela será o que for conveniente para ser. No momento, é melhor que seja Arryn. Ela herdará o Vale. Pessoas poderosas do Vale de Arryn renegam Lysa e seu maldito filho doente. — disse coçando o queixo e caminho em direção à porta.
Antes de sair do salão, continuou.
— Trate de mantê-la em Camelot, Arthur. Não me interessa qual método usará para isso. Precisamos dela. Irei entrar em contato com algumas pessoas, hoje mesmo.
Arthur sentiu um profundo desprezo pelo próprio pai. O homem que durante toda a sua vida, lutou tanto para orgulhar.
=^=
Elaene havia tratado de seus ferimentos nos pés e sentiu-se ainda mais agradecida quando tomava um demorado banho no salão de banhos de Camelot. Apoiou a cabeça no mármore gelado da quina da banheira quando ouviu um barulho na porta de madeira. Tensionou o corpo, e logo viu que era Guinevere.
Ela usava um roupão de pano envolto no corpo e sem dizer absolutamente nada, jogou-o no chão revelando que estava absolutamente nua, e entrou na mesma banheira que ela.
Elaene paralisou. Primeiro, surpreendeu-se com a naturalidade com que a garota na sua frente retirou a roupa, revelando o seu corpo escultural para ela. E depois, ao vê-la entrar na mesma banheira que ela, em sua frente, enroscando as pernas entre as suas. Sentiu vergonha da própria nudez, e abraçou o próprio peito.
— Você está melhor? – Disse Gwen deitando a cabeça na quina, preparando-se para relaxar.
— Sim. Obrigada. – Respondeu secamente, não podendo esconder a timidez.
— Ele realmente gosta de você, Elaene. – Disse abrindo os olhos apenas para ver Elaene lhe encarar também. – E precisa de ti, agora.
Elaene teve vontade de perguntar sobre o relacionamento entre eles, mas sentiu-se intimidada.
— Não se preocupe, Gwen. Arthur é muito querido, e sei de sua inocência. Farei tudo o que puder para ajudá-lo, podem contar comigo.
— É obvia a afeição de ti por ele, Elaene. – Disse com um meio sorriso que lhe lembrou Theon Greyjoy. – Não quero que se sinta intimidada com minha presença. Não se preocupes. Arthur me considera como uma amiga, apenas.
Elaene sentiu o rosto queimar.
— Não estou preocupada, essa questão realmente não me diz respeito.
— Claro... – disse com mais um sorriso torto – E pelos deuses antigos e os novos, não diga a ele que invadi o teu banho. Ele sabe ser bem irritante com suas ordens e etiquetas. – Disse rolando os olhos, fazendo Elaene relaxar um pouco e esboçar um pequeno sorriso – pelos deuses, somos mulheres, nascemos de uma mulher, não há nada de mal em tomarmos banho juntas!
— Pode contar com meu silêncio. – Disse suavemente.
— Mas ele é um bom homem, Elaene. Bem da verdade, queria que Lancelot fosse como Arthur.
— Sor Lancelot? – Disse soltando os braços e sentindo-se cada vez mais relaxada.
— Sim, Lancelot. – Disse olhando para baixo, revelando uma face tímida que até então Elaene não tinha visto.
— Não vou mentir, Elaene. Viver em Camelot com Arthur e Lancelot, é uma tarefa árdua para qualquer mulher manter-se donzela. Arthur, Lancelot e eu nos enroscamos por esse castelo, desde muito jovens. Eu sempre gostei dos dois, porém Arthur, apesar de ser insanamente bom de cama... – disse olhando para Elaene para testar sua reação, e ver que mais uma vez, ela mordeu o lábio e teve o rosto tomado pelo rubor – é mais um parceiro, entende?... E Lancelot sempre foi um incrível idiota, que de alguma forma não me enxerga da forma que eu gostaria...
Suspirou olhando para a janela da qual saia os últimos brilhos do sol e continuou.
— De qualquer forma, sempre soube que quando Arthur se apaixonasse de verdade, sossegaria e eu teria que procurar outro “amigo”... à altura. – Disse rindo deixando Elaene intrigada. – Desejo tão bem a ele, fico feliz que ele tenha encontrado a mulher de sua vida, o seu amor épico, e que ela o corresponda, mesmo que ainda não perceba.
Elaene sentiu-se confusa, e por instantes perguntou a si mesma se seria sobre ela a quem Guinevere se referia.
=^=
Depois de seu banho, Gwen lhe ajudou a aprontar-se para conhecer seu anfitrião, Uther. Vestia um elegante vestidobranco com mangas longas. Gwen escovou seu cabelo e fez um coque.
Assim que terminou de se aprontar, Arthur pediu licença para entrar em seus aposentos, enquanto Gwen se retirava.
— Como estás? – Disse ainda parado, a observando da porta.
— Estou bem, eram apenas ferimentos superficiais. Meistre Gerold foi muito atencioso, assim como Gwen. Obrigada!
Arthur deu um sorriso triste e Elaene sentiu toda sua preocupação e tristeza naquele gesto. Não suportava vê-lo daquela forma. Atravessou o quarto e o abraçou em silêncio, aninhando seu rosto em seu peito.
— Estou feliz que esteja aqui. – Disse Arthur baixinho, enquanto acariciava as costas dela com as mãos.
Elaene olhou por cima dos cílios não soltando o abraço.
— Estou feliz em estar aqui.
Quando lhe sorria ternamente, vendo o sorriso dele em retorno, notou as marcas no pescoço dele.
— O que foi isso? – Disse por fim, soltando o abraço, e passando a ponta dos dedos nos hematomas no pescoço dele.
Arthur segurou sua mão e a beijou, colocando-a em seu rosto.
— Não foi nada. É melhor descermos, Elaene.
— Arthur. Brienne...
— Não se preocupe, amanha cedo iremos até Avalon para ver se chegou a salvo. Não poderíamos partir antes, pois geraria suspeitas.
=^=
Quando Arthur em um gesto de cavaleirismo abriu a porta do salão para que ela entrasse, ficou encantada com o tamanho do lugar. Um enorme corredor onde residia uma mesa de madeira nobre. Nas paredes tapetes, bandeiras e armas de guerra, decoravam o lugar. Viu Bandeiras de diferentes dragões pelo salão, e lembrou-se de Meistre Luwin dizer que os Pendragons eram orgulhosos de sua origem da Antiga Valíria, e faziam questão de ostentar bandeiras de outras casas das quais compartilhavam suas origens.
Agora, com os Targaryens acabados, entristeceu-se em perceber que dentre os chamados dragões, os Pendragons eram os únicos que permaneceram. Eram solitários, que nem ela.
No lugar de honra da enorme mesa, estava seu anfitrião, Uther Pendragon. Ele pareceu-lhe mais novo do que imaginava, apesar de ter cabelos levemente grisalhos. Arthur seguiu logo atrás dela e notou que Lancelot e outro rapaz que não conhecia, já estavam na mesa e se levantaram quando a viram.
Quando aproximou-se ainda mais de Uther, notou que seus olhos eram de cores diferentes, um verde e outro castanho claro. Ficou intrigada com o efeito que faziam no rosto dele, praticamente dividindo suas feições em duas faces.
O homem gentilmente se apresentou beijando a mão dela, e acenou para que os filhos fizessem o mesmo.
— Lady Arryn. – Lancelot parou em sua frente, tomando sua mão galantemente para um beijo casto.
— Sor Lancelot, feliz em revê-lo. – Disse com um sorriso cortês.
— Lady Arryn, encantado em por enfim conhecê-la. Sou o irmão caçula de Arthur, Gwaine. Ouvi falar muito bem de ti. – Disse um rapaz que muito lhe lembrou Arthur. Era loiro e tinha olhos castanhos e suaves. Apresentava ser muito jovem, talvez da idade de Sansa.
—vEncantada. – Disse Elaene mais uma vez, polidamente e impressionada com a semelhança dos irmãos.
— Por favor, Lady Arryn. Sente-se e fique à vontade. Nos conceda a honra de compartilhar a ceia conosco, admirando sua beleza.
— És muito gentil, Lorde Pendragon. Vejo onde Arthur herdou sua cortesia – Disse sentando-se e percebendo que Arthur sentou-se a seu lado.
— Lorde Pendragon, sobre o que aconteceu em Ponte Amarga...
— Não vamos estragar nossa ceia com assuntos desagradáveis, Lady Arryn. – Disse a interrompendo – Por favor, deixemos esses assuntos para outro dia. Por hora, gostaria apenas de conhecê-la melhor e apreciar sua companhia, se não se importar.
— Claro que não, meu Senhor. Assim será. – Disse com um sorriso educado, mas quando lançou um olhar confuso para Arthur, ele olhava para baixo evitando o contato. Sabia que havia algo de muito errado.
Ao final da ceia, Uther ofereceu para acompanhá-la para uma volta pelo castelo de Camelot, para que conhecesse o local. Conversaram sobre Jon Arryn e Ned Stark. Uther havia oferecido seu braço como apoio durante todo e percurso e mostrou-se bastante receptivo e simpático com ela, principalmente quando tocaram no assunto sobre Jon Arryn.
Elaene não pôde deixar de notar que Uther destacou, mais de uma vez, a forma com que os Pendragons entraram na batalha do Ramo Verde, ao lado dos Nortenhos e Senhores das Terras Fluviais, para defender a honra de seu pai, e seu protetor.
Quando Uther começou a elogiar Lorde Royce, vassalo dos Arryn, e a forma com que ele a admirava, Elaene matou a charada. Uther era um homem astuto, tão quanto o seu pai fora. Ele queria alianças com os senhores do Vale para que ela tomasse o lugar de seu meio-irmão na sucessão do Ninho da Águia. Deixou o homem acreditar que estava a manipulando. Pois bem, o manipularia também.
Após a longa caminhada pelo castelo, despediu-se do anfitrião, e retirou-se para seus aposentos.
Logo após desfazer o coque em seu cabelo, sentada na cama e refletindo sobre tudo que Uther lhe disse, ouviu batidas suaves na porta.
Era Arthur novamente. Abriu a porta e foi novamente recebida com um sorriso frágil.
— Ei... – disse com um sorriso terno no rosto, tentando contagiá-lo. — Entre.
Arthur entrou mas manteve-se com o olhar baixo.
— Vim saber se está tudo bem contigo. Espero que meu pai não tenha lhe perturbado muito.
— Imagina, Arthur. Seu pai foi muito gentil. – disse escondendo que percebeu que estava sendo manipulada por Uther. – E você, como está?
— Estou bem. Não quero que se preocupes comigo.
Sabia que ele estava mentindo.
— Arthur, temos que conversar sobre o que ocorreu aquela noite...
Arthur caminhou até a janela, para fugir de seu olhar questionador.
— Não há sobre o que conversar, já que não sabemos o que aconteceu.
— Há algo que não lhe disse... – tinha medo, mas deveria contar a ele.
Arthur virou-se para trás.
— O quê?
— Talvez eu não apenas tenha visto tudo acontecer enquanto sonhava. – disse brincando com a manga do vestido – Acredito que quando eu vi a sombra avançar sobre ti, posso ter invocado algum tipo de poder nesse amuleto.
— Não seja absurda, Elaene. – Disse Arthur voltando a virar para a janela.
— Quando pensei que ela iria lhe matar, entrei em pânico e utilizei algo desconhecido dentro de mim. Gritei com susto ao mesmo tempo que um forte clarão espantou a escuridão, e quando acordei, havia estilhaçado tanto a janela de meu quarto, quanto o vaso de flores. – Disse botando a mão no cabelo, sentindo o horror ao lembrar do que aconteceu.
Arthur ficou surpreso, pois nunca havia dado detalhes do que ocorreu naquela tenda. Como ela poderia saber da sombra, do clarão e do grito? Ficou algum tempo calado, tentando raciocinar e encontrar respostas mais coerentes.
— Preciso encontrar Merlin Reed, acredito que ele possui respostas.
— Não posso permitir que partas agora, Elaene. Por favor, fique. Ainda é muito perigoso.
— Se eu não posso ir ao encontro de Merlin, talvez ele possa vir ao meu encontro.
— Isso, podemos providenciar – Disse virando-se para ela, novamente com um sorriso triste no rosto.
Elaene não se conteve e aproximou-se dele.
— Não suporto te ver assim. Por favor, me digas o que tenho de fazer para que volte a sorrir com os olhos.
Arthur caminhou para ficar ainda mais próximo dela e acariciou o seu cabelo enquanto pensamentos rodavam em sua mente. Queria poder abrir o jogo e contar tudo o que realmente o perturbava. Dizer quem ela era, e o quão cruel o próprio pai havia sido com ele. Queria poder dizer para não confiar em Uther, e que fosse para Correrio ao encontro de Robb.
Mas não disse nada. Sentiu-se egoísta tanto quanto o pai.
Senti-la preocupar-se com ele daquela forma, e lançar-lhe um olhar tão doce como o fazia agora, o fez ficar ambicioso. Queria que ela sentisse mais. Queria extrair todo o amor dela para si.
Ao contrário do que ela mesma disse em Ponte Amarga, ela não pertencia à Robb, e nem a ninguém. Ela era livre para amar, apenas não sabia ainda. Havia esperanças.
— Só há uma forma para que eu seja feliz, Elaene. – Disse depositando um beijo carinhoso na testa dela, e dizendo baixinho, como em uma súplica – Que você não me deixe jamais.
Fale com o autor