Queen of ice and fire
62 Irmãos de sangue
Notas iniciais

Os dias passaram como vento enquanto se mantinha dopada pelas ervas para curar a infecção. Naquela manhã podia ouvir o choro dele de longe e a voz de Gwen tentando acalmá-lo, mas foi a voz de Arthur que a fez despertar completo e abrir os olhos.
Gwen havia se retirado do quarto, e Arthur estava com Merlin no colo, próximo à janela, cantando pra acalmá-lo. Sorriu para a cena, espantando a tristeza da notícia do dia anterior.
— Ele sempre adorou o som de sua voz, mesmo quando ainda estava aqui dentro. – disse Elaene com uma voz bamba e sonolenta, chamando a atenção de Arthur que lhe sorriu de volta.
— Eu te acordei? Sinto muito... – disse se aproximando da cama e sentando próximo à ela.
— Está tudo bem, Arthur. Dê-me aqui.
Arthur o entregou para Elaene, enquanto ouvia o resmungo preguiçoso de Merlin.
— Deuses, eu não posso competir com as canções de seu pai, não é? – chiou para fazer Merlin parar de reclamar e o viu se acalmar aos poucos em seus braços.
Arthur riu com o falso ciúme dela.
— Não seja ciumenta. Passo a maior parte do tempo com ele enquanto você se recupera. É normal ele estar mais acostumado ao meu toque. Mas ele sabe que você o salvou, e com isso, nem minhas canções poderiam competir. – aproximou-se dela e depositou um suave beijo em seus lábios, enquanto Merlin já se acalmava por completo.
— Eu realmente pensei que era o fim. A maldição de uma cama de sangue, sempre me perseguiu, ainda que eu pensasse que Rowena Arryn fosse minha mãe, e não Lyanna Stark. – encostou a testa na dele, suspirando em alívio.
— Você conseguiu. Estou tão orgulhoso de você... – disse Arthur enquanto acariciava o cabelo macio e negro de Merlin – Olhe bem para ele. É a coisa mais bela que já vi. Ele tem os seus olhos, e eu pedi tanto aos deuses por isso... – cheirou a cabeça dele, enquanto Elaene sorria – E como cheira bem. Eu poderia devorá-lo vivo!
— Poderia, mas não o fará. Tive muito trabalho para salvar nosso Pendragon!
Ambos sorriram, mas Elaene não conseguiu deixar de pensar sobre a noticia que o meistre lhe dera, enquanto ainda sentia as dores no ventre, e aquilo inevitavelmente lhe lembrou de quando sonhou com um veado estocando seu ventre com seus chifres, quando Winterfell ainda era seu lar.O Veado havia tramado para que caísse das escadas. O Baratheon havia causado aquilo, bem como Uther e a maldita sacerdotisa.
— ... E além disso, será nosso único Pendragon... – continuou melancólica.
Arthur podia sentir a melancolia querer dominá-la, e logo beijou seu rosto para animá-la. A notícia de que Elaene estava estéril ainda não havia sido processada por ele. O que importava, era que ela estava viva, e Merlin Pendragon também. Não importava as intrigas do reino, o caos do dragão, e a fragilidade das alianças traçadas. Estavam ali. Juntos.
— Elaene... por favor, não pense nisso agora. Estou tão feliz, aqui. Agora!
— Desculpe, você tem razão... – se esforçou para retomar o bom humor. – mas diga-me, Rei Arthur, quando vai criar coragem para me atualizar pessoalmente sobre as notícias da Távola? Ou terei que pescar tudo pelas fofocas de corredor?
Arthur suspirou sabendo que por mais que tentasse poupá-la agora, era impossível isolá-la das notícias. Estava por todos os lados, e a capital estava agitada.
— Quem lhe contou sobre Uther? – perguntou Arthur, em uma última tentativa de se desvencilhar.
— Isso realmente importa?
— Você é a verdadeira herdeira, Elaene. Estou farto dessa farsa, e dos crimes de meu pai.
— Justo, mas temos controle sobre isso? Eu estou fraca e não posso utilizar meus poderes, e você passa mais tempo comigo e Merlin, do que se articulando com os aliados.
— Quem poderia ter certeza sobre o que controlamos agora? Estamos falando de Westeros, e de nobres sedentos por poder. Teríamos controle de tudo se matássemos o dragão, porém as informações sobre a besta são confusas...
— Você quis dizer: se dominássemos o dragão!
— O quê? – perguntou confuso.
— Não há nada que eu queira mais do que vingar a morte de Robb Stark, mas aquele dragão nos serve mais vivo do que morto. Matá-lo nos faz caçadores. Domá-lo, nos faz dominadores. Quais líderes seriam capazes de unir Westeros agora?
— Domá-lo? Elaene... o que você está dizendo?
— Seu dom para domar animais não é apenas fruto de seu treinamento, Arthur. Você carrega em teu sangue um dom muito antigo, assim como eu. Nós temos o que precisamos para domá-lo! Agora eu entendo cada enigma que Merlin nos deixou. Nosso herdeiro é fruto da magia Targaryen, e da empatia animal poderosa dos Pendragons, e esse é o futuro!
Arthur riu nervoso.
— Você quer que domemos um dragão? Você está falando sério? Elaene... eu domo cavalos, cães, e até falcões, mas não faço ideia de como domar aquela besta!
— Iremos descobrir, primeiro, precisamos encontrá-lo. Além disso, você tem uma poderosa bruxa ao seu lado. Domaremos juntos, ou ele morrerá por minhas mãos. Prometo isso a você.
=^=
Elaene acordou com um grito angustiado, e viu Arthur despertar desorientado ao seu lado, tentando entender o que aconteceu
— O que foi? – perguntou atordoado.
Elaene suspirou e respondeu, tranquilizando-o
— O de sempre... pesadelos...
— Eu sei, mas o que foi dessa vez? O que sonhou?
— Arthur, as vezes pesadelos são apenas pesadelos. Nem todos são frutos de minhas visões.
— Eu acho que você subestima o seu poder, Elaene... Diga logo...
— Dessa vez foi apenas um pesadelo, Arthur. Vi Ramsay, e não quero falar sobre isso. Sei que você viveu o inferno naquele lugar, então vamos voltar à dormir, por favor... – pediu enquanto deitava no peito dele, porém, aquele nome ainda vagou sobre seus pensamentos, até amanhecer.
=^=
Arthur observou Sor Lion entrar no salão, e caminhar elegantemente até ele.
— Parabéns pelo herdeiro saudável, Vossa Graça. – disse Lion reverenciando-o, e Arthur sentiu-se estranho pelo novo título que agora lhe davam. – Estou orgulhoso de você, meu amigo, se me permite a ousadia da intimidade. – continuou.
— Você viu tornar-me cavaleiro e foi meu amigo por tanto tempo, por favor, deixe de formalidades, Lion.
— Obrigado, Arthur. Queria que soubesse que acredito que tomou a atitude certa ao não ter cedido ao ódio pelo seu pai e poupá-lo, e ao tirá-lo do poder. Jamais conheci alguém tão íntegro e valente. Você será um ótimo rei!
— Você me conhece bem, meu amigo. Sabe que eu jamais me perdoaria se tivesse cravado aquela espada em Uther... foi apenas a minha consciência que me guiou. Mas diga-me, quais novidades trouxe da ilha?
— Como eu disse, Melisandre estava em Porto Real esse tempo todo. Por isso as cartas que vocês interceptaram partiam daqui, e não de Pedra do Dragão. O castelo da ilha não envia nenhum corvo há meses.
— Melisandre aqui, debaixo de nosso nariz? Como isso seria possível? Teria Nimueh a escondido?
— Não saberia lhe dizer. Meu informante interrogou alguns camponeses que tiveram acesso ao castelo, Nimueh também não esteve por lá, e na verdade, nunca chegou em Pedra do Dragão... Os boatos sobre as duas sacerdotisas são estranhos.
— Mais estranho que um dragão acordado de Pedras? – disse Arthur, suspirando cansado.
— Ao que parece, Melisandre está mais forte que nunca, e teria aprendido alguns truques com um sacerdote que domina a arte do Deus de muitas faces...
— Não entendo o que quer dizer...
— É apenas uma loucura que passou por minha cabeça, uma grande besteira, mas não se preocupe, iremos descobrir o que estão tramando.
— E meu irmão? Alguma noticia?
— Sinto muito, Arthur. Não há nenhum sinal de Lancelot.
Arthur tirou a franja dos olhos, esfregando o rosto, sentindo o remorso corroer ao pensar que poderia ter lutado pelo irmão, enquanto ainda sabiam onde estava. Assim como Gwaine, o remorso do que aconteceu com Lancelot lhe feria a alma. Ambos sofreram consequências que seriam suas. Ambos pagaram um preço que nunca estiveram dispostos a pagar.
=^=
Oberyn havia sido nomeado a mão do Rei e da Rainha, e aguardava Arthur para a reunião daquela tarde, na privacidade dos aposentos que agora desfrutava na Torre da mão. O jovem Pendragon agora pressionava seus oficiais a descobrirem pistas sobre o dragão, e o cerco se fechava em alguns pontos do extremo sul de Westeros, nas terras quentes de Dorne.
Oberyn abriu o mapa sobre a mesa, e indicou os pontos onde as noticias vieram pela última vez.
— Perfeito. Obrigado, Oberyn.
— O que você pretende fazer com essas informações, Arthur? ...digo, Vossa Graça... Sete infernos, malditos títulos!
Arthur esboçou um sorriso torto.
— Já disse que não precisa se preocupar com essas besteiras quando estivermos a sós. Apenas evite dizer que irá “chutar meu traseiro de dragão”, quando estivermos em público, e já estarei grato. – respondeu amigavelmente – Eu não sei, apenas deixe nossos homens em alerta. Assim que resolver o que fazer com Uther, e sobre o paradeiro de meu irmão, partiremos...
— Arthur... já se passaram meses... Sinto muito! Eu mesmo sei bem como é perder um irmão de forma trágica, mas Lancelot se foi. Não temos pedido de resgate, e nem sinal dele ou daquela maldita mulher... Eles fugiram de Pedra do Dragão, sem deixar rastros!
— Não posso desistir de Lancelot, Oberyn. Ele ainda está vivo. Eu sinto isso...
— Espero, de verdade, que esteja certo sobre isso. – respondeu o Dornês, encerando o assunto.
=^=
Estava sentado na ponta da cama, com os pés dela em seu colo, e fazia massagem para relaxá-la e para evitar as úlceras na pele, por passar muito tempo deitada na cama. Elaene sorriu notando o pequeno franzido na testa dele enquanto repetia o gesto, como se estivesse com medo de machucá-la com um simples toque.
— Eu não sou de vidro, Arthur. Pressione com mais força! – disse provocante, o fazendo sorrir torto, com timidez.
— Desculpe, mas é que você é tão macia... parece tão frágil ao meu toque...– disse massageando os pontos sensíveis na planta do pé dela, fazendo-a sorrir com os olhos fechados.
— Pelo que bem me lembro, agarrar minhas pernas com vontade, nunca foi um problema pra você, Pendragon! Deixe de besteiras, estou cada dia mais forte.
Ele obedeceu ao comando e subiu a massagem pela panturrilha, adicionando mais pressão.
—Isso, assim! Aí mesmo... É disso que eu estava falando... – disse suspirando baixinho.
Arthur sorriu ainda mais com a satisfação simplória dela, com o seu leve teor erótico, e levou pé dela para cima, para que pudesse beijá-lo com veneração, enquanto ouvia a risada dela.
— Minha Rainha...
Elaene puxou sua perna de volta, e sentou na cama de frente para ele, avançando contra seus lábios. Arthur controlou a voracidade dela usando sua mão no rosto de Elaene, e a viu bufar frustrada.
— Eu sinto sua falta...
— Estou aqui...
— Sinto falta do teu gosto, dos teus beijos em meu pescoço, de sua mão ansiosa sobre mim... Você não sente? – disse suspirando no rosto dele.
— Elaene... é óbvio que sinto. Mas você sabe que não podemos agora, iria lhe machucar. Você precisa se recuperar. Seja paciente, minha rainha...
— Deuses, eu fico maluca quando você me chama assim. Por que você faz isso? – disse suspirando, vencida.
— Ora, porque é verdade... — Arthur riu diabolicamente quando terminou a frase, beijando levemente seu pescoço. – E porque sei que te deixa louca...
— Maldito seja, Rei Arthur... – amaldiçoou-o, sorrindo.
=^=
Elaene já se sentia recuperada, e decidira participar da caminhada até o Septo de Baelor aquela manhã. Sabia que com a relutância de alguns nobres em relação ao golpe sobre Uther, deveria manter a proximidade com o povo, que ansiava em ver o herdeiro Pendragon de perto.
Arthur reforçou a segurança, porém, tudo correu de forma tranquila naquela manhã. Bem de perto pôde notar a admiração que o povo de Porto Real nutria pela nova dinastia que agora dominava a coroa, e a felicidade no olhar de Elaene, que lhe sorria de forma meiga dentro da liteira onde estavam, a caminho de volta à Fortaleza.
Mas quando olhou para Gwen, ao lado dela, se lembrou imediatamente de Lancelot. Podia sentir a mágoa nos tristes olhos dorneses, outrora tão alegres, e seu humor despencou de uma vez, junto com a culpa.
=^=
Quando entrou no quarto, viu Arthur distraído encarando o jardim pela janela. Aproximou devagar e o abraçou por trás, deslizando as mãos provocantes em seu abdômen, e depositando beijos e mordidas nas costas dele, enquanto ele fechava os olhos e suspirava, tenso.
— Você está tão tenso... O que há de errado, Arthur? – perguntou Elaene enquanto ele se virava de frente à ela. – Por que me repeles? Não o atraio mais?
— Nem em mil verões isso seria possível, Elaene...
— O que o aflige?
— Minha consciência está me matando. Eu perdi Gwaine e desisti de meu pai. Não posso abandonar Lancelot também, já o negligenciei por tempo demais. Não posso ficar tranquilo, enquanto desfruto da vida e conforto que foram negados à eles.
— Arthur, não tínhamos como resgatá-lo! E mesmo se você tivesse partido aquele dia em que Gwen se acidentou com o cavalo, jamais chegaria a tempo em Pedra do Dragão, você sabe disso! Não é culpa sua, meu amor... – disse Elaene o consolando, e acariciando o seu rosto.
— Ele ainda está vivo, não é? Sei que se estivesse morto, você saberia e me revelaria, afastando-me desse tormento.
— Não é assim que minhas visões funcionam, Arthur. Não controlo o que vejo. Uma coisa prometo à você: assim que me recuperar e Merlin estiver mais independente de meus cuidados, iremos atrás de Lancelot.
— Sinto muito, Elaene. Lancelot é meu irmão, e não seu. Merlin precisa de você, assim como Porto Real precisa da herdeira Targaryen naquele trono. Essa missão é minha... você fica!
Quando Elaene pensou em protestar, ouviram as batidas pesadas na porta. Era Sir Lion anunciando com urgência, uma reunião do Conselho.
— Vossa Graça, um corvo acaba de chegar do Norte. É urgente!
Quando Elaene ouviu de onde o corvo viera, sentiu seus pêlos na nuca se arrepiarem. Nada de bom vinha daquela mensagem.
=^=
Agora que aos poucos ganhava mais simpatia dos nobres, diante da deposição de Uther, sentia-se mais à vontade perante a grande mesa redonda no meio do salão, símbolo da união e igualdade entre os Westerosi, que Arthur pregava.
Sir Lion aproximou-se e entregou o papel à ele.
— Vossa Graça, nossos aliados no Norte clamam por ajuda. Great Jon pede reforços para combater ataques no Bosque profundo e em direção à Winterfell. Ele alega serem ataques orquestrados pelo bastardo Ramsay. Mercenários atearam fogo nas vilas e alastraram terror por onde passaram, não pouparam nem mulheres e crianças. Jon afirma não ter homens suficiente para auxiliar Catelyn Stark a patrulhar o Norte em busca dos infelizes, agora após o massacre do exército nortenho nas Gêmeas, no episódio do Dragão.
Assim que ouviu o nome de Ramsay, Arthur inquietou-se na cadeira e sentiu seu estomago revirar. Podia sentir cada cicatriz em seu corpo arder ao lembrar-se dos horrores que viveu nas mãos dele. Sabia que um dia teria que encará-lo novamente, afinal não havia exterminado os fantasmas do seu passado. Os dados ainda rolavam sobre a mesa.
— Ramsay não passa de um sádico desgraçado, um cão raivoso sem coleira. De onde teria conseguido homens o suficiente para atacar o Norte? O que ele pretende, afinal? – perguntou Elaene.
— Teria Roose Bolton nos traído, tão abertamente? — perguntou Loras.
O silêncio se fez presente no salão enquanto Arthur colocava a mão sobre sua cicatriz no rosto, e Oberyn respondia a pergunta da Rainha.
— Eu avisei que não deveríamos ter deixado o leão escapar de nossas garras, pelo Água negra. Acharam mesmo que ele fugiria, e viveria no exílio para sempre? Posso apostar que existe outro Lannister envolvido nisso. Temos que caçar Tywin, e dessa vez, levarei sua cabeça para minha Casa, em nome da honra de minha família!
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