Queen of ice and fire
17 Inexpugnável

Quando Elaene acordou, estava em uma tenda espaçosa, deitada em uma cama improvisada. Olhou para cima, e notou que um sol forte e brilhante batia no teto, deixando o ambiente iluminado. Não se lembrava de quase nada. Apenas da batalha nas margens do Ramo Verde, e de tomar uma flechada nas costas.
Tentou-se levantar, mas sua cabeça doía e se sentia tonta. Olhou para o lado, e viu o brasão pendurado no alicerce lateral da tenda. Um dragão branco, sobre um tecido vermelho cor sangue. Um lampejo de memória a fez lembrar dos cabelos dourados de Arthur reluzindo ao sol enquanto cavalgavam.
Sua cabeça doía muito, e contra sua vontade, adormeceu novamente.
Quando despertou, estava deitada de lado na cama. Tentou se mexer e ouviu uma voz suave de uma senhora, que tratava as feridas de suas costas.
— Não se mexa, querida. Estou trocando teu curativo, não queremos que infeccione, não é? Creio que não precises mais de Leite de papoula. A dor irá incomodá-la por algum tempo, mas ficarás muito bem. Teve sorte, menina.
Elaene sentia as pálpebras dos olhos pesarem, mas lutou para manter-se consciente. Quando tentou falar, sua voz saiu fraca e quebrada, e notou que sua garganta estava seca e dolorida.
— Onde estou?
— Fique calma, estás a salvo. Irei chamar meu senhor. – disse a senhora, recolhendo o curativo trocado, seus materiais e sua bacia de água quente.
Conseguiu deitar as costas, sem muito incomodo quando a tenda se abriu.
— Como se sente? – disse Arthur se aproximando, retirando a luva da mão e tocando sua testa à procura de febre.
— Onde estou?
— Você está na margem norte do Ramo Vermelho, próximo a Correrio. Você está a salvo agora.
—Eu não entendo... o que aconteceu, Arthur?
— Vocês perderam a batalha secundária, no Ramo Verde, mas conseguiram recuar com quase 3/5 do contingente para as Gêmeas. Quando os Lannisters empurravam seu regimento contra o vale, os varremos para garantir que recuassem em segurança. Eis que um dos meus homens a encontrou viva e lhe retirei da linha de confronto. Levei você para as Gêmeas onde seu regimento recuou, e lá recebeu os primeiros atendimentos, e em seguida a trouxe para cá, para que se recuperasse sob meus cuidados.
Levantou-se na cama, ficando sentada para encarar Arthur.
— E o cerco em Correrio?
—A estratégia de Robb Stark funcionou. A cavalaria do Stark pegou Jaime de surpresa, e o empurrou contra o rio. Jaime lutou bravamente, mas não pôde resistir à investida. – Notou o olhar preocupado de Elaene e então continuou.
— Não se preocupe, Jaime tentou caçar a cabeça de Robb Statk, e no caminho acabou levando dois filhos do Senhor Karstark e um Glover, mas Robb o capturou. Talvez Tywin e Jaime tenham subestimado a estratégia dele, e a ferocidade de seu lobo.
— Vento cinzento foi com Robb para a batalha?
— Sim, e fez um bom estrago. Agora todos o chamam de “O jovem Lobo”, e histórias de que o próprio Stark se transforma em lobo e se alimenta da carne de seus inimigos no campo de batalha, se espalham por toda westeros – disse Arthur com uma risada sarcástica.
— O que você faz aqui, Arthur? Eu não entendo.
Arthur olhou pensativo para baixo, e a encarou com olhos incertos.
—Não são apenas os Lannisters que pagam suas dúvidas... é tudo o que precisa saber. Nos juntamos aos senhores das terras fluviais em apoio ao Jovem Lobo. Também queremos a liberdade do Senhor Stark.
— Porque me trouxe para cá?
Respirou profundamente, pois sentiu a delicadeza do assunto.
—Eu sei o que custou para Robb Stark conseguir a travessia, Elaene.
Notou que os olhos dela se encheram de lágrimas.
—Eu só posso dizer que não consigo imaginar a dor que é ter de abrir mão de você. Eu tomei a liberdade de lhe trazer para cá para que você se recupere. Se for seu desejo, a levo para Correrio, imediatamente.
— Não... você fez bem, Arthur. Obrigada. Eu não tenho palavras para lhe agradecer.
Arthur tomou a mão dela na sua.
— Você não precisa me agradecer.
— Sim, preciso. Você salvou minha vida.
“Talvez em muitas formas em que poderia ser salva” pensou.
=^=
Arthur havia lhe dado privacidade para se lavar e trocar. Havia uma roupa limpa para ela. Um vestido leve, de cetim vermelho, com decote decorado com bordados brancos.
“Ele quer me vestir como uma Pendragon” pensou.
Uma serva muito gentil, que não parecia ter mais que seus 15 anos, a ajudou a se vestir e escovou seus cabelos, que ainda estavam úmidos com o banho.
Quando ela saiu, logo outros três servos entraram na tenda carregando uma mesa, duas cadeiras, e decorando o local com forros e velas. Quando terminaram, trouxeram várias bandejas com comidas.
Observou todos, sentada na cama, quando Arthur entrou.
— Não se levante sozinha, Elaene, você precisa de repouso. – Disse se aproximando, lhe dando a mão para se apoiar.
— Não estou inválida, Arthur. – Elaene não viu que ele sorriu com o mau-humor repentino dela.
Quando a ajudou a sentar na cadeira, brincou com ela, se fingindo de servo, cobrindo seu colo com um lenço, e a servindo com ensopado de carne. Elaene acompanhou tudo retirando a feição carrancuda e dando lugar a um riso terno.
— Pelos deuses, você é um péssimo servo, Sor. Arthur.
—Assim você me ofende, milady! Eu treinei para fazer bem-feito. Não posso acreditar que não fiz certo. – Disse com uma falsa mágoa.
Quando Arthur serviu seu vinho na taça, Elaene tocou sua mão o olhando nos olhos.
— Obrigada, Arthur. Por tudo!
Ele apenas lhe sorriu.
Quando se sentou também, logo tomou um gole do vinho, não deixando de notar o perfume que ela tinha nos cabelos úmidos.
— Quando me dará o sermão? — Perguntou Elaene, lhe retirando dos pensamentos
— Como diz?
— Quando me dará o sermão por ter ido para a batalha?
— Nunca...- Disse experimentando a comida.
— Posso perguntar o por quê?
Arthur tomou um longo gole do vinho, encarando Elaene.
— Lady Elaene, sei que você já teve demonstrações suficientes do meu... afeto por ti. Não nego que saber que estás a correr perigo me deixa terrivelmente preocupado, mas nunca mudaria absolutamente nada em você. Disse uma vez que você era bela, selvagem e inexpugnável, e não disse apenas para lhe cortejar. Seu aspecto selvagem a faz ser o que você é. E isso lhe torna incrível.
Voltou a atenção para o prato, enquanto Elaene o encarava.
— Além disso, você tem o direito e a liberdade de lutar por aquilo que acredita ser o certo. Não a julgo por isso.
Depois de um longo silencio, Elaene disse com sinceridade.
— Você sempre me surpreende, Pendragon.
=^=
Estava em um labirinto subterrâneo de tijolos vermelhos. Usava um capuz negro e estava com uma tocha na mão. Tentou encontrar a saída, mas notou que andava em círculos. Quando cansada, se apoiou com uma mão na parede e notou que ela cedeu, revelando um compartimento secreto e terminou de empurrá-lo para examinar lá dentro.
Viu um salão subterrâneo enorme e escuro. Havia vários esqueletos de animais enormes dispostos lado a lado. De um lado eram carcaças enormes, mas iam diminuindo quando chegava ao outro lado do salão. O penúltimo esqueleto era do tamanho de um cão, e parecia ser frágil.
Não conseguiu reconhecer o último de longe.
Aproximou-se. Era um crânio humano.
Acordou soltando um grito. Olhou em volta e viu a serva preparando a mesa para o desjejum.
— Desculpe se lhe acordei, senhora.
— Não se preocupe, não me acordou.
— Vou lhe dar privacidade.
Elaene sentou-se na cama, tentando controlar a respiração. Quando se levantou, sentiu uma pequena pontada nas costas na altura de seu ferimento. Sentia-se sem fome, mas esforçou e se alimentou com frutas.
Quando saiu da tenda, notou um grupo de soldados conversando entre duas tendas menores. Aproximou-se para tentar ouvir o motivo da tensão entre eles.
—... temos um rei maluco. O garoto teve coragem de decapitar Ned Stark. Não consigo acreditar...
Elaene se anunciou para o grupo, tomada pelo susto da informação.
— Eiii, o que você disse senhor? Ned Stark foi decapitado?
O soldado lançou um olhar assustado pela intromissão, mas a respondeu com gentileza.
— Sim, Milady. Um corvo chegou essa manhã com a notícia.
Elaene ignorou a pontada de dor e correu até localizar o cercado onde os cavalos eram tratados e alimentados.
Acostumada a cavalgar sem selas, viu uma égua pastando, e se aproximou, notando que o animal estava manso e tranquilo. Quando a montou, sentiu uma forte pontada na ferida e viu um rapaz entrar na sua frente fechando a porteira, impedindo passagem.
— Lady Elaene?
Reconheceu quem era: o irmão de Arthur, Lancelot, que o havia acompanhado até Winterfell.
— Por favor, saia da minha frente, Senhor. Preciso chegar à Correrio.
Notou que com o alerta do rapaz, Arthur se aproximava puxando um corcel negro pela correia. Pelo olhar que lhe deu, percebeu que ela já havia recebido a notícia.
— Espere, Elaene.
— Nem pense em me impedir, Arthur.
— Não irei lhe impedir, Elaene. Leve meu cavalo. Está selado e é veloz. Correrio está muito próxima, chegarás lá antes do anoitecer, sem precisar correr riscos desnecessários sem sela apropriada.
Elaene desmontou a égua, e se aproximando devagar, passou a mão pelo corcel o admirando. Era um animal lindo, e muito bem cuidado. Sua cela estava pronta.
Arthur não lhe olhava nos olhos, soube que estava chateado. Talvez por Ned Stark, ou talvez porque iria embora sem dizer adeus. Sentiu-se uma ingrata.
Ignorando a dor, montou o corcel, sentindo a energia do animal.
— Arthur, não esquecereis o que fez por mim. Não são apenas os Lannisters que pagam suas dívidas.
Sem olhá-la, Arthur abriu a porteira, dizendo cabisbaixo.
— Vá! Tome cuidado.
Elaene esporou o animal e saiu a um galope alucinado.
Lancelot estava indignado.
— Não acredito que irás deixá-la cavalgar até Correrio, sozinha e machucada!
—Você não a conhece, irmão. Ela não pertence à ninguém, não tenho nenhum poder sobre ela. Elaene é o mais próximo de liberdade que conheço.
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