Queen of ice and fire
42 Círculo de fogo
Notas iniciais

Quando Elaene atravessou o pátio viu a pronúncia do caos de perto. Todos estavam eufóricos, e oficiais ditavam ordens a seus homens, aos gritos. Alguns soldados terminavam de reforçar as paredes sólidas do castelo, outros preparavam as catapultas.
Notou um soldado muito jovem, que não deveria estar muito longe de seus dezesseis, talvez dezessete verões, sentado em uma pedra fabricando suas próprias flechas. O rapaz estava incrivelmente calmo e quando lhe viu, sorriu gentilmente. Os olhos leves de uma juventude inocente. Juventude perdida.
=^=
— Quais são as informações? — perguntou Uther, surpreendentemente calmo na sala de reuniões, perante seus aliados e oficiais.
— Descendo a colina, contamos aproximadamente vinte mil homens, entre lanceiros, espadachins e alguns arqueiros. Algumas dezenas de aríetes móveis e catapultas. Brasões dos Tyrells e casas menores da Campina, e claro, Lannisters.
— Optam pelo caminho mais penoso, pelas colinas? Qual seria o motivo?
— Provavelmente outras guarnições estão escondidas atrás de nossas colinas, aguardando um longo cerco...
— Ou seja, vocês não fazem ideia do que há em nosso território! — afirmou Uther com um olhar gélido, fazendo seu oficial abaixar a cabeça.
— Sim, Senhor.
Arthur abriu o mapa e a planta do castelo de Camelot sobre a mesa, enquanto pedia permissão ao pai para falar.
— Não podemos sair para o confronto agora, não quando não sabemos ao certo quais são as intenções do inimigo, se um cerco ou ataque direto, ou se escondem algo nas colinas. Poderíamos enviar nossos batedores mais furtivos para investigar além dessa e dessa colina — disse apontando com o dedo a localização — e descobrir o que pretendem. Se sairmos em campo aberto para o confronto, podemos ficar encurralados e lutando em duas frentes, ou na melhor das hipóteses, espremidos entre o inimigo e as paredes do castelo.
— Envie alguns dos nossos melhores e mais furtivos batedores. Ordene que vão pelos caminhos secretos entre as grutas do Avalon e descubram o que diabos pretendem! Por agora, temos que traçar nossa estratégia com base no que temos.
Elaene investigou o mapa de onde estava, e franziu a testa em confusão.
— Não faz sentido. Marchar por um caminho tão tortuoso para montarias, atrasar e nos dar tempo de preparo para o cerco ou confronto. Há algo muito estranho por detrás dessas colinas...
Notou alguns oficiais lhe lançarem caretas e olhos virados, por exceção de Oberryn que estava atento ao que dizia, e acariciava o cavanhaque com o dedo.
Por ser uma mulher, sua presença não foi vista com bons olhos pelos homens, apesar de Arthur insistir por sua presença ali.
Uther ignorou seu comentário e continuou.
— Quero relatórios sobre os movimentos. Cada barricada que montarem, cada bandeira que hastearem, quero ser informado. Continuem os preparativos! — disse se levantando e saindo como um trovão porta afora. — se atravessarem a distancia de segurança de nossas flechas e catapultas, daremos boas-vindas!
Elaene se levantou mais não conseguia retirar os olhos do mapa. A resposta estava ali, só precisava enxergar.
— Você tem razão. A solução do enigma atrás das colinas pode ser mais simples do que aparenta. — ouviu a voz de Oberryn atrás de si, baixa e grave, porém firme. Mas quando olhou para trás ele já estava saindo pela porta e Arthur os observava enquanto aproximou-se dela.
— Tudo bem? Ele te perturbou?
— Não... — disse um pouco brusca e mau-humorada com a super-proteção dele, se arrependendo logo depois e dando um suave beijo em seus lábios. — Apenas estou nervosa... ansiosa...
— Desculpe... você não deveria estar aqui, eu deveria ter lhe enviado para um local seguro, enquanto havia tempo.
Elaene segurou seu rosto impaciente.
— Não comece com essa porcaria mais uma vez, Arthur. Meu lugar é aqui, com você! Todo homem deve morrer. Valar Morghulis, diz Merlin. Se esses tiverem de ser nossos ultimos dias, que seja. Mas antes disso... — aproximou do seu ouvido para cochichar — eu vou fazer amor contigo todas as noites, como se minha própria vida dependesse disso...
=^=
Elaene ajudava a organizar a enfermaria improvisada armada numa ala inferior do castelo. Várias camas de bambu foram improvisadas, e ajudava a estender os lençóis sobre elas.
Viu a prateleira armada com instrumentos e ervas, e lembrou-se de quando viu Merlin apanhá-las no jardim.
"Vamos precisar de todas elas, muito em breve." Ele havia dito, e pegou-se distraída.
Balançou a cabeça quando Brienne lhe chamou pelo nome:
— Lady Elaene, os arqueiros do Vale estão a postos, como a Senhora pediu.
— Obrigada, Brienne. Bom saber que não causei o rompimento da aliança entre Royce e Pendragon quando voltei para Camelot. — disse suspirando e tocou no braço da cavaleira para continuar — Você poderia ir embora, é uma escolha sua ficar, você sabe, certo?
Brienne manteve a postura altiva enquanto respondia com uma reverência.
— Minha lealdade está com a Lady e com Sor. Arthur. Nada me daria maior honra do que lutar ao vosso lado.
Elaene respondeu com um sorriso triste.
— Não poderia ter escolhido melhor aliada para lutar ao meu lado. Agora vá descansar enquanto podemos.
Quando virou as costas, ajeitando os cabelos na trança mal-feita, Elaene viu Arya encostada no pilar da enfermaria, enquanto afiava uma pequena espada que parecia ser a mesma que Jon Snow havia lhe presenteado em Winterfell.
— Você ainda a possui?
Arya parou o movimento para levantar a cabeça e acenar levemente em confirmação.
— É uma boa espada, minha lobinha.
— Pare de me chamar assim! — Arya disse secamente — Não sou mais uma criança, não vê?
Elaene abaixou a cabeça, sentindo-se um pouco magoada, e sentiu uma tontura que julgou ser fruto da exaustão.
— Desculpe, Arya. — disse sentando-se no chão, encostada na pilastra ao lado dela. — Eu sei que nada será como antes. Você está mudada, eu também. Tenho medo em descobrir pelo que passou, sem que eu estivesse lá por você, como prometi. Nada do que eu faça irá reparar o que aconteceu, e eu queria que soubesses que realmente sinto muito.
Arya esticou a mão para tocar a cabeça de Elaene, mas se impediu antes do toque. Ainda sentia um misto de emoções quando pensava no casamento de Elaene com Arthur, e no irmão, Robb Stark. Ao invés de consolar Elaene, virou as costas e foi praticar no jardim, enquanto Elaene lhe observava ir embora, melancolicamente.
=^=
Elaene observava a linha atrás dos muros pela janela do quarto, e perguntou para Arthur quando sentiu sua entrada no quarto, porém, sem olhar para trás para encará-lo.
— Que barulho é esse? — referia-se aos estrondos ouvidos de tempos em tempos, para além dos muros do castelo.
— Devem estar montando um grande aríete, ou querem apenas nos enlouquecer...
— O que faremos?
— Pela manhã, enviaremos um mensageiro para ouvirmos os termos deles. Assim os investigaremos mais de perto e ganharemos algum tempo.
— E se atacarem antes? — perguntou ansiosa e sentiu os braços dele laçarem sua cintura, e a puxar para um abraço por trás.
— Esses muros são fortes, meu amor.
— Ou talvez eles saibam disso, e queiram ganhar algum tempo também...
— Venha pra cama, você precisa descansar. — disse enquanto depositava um beijo em seu rosto, a puxando pelo braço.
— Descansaremos depois... — respondeu o empurrando pelo peito, fazendo sentar na cama de uma vez, enquanto deslizava a alça da camisola pelo ombro.
=^=
Acordou com outro estrondo muito alto. Soltou um suspiro tenso, e sentiu os braços firmes de Arthur em sua cintura.
— Está tudo bem, Elaene. Está segura.
— Você ouviu isso? Foi realmente muito alto, Arthur... há algo grande acontecendo por lá...
Arthur respirou forte em sua nuca e depois levantou o rosto, só então notando os primeiros raios de sol beijarem a janela.
— Tenho que ir. — disse depositando um beijo rápido nela.
Elaene sentiu um frio na barriga e um terror pelo dia que surgia no horizonte. O pavor veio de uma maneira descontrolada, e sentiu a mão suar com o nervosismo, e a botou na boca para controlar o enjoo que surgia.
Quando pensou que fosse vomitar, eis que um forte barulho de janela quebrando em pedaços, ecoou pelo quarto.
Arthur assustou-se e por instinto havia abaixado.
— Mas que diabos foi isso? — indagou-se procurando algum objeto pelo quarto que fosse responsável pela janela ter espatifado, mas não encontrava nada. Franziu a sobrancelha ao perceber que os próprios cacos de vidros haviam espatifado de dentro para fora.
Elaene estava com o rosto pálido e assustado. Ele pensou que ela estava apavorada com o que poderiam ter lançado no quarto do castelo, sentindo-se desprotegida, porém, ela estava apavorada, pois fora ela mesma quem provocou o incidente. Seus poderes aumentavam, mas seu controle sobre eles parecia não acompanhar o mesmo ritmo.
=^=
Quando o mensageiro enviado retornou aos portões de Camelot, os principais oficiais aliados aguardavam no salão de reuniões, agora lotados com oficiais de Camelot, do Vale e Dorneses.
— Meu Senhor o homem dirigiu-se a Uther Loras Tyrell envia seus termos. Exige que Camelot, Vale e Dorne ajoelhem-se perante o rei Joffrey, e desistam do que proclamou ser, uma rebelião infundada. Além disso, exige que declaremos guerra ao Rei do norte e seus aliados. O rei Joffrey confiscará suas terras e castelos, e por misericórdia, poupará a vida dos Senhores, os permitindo que tenham uma vida tranquila na Muralha.
— Como previsível, um bando de besteiras.- Disse Uther acenando com a mão — Agora diga-nos o que interessa. O que observou do acampamento?
— Construíram aríetes, torres e catapultas, como previsto, mas armaram barricadas e lanças que foram posicionadas no solo, em nossa direção. Não notamos movimentos de outros regimentos além daqueles na planície, mas de qualquer forma, as colinas não nos permitiria ver além. Se houver algo escondido, está atrás delas.
Uther coçou o queixo com a mão, enquanto suspirava.
— Preparem-se para o cerco, quero informações atualizadas a cada doze horas. Turno de revezamento para descanso. Revisem também os estoques de comida, armamentos e suprimentos médicos.
Quando preparava-se para levantar, um outro soldado que estava com o mensageiro pediu permissão para falar.
— Lorde Uther, permita-me comunicar uma impressão que tive durante a visita ao acampamento. Há um enorme aríete posicionado no centro do acampamento, é o maior que já vi em toda minha vida. E ainda, não me pareceu ser feito de material maciço. É como se houvesse algo escondido dentro, que não pudemos ver...
— O que poderia ser? Alguma artimanha para transpassar nossas muralhas?
— Não saberia dizer, Senhor, mas seria bom ficarmos atentos.
Elaene botou a mão no braço de Arthur e cochichou em seu ouvido.
— Se é Loras quem nos encontra, onde estaria Kevan Lannister? Estariam marchando contra Correrio?
— É uma boa possibilidade, mas não temos como afirmar, pois você sabe, interceptam nossos corvos há semanas. Devem estar fazendo o mesmo com Correrio. Estamos isolados...
— E agora Loras apresenta uma proposta ridícula de negociação. Querem ganhar tempo, mas por quê?
— Talvez queiram nos quebrar aos poucos, isolar, cercar e esperar que nos rendamos. — respondeu Arthur.
— Não, querer matar o reino mais fértil de Westeros de fome em um cerco, seria ridículo até mesmo para o pior dos amadores, não... além disso, tenho bastante certeza de que Tyrells e Lannisters conhecem bem os Pendragons e Dorneses para acreditar que se renderiam antes de morrerem... Eles irão nos atacar, mas devem ter algo em mãos para isso.
Arthur respirou fundo e a encarou
— Eu também não gosto do que escondem nas colinas, e os barulhos da construção desse imenso aríete, me dá calafrios... Planejam algo.
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Elaene andava pelo pátio de Winterfell e sentia suas botas encharcarem de com neve e lama. Robb treinava com Jon e quando acertou as costas do irmão com a espada de madeira, ambos gargalharam e a viram chegando.
— Elaene — Robb lhe chamou para um rápido beijo nos lábios, e um abraço apertado enquanto sussurrava em seu ouvido — ao oeste eles vão, caminhando pelo sul, ao oeste eles caminham... mas o seu caminho é para o Leste, Elane. Leve Arthur para o Leste... chegou a hora!
Elaene acordou com susto quando ouviu o estrondo feito por pedras batendo no muros da fortaleza, e pequenos pedregulhos que se despedaçavam com um impacto e caiam como uma chuva no chão do pátio.
Assim que o mensageiro levou a óbvia negativa do acordo de paz, uma nuvem de pedras cobriu o céu de Camelot, de onde o inimigo estava, em direção ao castelo. Não causava danos significativos, mas os enlouqueciam aos poucos.
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O dia ainda nem surgia no horizonte, e Arthur já analisava mais uma vez os mapas. Era uma obsessão constante, como se alguma resposta pularia para seus olhos. Elaene aproximou e depositou um longo beijo em seu rosto, o sentindo suspirar.
— Estão blefando, Elaene.
Elaene congelou o beijo e afastou o rosto para encará-lo.
— O que disse?
— Os batedores furtivos voltaram. Ao invés de irem pela planície como os mensageiros, os espiões foram pelas brumas do Avalon, e encontraram as colinas atrás, vazias. Porém, há marcas muito recentes de uma grande marcha, bem maior que a dos homens na nossa porta. Seja o que for que planejam, nos querem presos aqui, enquanto esses homens seguem seu caminho.
— Como assim, grande marcha?
Arthur virou-se para ela, segurando suas mãos.
— Isso quer dizer que enquanto nos atacam por Camelot, desviam outro exército ao Sul. Provavelmente indo de encontro ao Oeste, onde Robb Stark domina. — disse notando o olhar preocupado de Elaene — Querem nos manter isolados enquanto reconquistam o Oeste, para manter a capital segura.
Ao oeste eles vão, caminhando pelo sul, ao oeste eles caminham...mas o seu caminho é para o Leste, Elane. Leve Arthur para o Leste... chegou a hora!
— Não podemos ficar aqui parados, em Camelot! disse com ansiedade
— Não temos muita escolha, Elaene. Estamos cercados, e a única coisa que mantém nossa vantagem, são nossos muros.
— A capital está fragilizada. Lannisters não podem defender o Oeste, Campina e Porto Real ao mesmo tempo, nem mesmo com Tyrells! Não depois dos navios que perderam em Lannisporto, e todo o ouro que foi saqueado lá. Eles precisam pagar seus soldados, não é mesmo? É a chance de quebrar Porto Real de uma vez!
— Você está certa, Elaene. Mas isolados, sem os nortenhos e as Terras fluviais, não temos chances na planície... sinto muito, meu amor. — disse levantando e jogando o mapa no chão com fúria.
=^=
Durantes longos dias, nenhum movimento do inimigo foi visto, porém, no vigésimo dia de cerco, a maré mudou.
Quando amanheceu, Arthur observava Elaene dormir profundamente, sem roupas ao seu lado. Usou a ponta dos dedos para percorrer o caminho desde seu rosto até seu umbigo, e a viu acordar lentamente e lhe sorrir preguiçosa.
— O que está fazendo? — perguntou sonolenta
— Admirando... amando... — Arthur respondeu mentalmente para si o resto da frase: enquanto posso...
Elaene levantou o dorso e tomou seus lábios com voracidade, agarrando seu cabelo com os dedos.
Arthur não sabia, mas Elaene também sentia a mesma angústia em aproveitar o amor um do outro, em paz, enquanto podiam. Ela o virou para que deitasse as costas no colchão, enquanto atacava seu pescoço, e lutava com os lençóis para posicioná-lo dentro dela.
Porém, quando enfim conseguiu colocá-lo dentro de si, arrancando um gemido angustiado dele, ouviram batidas apressadas na porta. A voz era do escudeiro de Arthur.
— Sor Arthur? Sor. Arthur? Desculpe, mas é urgente...
Arthur soltou uma bufada de ar no rosto de Elaene, enquanto ela encostava a testa na dele, tentando controlar as batidas do coração e a própria respiração. Ele a girou novamente, e depositou um beijo carinhoso antes de se levantar e vestir apressadamente.
Elaene o observou abrir a porta, enquanto usava o lençol para cobrir sua nudez do escudeiro.
— O inimigo se movimenta, senhor!
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Quando entrou no quarto ela já estava vestida com sua cota de malha, já que não planejava passar seu tempo cuidando de feridos na enfermaria na ala inferior, como sugeriu Uther.
Arthur estava virado para janela enquanto seu escudeiro terminava de colocar sua placa peitoral. Elaene se aproximou dos dois e quando o escudeiro a viu, ela sinalizou para que os deixassem a sós.
Quando Arthur tencionou para se virar para trás, Elaene o abraçou e cochichou em seu ouvido.
— Deixe-me ajudá-lo... — disse enquanto terminava e encaixar sua placa peitoral e o virar para colocar seu cinto de espadas.
Arthur lhe encarou profundamente enquanto ela deslizava a mão por seu ombro e peito protegidos pelas placas.
— Prometa que ficará segura. — pediu em uma súplica.
— Não posso prometer isso, da mesma forma que não pode me prometer que não se arriscará lá fora. — respondeu devolvendo a intensidade do olhar enquanto segurava o rosto dele nas suas mãos — Eu confio em você, Arthur. Mais do que a mim mesma. Eu sei que você está destinado a um grande futuro.
Arthur respirou fundo enquanto tomava coragem para revelar a ela, enquanto havia tempo. Não era justo que se morresse, a identidade dela morresse junto com ele.
— Eu deveria te contar agora...
— Fará com que eu fique magoada com você?
— Provavelmente. — respondeu com sinceridade, abaixando o olhar.
— Então, não! Não ouse se despedir de mim, ouviu? Poderá me contar, quando voltar. — disse enquanto o beijava uma última vez antes da batalha.
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O castelo de Camelot era composto por uma extensa e sólida muralha. No topo dela, corredores amplos e abertos para sua defesa, e torres em pontos estratégicos. Poderiam cavalgar duas fileiras de cavaleiros sobre a muralha, tranquilamente, e isso só demonstrava o quanto a muralha era sólida e resistente.
Como os melhores arqueiros pertenciam ao Vale, foram posicionados no topo da muralha, em todo o entorno de frente à planície, de onde vinha o inimigo.
Os homens de Dorne, conhecidos por serem exímios lanceiros, posicionaram em frente ao portão e nos pontos mais frágeis da muralha, ao caso do inimigo conseguisse penetrar no castelo.
Arthur liderava os cavaleiros espadachins, alguns da cavalaria e outros da infantaria.
Sabendo que o inimigo traria aríetes para tentar derrubar o portão, ou parte da muralha, e escadas para tentar infiltrar pelo castelo por cima, Arthur se posicionou entre os arqueiros no topo da muralha, e aguardava para dar o comando enquanto observava a multidão de vinte mil homens se aproximar, e um imenso aríete arrastado lentamente entre eles.
Quando sentiu que já estavam no raio de alcance das catapultas, fez um gesto com a mão e ordenou que fossem disparadas. Em seguida o céu escureceu com a chuva de pedras lançadas na planície, e observaram os inimigos formarem uma capa protetora com os próprios escudos unidos sobre suas cabeças, conseguindo aplacar alguns impactos, mas enquanto via-se que vários soldados foram atingidos e caíram no chão.
Porém, o avanço continuava, e assim Arthur ordenava levas e levas de pedras em suas direções.
Elaene havia orientado Gwen para receber ordens de Merlin quanto aos cuidados dos feridos, e manter a guarda sobre Arya, mas mesmo assim, ali em cima da muralha, sentindo a tensão pré-batalha nos nervos dos arqueiros ao seu lado, pensou na segurança dos amigos, e de Arthur.
Respirou fundo quando percebeu que os homens iriam entrar na área de alcance dos arqueiros, e Arthur cavalgava em direção aos arqueiros centrais, perto de onde estava.
O elmo incomodava, mas resolveu não tirá-lo para que Arthur não a reconhecesse ali, e perdesse o foco na batalha. Abaixou o rosto quando ele passou em sua frente como um trovão.
— Arqueiros, atenção! — ouviu-se o barulho dos arqueiros retirando suas flechas e segurando o arco para baixo.
— Preparar! — Arthur gritou e os homens encaixaram as flechas.
— Mirar! — Com a ordem, os arqueiros buscaram seus alvos, uma vez que o imenso aríete ainda estava fora do alcance de todos.
— Fogo! — em seguida, ouviu-se a chuva de zunidos caindo sobre os inimigos, que apararam grande parte através de seus sólidos escudos, e assim avançavam, quando Arthur continuava a dar ordens para o ataque.
Quando chegavam perigosamente perto com torres e escadas para escalar os muros, Elaene notou soldados de Camelot preparados para lançar óleo quente sobre os inimigos lá embaixo.
Mirou uma flecha incendiária na torre de madeira que se aproximava, e outros arqueiros a seguiram. Porém, a madeira parecia estar muito úmida para que o pequeno fogo das flechas se alastrasse. Os malditos haviam molhado as torres, para evitar as flechas incendiárias.
Era hora de se testar.
Concentrou e sentiu um zunido no ouvido com a força que brotava, e uma bola de fogo se formar em suas vísceras. Podia sentir a briga entre o fogo e a água na madeira que se aproximava, e sentiu as mãos tremerem com a força mental que fazia.
Por fim, venceu. O incêndio na torre começou, e os soldados nela, sem entender o que acontecia, pulavam desesperadamente, evitando o beijo do fogo que estranhamente se alastrava sobre eles.
Notou outras torres se aproximarem e repetiu o processo, notando os olhares confusos de amigos e inimigos sobre o incêndio que brotava repentinamente.
Estava tão concentrada em sua missão, que não havia notado Arthur gritar desesperadamente para que os arqueiros mirassem no imenso aríete que estava sendo arrastado em direção ao portão.
Todos miravam para derrubar os homens que o arrastava, porém, estava protegidos por uma placa de madeira que evitava as flechas. Os soldados de Camelot começaram então a lançar pesadas e enormes pedras sobre as placas de madeira para esmagá-las, e podia-se ver os primeiros inimigos caindo.
Arthur ordenou que continuassem a jogar as pedras para esmagá-los e a mergulhar as flechas incendiárias no aríete para incendiá-lo, porém, não conseguiam fazer o fogo se alastrar com a madeira tão molhada.
Elaene fingiu estar concentrada na mira com o arco, e voltou a utilizar a sua força. Mas dessa vez, o objeto era bem maior e sentia o suor escorrer sobre sua face com o esforço em vão. O fogo surgia, e o fogo morria, com o poder da água.
Sentiu os joelhos tremerem com o esforço enquanto Arthur gritava ordens perto dela, apontando para a abertura que surgiu no aríete.
O mensageiro estava certo, não era apenas um aríete, havia algo lá dentro. Algo que deveria ser protegido, até que o momento certo para usá-lo, chegasse.
Elaene notou que os soldados inimigos começaram a recuar muito rapidamente, porém, ordeiramente para trás, para longe dos muros, e só então viu uma trilha de fogo brotar em direção ao espaço aberto no falso aríete.
Arthur percebeu do que se tratava e desesperadamente gritou para os homens pararem de mandar flechas incendiárias em direção ao aríete.
— Corram, corram!!! Se afastem do portão, agora!!! — gritou desesperadamente enquanto cavalgava em direção aos arqueiros centrais, e notava os lanceiros dorneses, já se afastando do lado de dentro do portão.
Elaene viu apenas uma grande bolha verde surgir e cegar seu rosto, enquanto era jogada violentamente para o lado, tendo sorte melhor que os outros arqueiros que foram lançados para trás, em direção ao solo, tão abaixo de onde estavam.
Uma enorme explosão surgiu e imensas placas de pedra do muro foram lançadas para o alto em todas as direções, enquanto o portão era lançado contra alguns dorneses e os dilaceravam por onde passava.
Antes de perder a consciência, viu apenas fogo. Fogo verde. Fogo vivo.
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