Notas iniciais
Amores, estou de volta! Boa leitura ;)

Desde a revelação, Elaene colocou-se o mais longe que pôde da família Pendragon. Passou seus dias ao lado de Loras e Jon, que lhe contava histórias sobre seu pai e a ensinava o idioma Valiriano.

Durante a noite, mal dormia. Relembrava vários momentos que viveu com Arthur, tentando localizar qualquer ação que denunciasse a pessoa que agora enxergava nele. Sentia-se burra e culpada por se deixar levar por palavras doces de um belo cavaleiro de verão.

Ao pensar nisso, e em tudo que lhe foi tomado, sentia ainda mais raiva de Arthur, e olhava para o fruto em seu ventre com grande pesar.

Ao menos Arthur não mais lhe procurou. Soube, ao flagrar a conversa de suas aias, que o galante príncipe andava melancólico pelos corredores do castelo, e a noite ouvia-se sua harpa tocar tristes melodias.

Às vezes, sentia uma saudade incontrolável, e queria bater na porta de seu quarto e beijá-lo desesperadamente. Mas logo em seguida, ficava chocada com o que julgava ser sua fraqueza, e sua amargura crescia ainda mais.

Após alguns dias evitando a amiga, permitiu que Gwen lhe fizesse companhia, sentindo a solidão lhe ferir como espada, mais uma vez.

— O que você irá fazer, agora? – perguntou Gwen escovando seus cabelos preguiçosamente enquanto a amiga permanecia absorta em pensamentos olhando para a janela.

— O que venho fazendo desde a maldita noite em que nasci: sobreviver.

— Elaene... acho que vocês deveriam esperar as coisas se acalmarem um pouco, e conversarem com calma. Esclarecer tudo!

— Se eu quisesse algum conselho sobre o que fazer, teria lhe pedido, Guinevere. – disse Elaene friamente, surpreendendo à amiga.

— Eu sei que você está magoada, eu entendo. Mas seja razoável...

— Eu não quero mais falar sobre isso, Gwen. Aliás... – disse se levantando e virando para a amiga – eu não quero falar sobre ele. Aquele homem é um manipulador, e eu o odeio.

— Elaene... aquele homem é o pai de seu filho, e você sabe que ele te ama...

— Ama? Mesmo? Qual parte de que Arthur casou-se comigo para arruinar minha pretensão ao trono você não entendeu, Gwen? Arthur me traiu! Nada do que vivemos foi real. Ele me seduziu por ambição. – disse passando a mão no rosto e a pousando na testa, como se o peso fosse insuportável.

— Você sabe que isso não é verdade... — Quando a amiga tentou contornar o seu discurso mais uma vez, Elaene respondeu brusca.

— É por isso que estou te evitando há dias... Deixe-me sozinha, Gwen! – quando a amiga não reagiu, gritou – Saia!

Quando Gwen saiu, objetos flutuaram e voaram em direção à parede, graças ao poder telecinético que Elaene agora possuía, mas nem ao menos podia controlar, enquanto chorava.

=^=

Quando a avistou no corredor, chamou-lhe algumas vezes, mas notou que ela o ignorou. Sabia que o evitava porque estava magoada com todos aqueles que esconderam a verdade, e isso lhe incluía. Correu em sua direção, e a puxou pelo braço.

— Elaene?

Ela lhe encarou com um olhar raivoso e frio.

— O que você quer, Merlin Reed.

— Você está magoada comigo?

— Magoada? – sorriu ironicamente – bom... você sempre soube, afinal seu pai estava lá, não é? Não minta! Você permitiu que eu voltasse para Camelot, e me casasse com um traidor! E pior... me incentivou a ceder à Arthur.

— Sim, Elaene. Eu permiti que você voltasse para Camelot e se casasse com o homem que amava. Mas diga, se eu lhe contasse que era filha de Rhaegar e Lyanna, você acreditaria? Não minta!

— O que você quer de mim? – respondeu rápido quando se sentiu encurralada.

— Como você está?

—Preciso mesmo responder essa pergunta? – disse arqueando a sobrancelha

Merlin observou as olheiras profundas, e soube a resposta.

— Eu realmente sinto muito, Elaene.

— É... eu tenho que ir. Hoje o conselho se reunirá.

— Irão te anunciar como Elaene Targaryen?

— Não... Ele roubou isso de mim também quando criou a tal “távola redonda”. – disse referindo-se à Arthur e sua nova forma de governo — Ninguém aqui dá a mínima se eu sou filha de Rhaegar ou Arryn, Merlin... Agora sou a merda de uma Pendragon, graças à lábia de Arthur, e para o deleite de Uther.

— E sobre os cativos? – disse ignorando as ofensas à Arthur.

— Tyrion está recuperando, e Cersei está jogada no calabouço, louca e decadente. Tommen, aquela pobre criança, está sozinha no mundo.

— Você deveria visitar Cersei e o garoto. Não há ninguém que se preocupe com eles por aqui.

— Eu? – perguntou surpresa.

— Você é a rainha, salvadora e mãe. Não é o que o povo lhe chamou lá fora? Seja misericordiosa e lute pela clemência. Uther é um homem frio e certamente não poupará nem o garoto, mas ele não sabe a importância que Tommen terá...

— Mais um de seus enigmas, Merlin?

— Apenas siga seu coração, Elaene. – respondeu enquanto lhe deixava sozinha no corredor.

=^=

Quando ouviu o barulho na porta, os raios do sol forte da manhã na capital batiam em seu rosto. Entravam pela janela e miravam bem seus olhos onde estava, no tapete no meio do quarto.

Levantou o tronco e botou a mão na cabeça, tentando fazer aquela dor lhe dar uma trégua, mas quando levantou do chão, gemeu angustiado com as batidas na porta que agora pareciam incrivelmente irritantes e altas.

Não deu a mínima pela aparência e nem pelo cheiro da bebida que ainda o impregnava.

— Príncipe, me desculpe! – disse o escudeiro laçando as mãos nervosamente, quando viu o estado de Arthur – mas é urgente.

— Diga logo... – gemeu Arthur, ainda com a mão na cabeça, quase pedindo para o garoto falar mais baixo.

— É Tyrion Lannister, senhor. Ele, enfim, acordou!

Arthur sentiu-se sóbrio de repente, e pediu licença para se arrumar. Tomou um banho gelado em sua banheira para tentar recuperar os instintos, e arrumou-se rapidamente, ansioso pelo reencontro com o amigo.

Quando aproximou-se do quarto, os guardas da porta fizeram reverencia à ele, mas Arthur nem percebeu, pois estava absorto em pensamentos. Havia tanto a ser dito, e não saberia por onde começar.

Abriu a porta e encontrou o amigo deitado na cama, olhando para o teto, enquanto o outro guarda que vigiava dentro do quarto lhe fez reverência. Assim, Tyrion notou sua presença e o encarou de volta. Agora Arthur pôde notar a bagunça que havia se transformado o seu rosto, quase todo coberto por faixas. Seu olhar era vazio e enigmático. Tinha quase certeza de que o seu próprio olhar também estava vazio.

— Pode se retirar, nos deixe a sós. – disse baixo para o guarda que arregalou os olhos pensando se seria sensato, mas ao ver o olhar sério e autoritário de Arthur, não mais hesitou.

Quando o homem se retirou, aproximou e sentou na beirada da cama, sem encarar o anão.

— Você está péssimo! – escutou a frágil voz do amigo e sorriu pela primeira vez, desde que Elaene arrancou fora teu coração.

— Você também não está nos seus melhores dias... – retrucou, agora o encarando e notando o rosto deformado se movimentar, e demonstrar que ele sorria.

Mas logo Arthur lembrou-se do que deveriam conversar, e sentiu a melancolia o dominar mais uma vez, então voltou a encarar as próprias mãos.

— Eu sinto muito sobre Jaime, Joffrey e Myrcela.

— Como está Tommen? – perguntou Tyrion se esquivando em falar sobre o luto.

— Ele foi tomado como cativo também, você sabe... como você e Cersei. Hoje a tarde teremos uma reunião com os aliados e serão discutidos os termos do fim da rebelião. Saiba que eu os defenderei, Tyrion!

— Meu pai sabe que a rebelião terá um fim, hoje?

— Creio que não, mas ele não tem escolha. Deve estar a caminho do Oeste, nesse momento. Sinceramente, eu só quero que tudo acabe logo. Iremos propor algo importante hoje.

Arthur explicou para o amigo as propostas sobre os Cavaleiros da távola redonda e sentiu os olhos do amigo brilhar em esperança.

Quando Arthur lhe contou sobre Elaene e sua verdadeira história, sentiu os olhos do príncipe voltarem para a janela e ficarem frágeis.

— Uma Targaryen perdida, ahm? Por essa, Robert Baratheon não esperava...

— Certamente não. – Arthur respondeu baixo.

— Você já parou para pensar, em como as coisas poderiam ser diferentes se agíssemos de outra forma, no passado?

Arthur não respondeu, pois sentia a culpa lhe corroer. Era muito doloroso remexer em tudo aquilo. Tyrion conhecia o amigo muito bem, e sabia que sofria por ela. Era óbvio que a princesa não havia visto com bons olhos toda aquela história de noivado feito por alianças em troca do silencio da família Pendragon.

— Quando vi a forma que vocês se olhavam, naquele pátio em Winterfell, soube que você estava perdido, Arthur. Não havia nada que eu pudesse te dizer, para fazê-lo esquecer o que sentia por ela. É uma pena a doce princesa não enxergar isso... – sorriu tristemente – eu senti-me traído por você quando se aliou aos nortenhos, sabia? Praguejei seu nome várias vezes enquanto avançavam para Porto Real, e desejei que o bastardo Bolton tivesse esfolado vocês dois quando foram raptados. Sim... eu desejei isso, amigo. Tive minha cota de ódio para uma vida inteira desde quando voltei para a capital. Minha família recebeu a maior dose dela. As coisas aqui ficaram insanas, e eu precisaria de uma boa garrafa de vinho para lhe contar o que vivi aqui.

— Sinto muito, Tyrion... sinto pelas coisas terem tomado esse rumo. Nunca quis estar do lado oposto ao seu.

Tyrion acenou com a mão para que ele parasse.

— Nem eu. Nem eu... – disse bufando — Estou cansado...

— Eu também...

Permaneceram calados, durante muito tempo.

=^=

Quando entrou na cela, ficou chocada com o tratamento dado à Tommen. Aquele era um lugar escuro, úmido e sujo. Não era um lugar para uma criança.

Tommen estava no canto, encostado na parede, assustado e com a boca seca. Seus olhos estavam inchados e sabia que não dormia bem e havia chorado muito. Colocou a tocha no suporte, e o encarou mais de perto, porém, o garoto recuou com medo.

— Oi, Tommen. Você está bem? Está ferido?

O garoto apenas negou com um aceno, e Elaene percebeu que suas bochechas não estavam mais rosadas, como da ultima vez que o viu, em Winterfell.

— Eu não vou lhe machucar, ouviu? Não tenha medo. Deixe-me examiná-lo.

Elaene o examinou a procura de ferimentos e notou que apesar do estado deplorável, estava intacto. Seus pensamentos imediatamente flutuaram para seus meio-irmãos, Aegon e Rhaenys, brutalmente assassinados na rebelião de Robert, a mando do avô do garoto. Porém, sabia que aquela criança não deveria pagar pelos pecados de Tywin, e o tratou com ternura.

Quando terminou de limpar os braços do garoto com um lenço úmido, o sentiu dar um abraço apertado, como se buscasse um conforto de mãe no seu colo. Acariciou seus cabelos até que ele, enfim, adormecesse em seus braços.

Tão frágil e carente. Tão pequeno e gentil.

Pensou no próprio filho no ventre e sentiu o que era certo a se fazer, mas sabia que seria um desafio enorme convencer Uther e os outros a não executarem o herdeiro da curta dinastia Baratheon.

=^=

Não haveria mais como adiar o reencontro com Arthur. Por mais que pudesse se esconder do príncipe em seus aposentos e no jardim de castelo, agora com a reunião do conselho, não haveria como ignorá-lo.

Jamais permitiria que ele a visse ferida e exausta como estava. Elaene não daria esse gosto para aquele que julgava ser um traidor.

Olhou para o espelho mais uma vez, e sentiu-se satisfeita. Usava um vestido preto com mangas longas, e um corpete vermelho como sangue, marcando sua cintura. Era um recado claro e direto: era uma Targaryen, e não uma Pendragon.

— Você pode roubar meu nome, Arthur. Mas meu sangue permanecerá intocado. – sussurrou para si mesma, antes de partir rumo à reunião.

Quando entrou no salão, pôde sentir os olhares lhe vistoriarem a alma. Todos estavam curiosos, agora que sabiam quem ela era realmente. Ouviu alguns cochichos baixos, mas quando o seu olhar encontrou os azuis que tanto conhecia, congelou.

Arthur também paralisou quando a encarou. Elaene havia desenhado o contorno de seus olhos com uma maquiagem escura, e o seu tom verde, outrora calmo, agora parecia muito vívido e hipnótico.

Nenhum dos dois percebeu que se encararam por tempo demais, e apenas quando Jon Connington tocou no braço da princesa para guiá-la até seu assento, é que saíram do transe.

Agora Arthur notou o recado explícito de Elaene. O vestido preto e seu corpete vermelho, gritava para todos verem que ela era uma Targaryen, independente de qual era seu nome de casamento. Aquilo soou como uma ofensa à ele, e à sua família, e sentiu um bolo formar no estômago com a mistura de sentimentos que surgiram, e a rejeição.

Estava farto e magoado. Havia dado todas as provas de seu amor à ela. Tocou na cicatriz do lado esquerdo de seu rosto, pensando em como teria dado sua vida, tranquilamente, para que ela visse o dia nascer mais uma vez naquele castelo. Mas Elaene, ainda assim, acreditava que ele era um monstro.

A partir daquele instante, evitou o olhar dela, que lhe fuzilava do outro lado da mesa em sua frente, e permaneceu com a cabeça baixa durante quase todo o tempo. Apenas quando era solicitado, respondia. Todos na reunião perceberam o péssimo clima entre o casal e a tensão ali se fez quase insuportável.

Porém, quando discutiram sobre o destino de Tommen, Arthur foi o único que ousou lhe apoiar contra Uther.

— Vocês não podem estar falando sério? Como têm coragem? Como conseguem conviver com vocês mesmos, depois de condenarem uma criança inocente à morte? – perguntou Elaene, indignada.

Arthur mexeu-se desconfortavelmente na cadeira, e seu olhar encontrou o dela pela primeira vez depois da encarada tensa. Ele sabia que Elaene estava certa.

— Pai, seja sensato! Tommen é apenas um garotinho. Dê-lhe clemência! – disse Arthur, testando o Rei. – Tome-o como cativo e manterá Tywin na linha.

— Você o deixara vivo para que seu avô trame o retorno dos Lannisters ao trono? Permitiria que ele ficasse mais forte para se voltar contra nós? – disse friamente Uther, e todos os outros nobres se calaram. Todos! Inclusive Robb, visivelmente constrangido enquanto Elaene lhe fuzilava com o olhar, e Oberyn, que fingia estar alheio à tudo aquilo. A víbora não julgava certo executar uma criança, mas também não moveria uma palha para salvar qualquer Lannister que fosse.

Uther levantou-se e deu a sentença.

— O garoto será executado, junto com sua mãe, pela manhã. Assunto encerrado.

Elaene fechou os olhos com força, e saiu do salão bufando, sabendo que perdera várias batalhas naquele salão, aquela tarde.

=^=

Elaene resolveu visitar a Rainha deposta. Agora que seria mãe, sentiu uma inexplicável compaixão por aquela mulher. A Rainha Cersei haveria de pagar por seus crimes, mas a Cersei mãe, deveria ter notícias de seu filho.

Quando entrou no quarto, encontrou a mulher jogada no chão, deitada em posição fetal. Usava um vestido de lã velho e sujo. Estava imunda e seu cabelo estava cheio de nós. Assim como fez com o Tommen, providenciou balde com água limpa, sabão e panos e deu um banho rápido na rainha.

Cersei esteve catatônica durante todo o banho, e apenas quando Elaene lhe colocou uma túnica de algodão limpa, reagiu ao toque, segurando seu pulso.

— Porque está fazendo isso? Não preciso de sua piedade.

— Não é piedade, Cersei. É compaixão. Não posso ver uma mãe nesse estado. – disse firme, sentindo a mulher soltar o aperto e encher os olhos de lágrimas. A muralha da Lannister, caindo aos pedaços – Venha, deixe-me pentear seus cabelos.

Enquanto penteava os cabelos da Lannister, tentando desfazer os nós dele, sentiu-a fungar e sabia que estava chorando baixinho.

— O maldito Rei do Norte deveria ter deixado meu menino partir em paz. Ele o arrancou de minhas mãos, mas aquele garoto que se julga rei, não sabe o que é ter uma cria, e ter de defendê-la até o último instante. Salvei a última gota de veneno para meu Tommen. Minha menina partiu serena, pensando se tratar de um calmante qualquer... – Elaene ignorou o que ela disse e não retrucou ao se lembrar que Myrcella tinha marcas de unhas no próprio pescoço, provavelmente fruto do desespero que sentiu ao morrer. Cersei estava vivendo em seu próprio mundo agora.

— Tão linda... Tommen viu o que o líquido fez à irmã, e resistiu. Ele deveria ter tomado e partido em paz. – virou-se para trás e agarrou o pulso de Elaene mais uma vez – Tommen não deve pagar pelos meus crimes.

“Mas meus irmãos pagaram pelos crimes de minha família.” Pensou triste.

— Sinto muito, Cersei. – disse com a voz chorosa – eu tentei interceder por Tommen... mas não há nada que eu possa fazer.

— Há uma coisa que você pode fazer, Lyanna.

— Sou Elaene, Cersei... – a corrigiu com paciência, mas a rainha continuou.

— Há passagens secretas por todo este castelo. Você poderia morar aqui durante uma década, e não conhecer metade delas. – Disse mantendo o olhar distante na janela – você apenas precisa conseguir entrar na sala de armamentos, no subsolo abaixo das masmorras... tenho um último amigo que irá ajudá-la a partir dali.

— Jamais conseguirei entrar lá sem ser notada, Cersei.

— Não, mas o príncipe agora é responsável pela segurança do castelo, certo? Ele conseguirá chegar lá. – disse com os olhos cheios de esperanças – ele salvará Tommen, Elaene. Convença-o. Salvem Tommen!

— Não, Cersei. Eu e Arthur... nós... não nos falamos mais. Eu não posso pedir isso à ele.

— Então lhe tome a chave, Lyanna! Pendragon é louco por você, use a arma mais poderosa que tem: aquela que você esconde entre as pernas. Transe com ele e a roube na calada da noite... – disse enquanto voltava a olhar catatônica pela janela, alternando momentos de sobriedade e loucura em uma mesma frase – esteja na sala de armamentos quando a lua atingir o ápice...

Levantou-se para sair, enojada com a sugestão de Cersei, mas quando chegou à porta, virou-se para uma pergunta inevitável.

— Diga-me a verdade, Lannister. Você teve algo a ver com a morte de Jon Arryn?

— Não... aquele velho era uma pedra no sapato, mas alguém se livrou dele antes de mim. – quando viu Elaene estreitar o olhar em desconfiança, continuou para enfatizar. – eu não tenho mais nada a perder, Lyanna. Não matei aquele velho curioso, mas apostaria meu último fio de cabelo, que aquela maldita Lysa Tully está metida nisso...

=^=

Quando entrou nos aposentos de Arthur, sentiu o coração disparar. Havia dito ao cavaleiro da Guarda que aguardaria o príncipe no quarto, mas não havia ideia do que faria ou diria quando Arthur chegasse.

Tentando afastar os pensamentos, passou a vasculhar o local à procura das chaves que precisava. Sabia que ele tinha uma cópia guardada naquele quarto, e a caçou desesperadamente para que não tivesse que lhe pedir.

Dever qualquer favor ao Pendragon, naquele momento, era algo que Elaene não contava, e sempre que a sugestão de Cersei ousava brotar em sua cabeça, a afastava imediatamente.

Mas para seu alívio, encontrou o objeto em um compartimento secreto de uma gaveta, e a retirou do molho guardando dentro do decote de seu vestido. Quando a ajeitou entre os seios, fechou os olhos com força quando ouviu a porta do quarto se abrir. Bufou irritada quando o ouviu se aproximar e seu cheiro invadiu seus sentidos, provocando reações que não pôde evitar.

— Elaene? O que faz aqui? – perguntou surpreso, pois não pôde acreditar nem quando o cavaleiro havia dito que a princesa o aguardava lá dentro.

Quando se virou, viu que ele a encarava de perto, com olhos cautelosos.

"Próximos demais. Perigoso." pensou.

Elaene engoliu seco e umidificou os lábios instintivamente, enquanto pensava no que dizer.

— Vim lhe parabenizar, Pendragon. – viu Arthur lhe franzir a testa, desconfiado – “Os cavaleiros da távola redonda”, é uma jogada de mestre. Vocês conseguiram me anular de todas as formas, e reconheço sua bela estratégia. Imagino que Uther esteja orgulhoso disso! – optou por desabafar aquilo que apertava a sua garganta.

Arthur suspirou cansado.

Pensou em lembrá-la que a ascensão de uma provável Targaryen ao trono, não tinha nenhum apoio, a não ser pelo velho Jon Connington e seus mercenários. Teve vontade de lembrá-la que a salvou no Ramo Verde e naquele maldito castelo próximo a Harrenhal, onde ganhou as profundas cicatrizes que habitavam seu peito, costas e seu rosto. Sentiu ânsia em gritar para ela, o quanto era injusta e ingrata, mas não tinha mais forças para discutir, brigar, ou convencê-la de que não era o traidor miserável que ela acreditava que ele fosse.

— Se você acredita que sou um manipulador e mau caráter, já não ligo mais, Elaene. Eu sei que lhe magoei, e me odiarei por isso por muito tempo, mas você também deixou suas marcas em mim. – continuou, mesmo quando notou o olhar surpreso e assustado dela. – Estas marcas aqui, já não me importam mais – disse levantando a túnica e mostrando as cicatrizes da tortura que sofreu nas mãos de Ramsay, no peito e no rosto – não doem, são apenas marcas, como você havia me dito uma vez. Mas o corte que você insiste em me infringir, é mais profundo que todos esses juntos, e o pior de tudo, é que a cicatriz que ele provoca, nunca irá parar de doer.

Fechou os olhos e caminhou até a porta, abrindo e gesticulando para que ela saísse.

— Tenha uma boa noite, princesa Targaryen. – disse ironicamente sem conseguir encará-la e apenas ouviu os passos apressados e constrangidos de Elaene para fora do quarto, enquanto ela mesma escondia o rosto para que ele não visse o quanto conseguiu atingi-la.