Queen of ice and fire
52 Cavaleiro negro

A comitiva da futura Rainha do Norte causou alvoroço quando chegou em Porto Real. Nada comparado ao tumulto gerado por Elaene, mas Margaery aprendeu com a princesa e esbanjou simpatia com os habitantes da capital, distribuindo presentes e rosas.
Sua liteira era decorada com flores, e Elaene notou alguns tecidos e couro nortenhos, obviamente para agradar Robb e seus aliados.
Quando desceu no pátio, Margaery estava estonteante. Usava um vestido cinza com detalhes em prata, e um generoso decote. Seus cabelos castanhos estavam bem presos, e pelos ombros desciam suas cascatas onduladas.
Olhou para o lado e viu o olhar desconfiado, porém, admirado de Robb. Ele forçou um sorriso enquanto discretamente analisava a futura rainha dos pés à cabeça.
Logo à frente, em meio às aias, viu a pobre camponesa do Oeste, visivelmente ferida, porém, forte e orgulhosa. Estranhamente aquela garota lembrou-lhe si mesma. As duas tiveram que abdicar de Robb por alianças. Ambas saíram feridas para que ele alcançasse o que queria. E ele nunca lutou por nenhuma delas.
Sorriu triste para Jeyne, lhe passando solidariedade pelo momento com o olhar, e a garota retribuiu o sorriso, grata pela gentileza da princesa.
Lembrou-se que era a terceira vez que Robb estava noivo. Perguntou a si mesma, se aquela seria a última, e ele enfim se casaria, mas estranhamente percebeu que já não se importava mais. Amava Robb, mas de uma maneira diferente. Aquele amor desesperado e ardente, agora pertencia à outro homem. Um homem que agora parecia ser um desconhecido para ela.
Olhou para o lado e seu olhar encontrou o dele, ambos vacilantes. Pensou ver pureza nele e em seus gestos, mas o brasão da família Pendragon atrás dele, balançava ao vento, triunfante, e lembrou-se de tudo mais uma vez, forçando-se a olhar para longe e ignorando os azuis a lhe encararem.
=^=
Nimueh havia se tornado grande aliada de Uther, o que deixou Elaene ainda mais irada e preocupada. Ela agora circulava por Porto Real com um cavaleiro misterioso ao seu lado, que supostamente a servira desde o mar estreito. O homem era monstruosamente alto, mais alto do que o doce Hodor que conheceu em Winterfell.
Sempre que via Robert Strong sentia seus pelos se eriçarem. Não sabia o que havia de errado com ele, mas sua energia era maligna. Nunca pôde ver os seus olhos, pois o cavaleiro nunca retirava o elmo em público, mas sabia que o que havia ali embaixo, era sombrio e mau, e só estava os rodeando por culpa da maldita sacerdotisa.
Elaene a viu no pátio, em meio ao tumulto da chegada de Margaery na capital, e caminhou decidida em sua direção. Quando parou em frente à Nimueh, a mulher manteve intacto o seu estranho olhar gélido, como se ela não significasse nada para ela.
— O que você planeja em Porto Real? — disse notando que não havia ninguém as observando.
— Ofereço a salvação de R’hllor ao Rei, princesa. Ele adotou a religião do verdadeiro e único Deus: O vermelho! Talvez haja salvação para você também...
— Sua mentirosa! Eu sei o que você é, Nimueh. – disse diretamente, com um olhar penetrante e pronunciando seu nome com ânsia.
— Não sei o que quer dizer, Alteza. – respondeu cinicamente.
— Fique longe de Arthur! – ficou ainda mais próxima dela pra lhe fuzilar com o olhar, a ameaçando.
— Os homens não apreciam mulheres ciumentas, Lady Targaryen.
— Se você ousar fazer mal à ele, ou manipulá-lo de qualquer forma, eu vou atrás de você! E é melhor que esteja preparada, porque eu irei lhe esmagar entre os dedos... – sibilou para a sacerdotisa, sentindo o olhar dela vacilar por um instante, enquanto uma forte rajada de vento frio zunia estranhamente, bem onde estavam. – E pra você, é Lady Pendragon.
=^=
—Elaene? – perguntou Arthur surpreso quando ela bateu em sua porta, tarde da noite – Aconteceu alguma coisa?
— Desculpe, Arthur. Teria um instante?
— Claro. – disse cedendo espaço para ela entrar, enquanto franzia o nariz para aquelas formalidades que nunca tiveram um com o outro.
— Vim para termos aquela conversa que pretendia, quando o interrompi com a sacerdotisa no corredor... – disse se recusando a pronunciar o nome dela.
— Elaene, você não precisava ter se retirado daquela forma.
— Eu não sei, mas vocês me pareciam bem... íntimos... – disse sugestivamente, espreitando os olhos. — E estão?
— Nimueh é um pouco insistente e nada ortodoxa, mas não foi nada demais. Você interpretou errado o que viu, apenas isso. – disse com um pequeno sorriso de lado.
— Aquela mulher não é o que aparenta ser. Afaste-se dela, Arthur. Ela é perigosa!
Arthur não controlou e sorriu ainda mais, porém, tímido.
— O que foi? Porque está sorrindo?
— Apenas estou me lembrando de algo que Oberyn me disse mais cedo.
Elaene suspirou.
— Eu sei que irei me arrepender de perguntar... mas o que ele lhe disse?
Arthur se aproximou apanhando a taça de vinho na mesa, e a encarou para medir suas reações.
— Que você está enfurecida, com ciúmes de Nimueh. Está?
Elaene riu com raiva.
— Eu falo sério, Arthur. Ela tem magia e é perigosa! Afaste-se dela.
— O que você sabe sobre magia, Elaene? – perguntou se aproximando ainda mais e notando que ela não havia respondido seu questionamento.
Arthur havia tocado em um ponto obscuro na mente de Elaene. Ele sabia sobre seus estranhos pesadelos, mas não sabia sobre a magia. Tinha medo de que ele a enxergasse diferente. Sentiu-se confusa por se preocupar com as impressões de Arthur sobre ela, mas distraiu-se quando notou que ele estava ainda mais perto dela, e pôde sentir o hálito doce de vinho dele.
— Você ainda não me respondeu... está com ciúmes? – perguntou novamente. Seu olhar era questionador, porém, esperançoso.
— Cuide-se, Arthur. – disse caminhando em direção à porta, se esquivando mais uma vez, e balançando a cabeça para se concentrar novamente. Quando alcançou a porta, virou-se para agradecê-lo. – E obrigada, por Tommen. Eu sei que foi você.
=^=
— Bom dia, Alteza! — pronunciou Nimueh em uma reverência ao encontrar com Elaene no corredor. Estava ao lado do maldito cavaleiro.
Elaene sentiu-se arrepiar perto dele, e quando encarou os estranhos olho azuis dela, estreitou o olhar em ira e instintivamente avançou em sua direção com a mandíbula travada.
Gwen a segurou pelo braço, em um toque firme.
— Pelo Sete, Elaene. Disfarce! — sussurrou Gwen quando Nimueh e o Cavaleiro já estavam distantes.
— Eu odeio essa mulher, Gwen! Eu a quero fora de meu caminho. Eu alertei Arthur sobre ela, e ele teve coragem de rir, perguntando se eu estava com ciúmes. Idiota! Aquele pervertido do Oberyn fica inventando histórias... — cuspiu as palavras com raiva.
Gwen riu sem jeito.
— Elaene, não surte, tudo bem? Eu sei que seu "problema" com Nimueh vai muito além de Arthur, e eu nem consigo entender o porquê disso, mas você está com ciúmes. Ela é linda e insinuante, claro que estaria...
— Até você, Gwen? Deixe de besteiras... — disse seguido o caminho pelo corredor, sendo acompanhada pela amiga.
— Você quase quebrou o seu quarto quando a viu tentar beijá-lo. Qual é? Até um homem cego poderia enxergar isso. Porque não admite de uma vez? Ninguém irá lhe julgar!
— Eu não posso!- disse em um tom mais alto, olhando para os lados, confirmando que estavam sozinhas — Eu não posso, entendeu? Admitir o que ainda sinto por ele, depois de descobrir o que fez, machuca muito.
— Por que se torturam tanto? Perdoe. Vocês se amam, é tão óbvio...
— A única coisa óbvia aqui é que você está me atrasando. Já disse que não quero tocar nesse assunto. — disse alargando os passos e se esquivando em direção ao salão, porém, Gwen sabia que o que disse era verdade, e a incomodou.
=^=
— Você havia concordado com o acordo em poupar Tyrion! Ele é o único herdeiro de Tywin em Rochedo Casterly, e é nosso cativo. O que você tem na cabeça, pai? — disse Arthur em direção ao salão, com esperanças de ter o julgamento cancelado.
— Ele será julgado, e assunto encerrado! Você perdeu o seu poder de barganha quando libertou Tommen! – disse Uther com a mandíbula cerrada. – Pensa que sou estúpido?
Arthur olhou para o chão, lamentando ser o salvador de Tommen, às custas da vida do amigo. Ele sabia que Tyrion teria poucas chances no conselho.
— Quantos corpos cairão pelo caminho, até que esteja satisfeito, Majestade?
— Quantos forem necessários, para que se construa essa dinastia... – respondeu friamente, virando às costas para Arthur.
=^=
O julgamento foi um pesadelo. Foi o único a defender o amigo.
Robb desprezava Tyrion, e Oberyn auxiliou o massacre, ainda ressentido e alertando Arthur a todo momento, sobre a promessa que fez em entregar a cabeça de Tywin à Dorne, ainda não cumprida.
Nimueh se colocou ao lado de Uther, e Elaene a fuzilava com o olhar. Arthur reconheceu a ira faiscando nos conhecidos olhos verdes dela, outras vezes, tão gentis.
Quando percebeu que não haveria outro veredito, acenou para Tyrion para que fizessem o combinado. Arthur havia prometido que o compensaria por tê-lo abandonado na guerra dos reis. E acima de tudo, devia isso à Tyrion, por ter matado Jaime.
Assim que Uther se levantou para anunciar a tão provável sentença, Tyrion ergueu a voz para que todos ouvissem sua demanda.
— Eu exijo julgamento por combate!
Ouviu-se exclamação por todo o salão, cochichos e até alguns risinhos maldosos. Elaene notou o olhar de satisfação de Nimueh, que parecia misteriosamente triunfante.
— É mesmo, duende? E quem seria o seu campeão? – perguntou Uther com um sorriso torto, zombando de Tyrion. – Quem seria o bravo cavaleiro disposto a lutar contra Robert Strong, o campeão do Rei?
Todos sabiam que os Lannisters estavam derrotados e humilhados. Jaime estava morto, e ninguém se arriscaria a ir contra o novo rei em defesa do anão. Muito menos lutando contra aquela monstruosidade, conhecida como Robert Strong.
Ninguém, exceto um cavaleiro.
Arthur levantou da cadeira, e ergueu o queixo para encarar o próprio pai com orgulho.
— Eu lutarei por Tyrion.
=^=
Elaene avançou em sua direção com fúria, e o puxou pelos braços, no corredor.
— O que diabos deu em você?- perguntou exaltada.
Arthur acenou para que os guardas dessem privacidade, e a guiou pelos braços até entrarem em um cômodo vazio.
— Por que você quer se matar dessa forma, Arthur? Eu te disse que aquela mulher é perigosa, e aquele homem que anda ao seu lado, é igualmente maligno! Lutar com ele? Onde está com a cabeça? – perguntou Elaene com olhos marejados, e Arthur pensou ter visto desespero neles.
— Eu prometi a Tyrion que o salvaria. Ele não tem mais a ninguém.
— Você fez o que podia por ele, no julgamento. Coloque outra pessoa para lutar em seu lugar!
— Eu não posso! – disse com um tom de voz mais alto.
— Por que não? – questionou Elaene, com um tom ainda mais alto e Arthur fechou os olhos para lhe responder.
— Eu sou um cavaleiro, Elaene. Tenho um código de honra para seguir. Eu me anunciei como o campeão do anão, não tem volta!
— É um duelo até a morte, Arthur! – exclamou controlando o desespero na voz.
— Eu sei. – disse Arthur, a deixando sozinha no cômodo.
=^=
— Você tem que me ajudar, Merlin! – disse desesperada invadindo o quarto do jovem mago.
— É sobre o duelo, não é?
— Aquela desgraçada... – respirou fundo mais uma vez para controlar as emoções – Aquele homem que lutará como campeão do Rei, é maligno! Eu posso sentir a energia macabra que emana dele.
— Sim. Arthur é o melhor espadachim de Westeros, e nem assim teria chances com aquela criatura.
— Precisamos fazer alguma coisa! Talvez eu deva matá-lo com meus poderes, na arena. Se eu me esconder, não perceberão o que aconteceu.
— Você já matou alguém com magia, Elaene? — perguntou receoso.
— Não. Mas eu posso esmagá-lo, ou arremessar algum objeto pontiagudo nele, talvez a própria espada de Arthur. Eu não sei! – respondeu agitada passando as mãos no cabelo.
— Robert Strong não é humano. O que está morto, não pode morrer. Armas humanas não o matarão.
Elaene arregalou os olhos para a afirmação de Merlin. Então era por isso que ele nunca retirava seu elmo. A história que Nimueh contou, de que Robert fizera voto de silencio, era mais uma mentira.
— Deve haver algo que eu possa fazer. Qualquer coisa!
— Por que está tão desesperada para salvá-lo? Você não odeia Arthur? – questionou Merlin com um olhar sugestivo.
— Ele é um traidor, mas ainda é o pai de meu filho. Não o quero morto. Não posso assisti-lo morrer, Merlin. Não posso! – disse lançando um olhar de súplica.
— Pegue Excalibur.
— Excalibur? A espada da família Pendragon?
— Ele a usará amanhã, certo?
— Sim, mas você disse que nenhuma arma poderia matá-lo.
— Eu disse que nenhuma arma humana, poderia matá-lo. – disse Merlin a encarando de perto — Reforjaremos Excalibur, com magia.
=^=
Estava tão absorto em pensamentos, olhando pela janela, que não a viu entrar no quarto. Pensava sobre a discussão que teve com o pai mais cedo, sua decisão no julgamento, e a própria conversa que teve com ela.
Tinha esperanças que Uther daria clemência à Tyrion, antes do duelo, e assim o pouparia do confronto, afinal, era seu filho. Deveria haver algo naquele rei que ainda fosse teu pai. Rígido, porém amoroso.
Mas parecia que os dois travaram uma silenciosa luta de egos, e no fundo, sabia que o pai não cederia. Preferia ver o filho morto, a ter que voltar atrás com sua palavra.
Seu adversário era um homem misterioso e monstruosamente alto. Sentia arrepios ao pensar em quem aquele homem lhe lembrava, mas logo afastava os pensamentos debochando de si mesmo. Ele estava morto, há muito tempo...
Inevitavelmente, Arthur tinha medo. Pela primeira vez em muito tempo, teve medo de morrer. Mesmo com Elaene tão distante emocionalmente, havia o fruto daquele amor à caminho no ventre dela. Notou que o corpo dela estava mudando, e sentiu pesar em não poder ver de perto cada pequena mudança. Sentia falta de tocar a barriga dela, e dormir imaginando o rosto daquele que ainda não conhecia.
— Arthur? – Elaene o chamou delicadamente, fazendo-o se virar para encará-la. – eu não quero que lute amanhã...
Ele suspirou e cruzou os braços, escorando as costas na parede ao lado da janela, e a olhando com um olhar triste e nostálgico.
— Está preocupada comigo?
— Por favor... não lute! – pediu em uma súplica e aproximou-se dele à uma distância mínima tocando seu rosto com as mãos, fazendo-o vacilar.
— Eu preciso. Sinto muito...
Elaene roçou seu lábio no dele, o fazendo descruzar os braços e laçar a cintura dela automaticamente, com o coração acelerado.
— Não. Eu é que sinto muito, por isso...
Elaene o beijou suavemente, mas não era um beijo normal. Ela tocou seu rosto, e sugou sua energia até que adormecesse.
Com dificuldade, segurou Arthur pelos ombros apenas para que ele não batesse os joelhos no chão, e o deixou caído no tapete.
Apagá-lo era o único jeito de reforjar Excalibur com magia, sem que ele percebesse.
Quando olhou para a cômoda viu a armadura já preparada e polida e sua espada. Retirou Excalibur da bainha com delicadeza, e a colocou no chão do quarto para começar o ritual, que demorou horas e a consumiu por inteira.
=^=
Assim que terminou, estava exausta. Saiu do quarto de Arthur, e viu o olhar curioso do guarda em sua porta, mas sabia que ele não acharia nada anormal a princesa sair do quarto do príncipe, na calada da noite, antes de um duelo mortal.
Mesmo tão esgotada, não conseguiria dormir, então foi até o bosque sagrado do castelo para recuperar um pouco suas energias, até que amanhecesse.
Arthur acordou apenas de manhã com seu escudeiro e os preparativos para o duelo.
Olhou ao redor e botou a mão na cabeça, confuso. Não se lembrava de como adormeceu. Estava no tapete do quarto, com um travesseiro apoiando sua cabeça, e uma manta cobrindo seu corpo.
A única coisa que se lembrou, foi ter sonhado com ela. Elaene havia lhe suplicado para que não lutasse e lhe dado um beijo de despedida.
Agradeceu aos deuses por ter sentido o gosto de rosas em sua boca mais uma vez que fosse, ainda que apenas em sonho.
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