Queen of ice and fire
53 Caindo em mãos erradas
Notas iniciais

Era estranho estar novamente em um bosque sagrado, e aquele no castelo de Maergor, não parecia em nada com Winterfell. Sentia falta do vapor das águas termais e o cantar dos pássaros perto da alvorada.
Se ao menos ainda estivesse com seu amuleto de proteção, o daria para Arthur, e sentira mais segurança no duelo daquela manhã. Bufou em frustração e ouviu o quebrar de galhos logo atrás.
A camponesa manteve o semblante tímido quando a viu, e fez reverência.
— Desculpe, Alteza
— Tudo bem... Jeyne, não é? Seu nome. – viu a garota acenar em confirmação. — Você não precisa se encolher como um pássaro assustado, toda vez que me ver, Jeyne!
— descul- – disse sendo interrompida por Elaene
— E nem pedir desculpas a todo momento – disse sorrindo, e a garota acompanhou.
— Eu não quis incomodá-la. Sei que não são meus Deuses por tradição, mas venho aqui todos os dias, pois creio que esses Deuses estranhos me adotaram também.
— Eu sei como é se sentir abrigada por eles... – divagou Elaene, lembrando-se de como adotou aqueles Deuses também. – Venha! – disse acenando para que Jeyne se ajoelhasse ao seu lado, em frente ao rosto esculpido na árvore-coração.
— Princesa... você acredita que os Deuses nortenhos têm força, mesmo aqui no Sul?
Elaene pensou um pouco e fechou os olhos. Pegou a mão de Jeyne e a moça sentiu confiança em seu toque e também fechou os olhos. Sentiu o doce toque de uma flor do sul, soprada pelo vento, roçando as costas de suas mãos.
— Cuidado com o que pedes, Jeyne. Eles respondem. Você é quem não está ouvindo.
=^=
Quando o viu em sua tenda, notou que o escudeiro dele terminava de montar sua armadura de combate. Assim que encaixou a manopla, Arthur levantou o olhar para encará-la. Foi impossível não se lembrar de quando ela lhe visitou em sua tenda, em Ponte Amarga, no pequeno torneio onde derrotou Loras.
Porém, aquela visita era melancólica. Suspirou supondo que ela estava ali para tentar impedi-lo de partir para o combate, com Robert Strong.
Eis que o escudeiro notou a presença dela, e fez reverência pedindo permissão para se retirar.
Elaene se aproximou e puxou o braço de Arthur sem encará-lo, e amarrou um lenço vermelho por cima da cota de malha, sob o olhar atento dele.
— Tradição... – sussurrou baixo.
Era tradição que os homens lutassem com um lenço de sua amada, como uma espécie de bênção. Arthur franziu a sobrancelha, pois sabia que Elaene nunca se importou com as tradições sulistas.
Ele acreditava que ela ainda o odiava, mas quando Elaene olhou para cima e encontrou o seu olhar, viu preocupação em seu semblante. Soube que o lenço era apenas uma desculpa para se aproximar. Pensou se finalmente o coração da Targaryen estaria amolecendo.
Inclinou o rosto para mais perto e viu o profundo verde dos olhos dela se modificarem. Ela não se afastou, retribuindo a intensidade do olhar. Então minimizou a distância entre seus lábios e notou que ela havia fechado os olhos e aberto levemente a boca, esperando o seu contato. Daquela distância, podia até sentir o gosto dela em sua boca, sem ao menos precisar prová-la.
Mas quando mencionou roçar seu lábio no dela, ouviu seu escudeiro anunciar, timidamente pela entrada da tenda, que o esperavam na arena. Elaene suspirou frustrada enquanto ele levantou o rosto para depositar um beijo em sua testa.
— Cuide dele, Elaene. Diga que sinto muito por não vê-lo crescer... — sussurrou em sua pele.
— O príncipe deveria acompanhar a princesa no Festim, Arthur. — disse esperançosa, ignorando o pessimismo dele, e arriscando um sorriso — Talvez você deva me convidar para uma dança... – sussurrou enquanto ele lhe dava as costas.
Arthur manteve-se com o semblante sério e caminhou para a saída, mas virou-se para dizer o que estava sentindo.
— Se eu viver, talvez você deva fazer melhor julgamento de mim, Elaene. De uma vez por todas!
=^=
Quando entrou na arena, tentou ignorar os gritos da multidão que os assistia. O combate havia se tornado um grande espetáculo, já que o belo e valente príncipe Pendragon lutaria pela honra de seu antigo amigo, e agora cativo de guerra, Duende.
O sol bateu em seus olhos, pelo vão do elmo, e sentiu seu coração acelerar. Uma coisa era o combate corpo-a-corpo, durante a adrenalina da batalha. Outra completamente diferente, era um combate singular com uma multidão os observando. Seu povo, seus amigos, sua família, e ela...
Sentiu o estômago dar voltas com a possibilidade de Elaene assistir sua morte, e então segurou Excalibur com força entre os dedos, enquanto se dirigia para o centro da arena, em frente ao rei, e se concentrava para o que viria a seguir.
Parou ao lado do imenso homem, que permanecia impassível com sua reverência. Arthur olhou para o pai e não reconheceu mais o homem que viu ali. Uther não parecia aflito com a vida do primogênito por um fio, então fez uma reverência exagerada, para demonstrar o desprezo que sentia naquele momento, pelo pai.
Colocaram-se em posição, um de frente ao outro, e Arthur aproveitou para analisar o oponente. Através do visor do elmo do homem misterioso, como sempre, não se podia ver seus olhos. Elaene estava certa quando dizia que havia algo de errado com Robert Strong.
Quando o rei autorizou o combate, acenando a mão bruscamente para baixo, Robert veio ferozmente em sua direção, e Arthur apenas desviou de seu golpe lateralmente, ganhando tempo para estudá-lo. A espada de Robert bateu no chão, a tempo de Arthur notar o quão forte aquele homem era.
Arthur dançou com o homem até conseguir calcular seus movimentos, e poderia jurar que já havia lutado com ele antes, apesar de notar que Robert não grunhia como aquele outro homem.
Mesmo dançando tanto tempo com ele, Arthur notou que a despeito da sua enorme altura e peso, não parecia cansado, e decidiu que deveria mudar de estratégia, antes que ele mesmo acabasse exausto.
Então Arthur atacou rapidamente e lançou golpes na parte desprotegida da armadura de Robert, porém, o homem agora partia para o contra-ataque, como se o golpe não houvesse lhe causado nenhum dano. Arthur sentia os golpes pesados e bruscos do contra-ataque sobre ele, e sentiu dificuldade em segurar a guarda.
Na primeira brecha que teve, abaixou o corpo e posicionou a perna no caminho de Robert e o viu tropeçar pesadamente, e cair de joelhos na areia da arena, o que causou um estranho déjà-vu em Arthur.
Sentindo-se dominado pela fúria e estranhamento com a coincidência, lançou a espada rapidamente para cima, e a despencou em direção à nuca do homem.
Elaene soltou um grito excitado de onde estava no tablado, quando viu o elmo de Robert Strong rolar pelas areias da arena. Entretanto, ali havia apenas o elmo.
Arthur deu alguns passos para trás, a tempo de ver o homem se levantar, e chutar o elmo vazio para longe.
De onde deveria estar parte de sua cabeça decapitada, não existia nada.
— O que é você? O que significa isso? – perguntou assustado enquanto se afastava do homem que ainda caminhava em sua direção.
Arthur ouviu os sons da multidão de longe. Alguns gritavam de medo, e outros exclamavam de susto. O príncipe era querido em Porto Real, e todos ficaram aflitos quando notaram que havia algo de errado e sobrenatural com Robert Strong, seu adversário.
Elaene levantou-se da cadeira de uma vez, em direção à cerca da arena e lançou-se furiosa em direção à Uther.
— Tire-o de lá! Esse homem não é humano!
Porém Nimueh sussurrou em seu ouvido, e Uther apenas acenou para que a luta continuasse, e logo ouviu-se o som da multidão em revolta contra o rei.
Elaene continuou gritando para Uther e a multidão a incentivava, ameaçando invadir o local para salvarem o príncipe.
Nesse tempo, Robert já avançava contra Arthur que, confuso e assustado, só podia se defender e se afastar da lâmina pesada e afiada do cavaleiro sem cabeça.
“Como matar algo que está morto?”— eram as únicas palavras que rodam na cabeça de Arthur, e concentrava-se para não deixar o desespero lhe dominar. Deveria morrer com dignidade.
Elaene percebeu que Arthur estava acuado, e não conseguiria se defender por muito tempo, então lembrou-se que não deveria se deixar desesperar também. Excalibur foi forjada na magia, e nenhum ser mágico resistiria à sua lâmina. Arthur só teria que atingi-lo no lugar certo.
Gritou para Arthur, que ouvia sua voz, mas não conseguia identificar o que dizia.
Quando Robert lançou outro ataque feroz, conseguiu retirar velocidade, apesar de seus pulmões que já queimavam pelo esforço, e defendeu-se do terceiro golpe, conseguindo um ângulo lateral do oponente.
— No coração! – ouviu Elaene gritar. E Arthur obedeceu.
Com toda força que restava, afundou Excalibur no peito do cavaleiro sombrio, até sentir que o havia atravessado inteiro. Viu o homem ficar quieto, mas nenhum som poderia ser ouvido, e dali de perto podia ver que havia carne em seu corpo, porém, não havia nada de sua nuca, para cima.
O Silencio na arena era cortante.
Não fazia ideia de como aconteceu, e nem como seria possível, mas era o Montanha. Agora sabia.
— Você pode voltar quantas vezes puder, e eu irei te mandar para o inferno em todas elas! – disse sussurrando, mais para si mesmo do que para aquele moribundo sem cabeça.
Quando Arthur retirou a espada do peito do cavaleiro, sua armadura desmontou no chão, como se não houvesse mais nada dentro. Só restava o metal retorcido no chão.
A magia estava de volta. E aquela magia, era negra.
A multidão explodiu em aplausos e cânticos de alívio para o príncipe, mas seu olhar era mais de espanto do que de alívio, quando encontrou o de Elaene.
=^=
Quando enfim criou coragem para visitá-lo em sua tenda, ao seu aproximar do local, ouviu a voz de Uther e parte da conversa entre pai e filho
— Estou orgulhoso. Eu sempre acreditei em você, Arthur. Eu sabia que você conseguiria derrotar aquele homem, ou seja o que for aquilo. Jamais arriscaria sua vida se não soubesse que você venceria...
— Claro, pai... – Disse Arthur, visivelmente abalado, e claramente não confiando na sinceridade do pai, enquanto seu escudeiro retirava sua armadura.
Quando entrou na tenda, viu que a maldita mulher estava lá, como sempre, ao lado de Uther. Não encarou nenhum dos dois, e seus olhos foram direto para Arthur, à procura de ferimentos, quando o ouviu gemer baixo de dor nos ombros.
— Vim saber se você está bem, Arthur. – disse constrangida.- Está sangrando?
Arthur dançou o olhar de Nimueh para Elaene, e notou que a sacerdotisa tocava em um amuleto em seu pescoço e murmurava baixo algumas estranhas palavras em direção à Elaene.
Logo quis que Elaene ficasse longe dela o mais rápido possível. Agora, enfim, sabia o quanto aquela mulher era perigosa.
— Estou bem, Elaene. Por favor, nos dê privacidade... – disse querendo que ela fosse embora para longe de Nimueh, mas notou o olhar magoado que ela lançou em sua direção, e bufou em frustração.
— Claro, desculpe. Não queria incomodar. Com licença. – disse saindo da tenda, virando o rosto para que sua maior inimiga não notasse a fragilidade em seu olhar quando sentiu-se rejeitada por ele, logo após quase perdê-lo, enquanto Arthur pensava o quão ridículo era ela pensar que incomodava com sua presença, quando o que mais queria era protegê-la de tudo.
Elaene ajeitou sua roupa e cabelo para melhorar sua aparência e recompor sua dignidade. Estava triste por estarem tão próximos e tão longe um do outro, mas nenhum sentimento era maior que a alegria e alívio que sentiu ao vê-lo vivo naquela tenda. Então obrigou-se a não sentir mágoa.
Quando chegou no pátio, correu em direção à Merlin que caminhava tranquilamente cheirando uma erva em suas mãos, e abraçou-lhe com fervor.
— Obrigada! – sussurrou e deixou-se emocionar, quando o garoto retribuiu o abraço, acariciando seu cabelo.
=^=
Quando viu a sacerdotisa voltar para o pátio do castelo, sentiu a ânsia tomar conta e virou-se para a direção contrária, mas antes o sol refletiu em algo na mulher, e então olhou mais uma vez para ver o objeto no pescoço de Nimueh.
Sentiu o sangue ferver em seu corpo, em fúria. Tudo se tornou vermelho, e apenas pôde se controlar o suficiente para não parti-la ao meio com sua magia, pois tinha certeza de que, mesmo nunca tendo tentado tal feito, seus poderes chegaram a um nível perigoso.
Avançou pelo pátio furiosamente, e com a ajuda de seus poderes a adrenalina, empurrou Oberyn que tentava impedir o seu avanço contra a sacerdotisa, fazendo-o tropeçar nos pés e cair no chão, longe.
— Ouviu uma voz muito familiar chamá-la pelo nome em algum lugar do pátio, mas tudo ao seu redor era vermelho e fúria.
Chutou as pernas da mulher dando-lhe uma rasteira, e empurrou seus ombros para trás, a jogando no chão com uma força incomum. A mulher gemeu com o susto e dor, e sentiu-se impotente por não conseguir competir com a magia de Elaene, que naquele momento de fúria, bloqueava a dela.
Elaene montou em seu colo e deu severos tapas em seu rosto, e arrancou o colar de seu pescoço com brutalidade, marcando a pele alva da mulher com o atrito.
Enquanto posicionava seus dedos na garganta da mulher para apertá-la, alguém a impediu a tempo.
— Elaene, não! – disse Arthur enquanto a segurou pelas costas, travando os seus braços em um abraço por trás, e a levantando de cima de Nimueh. – Não faça isso! – disse mais baixo, próximo ao ouvido dela.
Elaene ainda se debatia nos braços dele, enquanto Arthur a retirava do pátio, a tempo de verem Oberyn ajudar a mulher a se levantar.
Quando encontrou o primeiro aposento vazio no castelo, para ficarem livres dos olhares curiosos e assustados, Arthur empurrou a porta com os pés, pois Elaene ainda estava em uma fúria descontrolada, e grunhia em ódio.
— Controle-se! O que deu em você? – disse firme, mas Elaene ainda se debatia em seus braços, dominada pela ira.
Virou-lhe, abraçando-a de frente, e a lançou contra a parede, segurando seus braços para cima e forçando seu corpo contra o dela para que parasse de se debater.
— Pare! Não demonstre a ela o quanto lhe atinge! Não dê esse prazer à ela! – disse com o rosto muito próximo ao dela, a encarando firme.
Elaene voltou a si quando notou o corpo de Arthur prensado no seu. Havia tanto tempo que não desfrutava daquele contato, que não imaginava que poderia sentir tanta falta. Seu peito estava colado com o dele, e era como se ambos pudessem sentir a batida do coração do outro.
Apenas quando Elaene desviou o olhar para os seus lábios, é que Arthur percebeu o apelo erótico daquela cena. Os braços de Elaene estavam firmes para cima, no aperto que havia feito com as mãos, sua respiração batia intensamente em seu rosto, e seus seios lutavam para se movimentar contra ele, dentro do generoso decote de seu vestido.
Deuses, como sentia falta dela! Tudo o que precisava era inclinar o rosto, e tomar seus lábios. E quando pensou na possibilidade, lutou para que seu corpo não reagisse imediatamente.
Percebeu que ela também ansiava pelo beijo, pois seus olhos estavam quase negros, e sua respiração, frágil pela ira e pela excitação, saia por seus lábios entreabertos com dificuldade.
Elaene ansiava pelo beijo que não recebeu na tenda, e principalmente, pelo alívio que sentia ao vê-lo vivo. Ela umedeceu a própria boca enquanto se inclinou em direção aos lábios de Arthur, que ao contrário do que seu instinto e desejo diziam, inclinou a cabeça para trás, para longe dela. Ela franziu a testa em confusão e dor com a rejeição, e então ouviram o barulho de algo oco caindo no chão.
Ele soltou seu pulso delicadamente, livrando-a do aperto na parede, e a viu abaixar e pegar o amuleto no chão, constrangida. Só então Arthur se deu conta do motivo da ira dela: era seu amuleto de proteção.
— Então era por isso que ficou tão irada... – disse suspirando, tentando apagar a cena anterior da cabeça.
— Sim! – disse sem jeito enquanto se afastava para longe dele, sem poder encará-lo nos olhos – não sei como foi parar nas mãos daquela cretina, mas não poderia aceitar que ela o tocasse.
— Elaene... eu... – gemeu tentando encontrar as palavras para explicar sobre o porquê rejeitou seu beijo.
Queria dizer que tinha medo de que, quando ela o beijasse, ele se enchesse de esperanças mais uma vez, para logo Elaene retirar-lhe seu coração do peito com as mãos, como já havia feito.
Mas Elaene girou em direção à porta, com pressa, o poupando de explicações.
— Eu tenho que ir!
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