Queen of ice and fire
41 Cabeça da serpente
Notas iniciais

Quando ouviu Arthur entrar pela tenda, Eleane virou-se para trás com susto e franziu a sobrancelha quando o reconheceu.
— Arthur? O que faz aqui?
— Desculpem a intromissão, Sor. Oberyn e Lady Ellaria. Apenas fiquei preocupado com minha esposa, como sabem estamos em tempos obscuros. Queria me certificar de que estava segura. – respondeu se aproximando mais da mesa e nunca tirando o olhar do dornês, que respondia a ameaça implícita com um sorriso quase irônico.
— Não se desculpe, Pendragon. És bem-vindo entre os Martells, afinal, somos aliados não é mesmo? Por favor, junte-se a nós. – disse acenando para o servo para que servisse o cavaleiro.
Elaene encarava Arthur quando se juntou à eles, mas notou que o marido continuava a lhe evitar o olhar o máximo que podia.
Oberyn fez um rápido aceno para sua amante, que logo entendeu o recado.
— Elaene, quero lhe mostrar os maravilhosos tecidos que trouxe de Lys. Desejo lhe presentear com alguns e quero que escolha pessoalmente. – disse levantando e estendendo a mão para Elaene, que aceitou o convite, mesmo que curiosa sobre o que Arthur e Oberryn teriam para conversar tão urgente.
— És realmente muito gentil, Ellaria. — Disse lançando um último olhar para Arthur, que sorriu nervosamente de volta.
Quando estavam finalmente sozinhos, Arthur bufou e logo perguntou.
— O que está fazendo, Oberyn?
— Jantando? – respondeu ironicamente e acenando para o servo se retirar também.
Arthur sentiu o sangue esquentar e sabia que estava com a mandíbula trincada.
— Não me teste, Oberyn... se algo acontecer com Elaene...
— Sor Arthur, você está em minha tenda, onde livremente estou repartindo minha carne e meu vinho. Se me ameaçar novamente, irei chutar tua bunda branca daqui para fora. – respondeu com uma voz estranhamente calma.
Arthur o ignorou e continuou
— Nada é como você imagina, não a julgue por algo que ela mesma não teve escolha. Elaene é inocente.
— Do que está falando, Pendragon?
Arthur bufou mais uma vez, impacientemente, e botou a mão na têmpora.
— Você sabe sobre Elaene e fez questão de deixar isso claro na noite de nosso casamento. Por quê? O que você quer?
Sorrindo cinicamente, e sabendo que não conseguiria mais esconder, encarou Arthur.
— O que eu sempre quis nos últimos 20 anos, meu nobre dragão: justiça!
— Eu decepei a cabeça daquele monstro miserável em Vila D’ouro! Ellia e seus sobrinhos podem, enfim, descansar em paz.
— É verdade. Confesso que tive vontade de te matar quando soube disso, Pendragon. Gregor Clegane deveria morrer pelas minhas mãos, e não pelas suas. Mas confesso que, pensando melhor, o sou grato por tê-lo feito. Provou o seu valor livrando o mundo daquele monstro.
Arthur alisou o cabelo nervosamente.
— E ntão o quê, em nome dos Sete, você quer?
— Eu quero a cabeça da serpente, dragão! Aquele monstro desgraçado obedeceu à ordens. Eu quero a cabeça do cretino que segurava a coleira do maldito Montanha!
— E você a terá! Quando tomarmos Porto Real, eu lhe prometo que trarei Tywin Lannister à justiça do rei!
— Você parece ser um homem valente, Arthur, admiro isso. Mas todo homem teme algo... – Oberyn respondeu enquanto rodava o vinho na taça, analisando Arthur minuciosamente com o olhar estreitado – O que você teme, Sor? Que eu machuque Elaene?
Arthur sentiu a adrenalina fazer seu coração disparar e seus lábios tremerem. Nunca foi um homem fadado à medos, mas sentia pavor ao imaginar que algo pudesse acontecer à ela.
— Sou seu aliado, Oberyn, queremos o mesmo final nesse conflito. Eu não tenho absolutamente nada contra você e sua família, pelo contrário, sempre tivemos bons laços com Dorne, ao contrário dos Tyrell, que ambos desprezamos. Mas uma coisa eu lhe garanto, se tentar qualquer coisa contra Elaene, eu esquecerei quem você é, e o que sua família representa nessa guerra, e arrancarei seus olhos com minhas próprias mãos. Juro pelos sete, que o farei sorrindo... – disse Arthur lhe encarando friamente, e Oberyn soube que ele estava falando sério.
— O que você pensa que sou, Pendragon? Um maldito Lannister que massacra crianças inocentes? Elaene não passa de uma criança para mim! É uma boa garota, a despeito de seus pais. Mas lhe digo uma coisa, Arthur. Eu vou cobrar o que prometeu à mim hoje.
— Você já deu seu recado, Martell.
=^=
Corria à beira do Avalon e as brumas estavam densas. Olhou para cima quando ouviu um silvo agudo, e notou a sombra de um grande animal alado sobre a copa das árvores, avançando em sua direção...
Acordou com um grito angustiado e um salto que a fez sentar-se na cama. Arthur acordou atordoado ao seu lado, percebendo que ela teve um de seus pesadelos. Abraçou-lhe de lado beijando seu ombro, e disse palavras de incentivo baixinho ao pé do ouvido, mas ela estava ofegante e molhada de suor.
— Está tudo bem, estou aqui... – quando depositou um beijo em sua bochecha, notou que sua pele estava gelada.
Elaene botou a mão na boca e o afastou com uma mão enquanto levantava apressadamente da cama. Correu em direção à porta, deixando Arthur confuso, mas antes que passasse por ela, expulsou todo o conteúdo de seu estômago no chão.
Sentiu-se tonta e seus joelhos pareciam sem forças. Quando o quarto girou, sentiu que encontraria o chão, mas antes, braços fortes a ampararam.
Quando tomou consciência novamente, estava deitada na cama e Arthur lhe olhava com grande preocupação. Ele acariciava seu rosto para lhe ajudar a voltar a si, e lhe chamava pelo nome insistentemente.
— Elaene? Elaene? Fala comigo!
— Estou bem... é apenas meu estômago... – disse fechando os olhos e se concentrando para responder com clareza – acho que exagerei no vinho e na comida dornesa. Não acredito que me viu vomitar...
Estranhamente ela viu uma expressão de raiva no rosto dele. Ou seria medo?
— Você precisa ficar deitada. Chamarei o meistre Gerold.
— Eu estou bem, não incomode Gerold a essa hora da noite.
Arthur bufou e levantou da cama, passando a mão nervosamente nos cabelos.
— Não seja teimosa! – disse enquanto já deixava o quarto. – Já volto, não se levante!
=^=
Meistre Gerold a examinava calmamente e já notou que a tonalidade rubra já voltava a tomar conta do rosto de Elaene, enquanto ela adormecia com o efeito da erva calmante que havia dado à ela.
— Então, Meistre, o que aconteceu? Ela está bem? – perguntou ansioso e o homem idoso sorriu para Arthur enquanto respondia.
— Apenas um enjôo, Arthur. Elaene misturou vinho com temperos dorneses e não está acostumada com essa mistura. Logo pela manhã já estará bem, desde que faça um desjejum leve. – disse sorrindo para ele.
— Você tem certeza? – disse Arthur próximo ao senhor, com uma expressão angustiada.
— Arthur, fique calmo e descanse um pouco com sua mulher, está tão pálido quanto ela.
Quando o meistre os deixou a sós, sentou ao lado dela na cama, alisando os fios que ainda teimavam em tampar parte de seu rosto e sentiu um inacreditável medo de perdê-la para sempre, um medo de que Oberryn ou qualquer outro inimigo fizesse mal a ela para atingi-lo.
Sentiu-se egoísta por ter sido tão feliz nas últimas semanas, quando Elaene optou por ficar ao seu lado, ao invés da segurança do Vale.
=^=
Quando acordou viu Arthur sentado na poltrona ao lado da cama, a observando dormir. Esfregou os olhos e notou que ele estava atento à tudo que ela fazia, e sorriu com a preocupação exagerada dele.
— Por que está acordado? Me espionar dormir está virando um hábito, Sor. Arthur... – disse com uma voz sonolenta.
— Como você está? – ele lhe perguntou ansioso e Elaene bufou.
— Incrivelmente relaxada com o belíssimo sono que desfrutava, porém irritada por não ter você ao meu lado quando acordei. – disse batendo a mão no colchão o convidando a deitar ao seu lado na cama — venha...
Arthur sorriu fragilmente e enfiou-se embaixo dos lençóis ao lado dela, deitando de lado e a encarando de perto, com o rosto quase colado ao dela.
— Elaene, eu preciso lhe pedir um favor. Aliás, eu lhe imploro isto: fique longe de Oberyn Martell.
Elaene franziu a sobrancelha em confusão.
— O que? Qual o problema?
— Ele é um homem perigoso. Eu falo sério, Elaene. Não confie nele!
— Por que está me dizendo isso, Arthur? Ele é nosso aliado, certo? Porque deveria temê-lo tanto?
— Eu não tenho tanta certeza de que é nosso aliado, e não posso pagar para ver. Por favor... – disse encostando a testa na dela.
Ela acenou fracamente o encarando profundamente.
— Eu o farei, porque confio em você, mas quando irá me contar o que lhe atormenta de verdade, Arthur?
— Eu prometi não trair o seu amor, e juro pela minha falecida mãe que não o faço. Eu te amo, Elaene. Mais do que poderia expressar... se algo acontecesse contigo...
Elaene capturou os lábios dele nos seus e o sentiu dar um suspiro de cansaço.
— Eu o amo, Arthur. De todo coração! Agora descanse.
=^=
Elaene encarava a pilha de madeira na parte isolada do jardim e tentava produzir fogo com seus poderes, da forma que Merlin havia lhe ensinado, porém mais uma vez sentiu um cansaço repentino.
O calor de Camelot, outrora agradável, agora parecia-lhe insuportável. Encostou a mão na árvore próxima e fechou os olhos enquanto respirava profundamente e sentia novamente os pés firmes no chão.
Sentiu a mão de Merlin lhe tocar os ombros.
— Você está bem?
— Sim... é apenas esse calor. Estou habituada com climas mais frios. – disse sorrindo, controlando a tontura.
Notou Merlin lhe sorrir de maneira estranha, mas gentil.
— Elaene, tome cuidado. Magia é transformação, e requer energia. Se você estiver fraca, é melhor não praticar. Recupere suas forças e faça de novo quando estiver melhor.
— Não tenho escolha, Merlin. Preciso praticar e controlar o fogo. A guerra se aproxima e eu preciso contribuir com o que tenho de valioso.
— Para conduzir energia, você precisa retirá-la de algum lugar. Não sobrecarregue o seu corpo! A natureza cobra seu preço.
Concordou com um aceno fraco, mas voltou a praticar.
=^=
Quando Arthur caminhou no pátio rumo ao portão, reconheceu a garota nas mãos do homem. Tinha os cabelos curtos como os de um garoto, estava suja e magra, mas sabia que era ela. Estava frágil e tinha o rosto queimado pelo sol e já mostrava sinais de que tinha aparência mais velha do que era na realidade.
— Eu quero o meu resgate, dragão! — Ouviu o homem dizer, enquanto o olhar cortante de Arya encontrava com o dele.
=^=
Estava na sala de banhos e olhava para a janela enquanto sentia a já conhecida e incômoda sonolência. Sentiu que sua energia se esvaiu com a prática pela manhã mas sentiu-se feliz pelo avanço que teve.
Gwen entrou no local apressadamente, interrompendo seus devaneios e Elaene ficou tensa. Havia algo errado. Pensou na guerra e sentiu o sangue gelar.
— O que aconteceu, Gwen?
— Alguém chegou à Camelot essa manhã. Você vai querer ver de perto...
Elaene sentiu uma ansiedade lhe embrulhar o estômago e enrolou-se na toalha pedindo ajuda a Gwen para vestir seu roupão com mais rapidez.
Subiu as escadas do castelo com pressa, e nem ligou para o frio que sentiu por não ter se enxugado direito.
Quando abriu a porta de seu quarto, viu Arthur sentado na cama com as mãos no queixo.
— Arthur, o que está acontecendo?
Quando se aproximou dele com angústia, por fim notou a figura que estava sentada na poltrona, ao lado da cama.
Quando a viu de relance, pensou se tratar de um menino, mas quando olhou novamente arregalou os olhos em choque quando a reconheceu. Sentiu os joelhos dobrarem e segurou no ombro de Arthur para não desabar no chão. Novamente o enjôo atacava, mas conseguiu controlar o mal estar e caminhar.
Aquela garota lembrava Arya, mas estava tão diferente que imaginou se estaria realmente diante dela. Seu olhar era frio, tão frio. Viu raiva e sofrimento neles.
— Arya? – chamou com uma voz fraca e frágil e não viu reação, então a chamou com mais determinação – Arya? Minha lobinha?
Nesse momento viu os olhos de Arya enfim cederem e mostrarem emoção.
Elaene se aproximou lentamente enquanto observava os olhos da amiga enxerem de lágrimas. Ajoelhou-se diante dela e a viu avançar para seu abraço onde permaneceu por muito tempo. Quando se separaram tomou a mão dela na sua, enquanto a usava para acariciar o próprio rosto.
— O que fizeram com você, minha lobinha? Por onde esteve durante esse tempo todo?
— Ele está forçando você?
Elaene franziu a sobrancelha.
— O quê? Do que você está falando?
Arya aproximou seu rosto no dela e disse baixo, porém firme.
— Esse dragão lhe forçou a casar-se com ele?
Elaene soltou um suspiro de surpresa com a pergunta.
— Não, claro que não! De onde você tirou isso, Arya?
— Então traiu meu irmão por vontade própria?
Elaene suspirou novamente e tentou acariciar o rosto da amiga, mas Arya inclinou-se para trás.
— Arya, há muitas coisas que temos que conversar. Arthur é um bom homem, se lembra? Você o adorava. Quando partiu em direção à Porto Real com a comitiva, me disse o quanto estava ansiosa pela companhia dele.
— Isso foi antes dele ver meu amigo morrer, em silêncio, e antes de roubar a noiva do meu irmão. – Disse lançando outro olhar ressentido para Arthur, por sobre os ombros de Elaene. – Que tipo de cavaleiro ele é, afinal?...
— Arthur não me roubou de ninguém, não sou nenhum tipo de objeto para ser roubado ou levado. Amo Arthur de todo coração, e isso não significa que traí seu irmão. Muitas coisas aconteceram desde que partiu de Winterfell, não nos julgue assim...
— Eu pensei que você precisava de minha ajuda contra esse dragão... mas vejo que não quer ser resgatada. Vou para Correrio encontrar minha família, minha verdadeira família.
— Arya, mais de vinte e cinco mil homens se aproximam tanto de Camelot quanto de Correrio. Estamos perdidos no meio de informações truncadas, e podemos ser atacados a qualquer momento. Não podemos sair agora, é um risco que não deixarei você correr. Não posso te perder novo.
— Terei que assistir você quebrar sua promessa? Você disse que se casaria com meu irmão, Elaene. Disse que nunca nos separaríamos... você é como eles... você é uma mentirosa!
Elaene sentiu as lágrimas correrem pelo rosto e ouviu a voz de Arthur atrás de si.
— Basta! Gwen, leve Arya para banhar e peça para Gerold a examinar depois, a alimente bem. Tente ser discreta e que ninguém saiba sobre a identidade dela. Deixe que me entendo com Uther – aproximou-se ao lado de Elaene para olhar Arya de perto. – Você não faz ideia do que Elaene passou nesses últimos meses. Se você a ama de verdade, dê-lhe um voto de confiança. Você está sendo injusta e cruel! – sentiu o olhar da garota vacilar, e a ordenou – Vá...
Elaene levantou-se e sentiu as lágrimas desabarem de uma vez enquanto tampava a própria boca com a mão. Arthur a abraçava enquanto acariciava seu cabelo.
— Ela me odeia... Arya me odeia!!! Eu a tinha como uma irmã, e agora ela me odeia. Como chegamos à isso?
— Ela irá entender. Não sabemos pelo que ela passou. Iremos fazê-la entender, apenas dê tempo para ela.
=^=
Quando acordou, sentia o corpo esmagá-la contra o colchão da cama. Quando sentou, viu Arthur na mesa do outro lado do quarto, examinando o que parecia ser mapas sobre a mesa. Ele a viu se levantar e foi em direção à ela.
— Você deve estar faminta. Parecia tão exausta que não quis lhe acordar para o jantar, perdoe-me. Vou pedir para lhe trazer a refeição aqui no quarto. – disse depositando um beijo carinhoso na testa dela, depois que ela levantou e laçou os braços em sua cintura, encostando a cabeça em seu peito.
Depois que Arya e Gwen saíram do quarto, havia chorado nos braços dele. Deitou em seu colo na cama, enquanto recebia carinho nos cabelos, até que seus olhos pesaram dolorosamente e ela adormeceu. Estava tão cansada...
— Obrigada... – disse com a voz falhando de sono – Ela está bem?
— Não se preocupe com ela, tudo bem? Dê espaço para ela absorver tudo. Arya é apenas uma criança, não deveria ter sofrido o que seja que sofreu. Ela te ama... seja paciente.
Quando Elaene tocou os lábios dele com o seus ouviram um estrondo oco na porta. Arthur franziu a sobrancelha em estranheza e caminhou em direção à porta.
Quando abriu, viu o olhar frio de seu pai, e a frase que fez o sangue de ambos gelarem.
— Chegou a hora! Estão às portas de Camelot, talvez um dia de marcha.
Arthur lhe deu um olhar sobre os ombros, e Elaene sentiu gelo correr em suas veias e paralisar seu coração.
“Deuses nos ajudem!"
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