Queen of ice and fire

32 Bastardos - parte II


Assim que partiram de Dente Dourado, as tropas de Robb lideradas por seus senhores do norte e por Lancelot à frente dos homens da Campina, saquearam as vilas Ocidentais até se aproximarem perigosamente de Lannisporto. Robb sabia que invadir a cidade murada e que possuía uma forte patrulha, seria um ato muito ousado e perigoso, com limiares entre a glória e o fracasso.

Na medida em que alcançaram a estrada do ouro, notaram as vilas cada vez mais vazias e abandonadas. Algumas informações sugeriam que os habitantes estariam procurando refúgio da guerra nas montanhas e na própria Lannisporto. Os Lannisters enfim estavam se quebrando, e Robb estava rompendo a conexão entre a casas deles e a capital.

Ao final do dia, alcançaram uma vila ao norte da Estrada do ouro, chamada Olho do leão. Seus habitantes não ofereceram resistência, e nem poderiam. Os mais fortes e saudáveis já haviam se retirado em busca de glória e riquezas no exército do oeste. Os que ali permaneceram, eram homens doentes, velhos, crianças e mulheres. Estarem tão desprotegidos, provou a Robb que eles não acreditavam que os seus próprios senhores não seriam capazes de os protegerem, e que Dente Dourado cairia.

A despeito dos conselhos rígidos de Roose Bolton, Robb não brutalizou aquele povo sofrido. Seus inimigos eram outros, aquela gente não tinha nenhuma parte em seus problemas.

Quando a noite chegou, uma moça de cabelos dourados como ouro Lannister, pediu uma audiência em nome dos enfermos da Vila, em sua tenda. Era uma moça jovem, talvez um pouco mais nova que Elaene, e Robb notou que tinha os mesmos olhos verdes dela. Era baixa, porém bela e graciosa.

A moça ajoelhou-se e inclinou o tronco em sua direção, em sinal de reverência e rendição.

— Vossa Majestade.

— O que queres, senhora? – Disse a observando levantar timidamente o rosto.

— Meu senh... majestade. Sei que és um homem bom, e as atrocidades contadas sobre Vossa graça nas batalhas, são mentiras. Então, acreditando na bondade em seu coração, peço para que nos ofereça algumas ervas e suprimentos médicos que precisamos para cuidar de nossos doentes. Sei que estou sendo ousada, e peço que me puna se necessário for, mas permita-me cuidar de nossos entes queridos. Estamos isolados, e temo pela vida de meu próprio pai.

Robb analisou a moça em sua frente, e viu o olhar frio de Roose lhe medindo ao fundo.

— Nossos suprimentos são para aliados, sinto muito. Não é de nossa competência.

A moça avançou para frente, apenas para ajoelhar-se mais próximo dele.

— Vossa Graça, eu lhe imploro. Tenho o dom da cura, mas preciso dos suprimentos certos. Notei que possui alguns homens feridos entre vós. Ofereço minha ajuda e eterna gratidão. Por favor... somos um povo simples, e não temos nada com a dança dos tronos. Aqui apenas sobrevivemos, meu senhor.

Robb sentiu-se pressionado. Negar atendimento àquelas pessoas, seria a prova de que eles não eram melhores que os Lannisters, nem seu cães que haviam brutalizado as terras fluviais, castigando um povo inocente.

Por outro lado, aquilo poderia ser visto como um sinal de fraqueza por parte de seus Senhores.

— Precisamos de curandeiros. Ofereço-lhe os suprimentos, e apenas os necessários! E claro, em troca teremos seus dons à nossa disposição quando marchamos. Cuide de seu pai, e trate de nossos feridos.

Robb viu moça sorrir emocionada e abaixar a cabeça mais uma vez, em sinal de respeito e gratidão, enquanto Roose lhe lançava um olhar fechado e julgador.

— Obrigada, Vossa Graça... Obrigada! És um homem bom!

=^=

Quando a noite chegou, Robb sentia os pés doerem e a cabeça latejar. Estavam cada vez mais em direção às Montanhas e soube que Stannis estaria a qualquer momento batendo às portas de Porto Real. Tywin estava encurralado, sem poder proteger com totalidade nem o centro do poder em Porto Real, nem sua própria casa.

Pegou-se pensando novamente em Theon. Havia partido há alguns meses, e não teve nenhuma noticia dele até então. Sua mãe havia lhe pressionado, dizendo que ele o havia traído, mas Robb se recusava a acreditar que aquele que foi criado como seu irmão, teria coragem de lhe apunhalar tão fortemente pelas costas daquela forma. Se pudesse contar com seus navios, certamente a tomada de Lannisporto seria muito mais fácil e menos sangrenta.

Enquanto seus pensamentos dançavam sobre estratégias e guerra, evitando ao máximo focarem em Elaene e Arthur, Robb viu seu escudeiro lhe chamar na porta da tenda.

— Vossa Graça, me perdoe, mas é urgente! Sofremos um ataque.

Robb levantou-se da cama com um salto, botando sua bota e capa e correu para fora.

Quando Robb aproximou-se do pátio principal da vila, havia várias pessoas em torno de algo, e quando pediu licença para constatar, e viu Lancelot com o irmão Gwaine nas mãos.

Ajoelhou-se perto deles e notou que o garoto Pendragon estava com os olhos arregalados e muito sangue já havia brotado de sua boca. Lancelot estava com a mão em cima do ferimento do irmão na altura do abdômen, e Robb soube que nada poderia ser feito.

A garota curandeira ainda abriu espaço e com alguns panos de linho limpo tentou limpar o sangue no abdômen do garoto, mas era tarde demais. Os olhos opacos denunciavam que a vida havia deixado o corpo do Pendragon.

Lancelot o abraçou forte contra o próprio peito, enquanto soluçava em desespero. Ele estava lotado com o próprio sangue do irmão e quando acariciou os cabelos dourados de Gwaine, os deixou manchado de vermelho escuro.

A jovem curandeira olhou para Robb, acenando com a cabeça, dando o sinal de que ele já havia partido.

— Quem fez isso? – Robb perguntou para o garoto Karstark que estava ao seu lado.

— O rapaz fugiu à cavalo, mas nossos homens estão no seu encalço. Ele se aproximou de Gwaine, que caminhava para sua tenda para dormir, e enfiou a adaga em sua barriga e a rasgou. As vísceras do pobre garoto quase saíram para fora.

Ouviu Lancelot soltar um grito de raiva e beijar a testa do irmão.

Ele levantou-se em um impulso e caminhou para o seu cavalo para montá-lo. Todos o olhavam sem tentar impedir.

— O que está fazendo, Lancelot?

— Eu vou atrás do filho da puta que abriu a barriga de meu irmão! – Disse enquanto montava.

— Você irá descer desse cavalo, e esperar que os outros voltem. Não sabemos a motivação desse rapaz, podem existir outros que tenha planos semelhantes para ti. Pode ser uma emboscada – Disse Robb posicionando-se em frente ao cavalo de Lancelot.

— Eu vou abrir o peito desse desgraçado de cima em baixo, e ninguém impedirá.

— Eu sou seu Rei, e ordeno que desça de sua montaria. Agora! – Robb disse com uma voz fria e baixa. – Confie em seu Rei. A justiça será feita. Justiça e não vingança!

Lancelot desceu do cavalo e ajoelhou-se no chão, botando a mão na cabeça em um desespero mudo.

Os moradores da vila estavam assustados, pois temiam que arcariam as consequências do ato do rapaz. Robb olhou para a curandeira e a puxou pelo braço.

— Quem é este garoto? E porque ele fez isso?

A garota tinha os olhos cheios de lágrimas, e Robb mal notou que estava apertando o braço dela.

— Ele é apenas um bastardo! Ele não é ninguém.

— Por que ele fez isso? — disse com os dentes cerrados em fúria.

— Eu não sei... – disse enquanto as lágrimas caíam e sentia Robb apertar ainda mais seu braço.

— Por que ele fez isso? — gritou ainda mais firme.

— Juro que não sei, Vossa Graça. É apenas um bastardo da Campina. Não é ninguém.

Robb a empurrou com raiva. Quando olhou à sua volta, notou que o povo estava acuado.

— Os tratamos com dignidade. Oferecemos ajuda com suprimentos enquanto seus senhores os abandonaram. É assim que nos agradecem? — disse com fúria e notou uma garotinha abraçada com a mãe, chorando com medo dele.

— Nós não temos culpa, Vossa Graça. Não nos machuque, eu imploro. – disse a jovem curandeira entre soluços de choro ajoelhada perante seus pés.

"Que tipo de monstro essa gente pensa que sou" Pensou em silêncio.

Sentiu-se fora do corpo, como se o certo já tivesse tornado errado, e o errado fosse o certo.

Fechou os olhos e sentiu-se mal pela garota, e por estar tão atado ao ponto de não poder a levantar do chão, secar suas lágrimas e pedir desculpas.

Não poderia ser fraco, mesmo quando ser forte, significasse passar por cima de tudo aquilo que considerava o certo. Tudo aquilo que seu pai prezava.

Não. O certo agora era errado.

=^=

Quando o dia estava quase amanhecendo os homens voltaram com o assassino.

Quando os nortenhos o trouxeram com as mãos e pés amarrados em cima do lombo de um cavalo, mal pôde acreditar. Era apenas um garoto, talvez um pouco mais velho que Sansa.

Por sorte, os homens os trouxeram vivo, e assim poderia interrogá-lo e saber de sua motivação.

Por que matar Gwaine? O caçula de Uther, e não Lancelot, ou outro Lorde mais importante. Gwaine era apenas um garoto, terceiro na linha de sucessão de Camelot.

Viu que Lancelot quis avançar para cima do garoto, e foi impedido pelos irmãos de uma casa menor da própria Campina.

Quando o assassino foi jogado ao chão, Robb aproximou-se dele e o encarou de cima.

— Quem és tu, garoto?

O garoto de cabelos castanho claros e redondos olhos azuis, lhe olhava assustado e nada respondeu. Então Robb abaixou-se perto dele, e repetiu.

— Quem és tu, garoto?

— Apenas um bastardo, Vossa Graça. Martyn Flower. Eu não sou ninguém.

— Por que fez isso, garoto? Por que matou Gwaine?

— O quê ? – o Rapaz fez uma cara de espanto ainda maior.

Robb concentrou-se em manter a voz fria e firme.

— Quem lhe pediu para matar Gwaine Pendragon?

— Não, Vossa Graça. Eu não o matei.- abaixou a cabeça e continuou — Eu matei Arthur Pendragon. O bonito cavaleiro dragão de cabelos dourado-prateados, de Camelot. Assim como ele ordenou!

— O Que você está dizendo garoto? É algum truque? Arthur está há léguas daqui. Você matou o irmão caçula dos Pendragons. — segurou o rosto do garoto fortemente pelo queixo, o apertando. — Quem lhe ordenou matar Gwaine Pendragon?

O garoto chorou e balançou a cabeça.

Robb concluiu que o garoto realmente acreditava estar matando Arthur, enquanto atingia Gwaine. Todos comentavam da incrível semelhança entre os irmãos, e por vezes muitos se confundiam quando não se atentavam para diferença de idade entre os dois.

Robb segurou o garoto pelo colarinho e insistiu com outra pergunta.

— Quem lhe ordenou matar Arthur Pendragon?

— O senhor da Luz, Vossa Graça. O Senhor da luz. Ele ordenou, a sacerdotisa disse. Ela prometeu... ele prometeu... – disse enquanto soluçava como choro. — Ela veio em meus sonhos, e me disse o que fazer. O dragão de cabelos dourados. Lancelot é um dragão de cabelos escuros, não ele. Cabelos dourados... dourados, Vossa Graça!

=^=

"O homem que passa a sentença deve brandir a espada. Se você tirar a vida de um homem, você deve isso a ele: olhar em seus olhos e ouvir suas palavras finais. E se você não pode suportar fazer isso, então talvez o homem não mereça morrer".

Robb podia ouvir a própria voz do pai ecoando em sua cabeça e sentia o estômago embrulhar.

Não era a primeira vez que tiraria a vida de um homem, mas era a primeira vez que executaria um homem. Sentia os joelhos dobrarem ao olhar para o garoto verde em sua frente, com a cabeça encostada no tronco. Ele chorava compulsivamente, e implorava pela vida, enquanto o nortenho que o segurava o zombava dizendo para encarar a morte como um homem.

Quando pediu sua espada, Lancelot interveio e ofereceu a dele.

— Vossa Graça, se não me permites manchar a mão com o sangue do assassino de meu irmão, ao menos deixe minha espada ser manchada. – disse com o Pedragon com olhos vazios.

Robb concordou com um aceno, sentindo todos os olhos dos presentes julgando e o medindo. Sabia que não poderia olhar à sua volta, pois encontraria olhos de crianças entre aquele povo, e poderia fraquejar no seu dever.

— Eu, Robb da Casa Stark, Senhor de Winterfell e Rei do Norte, o sentencio à morte por matar à sangue frio, Gwaine Pendragon. Quais são suas últimas palavras?

O garoto chorava alto, e seu pedido saiu em desespero

— Eu não quero morrer, meu senhor. Por favor, eu não quero morrer.

— Que os deuses lhe perdoem.

Robb respirou fundo e lançou a espada para o ar. Quando ela caiu em direção ao pescoço do garoto ele sentiu que a cabeça não desprendeu totalmente do corpo, e olhou horrorizado para o garoto agonizando embaixo dele. Muito sangue jorrava, mas a cabeça estava ainda parcialmente ligada ao corpo. Sentiu o horror e choque tomar conta.

Aplicou mais outro golpe forte e preciso, porém precisou de mais outro para completar a decapitação e finalizar a agonia do pobre garoto.

Via muita bagunça sobre o tronco e o solo, e ouviu os choros e desespero das pessoas à sua volta. Alguns lhe olhavam com nojo, outros com medo ou náusea.

Robb olhou para Lancelot e ele estava com os olhos vazios e sombrios. Ele havia lhe dado uma espada com lâmina cega, apenas para trazer mais agonia ao garoto.

Robb empurrou os homens que estavam em seu caminho, e foi em direção à própria tenda, correndo para o canto e enfim deixando que o conteúdo de seu estômago viesse para fora, em completo desgosto pelo que presenciou e pelo que fez.

Sentiu o ar fresco entrar na tenda mas não se virou para ver quem era. Sentiu uma mão segurar sua cabeça, botando na sua testa um pano de linho molhado, enquanto recuperava os sentidos.

Ela lhe guiou para sentar na cama, e ele sentiu vergonha de olhar a garota nos olhos depois do que fez no pátio, e do que deixou no canto da tenda.

— Saia, garota! Você não deveria estar aqui.

— Estou apenas cumprindo minha parte no acordo, Vossa Graça. – disse buscando uma concha com água potável e depositando nos lábios dele.

— Por que faz isso?

— Por que é o certo, Vossa Graça. É o certo...

Não ligava para as consequências do que faria ali em frente àquela moça. Nada poderia ser tão ruim, quanto ceifar a vida de outro ser humano de uma forma tão brutal e cruel como ele fez. E ela assistiu a tudo.

Permitiu-se chorar, como há muito tempo não chorava, enquanto uma mão vacilante acariciava suas costas.