Queen of ice and fire
60 Apenas cinzas para amar
Notas iniciais

Arthur caminhava distraído em direção ao quarto de Elaene, quando ouviu o pio triste de uma coruja em uma das colunas da Fortaleza. Olhou para o horizonte de onde veio o som, e notou que naquela noite as estrelas estavam um pouco mais apagadas, mesmo com o bom tempo do litoral.
Ouviu passos apressados atrás de si e olhou a tempo de ver Gwen correr sem fôlego e pálida, em sua direção. A garota segurou seu braço, apavorada, e ele não conseguiu entender o que dizia, por conta do forte sotaque Dornês que sempre aflorava quando ela estava nervosa.
— Gwen, acalme-se! Conte o que aconteceu?
— Você precisa vir comigo. É Elaene!
Arthur controlou seu desespero e correu pelos corredores sendo guiado por Gwen. Sentiu o pânico fazer seu sangue congelar em suas veias, e o frio atingiu suas vísceras.
Quando alcançou o corredor e a viu ainda deitada no chão abaixo da escada, empurrou os soldados que estavam em sua frente sem se importar em ser educado. Apenas quando se ajoelhou perto dela, notou que o Meistre estava medindo sua pulsação.
— O que houve?
O meistre evitou olhar para Arthur, e o príncipe notou sua hesitação.
— Parece ter sofrido um acidente na escada. – disse o Meistre acenando para a escada de onde ela desabou, e viu Arthur encher os olhos de lágrimas – Examinei suas costas, e não identifiquei lesão alguma, mas precisamos levá-la para o quarto, preciso estabilizá-la. Ela está perdendo muito sangue.
Arthur olhou para o rosto dela, que apesar do grande corte na cabeça, parecia dormir serena. Estava com os olhos fechados enquanto respirava fraco, mas quando ele notou de onde vinha o sangue que manchava o chão, desesperou-se.
— Não! Por favor, Elaene... – Arthur a tomou nos braços e beijou sua testa suplicando – seja forte!
=^=
Quando Arthur depositou Elaene na cama, ouviu soltar um suspiro fraco e balançar a cabeça sutilmente como se quisesse impedir que ele se afastasse dela quando o meistre lhe empurrou para trás, para examiná-la.
— Ela ficará bem? – perguntou ansioso, segurando o braço do meistre.
— Arthur, você precisa sair agora!
— Diga a verdade!
— Você está me atrapalhando. Você a quer de volta, não é? – perguntou de forma retórica – então me deixe trabalhar! – disse de maneira incisiva apontando para Loras, para que o ajudasse a retirá-lo dali.
— Por favor, salve-os... – sussurrou enquanto Loras o puxava pelo braço, e quando resistiu, o cavaleiro das flores o acalmou e o convenceu a sair dali.
Antes de sair, observou Gwen ajudar o meistre a retirar a roupa de Elaene, e lançar um olhar desolado a ele, enquanto retirava o vestido ensopado de sangue.
=^=
— Arthur, você precisa descansar... Quando foi a última vez que se alimentou de forma decente? – perguntou Merlin enquanto se aproximava do príncipe. Arthur estava ao lado de Elaene, que ainda permanecia em coma há dias.
— Por que ela não acorda? – perguntou Arthur segurando a mão de Elaene e a beijando suavemente, ignorando a pergunta do garoto.
— Ela está lutando...
— Nós o perdemos?...
Merlin sentou-se na cama para encarar Arthur.
— Você sabe sobre os poderes dela. – Merlin viu Arthur acenar a cabeça em confirmação – Ele apenas está vivo ainda, porque ela está salvando, com sua magia.
Arthur notou o olhar triste de Merlin, e sabia que a situação não estava nada boa. Havia alguma derrota naquele olhar.
— Por quanto tempo ela conseguirá mantê-lo assim?
— Não muito.
— Não posso vê-la morrer, Merlin. Tem de haver uma forma de salvá-la. Eu faria qualquer coisa para que ela tivesse ao menos uma chance... – permitiu-se desesperar naquele momento, depois de longos dias mantendo o controle. Pousou a mão de Elaene na própria testa, enquanto chorava copiosamente.
— Você precisa se manter forte, Arthur. Outras pessoas dependem de você!
— Como isso foi acontecer? Não faz sentido para mim!
Merlin se mexeu desconfortavelmente na cama.
— Não importa, Arthur...
— Importa. Os guardas eram de confiança, e Gwen disse que estavam próximos à sua porta, quando Elaene caiu. Deveria ter mais alguém lá. Algo a fez cair, Merlin. Eu sinto. Eu sei. – Arthur secou as lágrimas no rosto com as costas da mão, e se aproximou do ouvido de Elaene para sussurrar – Eu sei que você pode me ouvir. Eu sei que você está lutando. Ajude-me a entender o que aconteceu. Preciso que você se comunique comigo, por favor... Mande-me um sinal, qualquer coisa! Preciso entender...
Arthur manteve-se atento, esperando qualquer sinal de que Elaene estava ali, mas ela permanecia em um profundo sono, e parecia cada vez mais distante dele.
— Tenha fé, Arthur. Prometo a você, que no último instante, ela voltará. A noite sempre parece mais escura antes do clarear do dia...
=^=
Arthur se aproximou lentamente atrás de Gwen, que fitava o jardim da sacada de seu quarto. Ela se assustou e soltou um gemido de susto.
— Arthur! Pelos deuses...
Ele lançou um olhar desconfiado para a dornesa, que parecia cada dia mais distraída e silenciosa.
— Desculpe, Guinevere. Não quis assustá-la.
— Você só me chama pelo nome completo quando está terrivelmente melancólico.
— E não deveria estar?
— Eu não o julgo. Eu também não estou nos meus dias mais ensolarados, agora que meu sol se pôs naquela maldita ilha...
— Gwen, você precisa me dizer de novo o que viu aquele dia. — indagou Arthur, evitando falar em Lancelot.
Gwen respirou um pouco impaciente
— Já lhe disse, Arthur. Quando abri a porta, os dois guardas estavam em minha porta e Elaene um pouco mais ao fundo. Ela escorregou para trás, e despencou pelas escadas. – A dornesa mexeu nos cachos e Arthur notou que esse gesto se tornara padrão, sempre quando ela contava sua versão do acidente, como se estivesse se segurando para não revelar algo mais.
— Sabe o que eu acho? — Disse Arthur se aproximando e inclinando na sacada ao seu lado, para encará-la de frente. – Acho que você está me escondendo algo, e isso te aflige. O que é? – Segurou o queixo dela e elevou o olhar em direção ao seu.
— É irrelevante...
— Um dos guardas afirmou que Elaene estava estranha aquela noite. Assustada, distraída. O que poderia ser? – interrogou Arthur
Guinevere suspirou, se rendendo.
— Não adianta, Arthur. Você não acreditará.
— Eu confio em você, Gwen. Conte!
— Você e Lancelot sempre zombavam de mim enquanto eu chorava quando ouvíamos histórias de fantasmas quando éramos crianças... — Arthur arqueou a testa, mas permitiu que ela continuasse. – mas eu sei o que vi, Arthur. Aliás, eu sei que Elaene viu também. Ela estava aterrorizada...
— O que ela viu, Gwen? – perguntou Arthur mais uma vez, impaciente.
Gwen respirou mais uma vez, e continuou com o forte sotaque.
— Havia algo no corredor, e eu acredito que era Robb Stark. – quando pronunciou o nome dele, fez o sinal de um X com os dedos indicadores, e os beijou, como faziam em sua terra natal para espantar os maus espíritos.
— Robb Stark? Ele está morto, por que diz isso?
— Ela sussurrou o nome dele antes de ser empurrada de lá...
— O quê ??? – perguntou Arthur com raiva. – Empurrada? Gwen, vocês disseram que ela caiu, agora está dizendo que o fantasma de Robb Stark a empurrou escada abaixo? Você consegue notar o quão absurda está soando agora?
Gwen se encolheu com medo e arrependimento. É claro que ele não acreditaria. Quem acreditaria em algo assim?
— Desculpe desperdiçar seu tempo, Arthur. Eu avisei que era besteira... – respondeu triste e depositou um beijo na bochecha dele – Continue chamando por ela todos os dias, ela te escuta. Não deixe que ela desista. Boa noite...
Quando Gwen o deixou sozinho, Arthur segurou a cabeça com as mãos apoiadas na sacada. Ele acreditava que a única pessoa que poderia solucionar aquele enigma, era Elaene. Tudo que precisava era que ela acordasse por um instante, e lhe dissesse o que aconteceu naquela noite, e então teria a sua vingança.
“Apenas me diga Elaene... eu preciso saber” sussurrou ao vento na sacada, com esperanças de que ela pudesse ouvir, aonde quer que sua consciência estivesse naquele momento.
=^=
Há muitos dias Arthur não tinha uma boa noite de sono. Fazia questão de deitar ao lado de Elaene, e as vezes sentava-se na poltrona ao lado da cama, observando e vigiando cada respiração dela. Por vezes, via o sol mandar os primeiros raios de luz pela janela, enquanto ainda apenas observava o movimento que a barriga dela fazia, para cima e para baixo, enquanto respirava fracamente.
Naquele noite, sentou-se na poltrona pensando sobre a história absurda que Gwen havia contado. Estava tão cansado, pelos longos dias e noites mal dormidas, que adormeceu ali mesmo. Mergulhou em um sono profundo que o levou ao estranho mundo dos sonhos.
Sonhou com ela.
Elaene levantou da cama e lhe sorriu enquanto ele a fitava, atônito. Ela acenou com a cabeça para que ele a acompanhasse, e ele se levantou, desejando que o sonho não se despedaçasse tão rápido.
Ela seguia na frente, segurando sua mão, e ele encarava seu rosto com medo de olhar para o cenário em volta, e notar algo de errado, o despertando.
Quando ela parou, notou que estavam em um corredor. Arregalou os olhos quando notou que era o mesmo corredor do acidente. Quando olhou para o lado, ela já não estava mais ali.
Mesmo em sonho, sentiu o coração disparar quando viu outra imagem de Elaene no final do corredor, com o mesmo vestido que havia ficado ensopado de sangue após sua queda. Segurava uma tocha na mão e encarava algo com grande horror. Quando olhou com mais cuidado, viu uma sombra caminhar em sua direção.
Correu até ela, desesperado, lembrando-se do assassinato de Renly que havia presenciado em Ponte Amarga. Do ângulo que tinha, a sombra não lhe lembrava Robb, mas sim outro alguém mais intimo, e por isso precisava ver seu rosto de perto.
Quando estava a apenas alguns passos de distância, o chamou pelo nome, e a sombra se virou. Arthur pôde reconhecer seu rosto, mesmo distorcido pela escuridão que o embalava
“Quando acreditar estar inteiro novamente, Arthur, eu a arrancarei de seus braços e só terá cinzas para amar”
“Não!”
Arthur apenas teve tempo de gritar quando ele empurrou Elaene escada abaixo, e acordou com um pulo na poltrona.
=^=
Naquela manhã, passou o tempo no estábulo escovando e tratando de Llamrei, a égua guerreira que havia presenteado Elaene. Recusava-se a acreditar no que sonhou. Era como se as peças do quebra cabeça estivessem quase encaixadas, mas ele se recusasse a colocar a última, para concluí-la. Lutava contra o sentimento de fúria que ameaçava surgir, pois sabia que algo nada menos que desastroso aconteceria se permitisse sentir a ira.
Foi ali, em meio aos devaneios no estábulo, que Gwen apareceu. Sentiu a batida do coração perder um compasso quando notou sua expressão. O rosto estava inchado e seu olhar era de piedade. Sentiu os joelhos ameaçarem quebrar, enquanto pensava o pior.
— Arthur...
— Não ouse dizer, Gwen... – disse Arthur sem conseguir encará-la mais uma vez.
— É melhor você vir comigo. Elaene precisa de você...
Enquanto se aproximava do quarto, fechou os punhos e sentiu travar os dentes, como se um animal estivesse querendo sair de seu corpo, e assim que entrou no quarto, correu para verificar se ela ainda respirava.
— O que aconteceu, Meistre? – perguntou sem encará-lo, e nem ao jovem Merlin, que sentava do outro lado da cama, com um olhar estranho e distante.
— Você precisa ser forte, Arthur.
— Diga! – gritou exigindo uma resposta.
— É melhor que você passe o dia com ela hoje, Alteza. Elaene não verá o sol nascer mais uma vez. Sinto muito, mas devemos tentar salvar a criança, antes que ela parta e seja tarde demais para os dois.
— Não ouse abri-la que nem um animal!
— Arthur, só podemos esperar até o amanhecer. Sinto muito, mas você tem de deixá-la partir...
Nada no mundo o poderia ter preparado para aquilo. Arthur sentiu a dor fazer a garganta apertar, impedindo que o choro descesse. Quando olhou para Merlin, ele parecia tão apavorado quanto ele.
— Deixe-me a sós com Merlin, meistre. – pediu com calma, e o bondoso senhor obedeceu sem questionar.
Assim que estiveram a sós, Arthur o indagou
— Você também tem magia?
— Arthur...
— Responda!
— Não.
— Elaene disse que há muitos mistérios sobre você, e sua sabedoria precoce. Por que ela confia tanto em um garoto de verão como você? O que você sabe, Merlin? O que esconde?
Merlin gaguejou e Arthur avançou com fúria contra ele, segurando seu colarinho e o jogando contra a parede.
— Diga agora, ou quebro seu pescoço aqui mesmo. Estou cansado de segredos! Eu não tenho nada a perder, garoto...
Merlin abriu a boca, mas desistiu de dizer algo, enquanto as lágrimas caiam pelo rosto.
— Você sabe como salvá-la, não é? O que tenho de fazer, Merlin? Eu faço qualquer coisa que for preciso. Diga!
— Sinto muito, Arthur. Não há nada que você possa fazer... Uma vida se paga com outra, mas não é a sua vida que será a moeda de troca pela dela.
Arthur voltou a si quando notou que apertava a garganta do garoto e o deixava em um tom de roxo. Afrouxou o aperto e permitiu que Merlin respirasse.
Não era o garoto Reed quem merecia sua fúria. Ele sabia muito bem quem havia deixado apenas cinzas para amar.
Retomou a consciência e se vestiu de um autocontrole que nunca acreditou que poderia ter. O controle necessário para fazer justiça. E assim que a justiça tivesse sido feita, ele também teria sua vingança.
Teria o sabor do sangue dele, antes que ela soltasse o último suspiro de vida.
=^=
— Como ela está? – perguntou Oberyn, e Arthur notou que foi a primeira vez que viu seriedade na postura do Dornês. Arthur continuou caminhando pelo Bosque sagrado enquanto respondia desanimado.
— Nada bem.
— Eu sinto muito, Pendragon...
— E então? És meu aliado?
Oberyn olhou para o lado, impaciente e nervoso com a situação insustentável do reino.
— Haverá sangue, dragão.
— Sim, haverá. Então ajude-me a derrubar a menor quantidade possível.
— Jon Connington. O que ele pensa disso?
— Ele está a postos.
— Claro que está, ele odeia Uther... você disse o porquê disso, agora?
— Não. Se eu disser, ele fará algo irracional. Precisa ser planejado.
Oberyn franziu a testa diante da inesperada frieza de Arthur.
— Como é possível você estar tão calmo diante do que estamos prestes a fazer?
— Eu preciso me manter são. Eu não tenho escolha.
— Haverá resistência na Guarda Real...
— Suponho quem resistirá, e quem está ao nosso lado. Quem se opor, mataremos. A ação deve ser coordenada e rápida. Sem chance para reforços, ficou claro?
— Sim, como água cristalina. – respondeu ainda estranhando a fúria controlada de Arthur.
Arthur não se permitia fraquejar. Não havia volta.
=^=
Arthur sabia que o golpe deveria ser rápido e incisivo. Apenas os aliados mais confiáveis na capital participariam da investida inicial. O plano consistia em isolar Uther na ala sul da Fortaleza de Maergor, e mantê-lo cativo com a justificativa de inabilidade psíquica do rei para governar, pelos recentes acontecimentos como a morte de Robb Stark, o estranho combate do cavaleiro negro com Arthur, e amizade do rei com uma sacerdotisa fanática religiosa.
Ao imaginar que poderiam ser julgados como traidores e usurpadores, Arthur pouco importou. Seria feito.
Assim como foi combinado, utilizaram os mercenários de Jon para isolar a parte sul do castelo, sem gerar suspeitas. Os homens ficaram infiltrados pelo castelo e em suas passagens secretas que Jon conhecia desde o tempo que serviu seu príncipe prateado. Alguns soldados de Uther tiveram azar de transitarem por aquela parte do castelo e foram assassinados.
Uther não notou nenhum movimento estranho enquanto analisava as mensagens enviadas à ele, em cima de sua mesa, de onde não fazia ideia de estar isolado. Pensou ter ouvido um barulho de um estalo de metais se chocando ao longe, mas logo balançou a cabeça voltando a atenção ao papel.
Do lado de fora, vários soldados estavam mortos no chão, e grande parte deles não tiverem ao menos chance de gritar por socorro. Os mercenários eram ágeis e silenciosos, e pouca atenção davam às honrarias de cavaleiros.
Porém, o momento mais tenso se aproximava. Arthur colocou o rosto no corredor e avistou os dois membros da Guarda Real, em frente à porta onde estava Uther. Reconheceu Merryn Trant e Loras Tyrell.
Sabia que Merryn resistiria, porém, acreditava que Loras pudesse ceder. Era devoto à Elaene, e agora sabia que fora graças aos poderes que ela havia demonstrado à ele, quando deu-lhe uma chance de rever Renly, ainda em Camelot.
Acenou para os homens que liderava, e caminharam em direção ao corredor, calmamente. Merryn notou a movimentação, e logo soube que era uma tentativa de golpe contra o rei, e levou a mão à espada. Loras permaneceu em silencio, olhando Arthur com atenção, enquanto Trant gritava para que se afastassem.
— Eu, Arthur Pendragon, consorte de Elaene Targaryen, verdadeira e legítima rainha de Westeros, ordeno que se afastem para que Uther Pendragon seja mantido sob tutela em nome da Távola Redonda. Não há motivos para derramarmos sangue. Joguem suas espadas. – anunciou friamente.
Loras levantou o queixo, e respondeu
— Eu não preciso abaixar minha espada, Pendragon. Sirvo à rainha, e minha espada é dela. – disse enquanto se afastava da porta, dando espaço para que abrissem.
— Merryn Trant? – perguntou Arthur, segurando o punho da espada, e lançando um olhar sombrio e ameaçador, fazendo o cavaleiro da Guarda jogar a espada a contragosto no chão, e se afastar, enquanto era vigiado pelos soldados aliados.
Arthur abriu a porta com um forte baque, tirando Uther de devaneios sobre dragões e magia.
— Arthur? – perguntou com espanto enquanto se levantou e notou a movimentação do lado de fora. – O que está acontecendo?
Arthut olhou sobre o ombro direito em direção à Jon, e acenou para que os deixassem a sós, e sua ordem foi tão direta, que apenas obedeceram em silencio, ignorando todos os riscos.
— Pode me explicar o que diabos está acontecendo aqui?
Arthur caminhou para mais perto do pai, enquanto mantinha a mandíbula travada em um fúria crescente.
— Eu sei o que você fez com Elaene.
— O que você está dizendo?
— Se você continuar negando, vou molhar minha espada com teu maldito sangue agora mesmo... – ameaçou de forma fria
— Arthur, eu não sei o que lhe disseram! O que tenha sido, estão te usando para me depor!
— Eu venho negando os sinais. Ela me alertou sobre você, várias vezes. Mas eu sempre tive fé de que meu pai ainda estivesse aí. Não quis aceitar que talvez ele não existisse mais. Que tipo de homem deixa o primogênito lutar contra um ser produzido pelas forças das trevas? Que tipo de homem atenta contra a vida do próprio neto? Que tipo de crápula é você, Uther?
— Quem você pensa que é, Arthur? Eu sou seu pai, e seu rei! Deve-me lealdade!
— Você é o assassino de minha esposa e do meu filho, e eu lhes devo justiça. – anunciou Arthur apertando o punho da espada e a girou no ar.
— Você está maluco?
Arthur olhou para a mesa e notou a espada do pai. Agora que Excalibur pertencia à Arthur, Uther utilizava a espada que tomou de Jaime Lannister. A espada também era de aço Valiriano, e então pensou que seria uma luta justa.
— Pegue sua espada. — ordenou.
— Arthur não faça nenhuma besteira. Você precisa pensar com calma, está confuso...
— Pegue a espada! – ordenou mais uma vez, pausando em cada palavra, para salientar o tom ameaçador.
— O que você irá fazer? — perguntou Uther, orgulhoso.
— Você tem duas opções: ou morre lutando, ou morre falando. Pegue a espada. – anunciou mais uma vez.
Uther pegou a espada e distanciou-se da mesa, enquanto Arthur girava a espada mais uma vez na mão, e se aproximava.
— Esquece que fui eu quem lhe criou, Arthur? Eu o conheço muito bem. Você nunca teria coragem de machucar o próprio pai.
Arthur pensou mais uma vez em Elaene, definhando em seu quarto, e no filho que lutava para nascer em seu ventre. Sentiu-se tomado por tanta fúria, que Uther mal pôde ver o golpe que lhe atingiu. Em reflexo, conseguiu aparar o golpe com sua espada, mas Arthur era muito rápido, e atento para a mão de Uther que levantou com o susto do golpe, lançou a espada em direção à ela, cortando os dedos de sua mão como papel, e os espalhando para o outro lado do salão.
Uther gritou em agonia, e olhou horrorizado para os tocos que agora se tornaram seus dedos da mão esquerda, mas Arthur permaneceu frio, pois nada mais importava. Não ligava para honra, para o pai, e nem para como os livros o chamariam dali em diante. Agora sentiu-se ainda mais amigo de Jaime. O Lannister se tornou o Regicida, e agora Arthur seria um também. Talvez um ainda pior, pois também era um parricida.
Chutou o pai no peito, fazendo Uther cair de costas no chão, enquanto sentia um inevitável êxtase pela vingança tão próxima. Podia farejá-la.
Usou um joelho para forçar o pai no chão, enquanto Uther permanecia pálido em choque, e não esboçava reação alguma.
— Você conseguiu, pai. Deixou-me apenas cinzas para amar. Meu rosto ferido e sem alma, será a última coisa que verá em vida. Quero que saiba, antes de morrer, que teu maldito filho vingou sua nora e seu neto!
Quando preparou-se para cravar a espada no peito de Uther, ouviu o forte barulho na porta, e virou-se a tempo de ver Sor. Lion desesperado correr em sua direção, acompanhado de longe pelos soldados aliados.
— Arthur, não! Por favor, não faça isso.
— Afaste-se, Lion. Ninguém ficará entre eu e a justiça por Elaene.
— Trago notícias de Pedra do Dragão, por favor, escute!
Arthur olhou desconfiado, e quando Uther tentou se mexer, o encarou como fúria colocando a espada próximo a sua garganta, e fazendo um corte com a potente lâmina de Excalibur.
— Arthur, é exatamente isso que Melisandre estava planejando, desde quando veio à Porto Real nos enganar e envenenar teu pai! Ela arquitetou e utilizou tudo que estava à seu alcance para que vocês dois se destruíssem e o trono estivesse livre para Stannis.
Arthur apenas franziu a testa em desconfiança.
— Se você fizer isso, o reino entrará em colapso. A Távola te renegará por ser um parricida e tudo que você ajudou a construir até então, virará pó. Pense, eu lhe imploro, meu amigo. Sempre lhe dei bons conselhos, preciso que confie em mim. Não faça isso!
Arthur respirou fundo. Levantou-se e liberou o joelho do peito de Uther, dando alguns passos para trás, e voltando à realidade quando notou a quantidade de sangue que brotava das mãos dele.
Afastou e encostou as costas na parede, e escorregou se entregando á dor enquanto chorava, mal vendo os soldados aliados renderem Uther, e Lion caminhar em sua direção para lhe amparar.
— Está tudo bem, Arthur. Ela não vencerá. Prometo-lhe isso.
Arthur teve um lampejo de consciência novamente, e martelou o que havia ouvido a pouco. Afastou a cabeça do peito de Lion e lhe encarou.
— Melisandre em Porto Real? O que você quis dizer com isso?
Oberyn correu em sua direção e parecia atordoado.
— Arthur, Gwen está desesperada atrás de você, é sobre Elaene.
Fechou os olhos e suspirou pensando que o pior havia acontecido.
— Eu não quero ouvir, Martell. Não consigo... acabou!
— Você precisa vir comigo, Arthur... algo inacreditável aconteceu! – disse Oberyn puxando o príncipe pelo braço, para que se levantasse.
=^=
Quando chegou à porta do quarto de Elaene, notou os olhares dos servos em choque, e pensou que a notícia sobre a deposição de Uther já havia se espalhado. Talvez já soubessem que ele havia arrancado os dedos do próprio pai com a espada. Arthur não imaginava que estavam espantados com outro acontecimento.
Sabia que seria difícil, mas deveria ter forças para dizer adeus, afinal, talvez seu filho estivesse à salvo, e agora precisaria dele. Entendia agora.
Gwen estava sentada na cama de costas quando lhe olhou sobre o ombro, e abriu um sorriso inacreditavelmente largo. Seus olhos estavam marejados, mas não parecia haver tristeza ali.
— É um milagre, Arthur!
Caminhou para mais perto para entender o que havia acontecido, pois pensou estar alucinando, pois ali estava os olhos verdes que tanto amava, o encarando.
O olhar era distraído e preguiçoso, e pareceu demorar alguns segundos para o reconhecer, mas quando notou que era Arthur, tentou sorrir, ainda que seus músculos ainda atordoados com tantos dias de descanso, não obedecessem direito. Mas a lágrima que caia sobre o rosto, e o gemido baixo em seu peito, anunciavam que estava feliz por vê-lo.
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