Queen of ice and fire
61 Bravo guerreiro
Notas iniciais

Arthur avançou rapidamente na direção dela, sentando na cama para tocar seu rosto, incrédulo. Sentia o calor da pele dela irradiar para seus dedos, e mal pôde acreditar que voltava a sentir o seu cheiro de rosas pelo quarto. Elaene piscou algumas vezes enquanto ele encostou a testa na sua, suspirando emocionado.
— Ela ainda está um pouco confusa, Arthur. Demorou a me reconhecer... – disse Gwen alertando para a perda de memória da amiga, mas Elaene conseguiu sorrir para ele, enquanto falava com dificuldade.
— Eu me lembro de você... –a rouquidão da voz dela o fez sorrir bobamente a despeito das lágrimas que banhavam seu rosto. Agora elas eram diferentes. Eram de alegria, alívio, e amor.
— Eu não sei explicar o que houve aqui, Arthur. Ela não dava sinais de atividade cerebral, mas inexplicavelmente acordou essa manhã... – disse o meistre, ainda desconsertado com o despertar de Elaene.
— Elaene é especial, meistre. – respondeu Arthur, notando o olhar distante de Elaene para o outro lado do quarto, mas tão logo que ela notou o olhar dele em si, lançou-lhe um doce sorriso tímido.
— Você se lembra de algo? – perguntou à ela.
— Não. Apenas imagens isoladas. Eu não sei o que é real. – disse Elaene, com a voz fraca, enquanto ele notava uma serenidade incomum naquele olhar.
Arthur se inclinou para depositar um suave beijo em seus lábios, como se ela fosse um frágil cristal em suas mãos, e Elaene retribuiu com o toque de seus dedos no rosto dele, enquanto Gwen acenava para o meistre para que os deixassem a sós.
— Pensei que a tinha perdido para sempre... — suspirou.
— Nós estamos bem...
— Desculpe...
— Não... por favor, não diga isso...
— Se eu tivesse lhe dado ouvidos...
Elaene botou o dedo na boca dele para que silenciasse, e ele tomou sua mão para cheirá-la e beijá-la, para ter certeza que ela estava mesmo ali.
— Estamos bem, entendeu? – disse tocando o ventre inchado com a outra mão.
— Ele vive?
— Sim. – disse com um pequeno sorriso, e Arthur notou que agora havia uma alma envelhecida por detrás dos olhos verdes que o encaravam.
— Como você conseguiu? O que aconteceu com você?
— Um longo tempo se passou enquanto eu não estava aqui com você, Arthur. Um longo tempo. Mas creio que agora minha magia está mais poderosa do que jamais poderia estar, ainda que eu esteja tão fraca, que não consiga usá-la.
— Porque esperou tanto para voltar? Senti tanto a sua falta...
— Eu realmente estava morrendo. Isso era algo que eu não podia controlar. Então, Merlin interveio por mim...
— Merlin? Ele disse que não tem magia! – perguntou Arthur desconfiado.
— E não tem... – respondeu Elaene, mas Arthur notou o olhar triste dela encarando as próprias mãos – Preciso que o busque para mim. Eu sei onde ele está.
— Como assim? Onde ele está? Como você sabe onde ele está se estava em coma há algumas horas?
Elaene arqueou a sobrancelha e Arthur lembrou-se de que havia muito que ainda não sabia sobre os poderes dela, e o mistério que envolvia aquele estranho garoto Reed.
— Está bem, diga onde ele está, e mandarei alguém buscá-lo, agora mesmo.
— Não, meu amor. Tem de ser você.
Arthur pensou no caos que estava instalado na capital, e sabia que não poderia prever nem o seu próprio destino. Não tinha ideia se Elaene já sabia sobre a tomada contra Uther, então hesitou.
— Elaene... na verdade, eu tenho assuntos muito importantes para tratar...
— Arthur, escute bem: vá buscá-lo! – Elaene o encarou e pediu de uma maneira tão firme que sabia que não haveria como negá-la. Sua expressão parecia régia, e não havia hesitação no seu olhar. Não era uma súplica, era uma ordem, e não havia como desobedecê-la.
— Diga onde ele está!
Elaene disse-lhe onde deveria ir, e Arthur se despediu dela com um beijo em sua bochecha, mas ela virou o rosto e encostou o seu lábio no dele.
— Obrigada. Eu te amo, Pendragon. – sussurrou contra ele, e Arthur sentiu a vibração da voz dela ecoar em seu corpo, como se revigorasse cada músculo cansado de seu corpo, pelos longos dias de vigília e desespero.
Elaene era a Rainha de gelo e fogo. Ora gelo quando deveria, ora fogo quando ardia.
Sorriu desejando que tudo aquilo não desmoronasse em sua cabeça, logo agora que estavam tão perto.
=^=
Assim que se retirou do quarto, Arthur abordou o meistre no corredor.
— Como ela está? Acredita que terá alguma sequela?
O meistre sorriu, e respondeu:
— Inacreditavelmente não. Eu realmente estou impressionado, Arthur, mas ela precisará de todo o descanso e cuidado possíveis. Se ela tiver de fazer o parto, precisará estar forte, ou não conseguirá resistir à mais uma provação física.
— Como está a criança?
— Eu realmente não sei. Estou tão surpreso quanto você. Mas sim, acredito que esteja bem. Senhor... – Arthur notou o semblante desconfortável no rosto do velho — ...talvez seja melhor poupá-la sobre Uther e o golpe.... – quando notou o olhar frio de Arthur, reformulou a frase – digo, o impasse que ocorreu essa noite em Porto Real. Elaene não pode sofrer nenhum estresse agora.
— Não a subestime, meistre... –respondeu Arthur, saindo apressado rumo à reunião mais emblemática da Távola, até então.
=^=
Uther foi mantido em quarentena, isolado na fortaleza de Maegor, e a tensão estava em ritmo crescente na capital. O povo, em sua maioria, estava ao lado de Arthur, mas alguns da nobreza ainda o acusavam de golpista e exigiam a volta do rei ao trono. Oberyn trabalhou como seu braço direito na tarefa de acalmar e reunir os aliados em torno da causa de Arthur e Elaene, na reunião da Távola que foi convocada.
Na reunião daquela mesma tarde, Arthur propôs que a Távola redonda cuidasse das questões do Reino interinamente, até que Elaene se recuperasse e ocupasse seu lugar como herdeira de Rhaegar. Porém, enfrentou a ira e ao desprezo de alguns simpatizantes que consideravam um absurdo serem governados por uma mulher, ainda que herdeira legítima da dinastia Targaryen.
Alguns membros da Távola, principalmente antigos aliados de Uther, abominaram a destituição de Uther, acusando veladamente Arthur de ser um golpista. O príncipe se defendeu, lembrando que a criação da távola redonda teve como base, justamente, evitar que o rei estivesse acima do bom-senso e razoabilidade. Era função do conselho intervir quando a saúde mental do rei estivesse interferindo nos assuntos do reino, e assim evitar que outro Aerys II destruísse a paz e a estabilidade conquistada a base de sangue. Porém, quando interrogado por um Lorde da campina, sobre quando desprezou a própria Távola Redonda quando tomou a decisão de destituir Uther sozinho, ficou calado e sentiu vergonha pela impulsividade que o tomou quando descobriu que sobre o atentando ordenado pelo pai.
Entre as questões debatidas, estavam o futuro de Alanna Hightower, noiva de Uther, que deveria retornar para sua família acompanhada por ser irmão Humfrey, e o destino do próprio rei destituído. Deixar que Uther ficasse em Camelot, seria um risco alto demais. Arthur conhecia o pai, e sabia que ele agiria nas sombras para retomar ao poder, e claro, usaria mais magia negra para conseguir o que queria. Decidiu que deveria manter o pai sob seu olhar atento na capital, ainda que tivesse tratamento de nobre, apesar de enclausurado e fortemente vigiado.
Além disso, os membros do Conselho cobraram Arthur a captura do Dragão que assolava Westeros. Alguns relatos diziam que o animal havia sido visto do outro lado do mar estreito, e novamente no sul de Westeros, perto das terras de Dorne, matando animais e pessoas, espalhando o medo por onde sobrevoasse.
Mas ainda naquela reunião, Arthur convocou um juramento, apelando para o senso de honra dos cavaleiros para que o legitimassem como Regente. Mesmo que não confiasse nas palavras de alguns, sabia que teria o aval do Conselho para reagir e punir, caso alguém infringisse a própria palavra.
Ainda que naquela tarde, Arthur tivesse saído parcialmente vitorioso da Távola, a aceitação de Arthur como Regente, ou Elaene como Rainha, ainda não era unânime. O Norte, Leste e parte do Sul haviam declarado apoio irrestrito à ele, porém parte do Sul e Oeste, não demonstraram entusiasmo. Arthur sabia que deveria lutar pela homogeneidade do Conselho, antes que mais sangue rolasse, e tudo aquilo pelo que lutou fosse por água abaixo.
A uniformidade da Távola estava em jogo, e ele sabia o que deveria fazer para uni-los novamente, só não sabia ainda como fazê-lo.
=^=
Arthur foi acompanhado por sua guarda até certo ponto no caminho que Elaene indicou. Não poderia mais descuidar de sua segurança, não agora que alguns desejavam sua cabeça em uma estaca, mas também sabia que se Elaene o enviou para buscar o garoto, deveria confiar em sua palavra, e manter a privacidade do local, que por suas palavras, era sagrado e deveria permanecer intocado.
Não fazia ideia de como Elaene conhecia o caminho, e nem como poderia saber onde Merlin estava, se ela mesma estava em coma, mas confiou no poder dela, ainda quase desconhecido para ele.
Quando subiu a colina, avistou o local sagrado. Olhou para trás, e acenou para os soldados, para que mantivessem posição, e caminhou sozinho para o estranho lugar. Em meio à árvores velhas e silenciosas, havia uma pilha de pedras, que mais pareciam formar um antigo altar. Notou que havia oferendas recém espalhadas pelo chão, e suspirou de surpresa quando viu o garoto deitado com o rosto no chão, atrás do altar.
Correu em sua direção e o virou para cima, a tempo de notar que seus pulsos haviam sido cortados pela adaga largada no chão, mas o sangue que saía dali, já formava uma poça coagulada na terra escura entre as estranhas árvores.
Merlin tinha os lábios de um tom de roxo, e sua pálida pele denunciava que já não havia mais vida ali, há algumas horas.
— O que você fez, garoto? Porquê? – perguntou a si mesmo, deitando Merlin em seu colo e afagando seu cabelo, como se fosse uma criança.
Então lembrou-se do que Merlin havia dito, enquanto chorava desesperado pela vida de Elaene, e a esperança já estava perdida. Uma vida seria cobrada, para poupar a de Elaene, mas havia dito que não seria a de Arthur.
Entendeu o que ele havia feito. Sacrificou-se por Elaene.
=^=
Arthur levou o corpo de Merlin para a fortaleza, para que tivesse um funeral apropriado. Usou sua própria capa de tecido nobre para embalar o corpo do garoto, e se recusou a carregá-lo no lombo do cavalo como um pedaço de carne qualquer.
Aquele garoto era um herói, salvou a vida de sua mulher e seu filho, e o amor que sentiu por ele foi inevitável. Os soldados estranharam o comportamento de Arthur ao cavalgar segurando cuidadosamente com Merlin nos braços, mas mantiveram a discrição.
Quando alcançaram a fortaleza, desceu da montaria e carregou Merlin cuidadosamente no colo, ordenando para que o levassem para as irmãs silenciosas, para o tratarem como um garoto nobre, quando viu uma das servas de Elaene correr em sua direção.
— Alteza!- disse a moça desajeitada, e ofegante. — Procuramos pelo senhor por toda parte.
— O que aconteceu? É Elaene? – perguntou ansioso, notando o avental manchado de sangue que a garota vestia.
—Chegou a hora, senhor! Elaene está chamando-o desesperadamente, há horas. – disse enquanto corriam em direção às escadarias da fortaleza — um parto difícil, alteza. Muito difícil! Ela está muito fraca. Precisa de você!
=^=
Quando entrou no quarto, Arthur sentiu o cheiro adocicado de sangue no ambiente. Sempre amou o cheiro de rosas que emanava dela, mas a rosa aliada ao sangue, cheirava morte. Balançou a cabeça com os pensamentos mórbidos que o dominaram, e concentrou-se nela.
Elaene estava deitada na cama, imersa em um lençol ensopado de sangue. A parteira estava entre suas pernas e tentava lhe dar palavras de incentivo, junto com Gwen que estava ao seu lado, e segurava sua mão, porém, Elaene parecia exausta demais para abrir os olhos, e ao menos reagir.
Aproximou-se dela, e sentou-se na cama ao seu lado, a apoiando em seu peito.
— Ela precisa empurrar, Arthur! Agora!– disse Gwen tensa ao seu lado.
— Arthur? – Elaene reagiu quando ouviu o nome dele, e abriu os olhos quando já estava escorada em seu peito. – eu sabia que voltaria... você prometeu...
O tom fraco e febril de sua voz, o fez estremecer.
— Eu sempre volto, você sabe! – disse depositando um beijo no topo de sua cabeça, enquanto ela fechava os olhos mais uma vez.
A parteira estava com um semblante preocupado, enquanto notava o esgotamento de Elaene, e nem precisou dizer nada para Arthur compreender que ela estava por um fio, e deveria lutar.
— Meu amor, acorde. – disse balançando o rosto de Elaene até vê-la piscar preguiçosamente em sua direção. – Preciso que você empurre mais um pouco.
Elaene chorou sem forças.
— Eu não consigo, sinto muito.
— Você é a pessoa mais forte dos Sete Reinos, Elaene. Você consegue!
—Arthur... – disse quase sussurrando – eu não quero morrer como minha mãe!
Aquelas palavras tiveram o poder de lhe revirar o estômago. Elaene havia perdido sua mãe quando nasceu, em uma cama de sangue, e sua própria mãe havia partido ao dar a luz ao pequeno Gwaine. Não poderia permitir o mesmo destino à ela. Não era justo.
Pensou sobre o que viu naquela tarde, e sabia quem poderia ajudá-la.
— Hoje conheci melhor um garoto que sempre fora enigmático. Um estranho cranogmano, que doou sua vida à uma causa que ninguém mais conhecia. Lembra dele, Elaene?
Elaene não conseguiu evitar que as lágrimas caíssem com mais ímpeto ao lembrar-se de Merlin. Ele sabia o que o destino reservava à si mesmo ao se doar àquela causa, uma morte solitária e prematura, mas mesmo assim, jamais duvidou do propósito de salvar Elaene, e no que seu gesto implicaria.
— Sim... eu me lembro dele... – disse fungando, enquanto Arthur se posicionava sentado em suas costas para lhe abraçar e ajudá-la a empurrar.
— Agora eu quero seja a mulher forte que és, e ajude nosso pequeno Pendragon a nascer. Vamos, Elaene!
Arthur segurou sua mão em incentivo, e logo sentiu um aperto forte quando Elaene subitamente reuniu forças para empurrar mais uma vez.
Elaene gritou e chorou durante muito tempo, mas seguiu empurrando enquanto esmagava a mão de Arthur na sua. O esforço era evidente em seu rosto, mas assim que pensava nas palavras de Arthur, retirava sua energia habitada nos lugares mais profundos de sua alma, e continuava a lutar com o próprio corpo.
Quando pensou ter reunido o último sopro de força que restava, escorou a cabeça novamente no peito de Arthur, desabando, enquanto notava que Gwen se movimentava no quarto.
— Ele vive? – podia ouvir a voz da amiga de longe, mas não conseguiu abrir o olho.
Escutou o barulho, a princípio, de um leve e distante lamento, que logo se transformou num forte e potente choro de bebê.
— Elaene... – ouviu Arthur sussurrar em seu ouvido, enquanto sorria contra ela – veja! Você conseguiu. Deuses, ele é lindo...
Arthur havia segurado seu braço e depositado a criança no colo dela, enquanto ele mesmo o amparava, ciente do esgotamento de Elaene, sem forças para segurá-lo. Ele apenas queria que ela o sentisse também.
Quando Elaene conseguiu finalmente abrir os olhos, o choro havia cessado, e naquele exato momento, olhos verdes muito familiares lhe examinavam em reconhecimento. Teve vontade de segurá-lo com mais vontade, e de beijá-lo na testa. Sentir teu cheiro e teu calor.
Mas não havia mais forças, conseguiu apenas sorrir.
Nunca esteve certa sobre qual seria seu nome, Arthur havia lhe dito que assim que vissem o seu rosto pela primeira vez, saberiam como batizá-lo. Ali naquele momento, não teve dúvidas.
— Você será um bravo guerreiro. Hoje venceu sua primeira batalha, Merlin Pendragon.
Fale com o autor