Notas iniciais
Eu disse que voltaria, né? Espero que ainda exista alguma alma perdida aí nesse limbo acompanhando esse penúltimo capítulo...

Arthur sentou na beirada da cama apoiando a cabeça com a mão, como se ali tivesse um peso insuportável, após as noticias que Loras lhe trouxe.

“por que você fez isso, Elaene? No que diabos está pensando?” repetia Arthur para si mesmo, tentando se recuperar do choque, quando Oberyn invadiu o quarto de uma vez

— Arthur! Os mercenários e Jon sumiram... creio que foram ao encontro de Elaene. O que faremos?

— Elaene disse que eu morreria se marchasse para o Norte... — disse Arthur em não mais que um sussurro.

— O que disse?

— Esqueça. Sigamos com os planos. Peça para um contingente menor se deslocar conosco com menos peso à frente. Precisamos correr contra o tempo. Com os cavalos mais saudáveis e velozes.

— Jamais chegaríamos a tempo, Arthur...

— Não tenho escolha, Oberyn. Não ficarei na capital esperando noticias da morte de Elaene. Partiremos hoje mesmo.

Ele havia perdido dois irmãos e o seu pai pelo que julgava ser responsabilidade dele. Não poderia perdê-la também. Jamais se perdoaria se ela se sacrificasse por ele, e acima de tudo, jamais a perdoaria por isso.

=^=

Elaene juntou-se aos homens do Vale, logo acima do gargalo. Sabia que Rhaegor estava cada dia maior e mais imponente, mas ficou impressionada com a força que o dragão trouxe para seu exército. Os homens o admiravam no horizonte, sempre rondando a marcha, e vigiando cada passo de Elaene.

Estava exausta por conta da longa viagem até o ponto de encontro, mas preferiu seguirem logo o caminho até Winterfell, afinal, cada dia a mais com aquele monstro, significava grande risco para a vida dos pequenos Starks, e seu coração palpitava ao pensar em Arya confinada no mesmo castelo que Ramsay.

Até aquele dia, nenhuma notícia a mais havia chegado do castelo, mas sabia que seria difícil saber ao certo o que estava acontecendo, uma vez que nenhuma informação que viesse de winterfell teria credibilidade. Eis que então, no terceiro dia de marcha, a noticia veio como uma bomba.

Um corvo trouxe as notícias que Arya havia se escondido nas criptas de winterfell durante a invasão, e conseguiu escapar do castelo se disfarçando de garoto camponês algumas semanas depois. Ela havia chegado ao território dos Umber, com ajuda de Brienne, pedindo proteção e vingança.

Os Umbers reportavam que Arya presenciou horrores em sua própria casa. Ramsay havia tomado Catelyn como esposa, uma vez que Arya havia escapado entre seus dedos, em uma pífia tentativa de dar alguma legitimidade à sua pretensão sobre Winterfell.

Quando leu aquele trecho da carta, brigou com o conteúdo de seu estômago que lutava para encontrar o caminho para fora. Agradeceu por somente Sor Royce e seus homens de confiança estarem na tenda, quando sentiu o chão rodopiar e cair de joelhos.

Não podia ser real. Seu primo Rickon e seu doce primo Bran, aquele garoto esperto e inteligente, futuro senhor de Winterfell, sucessor de Robb Stark, estavam mortos. Havia falhado com sua família. Estava atrasada demais para salvar os pequenos.

“perdoe-me Robb...”

=^=

Por mais que Arthur o embalasse e cantasse as canções que Merlin mais gostava, o garoto não parava de chorar. Estava vermelho de tanto berrar, dava chutes e tapas no colo do pai, como se mesmo tão novo já entendesse a viagem de risco que ele faria.

Gwen entrou no quarto e logo ofereceu o colo para Merlin para tentar acalmar o garoto e ele aceitou o toque dela. Em pouco tempo, o choro dele foi diminuindo ate se tornar um leve fungar.

— Então é verdade. Você irá marchar até Winterfell?

— Sim, Gwen. Elaene não tinha o direito de ter partido dessa forma, nem mentido para mim. Preciso tentar chegar a tempo de auxiliar o cerco.

— Faça o que tem de ser feito, Arthur. Eu cuido de Merlin.

Arthur se aproximou e tocou as bochechas vermelhas do garoto enquanto pedia sinceramente.

— Espero que um dia que você me perdoe, Gwen.

Em um primeiro momento a dornesa estreitou os olhos como se não entendesse, porém logo que seu olhar encontrou o dele, sabia o que ele dizia. Lancelot.

— Não há o que ser perdoado, Arthur.

— Eu deveria ter partido aquela tarde para Pedra do Dragão. Talvez ainda houvesse alguma chance.

— Por que você diz isso, Arthur? Você desistiu de Lancelot? – Perguntou Gwen com raiva.

Arthur se afastou um passo. Confuso.

— Não. Jamais. Apenas, espero que me perdoe por não ter partido aquele dia.

— Sofri um acidente com meu cavalo e Elaene sentiu-se mal aquela tarde. Não foi culpa sua e não quero mais falar sobre isso.

Arthur suspirou vencido e se aproximou de Gwen para depositar um beijo em sua testa.

— Você é a melhor amiga que eu poderia ter, Gwen. Jamais teria o direito de te pedir mais nada além do que já fez por mim, mas se me permita pedir um último favor, cuide de Merlin.

— Você mesmo irá cuidar, dragão... assim que voltar de Winterfell. Enquanto isso, eu cuido de Merlin, e Merlin cuida de mim.

— Eu te amo, Gwen. Obrigada por cuidar de nós durante todo esse tempo. Você merecia ser feliz com Lancelot. – tocou novamente a bochecha de Merlin carinhosamente – Seja bom, Merlin.

Quando Gwen tentou responder àquelas palavras, se viu diante de sentimentos confusos. Arthur havia desistido de Lancelot e dele mesmo. Sentiu os olhos marejarem quando ele lançou um ultimo olhar antes de sair pela porta.

=^=

Após três dias de marcha intensa, estavam exaustos, e mesmo com todo desespero de Arthur, o convenceram a descansarem ou os cavalos não sobreviveriam até o Norte.

Encontraram uma clareira próximo a região do castelo de Harrenhal. Ao longe, já poderiam avistar a grande ruína do enorme castelo deformado por fogo de dragão.

Oberyn encarava Arthur do outro lado da clareira, sentado em um tronco e olhava fixamente para a fogueira, em um incômodo silêncio. Aproximou-se dele e chamou sua atenção apenas quando disse:

— Elaene sabe se cuidar sozinha, Pendragon.

Arthur olhou para cima, saindo dos devaneios, e segurando o queixo com as mãos.

— Você não faz ideia do quão perverso Ramsay é, Martell. – respondeu baixo.

— O que estou dizendo, é que Elaene é poderosa, você sabe... – disse olhando em volta para conferir se alguém os ouvia. – ... e pelos sete infernos, ela está montada em um dragão... Rhaegor a protegerá.

— Desde quando minha mãe morreu naquela maldita cama de sangue, eu me senti responsável pela minha família. Meu pai nem sempre foi esse homem frio e vazio que se tornou quando se rendeu aos feitiços da maldita bruxa. Sempre foi severo, mas me ensinou a defender aqueles que levam o meu sangue, e assim me tornei quem sou.

— Gwaine era fascinado por mim. – Disse lembrando nostalgicamente. -Ele realmente acreditava que eu era um lendário guerreiro, apenas porque me tornei um maldito cavaleiro. – disse com um sorriso triste de canto – não havia nem sequer visto sangue em batalha, mas ele me considerava um herói. – continuou com um olhar mais sombrio – Lancelot sempre foi aquele irmão ciumento, disputava a todo tempo a atenção de nosso pai. Ele sempre esperava o momento certo para dizer algo sarcástico e crítico em relação a mim, e às minhas escolhas, mas no fundo eu sempre soube que era admiração.

Arthur pegou um toco de madeira e cutucou as brasas da fogueira distraidamente.

— Eu falhei com todos eles, Oberyn. Meu pai, Gwaine, Lancelot...

— Não temos certeza se seu irmão está morto, Arthur. Você deveria manter as esperanças.

Arthur continuou e ignorou o que Oberyn disse.

— Como eu poderia olhar para meu filho e dizer que sua mãe partiu sozinha para o cerco de Winterfell, e eu não pude salvá-la daquele animal? Como eu poderia viver com isso, Oberyn? – jogou o toco para longe e suspirou – eu jamais a perdoarei se morrer naquele maldito norte. Ela não tinha o direito de fazer essa escolha por mim.

Arthur levantou-se e lançou um olhar triste para Oberyn.

— Descanse, teremos um longo dia amanhã.

=^=

Saiu para fora da tenda em fúria em direção ao campo aberto, já chamando Rhaegor que havia voado em direção ao leste em busca de animais para se alimentar, enquanto os oficiais e Jon a seguiam na tentativa de acalmá-la e fazê-la desistir da ideia de ir sozinha à winterfell e botar os muros abaixo sozinha com seu dragão.

— Majestade, eu entendo a sua dor, mas você precisa me ouvir. Ramsay quer que você perca a cabeça, e prepara armadilhas para matar Rhaegor e você. Por favor, se acalme. – pediu Robar Royce, enquanto Elaene ainda caminhava com fúria.

— Eu não posso mais esperar, Robar. Temos ainda uma semana de marcha. Eu vou acabar com isso agora.

Nesse momento, Rhaegor surgiu no horizonte e vinha ansioso ao encontro de Elaene.

— Por favor, Majestade. Eu imploro! Precisamos de você. – nesse momento Robar tocou o braço de Elaene, e Rhaegor rugiu em fúria.

Não havia tempo para controla-lo, então quando Rhaegor sobrevoou os dois lançando chamas em direção ao cavaleiro, Elaene acionou um campo de força, o mesmo que havia salvado Arthur em Porto Real, e as chamas escorreram pelas laterais como água.

Elaene pronunciou palavras em Valeriano para acalmar Rhaegor, e o dragão pousou no campo a obedecendo, ainda que bufando enquanto ela própria acalmava a sua fúria.

— Você está bem? – perguntou ao cavaleiro deitado no chão, enquanto ele olhava para os braços intactos, como se não acreditasse no que havia visto.

Vários soldados haviam presenciado a cena e a olhavam em choque e êxtase. Quando olhou para trás, seus homens e oficiais estavam ajoelhados perante a ela. Respirou fundo, e controlou suas emoções.

Se de um lado, havia o desejo de queimar Winterfell e derreter o bastardo Bolton até os ossos, por outro, sabia que não poderia usar a magia em ira e vingança. Aqueles homens a amavam e a viam como uma salvadora. Deveria fazer jus a isso. Não era uma Targaryen indigna, como o seu avô louco.

Lembrou-se das palavras de Merlin Reed. Arthur é o fogo para o seu gelo. Seu ponto de equilíbrio. Estava ali para salvar seu povo, e Arthur. Pensou nele com amor e esperança é se acalmou.

— Levante-se. Temos ainda um longo caminho até Winterfell. – disse calmamente enquanto ofereceu sua mão para Robar Royce levantar-se do chão.

=^=

Como seus oficiais haviam pedido, Elaene não se aproximou do castelo com Rhaegor. Os boatos davam para que os invasores teriam construído armadilhas próximas aos muros para derrubar o dragão assim que se aproximassem. O exército do Vale havia se juntado ao cerco dos nortenhos, e formavam uma assustadora imagem no horizonte. Assim que sua presença foi anunciada aos líderes nortenhos, Elaene convocou uma reunião para atualizarem as estratégias.

Na tenda estavam os principais líderes dos exércitos do Norte e do Leste. Quando entrou na tenda pode notar os olhares orgulhosos e admirados de senhores que a conheciam desde sua chegada à Winterfell, seu lar durante tantos anos de sua vida. Sorria amigavelmente para todos, ainda que se incomodasse com os olhares de devoção, agora que os boatos sobre sua magia e sobre como a usou para salvar Robar Royce havia se espalhado.

— É uma honra estar aqui ao lado de vocês senhores, ainda que me entristeça a alma ver meu eterno lar tomado por um ser vil e asqueroso. Eu como metade Stark, venho trazer justiça para o Norte. – disse e notou o olhar de empatia e tristeza daqueles senhores. — quais são as condições?

Elaene ouvia atentamente os senhores e logo e sentiu confusa.

— Eu não entendo o que Ramsay realmente planeja com tudo isso.

— Acreditamos que Ramsay forçaria Arya Stark a se casar com ele, e se declararia senhor de Winterfell agora que Robb, e seus irmão estão mortos... – disse Lorde Umber, com um pesar cortante.

Elaene suspirou com tristeza, mas continuou

— O maldito sabe que jamais teria legitimidade. Nem os nortenhos, e nem o Rei e a Rainha aceitariam esse título. Então repito. Por quê?

Lyanna Mormont, que para o espanto de Elaene agora já aparentava ser uma moça feita, respondeu.

— Eu acredito que isso seja uma distração, Vossa Graça. Ramsay os queria exatamente aqui, com o seu dragão. Na verdade, acredito que ele esteja tão chocado quanto todos nós ao notar que Rei Arthur não veio ao nosso encontro, pois creio que ele planejava nos distrair ao norte, enquanto algo muito importante aconteceria ao Sul.

Elaene sentiu o desconforto na tenda quando Lyanna citou a inesperada ausência de Arthur, como se acreditassem realmente que Arthur seria um covarde. Aquilo soou tão absurdo, que decidiu ignorar o comentário sobre Arthur, e evitar se sentir culpada por macular a imagem dele.

— O que exatamente seria essa distração, Lady Mormornt?

— Eu não sei, Majestade. Seja o que for, logo saberemos.

— O que faremos, Vossa Graça? Os meninos Starks já estão mortos, Arya está a salvo, mas Catelyn ainda é prisioneira de Ramsay. Demorará meses para que passem a sentir fome. Winterfell possui uma enorme reserva de alimentos para o inverno.

“graças à minha ideia de abastecer os nortenhos, esse desgraçado tem um banquete particular nesse momento.” pensou com tristeza.

— Usarei Rhaegor para derrubar o muro na parte mais frágil, a oeste. Estejam a postos.

— Vossa Graça, me desculpe... mas o bastardo possui armadilhas que irão mata-la e o seu dragão.

— Não se preocupe, Lorde Umber. Nenhuma arma nos atingirá. – Ramsay ainda não sabia sobre os poderes de Elaene, portanto, era essa a sua vantagem. — Amanha a noite, terei o sangue do bastardos aos meus pés. Preparem-se para a batalha!

=^=

— Arthur, nós temos que tomar uma decisão, agora! – gritou Oberyn na tentativa de fazer Arthur sair de seus devaneios.

Quando a pequena massa do exército que marchava à frente do contingente principal se aproximava de Correrio, havia chegado a notícia através de um mensageiro das terras ocidentais.

Tywin Lannister, liderava um grande exército de mercenários pelo Oeste. Havia tomado Rochedo Casterly, a sua tradicional casa. Até aquele momento, não sabiam ao certo se o castelo havia sido tomado, ou se Tyrion o havia traído e liberado o caminho para seu pai tomar a região. Agora, parte desse exército inimigo marchava perigosamente para sua casa, Camelot.

— Isso não faz sentido. Com que tesouro Tywin comprou esses mercenários? – indagou Arthur.

— Você é tão ingênuo assim? Tyrion é senhor de Rochedo há quase dois anos! Você realmente não imagina de onde surgiu o dinheiro que comprou esses mercenários, ou apenas não quer aceitar que seu grande amigo Lannister o traiu?

— Porque ele faria isso? – perguntou Arthur ainda incrédulo.

— Arthur, me escute! – Oberyn segurou o rosto dele para que ficasse bem próximo. – Você precisa levantar-se dessa cadeira, reunir-se com a massa mais ao sul e marcharmos para o Oeste antes que esse filho da puta Lannister divida o reino em dois e nos separe do exército no Norte. Você está me ouvindo?

Arthur tentou protestar, mas Oberyn continuou.

— Eu entendo toda sua frustração por Elaene ter partido sozinha, pelo seu pai, seus irmãos e o diabo que você se arrepende em sua vida. Mas nesse momento, Westeros inteira depende de você. Se você continuar rumo ao norte, perderemos o sul e o oeste. Você perderá sua casa, Pendragon! Você entende o que estou dizendo? – soltou o rosto dele e continuou mais calmo – detesto dizer que avisei, mas negligenciamos. Subestimamos o cretino. Você sabe o que tem de fazer, Arthur. Confie o Norte à Elaene, e não a decepcione perdendo o Sul.

Odiava admitir, mas Oberyn estava certo. Seu povo dependia dele, não apenas sua família. Tomou uma decisão quando decidiu depor seu pai. Nunca quis ser rei, queria ser um cavaleiro, receber ordens, fazer justiça, mas ali estava ele: O Rei Arthur. E era assim que deveria se portar. Um rei coloca seu povo em primeiro lugar, até mesmo à frente de sua família.

Seu pai, onde quer que estivesse, estaria sorrindo ironicamente naquele momento.

— Avise os homens e mande um mensageiro e um pequeno grupo à frente. Nos encontraremos com a massa e seguiremos rumo à campina.

Oberyn suspirou aliviado e se aproximou mais uma vez.

— Você me prometeu a cabeça do leão naquela tenda em Camelot, mas isso eu lhe digo: sou eu quem a trará para você, Arthur. Estou contigo até o maldito final.