Queen of ice and fire
8 A cabeça do dragão
Notas iniciais

Arthur agora desejava ardentemente não ter aceitado o convite de Jaime para acompanhá-lo a Winterfell. Se por um lado, conhecer o Norte foi enriquecedor, por outro, lhe trouxera dores de cabeças. Estava apaixonado pela prometida do futuro senhor e protetor do Norte. Perceber a troca de olhares entre eles, os risinhos fáceis e a sintonia entre os dois, não ajudava em nada.
Tudo ainda piorou depois do incidente com o pequeno Bran Stark. O garoto havia caído de uma torre de vigília do sul enquanto escalava. Havia algo de sombrio naquele acontecimento, poderia jurar. Jaime estava mais tenso, e a constante troca de olhares acusadores de Cersei lhe dava sinais de que havia algo de errado naquele acidente.
Arthur conviveu muito com Jaime desde quando era seu escudeiro. De inicio imaginava que estaria vendo uma versão destorcida da realidade, afinal, eles eram irmãos, Cersei e Jaime eram ainda irmãos gêmeos. Sabia que os Lannisters não tinham o costume de casarem entre si tais como os Targaryens.
Mas algo sempre lhe dizia que havia algo entre os dois. Olhares, risos, gestos, a super proteção de Jaime... Mas nunca ousou confrontar Jaime sobre o assunto.
Estavam agora quebrando o jejum matinal, quando Tyrion Lannister tocou no assunto sobre Bran Stark e o acidente. Notou o olhar trocado por Jaime e Cersei. Os dois estavam em Winterfell e não haviam partido com o Rei para a caçada, o que era estranho, pois Jaime pertencia a Guarda Real, e deveria estar com o seu rei. Tomou o suco de fruta empurrando a comida que teimava a lhe engasgar pelo caminho com os pensamentos que teimavam em lhe tomar a cabeça.
Queria realmente descobrir se o acidente do garoto Stark, foi fruto de um ato dos dois? Teria o pequeno Lorde visto algo que não podia ver, escutado, desconfiado?
Sua cabeça rodava em pensamentos, e só voltou à realidade quando Jaime questionou Tyrion:
— Às vezes me pergunto irmão, de qual lado você está...
—Assim você me ofende irmão. Você sabe que eu amo minha família.
Nesse instante, a tensão ficou insuportável. Sabia enfim, que havia algo de muito errado com aquela família. Não tinha idéia do que faria se descobrisse algo sério. Tyrion era seu amigo, assim como Jaime, que ainda era seu mentor. Pediu licença para se retirar.
Quando chegou ao pátio, sentiu uma enorme saudade do lar. Passara tanto tempo fora de seus domínios, que Camelot lhe parecia agora um lugar muito distante. Sentia falta do pai, de Lancelot e de Gwaine, seus irmãos. Sentia falta de Meistre Gerold, sempre a lhe olhar com olhos suaves de um homem idoso, com palavras sabias e conhecimento infinito. Sentia falta do calor, do sol brilhante sob um céu azul claro, das águas frias causando choque térmico enquanto nadava. Sentia falta de Guinevere.
Nunca amou de verdade Guinevere. Era filha do intendente de Camelot e sabia que nunca poderia se unir a ela em matrimonio. Mas nutria afeto pela moça. Não fora ele quem lhe tirou a honra, a levando para a cama pela primeira vez, mas continuava a deitar-se com ela em momentos de solidão, mesmo sabendo que não poderia honrá-la. Era sujo, ele sabia. Mas os desejos carnais, por vezes, lhe cegavam a razão.
Arthur teve muitas mulheres na corte também, porem se sentia a vontade apenas com Guinevere. Era estranho pensar nisso agora, pois a via ainda mais como uma amiga agora em que estava perdidamente apaixonado por Elaene Arryn. Pegou-se acordado a noite, lembrando-se de suas noites quentes com Guinevere em seu quarto, e a trocando em pensamentos por Elaene.
Havia notado que a moça agora o evitava tanto quanto podia. A cena que protagonizaram no pátio foi intensa. Pensou por um momento que agarraria as costas e a jogaria contra a parede, por fim matando o desejo de mordiscar aqueles lábios vermelhos que lhe hipnotizavam. Por sorte, se controlou a tempo, pois apreciava sua cabeça em cima de seu pescoço.
Assim que o pequeno amigo terminou o seu desjejum e caminhava com suas pernas bamboleando pelo pátio rumo à biblioteca, Arthur acelerou um pouco o passo para alcançá-lo a tempo.
—Manha tensa, hãm?
—Ah meu caro Arthur, se meus pressentimentos estiverem corretos, a tensão está apenas começando.
—Você realmente partirá com os patrulheiros para conhecer a muralha?
—Sim, como disse, não posso perder a chance de poder mijar no limite do mundo.
Os dois riram novamente.
—Devo lhe avisar que não existem putas em castelo negro?
—Bem lembrado meu caro Arthur, deixarei as putas de winterfell um pouco mais ricas essa tarde.
—Talvez o celibato lhe crie um pouco de juízo, amigo.
Tyrion sorriu e seus estranhos olhos de cada cor brilharam.
—Creio que não. Putas de Dorne a winterfell ficariam desoladas se soubessem disso. Desejas me acompanhar? Deixo você escolher a que melhor lhe agradar, por minha conta.
—Tenho um amigo anão que certa vez me disse sábias palavras: bebidas e putas de graça, não podem ser negadas sem se ofender o amigo.
Bagunçou os cabelos do anão, compartilhando uma risada sonora pelo pátio, e continuou:
—Perdão amigo, hoje não lhe farei companhia. Afinal, não quero que sua beleza me ofusque no bordel...
Dessa vez, o sorriso de Arthur saiu um pouco amarelo, e a piada para amenizar o clima não foi o suficiente para esconder suas frustrações para o amigo, que tão bem lhe conhecia.
— Sei... tudo bem então. Creio que a “vista” aqui em winterfell seja mais agradável, não é? — E então o sorriso de Arthur morreu, e Tyrion continuou. – Os deuses são irônicos às vezes... você pode ter a mulher que quiser Arthur, de winterfell à Dorne, e além do mar estreito. E a única que você quer, é aquela que você não pode ter.
— Não tenho ideia do que queres dizer...
Do outro lado do pátio, caminhava Elaene, com um passo rápido e firme. Estava com um manto e capuz, e pela frente do seu vestido, escorria seu cabelo ondulado amarrado um uma suave trança. Quando viu Arthur e Tyron conversando, diminuiu um pouco o passo e encarou Arthur meio desajeitada e tímida, e logo continuou rumo ao salão para o desjejum, sem olhar para trás.
Tyrion observou todo o movimento e acompanhou o olhar de Arthur em Elaene. Era óbvio!
—Sim... perfeitamente. Devo estar vendo coisas, e peço desculpas. Apenas tome cuidado, meu amigo. Isso pode não acabar bem. Se mudar de ideia sobre essa tarde, sabe onde estarei.
O anão virou as costas e seguiu seu caminho.
—Eu sempre sei onde te encontrar. Bordel ou taberna!
Disse Arthur um pouco mais alto quando o anão já estava há alguns passos na frente, a tempo de ouvir sua risada.
=^=
Arya estava no bosque sagrado onde tentava adestrar Nymeria, sua loba gigante, a lhe trazer um pedaço de madeira. Arthur observava de longe, e não pôde manter-se em sigilo quando soltou um riso ao ver a teimosia da loba, que apanhou o toco mastigou e ficou deitada no chão, enquanto Arya lhe chamava, impacientemente, e em vão.
—Tenha paciência, ela irá aprender.
Se aproximou de Arya e sentou no chão, acariciando a loba atrás da orelha, lhe arrancando um ronronar de aprovação.
—Qual o nome dela, minha Lady?
—Chama-se Nymeria, e eu não sou nenhuma Lady. Esses títulos são coisas de garotas bobas, como Sansa e Jeyne.
Arthur lhe sorriu, logo gostou da garota e seu temperamento quente.
—É um nome maravilhoso! Creio que seja uma admiradora da Grande Nymeria.
—É a maior mulher que esse mundo já viu. Um dia, seria tão honrada e grandiosa como ela. — Respondeu Arya enquanto sentava-se no chão, com as pernas trançadas em borboleta.
—Você é filha de reis, minha pequena. Os Reis do Norte foram homens bravos e destemidos. Sangue real corre em suas veias. Tenho certeza que honrará teu sangue.
—Você é um cavaleiro, certo? Da família Pendragon?
—Sim, sou filho de Uther Pendragon, de Camelot.
—Você também tem sangue de reis. – Disse meio incerta.
— De certa forma, sim. Minha casa é uma ramificação dos conquistadores Targaryens. Eu herdei os cabelos dourados-prateados deles, mas creio que não herdei nem uma gota de sangue real em mim. — Disse sorrindo.
—Você é um dragão?
—Não, pequena. Bem, Pendragon significa “Cabeça do dragão”, mas os dragões já se foram há muitos anos atrás... — disse melancólico, olhando para o lago logo mais à frente, enquanto continuava o carinho na loba, que agora largou o toco e fechou os olhos esboçando um sono, apreciando muito o toque dele.
—Eu queria ter visto os dragões. Você chegou a ver um de perto?
—Não, como disse, já se foram há muito tempo. Antes de eu nascer.
Se aproximou do rosto de Arya, para cochichar.
—Mas vou lhe contar o que eu vi: seus crânios no salão subterrâneo, na Fortaleza Vermelha.
—Uau, como eles são? – Arya mal podia conter a excitação na voz.
—Os mais novos, tem crânios incrivelmente pequenos. Tão frágeis quanto os ossos de um cão. Mas ao final do salão, os crânios ficam maiores e maiores. É incrível, minha pequena.
Arya olhou para as suas mãos e continuou.
—Eu irei ver em breve. Irei para a capital com o meu pai.
—Você não está feliz? Verá coisas incríveis na Fortaleza vermelha!
—Sim, estou. Mas... não sei. Gosto de Winterfell. Sentirei falta de Elaene, de Robb, minha mãe e agora Bran... poderei nunca mais o vê-lo.
—Ele ficará bem, criança. Acredite! Eu posso lhe fazer companhia até Porto Real, o que achas? Tenho muitas histórias de cavaleiros, batalhas e triunfos que tenho certeza que gostará.
—É... vou gostar sim. Agora preciso ir, arrumar meus pertences antes que a Septã venha me buscar e me arraste pelas orelhas.
Arthur sorriu.
—Vá, pequena. Irei aproveitar um pouco mais do calor que brota do lago.
—Vem Nymeria. – Arya se levantou e correu de volta para fora do Bosque sendo acompanhada de perto por Nymeria, deixando Arthur absorto em pensamentos.
=^=
Ouviu o quebrar de folhas secas e galhos atrás de si, e sentiu olhos lhe queimarem nas costas. Quando olhou para trás, notou que ela se virou para ir embora.
—Elaene?
—Sor Arthur... perdão, não quis incomodar, não sabia que estava aqui.
—Tudo bem, Elaene. Não me incomodas.
—É melhor eu ir...
—Ei, espere. – Disse Arthur alcançando-a e a tocando nos braços para virá-la para si.
—Elaene, não precisa fugir de mim. Desrespeitei-lhe de alguma forma?
—Não, Sor. – Olhou para baixo para evitar o olhar do rapaz, sentindo seu rosto queimar com um rubor que subia.
—Então, não vá. Por favor. Irei embora com a comitiva hoje mesmo e estarás livre de mim. Honrar-me-ia com tua companhia.
Elaene olhou para o lado com olhos pensativos e esboçou um sorriso cortês.
Sentaram-se à beira do lago. Olhando para o horizonte e admirando um cantar de pássaro em árvores próximas.
—Este lugar aqui, em frente à esse lago, com essa fumaça a esquentar o rosto, é de longe meu local preferido aqui no Norte.
Elaene sorriu, e continuou olhando para frente.
—Acredite, é o meu também. Às vezes venho para cá e fico horas admirando o horizonte, ou o pôr do sol bater naqueles muros. A fumaça dessas águas termais possui um poder incrível.
Quando olhou para Arthur notou que ele a encarava com olhos que brilhavam. Voltou a desviar o olhar.
—Esse lugar é o mais próximo que tenho de Camelot.
—Ouvi falar que é um lugar muito bonito.
—Ah sim, tenho orgulho de meu lar. O sol brilha tão forte, mas não tanto quanto Dorne, e sim um calor gentil. Gentil com as pessoas, com os animais, com a vegetação e as plantações. As águas do rio Avalon são mansas e suaves. Em qualquer época do ano, estão boas para o nado. Por vezes passo horas me exercitando na água, e deito em sua margem para descansar, e acabo cochilando com o sol batendo no rosto. No outro dia, tenho marcas vermelhas enormes na minha face, como um enorme tomate!
Elaene soltou uma gargalhada natural. Nunca vira Arthur tão solto, sem as cortesias rígidas e habituais dos cavaleiros do Sul. Arthur riu junto e notou a palidez dela.
—Você é tão branca... o sol de Camelot lhe faria bem. Seria muito bem-vinda, minha convidada de de honra.
—Talvez, um dia, obrigada. Fico lisonjeada. – Agradeceu polidamente.
—Você adoraria meu pai, Uther Pendragon. Vocês possuem muito em comum.
—Ouvi sobre os feitos de seu pai, é um homem muito respeitado desde o Vale até aqui no Norte.
Arthur sorriu, orgulhoso.
—Um grande homem. – Suspirou antes de continuar- Espero um dia ser digno de seu legado, apenas isso.
Elaene lembrou-se de seu pai, e fechou o semblante imediatamente. Não sabia o que sentia. Raiva, orgulho, tristeza... Arhur notou a mudança de humor.
—Disse algo que não devia? Sinto muito...
—Não Arthur, você não precisa se desculpar, não disse nada demais...
—Apenas sinto que deveria lhe fazer sorrir a cada segundo que estás comigo. Se para lhe arrancar o sorriso, fosse preciso me vestir como uma donzela e cantarolar “a donzela e o urso”, eu o faria sem pestanejar.
Elaene não conteve a gargalhada.
—Não será preciso, Arthur. Apesar de querer muito ver isso...
Arhur lhe esticou a mão para acariciar as maças do rosto de Elaene que lhe sorria.
—Pelos sete, como você é linda...
Ela se levantou com um impulso.
—Desculpe, Sor. Realmente preciso ir embora.
—Elaene, não posso partir e ter na consciência de que não lhe disse o que sinto por você, de verdade.
—Por favor, Arthur... não faça isso.
Arthur se aproximou. Seu coração martelava no peito e parecia que mil borboletas batiam asas lá dentro. Pegou a mão de Elaene e botou naquele local que pertencia à ela.
—Sente isso, Elaene?... É seu! Irremediavelmente seu. Eu vou embora, mas como irei deixar meu coração aqui, tão longe?
Elaene paralisou em surpresa, e sua boca ficou entreaberta com o susto enquanto gaguejava.
—Ar..Arthur...
Com a mão que segurava a dela em seu peito a puxou para mais perto de si. Sentiu-a congelar e arregalar os olhos, porém, ela não se moveu dali. A aninhou em seu peito, enquanto inclinava medindo e lutando para decorar cada feição de seu rosto, e o doce cheiro de rosas que emanava dela. Queria guardar. Precisava guardar o gosto.
Quando ficou minimamente próximo de seus lábios, Elaene afastou a cabeça.
—Robb irá lhe matar.
Arthur encostou os lábios e sentiu Elaene tensa em seus braços, mas ela não lutou para sair. Após um instante a sentiu relaxar um pouco os lábios, e aproveitou para sentir teu gosto por inteiro, explorando sua boca.
Elaene levou seus punhos para o peito de Arthur e lhe deu um soco débil em protesto, ao mesmo tempo em que correspondia ao beijo. Instintivamente, levou as mãos aos cabelos dele e lhe deu um pequeno puxão, arrancando-lhe um suspiro em sua boca. Confusa, revezava leves empurrões para longe, e depois para perto dele.
Quando foi tomada pela volta da razão, conseguiu empurrar com força o cavaleiro para trás, ao mesmo tempo em que lhe aplicava um forte e sonoro tapa no rosto.
Arthur olhou assustado com tudo que aconteceu e com a mão no rosto, que estava vermelho e ardia com o tapa.
—Se me tocar desse jeito novamente, Pedragon, não será Robb quem irá lhe ceifar a vida. Eu o farei, e com muito gosto.
Virou os pés enquanto entrava bosque adentro, mas suas mãos foram para seus lábios, onde o gosto dele ainda estava lá.
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