Queen of ice and fire
4 A águia, o veado e o lobo
Notas iniciais

Acordou e sabia que tinha pouco tempo antes do primeiro raio de sol tímido reluzir pelo pátio. Deveria retornar para seu quarto rapidamente para não ser notada. Tentou mexer-se na cama, mas percebeu que os braços de Robb estavam firmemente a segurando para si. Podia sentir a respiração calma do rapaz em um sono tranquilo lhe atingindo a nuca. Delicadamente levantou o braço dele se libertando do laço, imediatamente arrancando um gemido de protesto de Robb, mas sem acordá-lo totalmente.
Depositou um beijo em seus lábios após sentar na cama, e passou uns momentos olhando para o seu rosto sereno, lembrando-se da notícia que recebera. Assim que Robb lhe transmitiu o conteúdo da mensagem do corvo que chegara, Elaene desatou-se a chorar compulsivamente. Ficaram abraçados, ali na beira do lago fumegante, durante horas, sem trocarem mais nenhuma palavra. Enfim quando sentiu o cansaço esmagar seus ombros, pediu para descansarem. Não queria comer, não queria encontrar ninguém, e muito menos ouvir palavras de luto e piedade das pessoas ao seu redor.
Elaene e Robb foram diretamente para os aposentos do rapaz e adormeceram. Incrivelmente, e como sempre que estava nos braços de Robb, Elaene não tivera nenhum pesadelo aquela noite. Era estranho que ao olhar agora para o rapaz, Elaene desejasse que tivesse sonhado aquela noite. Tinha convicção de que algumas respostas poderiam estar lá, afinal no dia anterior havia sonhado com palavras terrivelmente negras trazidas por um corvo, e assim foi. Talvez não devesse resistir. Talvez fosse um dom e deveria encarar o problema e tentar tirar proveito do que aqueles malditos sonhos tivessem a lhe dizer.
“Uma mulher deve saber se defender”. Palavras de seu pai. Deveria aprender a ser independente. Não poderia depender de Robb para ter uma simples noite de sossego, por mais que ansiasse a presença dele e seus braços ao seu redor.
Com esses pensamentos, pegou a capa de veludo e se dirigiu à porta. Assim que puxava o mais silenciosamente fosse possível a maçaneta de madeira, Robb sussurrou seu nome, fazendo-a paralisar e olhar para trás. Estava dormindo. Sonhando calmamente. Sonhando com ela e não parecia ser um sonho ruim.
Sorriu para si mesma, e seguiu seu caminho para seus aposentos. Tomaria um bom banho e faria o desjejum com os Starks no salão. E de cabeça erguida.
Estava de luto, mas pegou-se incrivelmente sentindo raiva de seu próprio pai. Alguma magoa há muito tempo escondida, lhe batia no peito. Aquele sentimento terrível, que rapidamente negava a si mesma, sentindo profundo horror de tais pensamentos. Se esse fosse o caminho para se sentir forte, e não sozinha e frágil, seria egoísta. Era preciso, caso contrário enlouqueceria.
Assim que preparou-se em seus aposentos, vestiu uma túnica de lã cinza e simples. Não vestiria o negro, esse seria um papel que Lysa Tully desempenharia, não ela.
Aos descer as escadas, a caminho do salão onde faria o desjejum, Elaene ouviu Ned Stark lhe chamar.
— Elaene? Você está bem?
— Bom dia, Ned. Estou sim. Desculpe pelo sumiço de ontem, mas precisava de um tempo sozinha.
— Sozinha ou com meu filho?
Elaene olhou para baixo com um sentimento misto de vergonha e raiva.
—Não se preocupe, minha filha, não há problema nenhum nisso. Você bem sabe que sempre serei a favor da felicidade de meu filho, e de minha protegida, não é? Não há porque esconder vossos sentimentos de mim... Podemos ter uma conversa em particular?
Com um aceno de cabeça de consentimento, prosseguiram para os aposentos de Elaene.
— Elaene, não sei se Robb lhe contou as circunstâncias da morte de seu pai, mas...
—Não me importa. Ele está morto, não está? Há quanto tempo não vejo meu pai, Ned Stark? Já não conheço mais esse homem que você tanto fala com grande estima.
—Elaene, os fatos nem sempre são tão claros como imaginamos. Seu pai tinha motivos para distanciar-se de ti...
—Sim, sua cunhada que tanto temia minhas reivindicações sobre o reino do Vale.
—Um dia, conversaremos sobre as motivações de seu pai, e você entenderá.
— Não quero parecer rude com o Senhor, meu protetor, mas esse assunto está enterrado, assim como o corpo daquele homem que um dia chamei de pai.
—Elaene... você definitivamente herdou muito de sua mãe.- Disse Ned Stark com um suspiro.
—Não sabia que você a conhecia tanto assim, meu senhor.
—Muito bem, eu a conhecia muito bem... mas não é sobre isso que lhe chamei aqui. O mesmo corvo que trouxe a triste noticia sobre o vosso pai, também trouxe a noticia de que o nosso Rei está a caminho de Winterfell.
—Robert Baratheon? Por qual motivo viajaria tão longe...- interrompendo suas próprias fala, Eleane se deu conta de tudo.
— Ah sim... meu pai, digo, Jon Arryn era mão do Rei. Robert não viajaria tão longe a não ser que viesse lhe oferecer o cargo que era dele.
=^=
As últimas semanas foram conturbadas para Elaene. Ned Stark não havia lhe dito se aceitaria o convite de Robert, porém no fundo sabia que seu protetor não poderia recusar. Uma viagem tão longa, e um cargo tão honrado, se recusado, seria visto com um ultraje e grande ofensa para o orgulhoso Rei.
Na noite que antecedeu a chegada da comitiva real, teve outro sono enigmático. No sonho, havia visto a exata cena que Robb lhe contatá sobre como encontraram os lobos gigantes na mata de lobos, assim que voltavam da execução do desertor da patrulha da noite, no mesmo dia em que o corvo chegara de Porto Real.
Havia uma Loba gigante deitada sobre a relva, morta já em estado de decomposição. Dentro de seus olhos despejavam vermes e insetos. Em baixo, na sua mandíbula, jazia um enorme chifre de veado. Elaene estava no local, e arrancava o chifre do animal, o segurando com as mãos, e empurrando o rosto da loba com os pés. Nesse instante, escutou um rugido de um leão das montanhas em cima do vale, e um vulto de um animal, nas sombras em cima. Jogou o chifre para longe e correu no sentido do pequeno riacho. Após correr ate suas pernas ferverem, avistou na sua frente um veado enorme, com um chifre quebrado e sangrando. Sabia que era o mesmo animal que havia matado a loba que havia visto a pouco. O animal bufou, e raspou as patas no chão, num aviso de ataque. Quando deu dois passos para trás, Elaene tropeçou em uma pedra e caiu com as costas no riacho raso. Tudo terminou quando o animal avançara sobre ela, enfiando os chifres intactos em seu ventre.
Acordou assustada, com uma terrível dor no ventre. Não levantou, não procurou Robb. Estava decidida que não era mais uma garotinha assustada. Era uma guerreira do Vale, crescida no Norte. Não havia mais espaço para aquela garotinha chorosa e assustada. Os Starks estavam certos, “O inverno está chegando”. E se seus sonhos foram avisos dos deuses, algo grave viria junto com a comitiva real.
=^=
A Senhora Stark fez questão de deixar todos os filhos e os protegidos de seu senhor, impecáveis. Todos passaram pela Mika, para apararem cabelos e barbas. As garotas vestiram suas melhores roupas, e traziam bonitos penteados nortenhos nos cabelos. Arya como sempre, foi a mais difícil de se domar. Na chegada da comitiva real, havia subido em uma das torres para admirar os cavaleiros, e só quando o rei se posicionou e desceu desajeitadamente de seu cavalo, é que Arya apareceu para ocupar seu lugar entre Sansa e Bran.
Eleane estava posicionada entre Robb e Theon, em um local de honra dos protegidos do Senhor de Winterfell. Assim que viu o Rei Robert, não pode deixar de sentir uma decepção pelo que via. A majestade descera de forma nada elegante do cavalo, devido a seu grande peso extra. Sentia pena do pobre animal.
Assim que cumprimentou toda a família Stark, o rei não perdeu tempo, e quis logo visitar a cripta de Winterfell. Certamente iria visitar Lyanna. Há muito tempo, havia lido sobre a historia da rebelião liderada por Robert Baratheon. O suposto sequestro da irmã de Ned Stark, prometida ao Baratheon, fora o estopim dos acontecimentos que sucederam. Algumas pessoas no norte segredavam que Lyanna nunca fora raptada, e que havia fugido de muita boa vontade com o dragão Rhaegar para o Sul. Fora aconselhada a jamais conversar abertamente sobre tal assunto, pois a ira de Robert não era algo a brincar, e nada o deixaria mais irado do que negar que Lyanna havia sido sequestrada e molestada pelo último dos dragões da família Targaryen.
Nesse momento, viu a rainha olhar com desprezo para Robert, com o constrangimento que lhe causava com a tal obsessão pela falecida, e por um instante se pegou sentindo empatia pela leoa rainha. Era uma mulher elegante, e as historias sobre sua beleza, lhe faziam jus. Estava ao lado de seu irmão gêmeo, Jaime Lannister, o tão conhecido Regicida. Ao seu lado, ainda havia um cavaleiro de cabelos dourados-prateados e profundos olhos azuis que a encarava. Sentiu-se presa naquele azul mas logo que notou o olhar Robb dançar entre ela e o jovem cavaleiro, tratou de desviar seu próprio olhar para baixo.
Logo após a recepção da família real, Elaene tratou logo de se aprontar para o festim. Escolheu seu vestido da cor de sangue, que mostrava sua pele nos ombros, com o lindo detalhe em dourado na alça, e os adereços de águias douradas na cintura. Gostaria que toda a família de seu protetor sentisse orgulho de si.
Quando entrou no salão, logo Robb a notou. Estava ao lado direito da princesa Myrcella e conversavam algo. Robb era simpático, e certamente estava se preparando para em breve ser o protetor do Reino do Norte com suas cortesias habituais. Porém, logo notara que a pequena princesa o olhava com um olhar apaixonado, mesmo sendo uma garotinha de apenas 12 anos.
Enquanto caminhava ate o tablado ao final do Salão, notou que o jovem cavalheiro Sulista a encarava sem pudor algum. Sob os olhares atentos de Robb, ignorou o rapaz e sentou-se ao lado do amado, sendo recebida com um demorado beijo nas mãos.
=^=
Acordou com a movimentação nos corredores, o sol batendo em sua janela e uma terrível dor de cabeça por conta do hidromel nortenho da noite anterior. Ao menos havia sido uma noite divertida. Quando Arthur se juntou à mesa, pôde sentir a tensão e a disputa entre o cavaleiro Sulista e Robb. Não estava disposta a aturar joguinhos, seja lá o que mais aquele jovem cheirando à folhas verdes do Sul queria. Com o mais possivelmente polida que pôde ser, tratou logo de cortar as asinhas do rapaz para aqueles cortejos tolos, e pouco tempo depois estavam os três bêbados de risos fáceis, contando historias absurdas entre si.
Após um bom tempo, Arya havia aprontado das suas. Havia tacado um pedaço de bolo de carne com a colher na cara da sua irmã, que ficou a noite inteira suspirando pelo jovem e esbelto príncipe Joffrey, junto com suas amigas e aias na mesa inferior do tablado. Nesse momento, a senhora Stark acenou para Robb para que retirasse a irmã mais nova para seus aposentos para o repouso, e Eleane pegou-se sozinha e repentinamente sem jeito com o sulista ao seu lado, e podia sentir que ele também estava desconfortável.
Tomou um gole do hidromel nervosamente, observando os olhares carrancudos que as aias da princesa Myrcella lhe davam. No começo acreditava que seria por conta da aproximação com Robb, mas agora notara que era por conta de Arthur.
Olhou para o rapaz ao lado, e agora bem de perto pôde realmente perceber que era um jovem muito bonito, e certamente habituado a paparicos e cortejos daquelas garotas da corte que enciumadas a olhavam com raiva.
Abruptamente pediu licença para o cavaleiro, pegou a garrafa de hidromel, e foi atrás de Robb para encontrá-lo no corredor dos aposentos da Arya.
Ficou esperando no corredor ao lado do que daria para a porta da irmã de Robb. Assim que o rapaz saiu do quarto e iria virar o corredor onde Elaene se escondia, a morena o esbarrou jogando-o contra a parede, o fazendo soltar um gemido de susto. Com uma mão segurando a garrafa, com a outra segurou nos cabelos vermelhos e macios de Robb, o aproximando ainda com o beijo quente que compartilhavam.
Elaene sentia a cabeça rodopiar, que fosse pelo efeito da bebida ou pelas sensações do beijo ampliadas pelo medo de serem pegos no flagra. Separando o beijo, procurando por ar, Robb acariciou o rosto de Eleane, com os olhos escurecidos pelo desejo reprimido.
— Ei, acho que você bebeu um pouco demais, não achas?
— Pare de agir como um velho chato, Stark. Vim lhe chamar para dividir essa garrafa de hidromel comigo no bosque.
Quando notou o olhar de reprovação do jovem, Elaene colou seus corpos, impossivelmente mais próximos, e deixou com que as próximas palavras saíssem como um sussurro e que os lábios roçassem levemente.
— Você não me deixaria ir sozinha agora no bosque sagrado, não é? Por favor, apenas essa garrafa...
Com os olhos fechados, Robb teve forças apenas para dizer:
— O que você quiser. Diga e eu faço por ti.
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