Quebranto.
4 Vidas Quebradas.
Notas iniciais
Deitando-me sobre os lençóis com motivos dos Vingadores, tive que me controlar para não rir. Parecia que naquela noite, Luca e eu nos tornaríamos adultos. Enquanto ele me beijava, senti o vento frio do ar-condicionado arrepiar os meus braços. Tocando-me no íntimo, ele me fez sentir pela primeira vez um espasmo de prazer. Era incrível, poderoso. Arranhei as costas de Luca, e meus gemidos pareceram despertar algo abissal dentro dele. Com uma potência que nunca o vi usar antes, me virou de costas, beijando meu pescoço. Eu tremia e arfava, e não era de medo. Descendo o zíper do meu vestido, ele ia mordiscando e lambendo a linha da minha espinha. Quando ele chegou à base da minha coluna, gemi e me virei de frente para ele. Seus olhos verdes estavam baços de desejo, praticamente gotejavam excitação. Mordi de leve meu lábio inferior, e levando minhas mãos ao sutiã, abri o fecho, desnudando meus seios. Eu estava deitada, e ele, ajoelhado com uma perna em cada lado da minha cintura. Como que receoso, tocou levemente meu seio direto, as pontas de seus dedos deslizando em mandando sinais elétricos pelo meu corpo, àquela altura, já dormente. Então, ele tomou meus seios completamente em suas mãos, como se tomasse posse do que era dele. Luca deitou-se sobre mim, e eu abracei-o com minhas pernas, puxando-o para mais perto. Sua boca devorava a minha, e eu já não sabia onde seu corpo terminava, ou onde começava o meu. Sentindo-me inebriar pelas sensações que Luca me proporcionava, descobri que era possível suar no frio.
Meu vestido estava no chão. Luca estava de pé ao lado da cama, e eu sorri com o nervosismo do momento. Olhei para o teto, fitando as lâmpadas fluorescentes acesas. Havia uma persiana negra na janela, posicionada ao lado de uma cômoda que emoldurava a TV e o home theater. Imediatamente, comecei a notar uma fina camada de poeira que cobria um dos lados da tela de plasma do aparelho televisor. Como se minha mente lutasse contra mim mesma, desejei com toda a minha alma levantar e espanar aquela sujeira. Alguns dos fatores que ativavam meu problema eram: sujeira e falta de simetria. Ali, eu via os dois. Em minha mente, apenas duas opções eram plausíveis naquele momento. Ou eu levantava e espanava a poeira que cobria um dos lados, ou dava um jeito de sujá-la completamente, para que tudo ficasse igual. Senti a mão de Luca tocar a minha coxa, e vi que ele estava nu em pelo, ao meu lado. Nunca tinha visto um menino nu antes, com exceção de meu irmão. Incrivelmente, eu não estava mais tímida. Ele, contudo, parecia notar minha aflição.
— Vicky, você é tão linda... – ouvir aquilo era bom, considerando que eu estava nua na cama dele. A luz estava acesa, e eu começava a sentir frio em locais pouco mencionáveis. – Se estiver nervosa, olha nos meus olhos. Eu te amo, o jeito que você é. Não precisa mudar em nada.
— Jura? Então, você pode fazer um favor pra mim? – eu não ia pedir pra ele limpar a TV. Passar atestado de louca na primeira vez era algo que ninguém precisava dizer que não seria legal. Respondendo um “qualquer coisa”, Luca se aproximou um pouco mais. – Deita aqui. – chamei, sorrindo. – Estou com frio, sozinha.
Foi o que bastou pra trazê-lo de volta. Com uma camisinha na mão, ele deitou-se ao meu lado. Nossos corpos se colaram como duas partes de um todo. Alisando minha cintura, ele me beijou outra vez, enquanto tentava vestir o preservativo. Fingi não perceber sua dificuldade, embora estivesse tão nervosa quanto ele. Acho que o destino das mulheres é fazer os homens se sentirem seguros, enquanto eles acham que estão nos protegendo. Respirando fundo, preparei-me para o momento de libertação. Luca se posicionou sobre mim, e eu abracei seu pescoço. Senti uma leve pressão contra minha vagina. Um leve momento de dor, fez com que eu perdesse o fôlego. Luca também perdeu o dele. Mas não era por dor. Por um breve instante, senti-me dolorida, e ele paralisou quando apertei seus ombros com as unhas. Levemente, comecei a movimentar-me de encontro a ele, sentindo-me mais lubrificada com a atração e o tempo. Eu sabia que ele estava se segurando. Carolina me contara que ele já não era virgem quando namoravam. Mesmo assim, logo estávamos ambos gemendo, como se uma sinfonia perversa e avassaladora nos inundasse a alma. Algo pareceu se apossar de mim (Carolina diria que o nome disso é tesão), e logo eu me movia como uma amazona. A sensação de poder que o prazer me trazia era indescritível. Estar ali com a pessoa certa me fazia agradecer por ter esperado até aquele dia. Luca era muito carinhoso, e se movia com leveza e dominação.
Me sobre-ergui indo de encontro a ele, e seu corpo pareceu inundar o meu, mais profundamente do que nunca. Sustentando-me em seu colo, Luca virou-se de costas para o estrabo da cama, me pondo por cima. Eu estava amando tudo aquilo. Agarrei seus cabelos cor de cobre, jogando-me sobre ele senti como se pequenos pontos elétricos se acendessem em meu corpo, enviando embriaguez ao meu cérebro. Luca arfava e gemia, sua expressão era como a de um lobo ávido. Ele agarrou minhas coxas, apertando-as com determinação. A leve dor me enlevou, e minha velocidade aumentou, enquanto ele também se movia contra mim. Logo, as fundações da Terra pareceram ruir. Eu não sabia na época, mas tivera a sorte de ter meu primeiro orgasmo, na primeira vez. Meu gemido alto foi-se embora junto com minhas forças, enquanto eu me deixava cair completamente sobre Luca, abraçando-o. Ele percebeu que eu chegara ao clímax, e aquilo pareceu excitá-lo ainda mais. Urrando, logo ele derramou-se, beijando minha boca com uma paixão devoradora.
Não sei ao certo quanto tempo se passou depois daquilo. Deitada sobre o peito de Luca, senti certa dor ao me separar dele. Jogando o preservativo para longe, tive a impressão de vê-lo se limpar com o lenço do smoking. Sonolenta, arranjei forças para rir daquilo, enquanto ele me aconchegava ao seu corpo. Ainda estávamos nus, e ninguém ligava. Acho que depois de uma intimidade tão grande, não havia espaço para pudor algum. O plano era que eu dormisse em casa. Não foi o que aconteceu. Sentindo o perfume de loção pós-barba de Luca, adormeci com uma sensação nunca antes experimentada.
O dia seguinte foi assustador. Senti-me vítima de um roubo de rim, pois acabei esquecendo-me de onde estava. Meu Iphone berrava a um canto. Os pais de Luca ainda não estavam em casa. Ele jazia morto, ao meu lado, no mais profundo sono. Com todo o cuidado, levantei-me enrolada no lençol dos Vingadores. Luca se mexeu com o frio. Olhei para ele e vi que estava nu. Ele era lindo, porém agora, minha mente estava livre do calor do momento, e vê-lo ali me deixava encabulada. Apanhei o aparelho eletrônico, e deparei-me com nada menos que vinte e sete chamadas não atendidas da minha mãe. Dona Eliza devia estar furiosa comigo. Corri para o banheiro de Luca, e liguei o chuveiro. Tomei um banho desesperado, cuidando pra não molhar o cabelo. Saí do box com a toalha dele enrolada no corpo, e caminhei até a cama, me aproximando. A persiana estava levemente aberta, e alguns raios de sol infiltravam-se através do ambiente. Ele estava de bruços sobre a cama, abraçado com o travesseiro. A luz baça iluminava os músculos rígidos de suas costas, e descia até a base de sua coluna, tocando levemente suas nádegas. Os cabelos dele pareciam fios de ouro vermelho, e senti dó de acordá-lo. Mas eu não era tão boazinha. Depois de tirar minha virgindade, o mínimo que Luca poderia fazer era me levar em casa. Rindo comigo mesma, beijei seu pescoço algumas vezes, até ele abrir os olhos com um sorriso, e virar-se para mim.
— Eu ainda vou acordar desse jeito todo dia. Você vai casar comigo, Vicky. – disse ele, sorrindo ainda mais. – Está linda. Parece um anjo...
— Luca, eu devia estar em casa. Você pode me levar? – indaguei, começando a vestir-me.
— Claro amor. Vou vestir uma roupa rapidinho, e te levo. – imediatamente, ele se levantou e abriu o guarda-roupa. Enquanto ele se vestia, eu enfiava o vestido pela cabeça. Quando só o que restava era fechar o zíper nas costas, Luca já estava com uma calça cáqui preta e uma blusa em gola vê amarela. Ele vestira um blusão quadriculado em preto e branco, e se aproximou de mim sorrindo. – Deixa eu fechar esse zíper. Mesmo que minha vontade seja fazer o oposto. – com as bochechas ardendo, me virei de costas pra ele.
Logo virávamos a quadra onde ficava a minha casa, em seu carro. Apesar da insistência de Luca, eu não aceitara tomar café da manhã com ele. Tampouco havia respondido as ligações da minha mãe, eu temia por minha vida. Ele virou o volvo vermelho na esquina da minha casa, e reconhecemos Otávio em sua moto verde, com uma sacola de papel cheia de pães no colo. Ele parou o veículo ao lado do carro. Luca revirou os olhos, convencido de que ia ter que parar. Imediatamente, abri a janela do carona, fitando meu amigo. Ele trazia seu risinho besta no rosto, típico de quem sempre deduzia tudo com um único olhar. Ele estava bonito com sua jaqueta de couro preto, e um óculos de sol espelhado.
— Oi, pessoal. Vicky, ainda com o vestido de ontem? – como se não bastasse à humilhação de ser flagrada, Otávio com certeza pisotearia meu cadáver. – Nossa, Luca, seus pais ainda não voltaram. Bem na noite da formatura! Que coincidência interessante! – ele estava francamente zoando com nossa cara. – Olhem, vou levar isso pra casa. Parece que o surto de gripe atingiu a comunidade onde nossa funcionária mora, e Matilde não conseguiu vir ao trabalho. Parece que está tudo em quarentena no Morro do Alemão. – disse Otávio, balançando os pães. – Também preciso terminar as malas pra viagem. Minha mãe já deixou a chave da casa de Cabo Frio comigo. Carol e Ana dormiram lá em casa, e estão morrendo de fome, aquelas dragas. Vejo vocês daqui a pouco. Vê se bota gasolina nesse carro, Luca! Sua cabeça enorme deveria te impedir de esquecer as coisas. Até já! – acelerando a moto, Otávio sumiu na curva para sua casa.
Bufando, Luca acelerou o carro até pararmos em frente à minha casa. Ele ainda se ofereceu para descer comigo, mas eu era sábia. Sabia que vê-lo só faria minha mãe surtar ainda mais. Dispensando-o, pedi que fosse até o Posto de Gasolina da Shell, que ficava perto do nosso condomínio. Eu estava louca por uma Pringles, e ele aproveitaria para abastecer, já que o veículo estava no reserva. Otávio era irritante, mas sempre tinha razão. Com a cara mais lavada do mundo, abri a porta da frente, e a fechei às minhas costas. O silêncio em minha casa era quase mortuário. Caminhei na ponta do pé até as escadas do hall de entrada, e comecei a subir as escadas. Se eu fingisse que dormira em casa, talvez não fosse tão ruim. Eu estava no quinto degrau quando um pigarro chamou minha atenção. Era Silvia. A idosa estava com olheiras terríveis, e parecia ter acabado de despertar de um cochilo. Ela havia colocado uma cadeira de balanço que ficava em seu quarto, ao lado da porta do hall. Havia passado a noite inteira acordada, me esperando. O sentimento de culpa que me tomou foi terrível. Imediatamente aproximei-me, de cabeça baixa.
— Minha jovem, posso saber onde esteve? A senhora Eliza ficou morta de preocupação. Com esta doença nova que está pipocando no mundo todo, é importante avisar a família do seu paradeiro. Passei a noite aqui, à sua espera. Onde dormiu Vicky? – o sotaque de Silvia era quase nulo, pois viera para o Brasil quando criança. Mesmo assim, notei a aflição em sua voz. Eu já estava irritada com toda a paranoia em torno da Gripe do Urso, como estavam chamando. Parecia que algum vírus havia se originado de uma vítima de ataque de urso, que estava contaminada com o vírus da raiva, no Canadá. Os dois organismos tinham, de alguma forma, sofrido mutação e se reproduzido em conjunto, criando este novo vírus que estava tocando o terror.
— Silvia, me desculpe. Eu realmente não tinha intenção de preocupar ninguém. – me sentei no chão ao lado da minha segunda mãe, apoiando-me em seu colo. – Eu dormi com o Luca. – contei, cheia de ansiedade. Silvia e mamãe eram as únicas que sabiam do meu segredo, pois meu pai era muito protetor, e bem antiquado.
— Minha filha! – olhando para os lados como se alguém pudesse aparecer, ela se aproximou mais. – Aconteceu? – eu não precisei me esforçar pra perceber do quê ela estava falando. Quando confirmei com um aceno, Silvia se emocionou, e me abraçou. – Oh céus, estou tão velha... Já vivi esse momento tantas vezes... – fazendo carinho nos meus cabelos, ela se levantou. – Vá tomar banho, e troque de roupa. Sua mãe ainda está dormindo. Desça e tome seu café, e quem sabe ela deixe você viajar com seus amigos. Vou tentar ajudar. – retirando-se para a cozinha, Silvia deu-me a deixa para ir ao meu quarto.
Meia hora depois, eu estava mordiscando uma torrada com requeijão e geleia de frutas vermelhas, quando mamãe entrou na sala de jantar. Ela sentou-se de frente para mim, mas não deu uma palavra. Meu irmão chegou logo depois, e começou a devorar os ovos com queijo, e os sanduíches de presunto, como um porco na lavagem. Fiz uma cara feia para ele, e desisti de comer. Eu não ingeria algo sólido desde à tarde do dia anterior. Antes o intuito era caber no vestido. Agora eu estava enjoada. Minha mãe me dava medo quando era discreta. Logo Carlos correu para a sala. Nunca tinha visto alguém comer tão rápido. Silvia circulava em torno da mesa, até que se sentou também. Ela e minha mãe trocaram olhares, e eu soube que estava ferrada. Elas haviam conversado.
— Estou decepcionada. – certo. Adeus viagem. – Mas Silvia me explicou as circunstâncias. Eu só espero que você tenha sido responsável, filha. Podia ter me contado. Assim eu não me preocuparia por nada. Você estava aqui do lado. Custava mandar uma mensagem de texto? Você sabe que foi falta de responsabilidade, mas imagino que foi a última coisa na qual pensou ontem, com aquele menino bonito. – mamãe olhou para Silvia, e ambas trocaram um olhar afetuoso. – Nossa menina virou mulher! Vicky, você vai amar o vestido que comprei pra você viajar. Já coloquei na sua mala. Otávio ligou, e seus amigos já estão prontos. Divirta-se, querida. – eu ainda estava absorvendo que saíra ilesa. Eu amava Silvia! – Lave muito as mãos, use álcool em gel, e limpe tudo o que tocar, por causa dessa gripe horrorosa. Já morreu mais gente do que na época da dengue. Faça com que Otávio e seus amigos tomem cuidado também. Agora vá, ou vai deixa-los esperando. Se despeça de seu irmão.
Com um “pode deixar mamãe”, me levantei da mesa e corri para abraça-la. Também abracei Silvia, beijando-a no rosto. Meu coração estava apertado por deixa-las, mas uma semana passaria rápido. Corri até a sala, e me abaixei na frente de Carlos, obstruindo sua visão da TV. Ele reclamou e me olhou nos olhos, depois se levantou da poltrona, sua fiel companheira. Como se o esforço lhe custasse caro, me abraçou de leve, e me beijou na bochecha. Eu beijei a dele, olhando nos olhos claros, tão idênticos aos meus. Fiz carinho em seu cabelo negro e lindo. Aquela seria a última vez que veria meu irmão. Apanhei minha mala de rodinhas rosa-Pink, e corri para a porta principal, animada. Eu já ouvia as buzinas do carro de Luca, e estava louca por diversão. Ouvi a voz de minha mãe se sobrepor à minha correria, monótona.
— Quando vocês voltarem dessa viagem, vamos fazer um almoço para apresentar esse menino ao seu pai. – eu gritei um “ok” de volta, rindo. Mas aquilo nunca aconteceria. Pois não haveria um lar, para o qual voltar, nunca mais...
Notas finais
Dropping.
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