Quebranto.
5 Sétima Trombeta.
Notas iniciais
O carro de Luca deixava nosso condomínio naquela manhã agitada. Sentada ao lado dele, no banco do carona, comecei a rir de uma piada que Otávio fez, sobre o nariz da Lady Gaga. Ana a defendia ferrenhamente, criticando as performances ao vivo de Amy Lee, vocalista do Evanescence, de quem meu amigo era fã. Enquanto os dois trocavam insultos, Carolina parecia querer morrer, sentada no meio deles. Ela estava praticamente com o rosto afundado em uma revista de fofocas, que falava sobre as celebridades vitimadas pela estranha e nova gripe. Dirigindo, Luca parecia mais bonito do que nunca. Quando concentrado, eu o via como um homem mais velho, dono de um negócio, ou continuando o trabalho do pai dele como empresário de modelos fotográficos, e artistas cênicos. Entre um movimento e outro, ele fazia carinho em minha perna. Eu agradecia por vestir uma saia de renda preta até os joelhos, pois com ela eu podia esconder que estava toda arrepiada com seu toque. Revirei minha bolsa e tirei meu exemplar de O Amor Venceu, romance espiritualista de uma médium brasileira. Fingi ler o oitavo capítulo, enquanto Luca fingia prestar atenção apenas em dirigir. Eu estava me sentindo muito cansada por causa da noite anterior. Eu não estava acostumada a fazer sexo, e a sensação de correr uma maratona não deixa meu corpo. Alie isso a um coquetel de remédios naturais calmantes, e temos uma sonolência titânica. Acabamos parando em uma loja de doces, ponto de encontro em nossa época de escola. Carolina jurava que seria capaz de esganar Otávio e Ana, se não consumisse açúcar o suficiente para aturá-los.
Levantei-me quando estacionamos o carro em frente ao local. A vendedora, senhora de cabelos tingidos em azul que parecia ter a mesma aparência desde que eu era criança, estava fazendo o inventário da loja. O menino novinho que a ajudava nos recebeu com entusiasmo, nos permitindo ficar à vontade. O termo “loja de doces” era algo bem genérico para descrever o local, que continha desde balas e chicletes, à revistas de teor sexual e erótico. Logo Otávio e Ana passaram por mim com dois exemplares da Playboy, cada um. Luca estava devorando um bolinho de morango, enquanto eu passava os dedos levemente pela prateleira de biscoitos recheados. Eu estava começando a sentir o impulso de contar as cores e as letras em uma das embalagens, quando Carolina aproximou-se. Ela tinha nada menos que seis barras de chocolate nas mãos, e uma expressão de que mataria quem falasse em gordura. Ela estava parada ao meu lado, sem dizer nada. Parecia esperar que eu escolhesse o que queria. Senti uma mão agarrar meu braço, e levei um susto quando me deparei com Luca.
— Desculpa amor. Vim mostrar o saco de M&M’s, que comprei pra nós dois. Quer mais alguma coisa? – Luca estava pegando o cartão de crédito na carteira. Ele odiava ver-me pagando alguma coisa, mesmo sabendo que isso não era problema. Fiz que não com a cabeça, e ele pareceu ficar preocupado. – Está tudo bem? Dona Silvia me ligou e disse que você não está se alimentando direito. Vou comprar um sanduíche natural do jeito que você gosta, com suco de laranja e maracujá. E você vai comer tudo. – anunciou determinado. Olhei para Carol em busca de conforto, mas sua expressão parecia reforçar as palavras de Luca.
Enjoad física e psicologicamente, caminhei até o carro no estacionamento. Otávio e Ana estavam sentados no banco traseiro. Estavam gargalhando de uma piada exclusiva, se batendo de leve como dois filhotes de cachorro. Abri a porta do lado de Ana, e me sentei, com o suor brotando na testa. Os dois pararam de falar, e fitaram-me carinhosos. Ana abraçou-me pelos ombros, e eu deitei em seu colo, morta de sono. Otávio voltou a falar sobre a cara do Matias quando Carolina havia lhe mostrado os seios, depois que eu e Luca saímos da festa. Minha mente voou para longe, registrando a voz de minha amiga xingando Luca por jogar as bolsas com comida em cima do colo dela, no carona. Estava me sentindo esquisita há algum tempo, como se comer houvesse se tornado uma obrigação de quando meu estômago doía. Meu transtorno estava dando sinais de recaída, o que era péssimo e inexplicável. Eu estava feliz e tinha amigos. Segundo minha analista, isso deveria me fazer sentir segura, e melhorar o meu TOC, cuja origem vinha diretamente dos sentimentos de abandono e solidão. Não sei bem por quanto tempo dormi.
Contudo, a manhã se tornara entardecer quando abri meus olhos outra vez. Estávamos na altura da ponte Rio-Niterói, principal ligação entre o centro e a região dos lagos. A ponte sempre me inspirara medo, principalmente por sua altura. Era a sexta maior ponte do mundo, a maior no hemisfério sul. A Baía de Guanabara brilhava com os últimos raios de sol, parecendo um espelho de obsidiana da altura em que eu estava. Um pouco à frente, uma blitz da Polícia Rodoviária estava bloqueando o trânsito, e vários veículos estavam no acostamento. A Ponte estava totalmente parada, o que já era rotina para nós cariocas, mas não daquela forma. Ambulâncias do Corpo de Bombeiros estavam por toda parte, e médicos fiscalizavam os carros junto com a polícia, com uma maquininha estranha na mão, que se assemelhava a um bafômetro. Quando chegou nossa vez, a noite já se espreguiçava sobre o crepúsculo, e os agentes acendiam várias lanternas para orientação. Não sei se minha palidez quase sobrenatural assustou aos policias, mas quando me viram cochilando no ombro de Ana, pensaram que eu tinha a “gripe do urso”. Mandaram Luca encostar, e dois policiais se aproximaram do carro, com máscaras no rosto. Uma médica asiática muito baixinha também surgiu, como um espectro.
— Boa noite, garotada. Desçam do veículo, por favor. – pediu um dos agentes, batendo no vidro de Carolina. Minha amiga penteou os cabelos com as mãos, e se inclinou na direção do policial, com uma expressão de flerte totalmente inoportuna. Eu não podia acreditar que Carol estava se insinuando para o homem.
Saímos sem muito que se pudesse fazer, e nos posicionamos ao lado do veículo. A médica se aproximou, e começou a checar nossas pupilas com uma pequena lanterna, depois de se apresentar como Doutora Claudi. Ela também pedia que abríssemos a boca, e que soprássemos em sua maquininha. Quando chegou minha vez, ela checou minha temperatura e pediu que eu furasse o dedo em um aparelho de glicose. Luca parecia irritado por ter parado o carro, e Otávio parecia particularmente interessado na médica. Aquele palerma era louco por asiáticas, e a doutora não era nada feia. Carolina parecia amiga de infância de um dos agentes, e vez ou outra tocava em seu braço, ou piscava “inocentemente”.
— Desculpe, mas o que está acontecendo? Essa gripe está assim tão ruim? – Luca dirigiu-se à médica, que parecia cansada de repetir a mesma coisa mil vezes.
— Em alguns lugares, sim. Em outros, não. – ela disse, volvendo o corpo na direção dele. – Regiões como o centro e seus entornos, estão concentrando uma quantidade muito grande de focos de infecção. A Baixada Fluminense está em quarentena. Oitenta por cento da população de lá, faleceu. Sinceramente, crianças, em que mundo vocês estão? – retirando um palito de uma embalagem a vácuo, ela forçou Luca a abrir a boca. – O número de mortes está aumentando de modo absurdo, e como medida preventiva, o Governo posicionou unidades de apoio em todas as principais rodovias do país. Fomos informados de que os acessos a São Paulo foram fechados, pois lá os focos de infecção são ainda piores. Em alguns países da África e da América Central, já reina a anarquia. Enquanto vocês, riquinhos, se preocupam com o que vão vestir, milhares de pessoas estão morrendo, por hora. A região dos lagos tem pouquíssimos casos de infecção, então a triagem para quem quer acessar o lugar é bem rigorosa. Quando vi sua amiga anêmica aqui, pensei que ela estivesse infectada, com essa cara de morta. – descartando os palitos usados em nossas bocas, ela sorriu, finalmente. – Estão limpos. Se quiserem um conselho: Não tentem voltar tão cedo. A coisa vai ficar feia por aqui. O mundo está enfrentando uma pandemia de proporções nunca antes vistas.
Eu caminhei até Luca e o abracei. Sabia o que aquilo significava. Nossas famílias estavam em um dos piores lugares possíveis num momento como aquele, e nós ali, indo aproveitar as férias. Ninguém mais estava sorrindo. A expressão de Carolina era a mais alterada. Ela me olhou sobre o ombro de Luca, e entre nós, uma cumplicidade muda se estendeu. Eu sabia que ela estava pensando no seu pai idoso, e na sua madrasta afetada, que era apenas cinco anos mais velha do que nós. Ana devia estar pensando em sua irmã, que devia estar com seu pai no hospital depois de uma recente cirurgia. Luca não disse palavra, mas o medo também era palpável em seu olhar, bem como no de Otávio. De acordo com a médica que nos atendeu, não poderíamos mais voltar para o Leblon nem se quiséssemos. Eu estava começando a me sentir trêmula, e já pegava meu Iphone quando o policial ao lado de Carolina gritou de dor. Ele vomitou um jato de sangue que atingiu minha amiga, sujando seu jeans com o líquido grosso. Ela gritou de susto e nojo, e o agente caiu de imediato, tendo convulsões severas. A médica correu para socorrê-lo, e vários enfermeiros e técnicos vieram em auxílio. Troquei olhares com meus amigos, e antes que alguém tentasse levar Carolina para higienização, ou algo que pudesse impedi-la de seguir conosco, voltamos para o carro desesperados. Joguei-me no banco de trás com Otávio e Ana, e Carolina sentou-se na frente, por causa do sangue.
— Droga, ficou tudo sujo! Acelera aí, Luca! Vão parar a gente. – praticamente cantando pneu, Luca saiu do acostamento e acelerou em direção à Niterói, e a região dos lagos. Carolina estava tremendo por causa do sangue que cobria suas pernas, e as batidas do meu coração pareciam tão rápidas, quanto asas de um beija-flor.
Ninguém falou nada por mais ou menos uma hora. Luca dirigia, Carolina chorava, Ana dormia, Otávio lia e eu fingia que não estava ali. Mandei mensagens de texto para minha mãe, para meu irmão, e para meu pai. Nenhum deles respondia. Todos haviam feito o mesmo. Usando o celular de Luca, eu havia tentado entrar em contato com os pais dele. Dizer a ele que não recebi resposta, era pior do que a sensação de estar longe das pessoas que amamos. Não saber o que se passa, é mais doloroso, porque nossa imaginação é mais cruel do que a pior notícia. Já estava muito tarde, e se Luca não parasse de dirigir, iria surtar. O problema era que ninguém tinha condições de substituí-lo. Eu era a mais calma, só que além de não saber dirigir, estava ficando menstruada. Uma dor infernal parecia devorar meu útero, e a enxaqueca que veio junto com tal sensação era aterradora. Meu humor já estava indo para o espaço, quando paramos em uma pousada de beira de estrada. A Pousada do Avestruz era ponto de parada toda vez em que íamos para a casa da família de Otávio, em Cabo Frio. O motivo do nome era bem óbvio. Com uma pequena criação de avestruzes, a pousada atraía visitantes pelas mascotes exóticas, que deixavam que as crianças se aproximassem com muita docilidade. Naquele dia, contudo, estava deserta.
Carolina desceu do carro antes de qualquer outro. Com uma das mochilas que havia trazido consigo, adentrou no estabelecimento e subiu as escadas que levavam aos banheiros. A recepcionista não chegou a ver o sangue em sua roupa. Luca pediu dois quartos, um de casal, e um com três camas de solteiro. Eu não sentia vontade de dormir junto, mas não falaria nada para ferir Luca. Subindo para o nosso quarto, larguei minha bolsa no chão, e liguei o ventilador de teto. Uma névoa densa se instalava do lado de fora do lugar, e o frio era insuportável. Calorenta, tirei a roupa e vesti uma camisola de cetim dourado. Não era minha intenção instigar Luca, mas não seria ruim desviar a atenção daquela loucura toda. Ele estava no banheiro, tomando um banho tão escaldante, que o vapor escapava pela fresta no fim da porta. Deitei na cama desejando que tudo aquilo fosse um sonho. Quando estava prestes a adormecer, senti Luca beijando meu rosto. Abri os olhos e vi que ele estava chorando. Ergui o corpo até ficar sentada, e fiz carinho em seu cabelo. Uma batida na porta nos sobressaltou. Eram nossos amigos, que também pareciam apavorados. Carolina tinha duas garrafas de Natasha na mão, e Ana trazia cinco copos.
— A dona da pousada não queria vender pra gente. Tivemos que mostrar a identidade. – contou Carol, mas sua voz não tinha ânimo. – Acho que depois de hoje, beber é o caminho mais fácil pra um relaxamento.
Ninguém concordou, nem discordou. Eu odiava beber vodka pura, e estava tomando remédio, então fiquei olhando enquanto o pessoal bebia. Otávio e Ana riam sem qualquer motivo aparente, e Carolina já estava dormindo depois do quinto copo. Luca era o bêbado carinhoso, do tipo que quer ficar encostando e falando de sentimentos. Mandei-o dormir, e me levantei na direção do primeiro andar. Ia pedir uma refeição leve, afinal, já que não podia beber, comeria. Uma televisão estava ligada na sala comum ao lado da recepção, e sua luz azulada inundava o ambiente obscuro. Um sentimento de insegurança me tomou, pois eu não sabia que tipo de doido poderia estar hospedado ali. Meus amigos estavam alcoolizados, e eu não era nenhuma perita em defesa pessoal. A mulher simpática que nos atendera estava fechando a porta da pousada, com os ombros curvados de cansaço. Desisti de pedir comida ao vê-la daquele modo, não queria abusar da bondade de ninguém.
— Olá querida, não vai dormir? – me inquiriu, com um sorriso leve. Sua expressão era dolorida, contudo. Aquela mulher estava doente.
— Eu queria um refrigerante, dona... Laura. – completei, lendo o crachá em seu peito.
— Oh sim, vou buscar para você... – ela virou-se na direção de uma porta dupla, que deveria ser a cozinha. Mas por um breve segundo, tonteou. Depois, volveu o corpo até ficar de frente para mim, e sorriu. Sangue começou a escorrer do seu nariz, e ela caiu inerte. Meu grito de pavor foi imediato. Ouvi o barulho de uma porta batendo no andar de cima, e logo Ana descia as escadas, com um jarro de porcelana na mão. Otávio também apareceu no parapeito da escada do segundo andar.
— Otávio! A recepcionista desmaiou! – gritou Ana, assustada. Ela se aproximou e checou os sinais vitais da senhora. – Pelos céus, está morta...
— Chame todos, Otto. – pedi. – Otávio voltou para o quarto. Eu o ouvi gritando para acordar Luca e Carolina, e logo depois ele estava abrindo os outros quartos, chamando os demais hóspedes. Mas não havia ninguém vivo. Todos estavam mortos em seus quartos. Quando ele desceu a escada correndo e vomitou na minha frente, percebi que estava vivendo a pior viagem da minha vida.
Luca parecia um furacão. Carregando minha bolsa e as mochilas dele e de Ana, passou direto por mim e jogou os objetos no carro. Carolina era o espelho de uma drogada, carregando a mochila de Otávio e sua própria bolsa. Apoiei Otto enquanto saíamos da pousada. Entramos todos no carro, esperando por Ana. Ela insistia em chamar a polícia, mas todas as linhas da emergência estavam ocupadas. Gritando que a arrastaria até o carro, Luca a convenceu a entrar no veículo. Concebendo que tudo aquilo era demais para mim, comecei a chorar profusamente. Eu estava de camisola em um carro sujo de sangue e com um motorista alcoolizado e assustado, que era meu namorado. Não poderia estar pior. A velocidade estava muito alta, e já alcançava os cento e oitenta por hora. Otávio só ficava mais enjoado, e eu estava me aborrecendo com Luca, de um jeito que nunca tinha sentido antes.
— Luca, diminui. Se você correr desse jeito, a gente vai morrer. – ele não me deu a mais ínfima resposta. Apenas apertou o volante com mais força.
— Cara, eu tô passando mal. Para essa merda! – gritou Otto, perdendo as estribeiras.
— Cala a boca, todo mundo! – Luca nos assustou, com seu súbito grito. Carolina começou a chorar, e Ana tinha um semblante chocado. – Eu estou tentando manter a gente seguro, aqui, cacete! Temos que ficar longe daquela porra toda! Victoria, não me olha com essa cara, não vou te deixar morrer daquele jeito. E você, Otto, vê se cala essa boca, porque eu só quero proteger esse seu rabo! Além do mais... – mesmo depois, eu nunca soube o que Luca diria. Ele havia virado para trás para gritar com a gente, como um pai faz com as crianças levadas. Um caminhão em alta velocidade virava na curva da autoestrada, e não havia nada que pudesse ser feito naquela velocidade.
A pancada que nos atingiu, fez o carro capotar por mais de cem metros. Eu senti um frio na barriga tão forte, que me fez ficar tonta. Ouvi Ana gritar, e logo depois bati com tanta força na janela ao meu lado, que trinquei o vidro. Demorou pouco para que minha consciência me deixasse, mas eu me lembro do meu último pensamento. Eu só torcia para que todos ficassem bem, e para que ninguém morresse naquele acidente.
Notas finais
Dropping.
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